quarta-feira, 12 de junho de 2019

Nuvem de terra


Um livro espetacular. Essa é a definição do Literatura na Arquibancada para Nuvem de terra (Globo Livros, 2018), obra escrita pelo jovem autor, Plácido Berci, que tem apenas 29 anos de idade. Mais do que bem escrito, o livro também ganha importância por revelar os bastidores do trabalho de um jornalista esportivo como correspondente em outro país.

Quarta geração do projeto Passaporte Sportv.
Plácido é o quarto, da direita para a esquerda.
Plácido Berci fez parte da última turma do projeto criado pelo canal Sportv chamado Passaporte Sportv.

Os selecionados participariam da cobertura dos Jogos Olímpicos de 2016, não na cidade sede do Rio de Janeiro, mas como todo jornalista sempre sonhou – espalhados pelo planeta. Plácido foi enviado para o Quênia, na África, um sonho realizado, porque, há cinco anos disse à mãe:
“Tenho pensado em ir para o Quênia no futuro. Sei lá, produzir um documentário ou escrever um livro sobre como surgem os corredores campeões. Conhecemos pouco sobre eles e, pelo que sei, é um país pouco desenvolvido. Como será que mesmo assim nascem tantos talentos?”


Dona Fátima, mãe de Plácido, com crianças da tribo Masaai.
Plácido fez muito mais do que isso, viveu uma “aventura”, que durou 7 meses, repleta de convivências, aprendizados sobre um continente e país, desconhecidos para a maioria das pessoas daqui e de qualquer ponto do planeta. Até mesmo para o próprio autor, como diz o subtítulo do livro: “Relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”.

Plácido construiu uma espécie de diário, registrando a cada dia as experiências vividas em terras africanas. O que torna o livro prazeroso de se ler é o fato de o autor não se restringir a falar apenas sobre o tema esporte. Plácido mergulhou no cotidiano dos quenianos. Revela, com prosa fácil, a complicada sobrevivência daquele povo. Sua escrita, parece nos transportar às situações, lugares e, de quebra, nos deixar encantados com os personagens encontrados para contar suas histórias.


Plácido e o amigo e motorista Joseph, na chegada a Iten
Plácido desembarcou em Nairóbi, capital do Quênia, em meio ao furacão da polêmica de casos de doping envolvendo atletas quenianos.

Mergulhou fundo na questão, revelando lugares do país desconhecidos da grande maioria das pessoas.

Ampliou a visão sobre o trabalho realizado no atletismo, viajando para duas cidades do interior africano, primeiro para Iten, no Quênia, considerada “o lar dos campeões do atletismo”.

Depois, até Bekoji, na Etiópia, para mostrar a cidade formadora de campeões no atletismo, que revelam números inquestionáveis como 16 medalhas olímpicas, 32 títulos mundiais e dez recordes globais de atletismo.


Matatus, transporte utilizado pelos quenianos
Mas, o mais prazeroso na leitura de Nuvem de terra, é o cotidiano de vida dos quenianos revelado por Plácido. A descoberta, por exemplo, do trânsito caótico do centro da capital Nairóbi e dos matatus, nome dado aos ônibus da cidade, diferentes de qualquer outro veículo de transporte público mundo afora.

Nos apresenta, também, o Ugali, alimento elementar no dia a dia da população em todo o país, composto de apenas dois ingredientes, farinha de milho e água, e que, segundo o autor, “se comido sozinho, não tem gosto de nada”.


Amigo e fiel escudeiro, Willice (camisa vermelha) e o
lendário atacante nigeriano de futebol, Nwankwo Kanu.
No convívio quase diário com o taxista e fiel escudeiro, Willice, que o levava para os quatro cantos da cidade, Plácido nos revela Nairóbi, uma cidade diferente, com muita confusão, barulho, contrastes sociais e arquitetônicos.











Centro de Nairóbi: trânsito sempre caótico.
Não é nada fácil a vida de um correspondente internacional, ainda mais para um jovem iniciante na profissão. Plácido nos apresenta a uma cultura completamente desconhecida para nós, brasileiros, um Quênia com imensa diversidade étnica, 42 tribos, um dos mais complexos cenários demográficos do continente africano.

Por conta desta diversidade de costumes e tradições, Plácido também viveu uma série de perrengues, como o inicial, com policiais acostumados a propinas, hábito comum na relação entre autoridades e gringos. E a ameaça de prisão, em pleno centro de Nairóbi, com direito a passaporte retido.


Tirinha feita por Murilo Pereira, amigo de Plácido,
e que virou tatuagem em seu corpo.
Descobriu ser um Mzungu, como eles se referem aos brancos, que, ao pé da letra, quer dizer “andarilho sem rumo”.

Se surpreendeu, quando crianças tocavam sua pele em meio às gravações que realizava, tudo porque, geralmente, em comunidades pobres, essas crianças têm pouco contato com pessoas brancas, por isso, na infância, sentem curiosidade em saber como é uma pele mais clara.



Plácido preparando-se para gravação
com o centroavante do Kibera Black Stars
Plácido não se restringiu apenas a nos revelar a formação dos campeões do atletismo queniano.

Futebol, no Quênia, é paixão nacional, especialmente pelos clubes ingleses e, evidentemente, ídolos e craques do futebol brasileiro.

Três histórias, sobre o esporte número um do planeta são comoventes.

Plácido nos apresenta o Kibera Black Stars, equipe de futebol que disputa o campeonato local, composto apenas por moradores da maior favela do Quênia.


Projeto "Movendo as traves", em Kilifi.
Também nos revela o premiado projeto não governamental Moving the Goalposts (“Movendo traves”), que visa empoderar garotas por meio do futebol.

Uma viagem feita até Kilifi, a 524 quilômetros da capital Nairóbi, cidade costeira considerada uma das mais miseráveis do mundo, onde, 60% dos 120 mil habitantes das comunidades, vivem abaixo da linha da pobreza.

Cerca de 10 mil pessoas são portadoras do vírus HIV.

O projeto conta com 6.600 garotas, entre 9 e 25 anos. São 47 campos de futebol do projeto espalhados pelo condado de Kilifi, que reúne 9 municípios.



Plácido relata a aventura para chegar ao local, além da dura realidade da vida na comunidade por intermédio de uma garota, centroavante de uma das equipes do projeto.

Nas paredes da sede da Ong, uma palavra inesquecível para Plácido: “Tunawesa”, que no idioma suaíli quer dizer, “nós somos capazes”.


Mas, a história mais emocionante, e que tocou profundamente o autor e a nós do Literatura na Arquibancada, é sobre a Seleção Feminina do Quênia de futebol de rua.


Treino da seleção feminina de futebol de rua do Quênia.
Como esta reportagem está sendo escrita, no exato momento em que os holofotes da mídia estão voltados para a cobertura do Mundial Feminino de Futebol, na França, Literatura na Arquibancada disponibiliza para você essa história na íntegra, vivida por Plácido, com a seleção feminina de futebol de rua.

Oportunidade para conhecer realidades completamente distintas e, ainda, o talento da narrativa construída por Plácido Berci em seu Nuvem de Terra.

“Elas são o centro das atenções no campo de futebol do bairro de Huruma, em Nairóbi. Homens de diferentes faixas etárias param para assistir aos treinamentos da seleção feminina do Quênia de futebol de rua.


A precária condição social é requisito para integrar a equipe, formada por oito mulheres, entre 17 e 28 anos.

Todas vivem com aproximadamente 170 reais mensais, fruto de trabalhos temporários como, por exemplo, faxineiras ou lavadeiras.

Uma delas é Fauzia Kaunjeri. Ela vive na favela mais violenta do Quênia: Majengo [lê-se “Madiengo”]. A comunidade, mais pobre até do que a de Kibera, é uma área evitada até por parte da população da capital.

Explicarei como conheci Fauzia.

Fauzia
Ontem, li uma nota no jornal sobre a saga da seleção feminina para angariar fundos e participar da Copa do Mundo de moradores de rua, a ser realizada dentro de poucos meses em Glasgow, na Escócia.

Disputado anualmente desde 2003, o torneio não é organizado pela Fifa, maior entidade ligada ao futebol.

Em 2011, teve as quenianas como campeãs na categoria feminina. O problema é que, desde então, o time não participou mais por falta de investidores. Como todas as atletas vivem no limite financeiro, é preciso buscar ajuda – que raramente vem, por causa do quase mínimo retorno para os apoiadores.


Mesmo assim, lá estão as oito meninas, cinco vezes por semana, no campinho de Huruma, treinando a todo vapor. Convidada a participar da competição novamente este ano, a delegação tem menos de dois meses para arrecadar cerca de 26 mil reais e cobrir gastos com vistos para o Reino Unido e passagens aéreas. Seria a primeira viagem internacional da vida de todas as jogadoras.

Conto a história para Marcelo França, o chefe da editoria internacional do Sportv, e recebo uma resposta positiva e eufórica da parte dele. Era a autorização que faltava para tentar produzir uma pomposa reportagem para o Brasil vinda da notinha de um jornal africano.

Na internet, encontro o telefone da Associação Queniana de Futebol de Rua e consigo marcar para assistir a um treinamento da equipe, em Huruma, daqui a dois dias. Falo com Mohamed Haji, presidente da entidade.

— Sugiro que você visite uma de nossas atletas após a sessão de treinos. Tenho certeza de que a história de Fauzia, nossa zagueira, será importante para sua reportagem — garante o mandatário.


No dia marcado, Willice me leva até o endereço enviado por Mohamed, espécie de centro esportivo público pouco conservado. Ao fundo, estão duas quadras sem pavimentação, apenas com pequenos muros delimitando o espaço do jogo e as traves de cada lado.

As regras do futebol de rua são diferentes da modalidade profissional de campo. São só quatro jogadores para cada time: um goleiro e três na linha.

Dois tempos de sete minutos, com um rápido intervalo de apenas dois. Escanteio, tiro de meta ou lateral, só se a bola for chutada por cima dos muros.

Willice estaciona e segura o tripé para me ajudar, quando avisto um grupo de crianças jogando bola num campo improvisado de terra batida, ainda fora do centro esportivo. Pequenos pedregulhos formam os gols. Peço que ele vá na frente, já que quero fotografar o momento.


Crianças de Majengo
Está nublado. Discretamente, sento numa pedra e começo a fotografá-los com o celular. Um garoto me vê. Outro. E mais outro. De repente, pelo menos uma dezena corre em minha direção.

— Querem uma selfie? — ofereço, virando a câmera em nossa direção.

Inicia-se um festival de suspiros e risadas. Estou cercado. As crianças divertem-se com suas próprias imagens na tela. Clico seguidamente no botão para registrar o momento.

Em seguida, um menino chuta a bola para o campo, os sorrisos diminuem e todos correm de volta para o jogo. Espertos…A chuva está a caminho, e a brincadeira coletiva é muito mais divertida do que um mzungu tecnológico.

Estamos em Majengo, a mais pobre das favelas quenianas. A tarde, novamente, está nublada e fria. Abril é a temporada chuvosa, e dias assim têm sido comuns. A única rua de acesso ao interior da comunidade é repleta de barracas feitas de lata e madeira, com comerciantes informais.


Fauzia nos espera a alguns metros. Ao lado dela está Peris, capitã da seleção feminina de futebol de rua, que — por possuir mais fluência no inglês — foi requisitada pela amiga para a gravação da entrevista. Willice está calado. Nunca o vi assim antes.

— Temos que andar um pouco até chegar na casa dela, tudo bem? — anuncia Peris.

Peço que ambas sigam na frente, já que pretendo gravar o percurso. Vou atrás delas com meu amigo e motorista. A cada metro caminhado, a curiosidade dos moradores aumenta visivelmente. Devem pensar: o que esse mzungu está filmando?


O ambiente está cinza. Além da nebulosidade, há fumaça por todos os lados, já que pequenas quantidades de lixo estão sendo queimadas a cada quarteirão e algumas famílias montaram fogueiras, do lado de fora das casas, para o preparo de nyama chomas.

O esgoto corre livremente, como um pequeno riacho, misturando-se à lama. A cada passo o pé parece afundar mais no barro…

Tem sido quase impossível voltar para casa com os calçados limpos neste mês. A mistura dos cheiros dá náuseas.

— Só mais alguns metros. Estamos chegando — avisa Peris ao entrar numa estreita ruela.


Barraco onde mora Fauzia
Temos que pular uma poça de cor escura que sai de um cano quebrado.

Na porta do barraco de Fauzia repousa um rato morto. As meninas agem naturalmente. Parecem não se importar com a cena.

Entramos no pequeno espaço onde a zagueira do time vive com a mãe e duas filhas. O pai das crianças sumiu há anos, e o dela morreu quando ela ainda era jovem. As meninas estão na escola e a mãe nos espera sentada numa cama.

Fauzia, aliás, cultiva até hoje o espírito de criança, ainda que tenha assumido a responsabilidade da primeira gestação logo aos treze anos.


— Esse aqui é o Ronaldo — diz ao apresentar um urso de pelúcia, em homenagem ao ex-jogador brasileiro.

Como não fala bem inglês, ela pediu a ajuda de um primo para escrever sua história na ficha da Associação Nacional de Futebol de Rua.

Sugiro que ela leia o manuscrito e, em seguida, ligo a câmera.



Fauzia e sua mãe.
A vida na favela não tem sido fácil. Minha mãe nos criou sozinha, e somos quatro na família. Minha mãe é desempregada e costumava lavar roupas dos vizinhos para que pudéssemos comer. Às vezes, chegamos a dormir na rua por problemas com o pagamento do aluguel. Me envolvi com futebol e agora conheci o time queniano de futebol de rua.

Ao término da vagarosa leitura, Fauzia, Peris e a mãe choram. O silêncio toma conta do ambiente por alguns instantes.

Porta-retratos pregados nas paredes de madeira revelam registros felizes da vida dela. Todos ligados ao futebol. Ela sonha em viajar para a cidade escocesa e conhecer um novo país. Contudo se diz satisfeita, atualmente, só por ter um teto para sua família.


Deixamos o local após quase uma hora. Ainda preciso gravar uma passagem. Já próximo do carro de Willice, posiciono o tripé e ensaio o texto. Pelo menos vinte curiosos ficam atrás da câmera, observando a gravação.

— Aleluia! — suspira Willice quando termino e entramos no veículo para ir embora.
— O que aconteceu?
— Nunca pisei em Majengo. Estive preocupado o tempo todo. Vamos embora logo.

Meu anjo da guarda tem sido forte. Procuro ser simpático com todos que falo, sorrir bastante e tentar ao máximo agir como um local. Ao contrário do que muitos no Brasil podem achar, já não me sinto ameaçado aqui. A pobreza não aparenta ser violenta como imaginamos. Há uma atmosfera amigável e, de certa forma, sofrida.


Já é noite quando nos aproximamos do condomínio onde moro. O semáforo fecha e uma menina, bem baixinha, aproxima--se do carro. Ela bate suavemente no vidro da janela ao meu lado.

— Dinheiro, mzungu… Por favor, dinheiro.

Ela para de falar e continua imóvel a poucos centímetros do veículo.

Forma-se um pequeno círculo de vapor no vidro, que aumenta e diminui conforme ela respira.

Dou o que tenho no bolso e o sinal abre. Willice e eu estamos cabisbaixos.

— Fique bem, Plácido. Amanhã faremos uma reportagem mais alegre, com certeza! Boa noite — diz o motorista antes de partir.

Ao entrar no apartamento, largo os equipamentos na sala e vou direto para o banho. Deixo a água quente do chuveiro escorrer pelo corpo. O suor e a sujeira saem aos poucos. Em contrapartida, as imagens do dia insistem em permanecer. O esgoto, o rato morto, o choro da família, o vidro embaçado.


Não tenho fome. Deveria descansar, porém decido assistir ao material gravado.

Os arquivos de vídeos aparecem pouco a pouco na tela e a garganta trava.

Estou sozinho num apartamento grande, cercado de luxos, e não tenho ninguém para compartilhar o que vi.

Ainda sinto o inexplicável cheiro de Majengo.

Fecho com força o computador e os olhos. Respiro fundo. Um pequeno rastro úmido escorre pelas bochechas. Jamais esquecerei Fauzia e Peris”.


Vilarejo tribo Massai
Nuvem de terra é assim, histórias atrás de histórias que, não apenas prendem o leitor, mas, de forma mágica, transporta-nos para as cenas vivenciadas pelo autor. Como afirmou Marcelo Barreto, apresentador e editor do programa Redação Sportv, além de fonte de inspiração para Plácido seguir a carreira como jornalista esportivo, em trecho do prefácio do livro. “ (...) O relato de Plácido tem histórias de pessoas, casos divertidos dos perrengues que passamos na nossa profissão, reflexões sobre as semelhanças e diferenças entre o Brasil e a África. Tem esporte também, afinal essa foi a origem da viagem. Mas, se tivesse de escolher uma característica principal para o livro, não seria nenhuma dessas, e sim o olhar – no sentido literal e no figurado, ambos com aquela serenidade que foi a primeira coisa a chamar minha atenção. Nuvem de terra nos convida a ver o Quênia com os olhos de quem quer aprender.
Vale a viagem.”


E como vale. Escrever, reportar, gravar, editar, fazer tudo sozinho. São os tempos “modernos” no jornalismo esportivo. E mesmo com todas essas dificuldades, Plácido soube extrair para si mesmo o maior aprendizado com essa experiência como o primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia.

“Viver, trabalhar e viajar sozinho faz você valorizar o silêncio. Observar mais. Reparar no que está ao seu redor. De certo modo, a solidão controlada traz entendimento. Senão do todo, de si próprio. Diálogos anônimos ganham vida nos tímpanos agora mais atentos. Reconhecer o valor do silêncio aumenta a importância do diálogo com quem gostamos. A ‘vida a um’ passa num ritmo mais lento. Depois de um tempo – e por um tempo – faz bem. Só é preciso aprender a conviver com a saudade”.

Link para conferir o booktrailer produzido pela Globo Livros

Sobre o autor:


Plácido Berci nasceu em Araraquara, interior de São Paulo, mas cresceu em São Carlos, cidade vizinha.

É jornalista formado na PUC-Campinas e acumula passagens pela EPTV/ Afiliada da Rede Globo e Correio Popular. Colaborou com a ESPN Brasil como blogueiro durante período em que viveu em Manchester, na Inglaterra.

Está no esporte do Grupo Globo desde 2015. É diretor do documentário "Pacaembu - O gigante sem dono", disponível no YouTube e parte do acervo do Museu do Futebol. Além de "Nuvem de terra" (Globo Livros, 2018) é autor também de "Paixão: Uma viagem pelo futebol inglês" (Via Escrita, 2015).

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Entrevista ao sol e à sombra



ENTREVISTA AO SOL E À SOMBRA
Por Helvídio Mattos

Viva o Literatura na Arquibancada!

Bem-vindo de volta, o espaço que preserva a memória e faz a história do esporte brasileiro.

Me atrevi a pedir licença ao André Ribeiro para escrever umas mal traçadas linhas por aqui.
Licença concedida, aproveito então a grande lembrança com a qual o André, amigo e compadre, celebra o retorno do L.A. trazendo para nós o imortal Eduardo Galeano. (link da matéria encurtador.com.br/bgvyS)


Certa vez, tive a honra, o orgulho e o prazer de ser escalado para entrevistar o Galeano para o programa “Loucos por Futebol”, da Espn Brasil. “Puxa vida!”, falei para mim mesmo, “entrevista com o Eduardo Galeano...”

Eu e o cinegrafista Laudemir Ferreira, “Preá”, fomos para o Rio de Janeiro. Galeano estava hospedado no Copacabana Palace. Chegamos lá, liguei para ele, que falou para gente esperar na área da piscina famosa.

Escolhemos o melhor ângulo para montar o equipamento – tripé e câmera – e aproveitei para repassar alguns trechos do livro que tinha levado para a entrevista.


Demorou um pouquinho para o autor de ”Futebol ao Sol e à Sombra” aparecer. Nos cumprimentou sorridente, conversamos rapidamente ainda em pé e indiquei onde ele deveria sentar-se. Percebi que Galeano se sentia desconfortável ali. Perguntei se estava tudo bem e como resposta, protegeu os olhos com uma das mãos e disse em seu português com pouco sotaque – “Está muito sol, não podemos ir para a sombra?”

A situação foi salva pelo Preá ao justificar a cadeira no sol, pelo fato de ter a melhor luz e o melhor fundo para a gravação.

Galeano aceitou e começou a entrevista. O assunto era o livro maravilhoso que escrevera sobre sua visão do futebol.


O escritor de “As Veias Abertas da América Latina” quis falar, e falou, do Maracanazo, termo usado pelos uruguaios para definir a vitória da Celeste Olímpica sobre a Seleção Brasileira no último dia da Copa do Mundo de 1950, realizada em nosso país.

Vou tentar relembrar as palavras de Eduardo Galeano naquela manhã de sol à beira da piscina do Copacabana Palace.




“Quando o time uruguaio subiu a escada para o gramado e deu de cara com aquele monstro de 200 mil caras – em referência ao número de torcedores que lotavam o Maracanã – Obdulio Varela repetiu aos seus companheiros, ‘los de afuera son de palo, los de afuera son de palo.’”

A imagem construída por Galeano dá a dimensão da pressão que esperava os jogadores uruguaios na tarde de 16 de junho de 1950. E o chamado do homem com corpo e cara de bravo, que liderava a equipe berrando, que os que estão do lado de fora são de madeira – os torcedores – aliviou essa pressão e encheu de brio os já briosos charrúas.


Obdulio Varela
O fim da história todo mundo sabe. O Uruguai ganhou de 2x1 e conquistou a Copa do Mundo que o Brasil se preparou para ganhar.

Houve, porém, um capítulo extra, um “gran finale” para o dia histórico. Galeano contou como foi. Vi que os olhos dessa grande figura humana ficavam marejados enquanto falava sobre a escapada do heroico Obdulio Varela pelos bares do Flamengo durante a noite daquele domingo.

“Obdulio e mais um companheiro saíram do hotel e foram tomar umas cervejinhas. 

Ele ficou muito impressionado com o silêncio das ruas e com a tristeza que via nos rostos das pessoas. 

De bar em bar, encontrando brasileiros que afogavam a grande mágoa, Obdulio se sentiu culpado por ter causado tanto sofrimento para aquele povo. 

Pediu desculpas e acabou chorando abraçado com todos eles.”



Foi aí que Galeano, com os olhos vermelhos e molhados, disse a grande frase:

“Histórias como essa é que nos fazem entender que coisa bonita que é o futebol”.

Eduardo Galeano voltou a colocar a mão para proteger os olhos do sol e, novamente, pediu para ir para a sombra. Foi prontamente atendido.



Sobre o autor:

Helvídio Mattos

Paulistano de muitos carnavais, formado em escola pública, sempre quis ser jornalista. Adorava as histórias de correspondentes de guerra, mas fiquei fascinado mesmo ao ver uma fotografia de um repórter dos Diários Associados que retratava uma mãe carregando sua filhinha no colo em meio à uma reintegração de posse na periferia de São Paulo.

A foto teve um impacto tão grande que a justiça resolveu suspender a reintegração e aquela mãe e sua filhinha e todos moradores puderam voltar para seus barracos.

Lugares onde trabalhei como revisor, repórter e editor. 1974 – Revista 2 Rodas / 1975 – Jornal da Tarde / 1976/77 – Diários Associados / 1978 - TV Tupi / 1979/83 – TV Cultura / 1985 - Diário Popular / 1985/88 – TV Manchete / 1988 TV Globo / 1989/96 – TV Cultura / 1996/017 – Espn.
Como jornalista esportivo: 3 edições de Jogos Pan-americanos / 5 edições da Copa Africana de Nações / 6 edições de Jogos Olímpicos / 7 edições de Copas do Mundo de Futebol.

















terça-feira, 4 de junho de 2019

Fechado por motivo de futebol



Após quase três anos, Literatura na Arquibancada retorna com novas histórias e personagens. Final, temporário, com um nome de peso da literatura brasileira, Carlos Drummond de Andrade. Recomeço com outro personagem histórico da literatura mundial. Eduardo Galeano, um craque das letras, nos deixou em abril de 2015, mas seu legado para a literatura esportiva, segue em frente.

Em 2018, mais um livro histórico, Fechado por motivo de futebol (L&PM editores). São 87 crônicas, muitas delas, inéditas, 228 páginas extraordinárias. Textos refinados, que refletem a eterna preocupação do autor uruguaio em dimensionar futebol, política e história. Histórias do cotidiano de personagens anônimos e famosos de um jogo que só mesmo Galeano consegue proporcionar. Histórias que nos dão a importância do futebol em sociedades espalhadas pelos quatro cantos do planeta.


Já havia sido assim, desde 1995, quando foi lançado seu “Futebol ao sol e à sombra” e retratado aqui, em resenha de mestre Domingos D’Angelo, um dos incentivadores do retorno do Literatura na Arquibancada (http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/11/o-futebol-ao-sol-e-sombra.html).

E não é diferente, agora, com Fechado por motivo de futebol

Logo na abertura da sinopse da editora aos leitores, a justificativa do título da obra.












 "Quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado por motivo de futebol. Quando o retirei, um mês depois, eu já havia jogado 64 jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona preferida."

“O futebol sempre fascinou Eduardo Galeano, que sobre o assunto tem nada menos que um clássico, Futebol ao sol e à sombra. Ao longo da vida, o uruguaio Galeano escreveu e viveu a paixão pelo esporte, infinitamente mais intensa a cada Copa do Mundo, e dessa paixão surgiu o volume que o leitor tem em mãos. Aqui estão reunidos todos os outros textos do autor sobre esse esporte capaz de despertar emoções coletivas, alguns já publicados esparsamente em livros, mas também vários inéditos e verdadeiros achados, como a crônica em que chama Che Guevara de “traidor” por ter trocado o futebol pelo beisebol em Cuba.


Fechado por motivo de futebol propõe um itinerário pela história deste esporte, desde o tempo em que os jogadores recebiam uma vaca (!) por gol marcado até a época dos atletas multimilionários. 

As páginas também falam de Pelé, Maradona, Zidane e outros grandes e pequenos nomes desse universo, que para o autor não é só um esporte, mas muitas vezes um retrato de como caminha a humanidade. 

Galeano, com suas crônicas que mais parecem poesia, nos dá o melhor de suas grandes paixões: o futebol, a literatura e a história.”

Se já conseguimos pensar quanto são encantadoras as páginas escritas por Galeano, só pela sinopse, acima, apresentada, o que dizer de alguns textos que publicamos a seguir. Um deles, Galeano explica a razão de suas duas maiores paixões: o futebol e a escrita. Muito mais do que isso, a certeza da capacidade (e necessidade) do ser humano de se reinventar.


Por que escrevo

“Para começar, uma confissão: desde que era bebê, eu quis ser jogador de futebol. E fui o melhor dos melhores, o número um, mas só em sonhos, enquanto dormia.

Ao despertar, nem bem caminhava um par de passos e chutava alguma pedrinha na calçada, já confirmava que o meu negócio não era o futebol. Estava na cara; eu não tinha outro remédio a não ser tentar algum outro ofício.

Tentei vários, sem sorte, até que finalmente comecei a escrever, para ver se saía alguma coisa.

Tentei, e continuo tentando, aprender a voar na escuridão, como os morcegos, nestes tempos sombrios.

Tentei, e continuo tentando, assumir minha incapacidade de ser neutro e minha incapacidade de ser objetivo, talvez porque me nego a me transformar em objeto, indiferente às paixões humanas.

Tentei, e continuo tentando, as mulheres e os homens animados pela vontade de justiça e pela vontade beleza, além das fronteiras dos tempos e dos mapas, porque eles são meus compatriotas e meus contemporâneos, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido.

Tentei, e continuo tentando, ser tão teimoso para continuar acreditando, apesar de todos os pesares, que nós, os humaninhos, somos bastante malfeitos, mas não estamos terminados. E continuo acreditando, também, que o arco-íris humano tem mais cores e mais fulgores que o arco-íris celeste, mas estamos cegos, ou melhor, enceguecidos, por uma longa tradição mutiladora.

E em definitivo, resumindo, diria que escrevo tentando que sejamos mais fortes que o medo do erro ou do castigo, na hora de escolher no eterno combate entre os indignos e os indignados.”


Eduardo Galeano tinha verdadeiro fascínio pelos craques do futebol, especialmente aqueles que encantaram torcedores de todo o universo. 

Com seu olhar diferente sobre esses homens mágicos da bola, Galeano gostava de mergulhar na alma e essência de suas vidas. 

Na sequência, abaixo, um deles, Diego Maradona. Duas crônicas, fases distintas do craque argentino, do nascimento ao drama com as drogas. E Galeano cria, até mesmo, a definição da droga que, por pouco, quase matou Maradona: sucessoína.”



O parto

“Ao amanhecer, dona Tota chegou a um hospital no bairro de Lanús. Ela trazia um menino na barriga. No umbral, encontrou uma estrela, na forma de prendedor de cabelos, jogada no chão.

A estrela brilhava em um lado, e no outro não. Isso acontece com as estrelas, toda vez que caem na terra, e na terra se reviram: em um lado são de prata, e fulguram esconjurando as noites do mundo; e no outro são só de lata.

Essa estrela de prata e de lata, apertada na mão, acompanhou dona Tota no parto.

O recém-nascido foi chamado de Diego Armando Maradona.”



Maradona

“Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os anos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e mais popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não eram famosos nem populares.

Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos, os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas, ou ao menos masculinas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável.


Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.

Ele jamais conseguir voltar para a anônima multidão de onde vinha.

A fama, que o havia salvado da miséria, tornou-o prisioneiro.

Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório. Mais devastadora que a cocaína foi a sucessoína. As análises de urina ou de sangue, não detectam essa droga.”


Manuel Alba Olivares
Por intermédio da genialidade de Maradona, Eduardo Galeano consegue nos apresentar outro personagem espetacular no mundo do futebol. 

O colombiano Manuel Alba Olivares é o único cego que se tornou técnico, fundador e presidente de um clube de futebol, história que pode ser conhecida em maior profundidade neste link ( http://revistauncanio.com.ar/la-dimension-desconocida/ojos-bien-cerrados/ )






O gol do século

“13 de julho

Neste dia do ano de 2002, o órgão supremo do futebol divulgou o resultado de uma pesquisa universal. Escolha o gol do século XX.

Ganhou, por esmagadora maioria, o gol de Diego Maradona no Mundial de 1986, quando dançando com a bola grudada no pé, deixou seis ingleses perdidos pelo caminho.
Essa foi a última imagem do mundo que foi vista por Manuel Alba Olivares.

Ele tinha onze anos, e naquele mágico momento seus olhos se apagaram para sempre. Mas ele guardou o gol intacto na memória, e é capaz de contar esse gol muito melhor que os melhores locutores.


A partir daquele momento, para ver futebol e outras coisas não tão importantes, Manuel pede emprestados os olhos dos amigos.

Graças a eles, esse colombiano cego fundou e preside um clube de futebol, foi e continua sendo o técnico do time, comenta os jogos em seu programa de rádio, canta para divertir a audiência e nas horas vagas trabalha como advogado.”




Apesar de mergulhar nas histórias de vidas dos craques, Eduardo Galeano gostava mesmo é de explicar as razões para o futebol ser tão apaixonante, por intermédio daqueles que tornam o esporte um fenômeno mundial: os torcedores.

Papai vai ao estádio

Em Sevilha, durante um jogo de futebol, Sixto Martínez comenta comigo:

- Aqui existe um torcedor fanático que sempre traz o pai.

- Claro, é natural – digo. – Pai boleiro, filho boleiro.

Sixto tira os óculos, crava o olhar em mim:

- Este de quem estou falando vem com o pai morto.

E deixa as pálpebras caírem:

- Foi seu último desejo.

Domingo após domingo, o filho traz as cinzas do autor de seus dias e as põe sentadas ao seu lado na arquibancada.

O falecido tinha pedido:

- Me leva para ver o Betis da minha alma.

Às vezes o pai ia até o estádio numa garrafa de vidro.

Mas numa tarde os porteiros impediram a entrada da garrafa, proibida graças à violência nos estádios.

E a partir daquela tarde, o pai vai numa garrafa de papelão plastificado.


Sobre o autor

Eduardo Galeano (1940-2015) nasceu em Montevidéu, no Uruguai. Viveu exilado na Argentina e na Catalunha, na Espanha, desde 1973. No início de 1985, com o fim da ditadura, voltou a Montevidéu.

Galeano comete, sem remorsos, a violação de fronteiras que separam os gêneros literários. Ao longo de uma obra na qual confluem narração e ensaio, poesia e crônica, seus livros recolhem as vozes da alma e da rua e oferecem uma síntese da realidade e sua memória. 

Recebeu o prêmio José María Arguedas, outorgado pela Casa de las Américas de Cuba, a medalha mexicana do Bicentenário da Independência, o American Book Award da Universidade de Washington, os prêmios italianos Mare Nostrum, Pellegrino Artusi e Grinzane Cavour, o prêmio Dagerman da Suécia, a medalha de ouro do Círculo de Bellas Artes de Madri e o Vázquez Montalbán do Fútbol Club Barcelona.

Foi eleito o primeiro Cidadão Ilustre dos países do Mercosul e foi o primeiro escritor agraciado com o prêmio Aloa, criado por editores dinamarqueses, e também o primeiro a receber o Cultural Freedom Prize, outorgado pela Lannan Foundation dos Estados Unidos. Seus livros foram traduzidos para muitas línguas.