sexta-feira, 7 de junho de 2019

Entrevista ao sol e à sombra



ENTREVISTA AO SOL E À SOMBRA
Por Helvídio Mattos

Viva o Literatura na Arquibancada!

Bem-vindo de volta, o espaço que preserva a memória e faz a história do esporte brasileiro.

Me atrevi a pedir licença ao André Ribeiro para escrever umas mal traçadas linhas por aqui.
Licença concedida, aproveito então a grande lembrança com a qual o André, amigo e compadre, celebra o retorno do L.A. trazendo para nós o imortal Eduardo Galeano. (link da matéria encurtador.com.br/bgvyS)


Certa vez, tive a honra, o orgulho e o prazer de ser escalado para entrevistar o Galeano para o programa “Loucos por Futebol”, da Espn Brasil. “Puxa vida!”, falei para mim mesmo, “entrevista com o Eduardo Galeano...”

Eu e o cinegrafista Laudemir Ferreira, “Preá”, fomos para o Rio de Janeiro. Galeano estava hospedado no Copacabana Palace. Chegamos lá, liguei para ele, que falou para gente esperar na área da piscina famosa.

Escolhemos o melhor ângulo para montar o equipamento – tripé e câmera – e aproveitei para repassar alguns trechos do livro que tinha levado para a entrevista.


Demorou um pouquinho para o autor de ”Futebol ao Sol e à Sombra” aparecer. Nos cumprimentou sorridente, conversamos rapidamente ainda em pé e indiquei onde ele deveria sentar-se. Percebi que Galeano se sentia desconfortável ali. Perguntei se estava tudo bem e como resposta, protegeu os olhos com uma das mãos e disse em seu português com pouco sotaque – “Está muito sol, não podemos ir para a sombra?”

A situação foi salva pelo Preá ao justificar a cadeira no sol, pelo fato de ter a melhor luz e o melhor fundo para a gravação.

Galeano aceitou e começou a entrevista. O assunto era o livro maravilhoso que escrevera sobre sua visão do futebol.


O escritor de “As Veias Abertas da América Latina” quis falar, e falou, do Maracanazo, termo usado pelos uruguaios para definir a vitória da Celeste Olímpica sobre a Seleção Brasileira no último dia da Copa do Mundo de 1950, realizada em nosso país.

Vou tentar relembrar as palavras de Eduardo Galeano naquela manhã de sol à beira da piscina do Copacabana Palace.




“Quando o time uruguaio subiu a escada para o gramado e deu de cara com aquele monstro de 200 mil caras – em referência ao número de torcedores que lotavam o Maracanã – Obdulio Varela repetiu aos seus companheiros, ‘los de afuera son de palo, los de afuera son de palo.’”

A imagem construída por Galeano dá a dimensão da pressão que esperava os jogadores uruguaios na tarde de 16 de junho de 1950. E o chamado do homem com corpo e cara de bravo, que liderava a equipe berrando, que os que estão do lado de fora são de madeira – os torcedores – aliviou essa pressão e encheu de brio os já briosos charrúas.


Obdulio Varela
O fim da história todo mundo sabe. O Uruguai ganhou de 2x1 e conquistou a Copa do Mundo que o Brasil se preparou para ganhar.

Houve, porém, um capítulo extra, um “gran finale” para o dia histórico. Galeano contou como foi. Vi que os olhos dessa grande figura humana ficavam marejados enquanto falava sobre a escapada do heroico Obdulio Varela pelos bares do Flamengo durante a noite daquele domingo.

“Obdulio e mais um companheiro saíram do hotel e foram tomar umas cervejinhas. 

Ele ficou muito impressionado com o silêncio das ruas e com a tristeza que via nos rostos das pessoas. 

De bar em bar, encontrando brasileiros que afogavam a grande mágoa, Obdulio se sentiu culpado por ter causado tanto sofrimento para aquele povo. 

Pediu desculpas e acabou chorando abraçado com todos eles.”



Foi aí que Galeano, com os olhos vermelhos e molhados, disse a grande frase:

“Histórias como essa é que nos fazem entender que coisa bonita que é o futebol”.

Eduardo Galeano voltou a colocar a mão para proteger os olhos do sol e, novamente, pediu para ir para a sombra. Foi prontamente atendido.



Sobre o autor:

Helvídio Mattos

Paulistano de muitos carnavais, formado em escola pública, sempre quis ser jornalista. Adorava as histórias de correspondentes de guerra, mas fiquei fascinado mesmo ao ver uma fotografia de um repórter dos Diários Associados que retratava uma mãe carregando sua filhinha no colo em meio à uma reintegração de posse na periferia de São Paulo.

A foto teve um impacto tão grande que a justiça resolveu suspender a reintegração e aquela mãe e sua filhinha e todos moradores puderam voltar para seus barracos.

Lugares onde trabalhei como revisor, repórter e editor. 1974 – Revista 2 Rodas / 1975 – Jornal da Tarde / 1976/77 – Diários Associados / 1978 - TV Tupi / 1979/83 – TV Cultura / 1985 - Diário Popular / 1985/88 – TV Manchete / 1988 TV Globo / 1989/96 – TV Cultura / 1996/017 – Espn.
Como jornalista esportivo: 3 edições de Jogos Pan-americanos / 5 edições da Copa Africana de Nações / 6 edições de Jogos Olímpicos / 7 edições de Copas do Mundo de Futebol.

















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