sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Selva do Futebol

Mais do que um livro, “A Selva do Futebol” marca o nascimento de uma nova editora dedicada a literatura sobre o futebol. Duas ações importantíssimas se considerarmos o quase desinteresse do público leitor quando o tema proposto, tanto por um autor quanto por uma editora, é o futebol. Parece contradição, mas não é. Na terra onde o futebol é paixão nacional, poucas editoras sobreviveram ao mercado, poucos autores conseguiram manter uma produção literária regular.

Por tudo isso, a iniciativa de Raul Andreucci, tanto ao escrever e produzir a primeira obra de sua editora No Barbante torna-se um marco no universo da literatura e no jornalismo futebolístico.

A Selva do Futebol é uma combinação de histórias, uma adaptação de uma reportagem especial sobre a realidade do futebol amazonense às vésperas da inauguração da Arena da Amazônia e a extração ilegal de madeira que sustenta as estruturas desse mesmo estádio, utilizado durante a Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

Trabalho minucioso de pesquisa e investigação dos autores, Raul Andreucci e Túlio Kruse. A obra é dividida em três partes. A primeira e a terceira, escritas por Raul, revelam as andanças dele por Manaus, ouvindo e revelando histórias de superação, corrupção, descaso e a paixão pelo futebol, mesmo em um cenário caótico. Na segunda parte, Túlio ilumina todo esse rastro surreal percorrido por seu parceiro Raul. Como afirma Raul, “quisemos destacar, também de uma forma gráfica, esse contraditório entre a selva e o concreto. Assim não apartamos as histórias, como se cada uma fosse para um lado. Reforçamos e lembramos que, como na vida, está tudo, de fato, entrelaçado. Dá para ler na ordem disposta, pulando e começando pelo centro – ao gosto do leitor”.

Esta resenha sobre A Selva no Futebol não foi produzida pelo fato de o editor do Literatura na Arquibancada ter sido convidado para prefaciar esta obra. Livro e editora criam, simultaneamente, um novo espaço no modo de curtir e viver a bola, um contraponto e um complemento a diversas outras experiências no mercado editorial da literatura relacionada ao futebol.

Abaixo, destacamos prefácio e um dos capítulos da obra.


Da inspiração
Por André Ribeiro

No Facebook, uma mensagem que, para mim, não fazia muito sentido. Era o jovem Raul Andreucci, um dos autores desta obra, convidando para escrever o Prefácio. Estou afastado do jornalismo esportivo e da literatura esportiva. Não publico artigos ou livros há alguns anos. Gente muito mais competente e famosa poderia trazer brilho ainda maior sobre o conteúdo que inaugura a vida da Editora No Barbante.

Aceitei por conta das primeiras linhas: “Conheço seu trabalho desde moleque, quando li a biografia do Telê Santana. E sou órfão do Literatura na Arquibancada, uma das sacadas que me trouxe até aqui”.

Sem falar na linha editorial: “Estou lançando a Editora No Barbante, dedicada ao futebol. E não qualquer futebol. Aquele para além do clube de coração, do sucesso das taças ou da fama das estrelas. Somos uma editora para quem quer futebol com mais cores, profundidade e coração. Dos que vibram com as histórias em torno da bola no barbante. Qualquer uma”.

Impossível recusar. Tudo remetendo a um passado não tão distante, do meu olhar sobre o futebol e quase tudo o que já produzi. Um dos projetos, o blog que tanto inspirou Raul em sua trajetória profissional.

Por seis anos, entre 2011 e 2016, o Literatura na Arquibancada reuniu conteúdos variados, personagens, resgates de vidas, história da criação de jornais, revistas, rádio, televisão, a paixão de famosos da música ou de qualquer outro canto ou tipo da sociedade pelo futebol.

Muitos leitores (e eu também) descobrimos raridades, escritos deixados por gente como Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Décio Pignatari, Manuel Bandeira, Gilka Machado e tantos outros.

E o que Raul e sua No Barbante propõe como pontapé inicial? Tudo isso e muito mais. Livros da literatura de futebol que, estivesse o Literatura na Arquibancada em atividade, seria tema de um artigo.

A criação do blog foi fruto dessa paixão pelos livros, e, também para mim, aqueles feitos em papel – nada contra as tecnologias recentes.

Outra lembrança deliciosa dos tempos do Literatura na Arquibancada, e que tem a ver com a proposta editorial da No Barbante: textos de Gabriel García Márquez sobre sua paixão pelo futebol “perdidos” numa coleção enorme que, se não me falha a memória, chegavam a quatro volumes. Quem poderia imaginar Gabo, um dia, escrevendo sobre bola?

Literatura é isso. No processo da escrita e leitura, descobertas. Via de duas mãos. Para quem escreve e para o leitor. Longa viagem no processo do conhecimento. Como disse um dos maiores críticos literários do país, Antonio Candido, a literatura “não corrompe nem edifica, mas humaniza em sentido profundo porque faz viver”. Muito mais do que isso, a literatura é um dos mais importantes instrumentos de educação e formação do homem.

Por ser fruto de pesquisas, Literatura na Arquibancada também se transformou em resgates de teses acadêmicas. Adorava entrar em bancos de dados das universidades e encontrar estudos inimagináveis. Foi assim que me deparei, antes do processo de criação do blog, com a monografia de Angela Francisca Mendez, em 2008, no curso de Letras do Centro Universitário Ritter dos Reis, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Está lá, bem guardada, uma definição que sempre carreguei dentro de mim. “A literatura é a transfiguração do real, é nela que estão retratados os sentimentos humanos e as diversas formas de relação do homem com aquilo o que sente (...) Ler é criar consciência do que somos, é examinar o mundo em que vivemos para transformá-lo no mundo em que gostaríamos de viver”.

E o que fazem Raul Andreucci e Tulio Kruse no livro que, agora, você, leitor começa a ler? Literatura. Sim, reportagens escritas para jornais ou revistas, em papel ou online, podem se transformar em livros. A Selva do Futebol é a adaptação de uma reportagem de fôlego escrita por ambos sobre a realidade do futebol amazonense às vésperas da inauguração da Arena da Amazônia e a extração ilegal de madeira que sustenta as estruturas desse mesmo estádio, utilizado durante a Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

Se a saga em si já é histórica, chegar até lá, na distante Manaus, valoriza ainda mais o resultado de todo esse trabalho. Não tiveram apoio financeiro algum para todas as despesas com transporte, estadia e alimentação. Foram, como se diz por aí, com a cara e a coragem.

Retornaram, escreveram e editaram todo o material coletado com a única empresa que acreditou em suas ideias. O BRIO, que apostava na publicação de reportagens especiais, com textos jornalísticos mais longos.

Raul e Tulio revelaram histórias do futebol jogado em um lugar esquecido pela chamada “grande mídia”. Os clubes que disputam o campeonato estadual têm nomes que devem soar estranho para jovens torcedores de outras regiões do país. Mais estranho ainda é entender como Iranduba, Princesa do Solimões, São Raimundo, Sul América, Fast, Holanda, Nacional e Rio Negro, alguns dos que lutam no futebol amazonense, sobrevivem a tanta precariedade, em alguns casos, amadorismo puro.

Raul foi o responsável no livro por resgatar histórias dessas agremiações, personagens, torcedores, jogadores, dirigentes que, de alguma forma, revelam o outro lado do futebol, longe do glamour de estádios europeus ou, simplesmente, de outras capitais brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Em que, “Quando o Estadual acaba, todos ficam sem atividade e, os jogadores, desempregados, precisam correr atrás do próximo campo de futebol”.

Tulio não fica atrás. Escancara a contradição dos responsáveis por um dos palcos da Copa, principalmente no que diz respeito à questão ambiental. “Nem as promessas, nem o alarde, porém, foram o suficiente para evitar a marca do desmatamento no maior patrimônio ambiental brasileiro. Cinco toneladas e meia de aço estão nas bases profundas da Arena da Amazônia, em compridos vergalhões debaixo do concreto armado das arquibancadas, nos pilares e nas grades. O carvão que abasteceu siderúrgicas e chegou ao estádio na forma deste aço nasceu justamente nas bordas desmatadas da Amazônia, no sertão do Goiás e em terrenos devastados ao longo do Cerrado brasileiro. Muito mais do que o verde, o cinza”.

Túlio Kruse (esquerda) e Raul Andreucci (2º esq/dir)
Juntando esforços e talentos, a dupla conseguiu, na prática, uma história parecida à maneira com que um dos maiores escritores do país, Nelson Rodrigues, enxergava a cobertura de um evento como o futebol: 

Houve um tempo, no passado do homem, em que o fato tinha, sempre, um Camões, um Homero, um Dante à mão. Por outras palavras: o poeta era o repórter que dava ao fato o seu encanto específico. Hoje, nós temos tudo: jornal, rádio e tevê. O que nos falta é, justamente, a capacidade de admirar, de cobrir o acontecimento com o nosso espanto”. 


É isso, leitor, o que você tem em mãos. O espanto de dois jovens talentosos sobre A Selva do Futebol.

Boa leitura!

Um dos capítulos de A Selva do Futebol. Texto e enredo perfeitos. Ritmo que nos faz mergulhar e visualizar cada passo, dos personagens e autor. 

Estádio Francisco Garcia, Chicão
Dinheiro contado

Cinco reais. Quem teme, paga. É esse o preço do pedágio clandestino que dá acesso a um caminho lamacento que desvia do posto policial e nos faz cair, ainda que gastando uns minutinhos a mais, livres e impunes no meio da AM-010 oficialmente uma rodovia, mas, na prática, uma estrada sem sinalização e fétida que atravessa uma região de granjas como um convite a náuseas e acidentes. O destino é Rio Preto da Eva, a 80 km de Manaus, a capital do Amazonas, estado brasileiro que carrega o nome da maior floresta do mundo.

- Vai uma Coca?oferece o responsável por contar a grana e abrir o portão.

A caminhonete segue em frente com seu retrovisor esquerdo completamente destruído, motivo para a rota alternativa, evitando qualquer problema com os policiais da rodovia. O motorista é Renato Benigno. Nosso destino é o Estádio Francisco García, o Chicão, sede do Holanda Esporte Clube, time que enfrenta o Esporte Clube Iranduba da Amazônia pela última rodada do Campeonato Amazonense de 2014. Estamos a exatos dois meses do início da Copa do Mundo no Brasil, no dia 12 de abril daquele ano.

Rafael Benigno
Benigno é um homem que parece mais velho do que seus 36 anos, especialmente por conta do rosto furado, cheio de marcas de espinhas da adolescência. Suas roupas de grife e relógio dourado indicam uma posição elevada, mas ele não sabe dizer ao certo qual cargo ocupa no Holanda. É uma espécie de faz tudo, revezando-se entre o centro de treinamento no interior e a sede administrativa do clube na capital amazonense. O certo é que sua família, de origem italiana, faz parte da história do futebol local. Seu avô Ismael, já falecido, foi presidente do São Raimundo Esporte Clube, outro clube local, e permanece eternizado como nome do estádio do time apelidado e mais comumente chamado de Colina.

Em meio às caronas   aquela do dia do jogo não fora a única —, Renato contou já ter dormido no volante e da vez em que praticamente destruiu sua Montana, capotada de ponta cabeça depois da perseguição de um namorado ciumento em festa no interior. Acreditava numa certa “zica” daquele carro, vendido depois de dez acidentes. Um mês depois da nossa viagem a Rio Preto da Eva, encontrava-se preso, aguardando julgamento por uma batida fatal, com duas mortes. Segundo a polícia, estava embriagado, dirigindo a mesma S-10 prateada, que, nova, não saía à época por menos de R$ 74 mil.

Naquela viagem, atrás dos únicos dois bancos, o do motorista e o do passageiro, pegava carona um bolo de notas, dinheiro vivo mesmo. Informação que só foi revelada durante o trajeto, ao ser perguntado sobre a rescisão dos jogadores. A sequência após o duelo entre Holanda e Iranduba seria inapelável: apito final, centro de treinamento, banho, malas, dinheiro vivo contado na mão e adeus.

O Holanda lutava contra o rebaixamento e não tinha motivo para continuar com os jogadores. Distante da fama e das glórias da seleção homônima das terras baixas europeias, o maior salário da equipe era de R$ 3.500 até alguns dias antes. Com a primeira leva de demissões, o salário mais abastado passou a ser o de R$ 2.500.

O valor exato do bolo? Benigno não sabe (ou não quer) dizer, mas, para pagar atletas e comissão técnica devia passar de R$ 20 mil. Medo de assalto? Que nada. Se alguém fosse tentar alguma coisa, seria no começo do mês, por volta dos dias 5 ou 10, os dias usuais de pagamento. Mesmo assim, Benigno dirige em alta velocidade e, a qualquer sinal de emboscada, faz a ultrapassagem do jeito que dá. Desconfia de todo mundo, dos jogadores do próprio plantel aos engravatados do escritório em que dá as caras ao longo da semana. Qualquer um pode passar a informação e armar o golpe. É de conhecimento geral que o homem da grana, quando escalado para levar os pagamentos da capital ao centro de treinamento, faz o trajeto sozinho, sem segurança.

Chegamos inteiros. No intervalo, o Holanda vencia o Iranduba por 1 a 0. Faltava um gol para que os donos da casa mantivessem as esperanças de evitar o rebaixamento. Devido a uma combinação de resultados de vários jogos, era preciso vencer por dois gols de diferença. O que motivaria, imagina-se, no mínimo, gritos das arquibancadas e unhas roídas sem piedade.

Ali, no entanto, o que seria ou deixaria de ser do Holanda importava quase que exclusivamente às famílias dos jogadores. Arquibancadas vazias, nem 50 almas.

Uma fumaça de alguma queimada nos arredores dominados pelas árvores frondosas da Amazônia, que acompanharia o segundo tempo, começava a se formar. Diante dos berros esparsos do público, o som de um alto falante ininterrupto do lado de fora pedia que os moradores de Rio Preto da Eva ajudassem um senhor, já de bengala, sofrido.

Nos acréscimos, o baixinho Weverton bateu uma falta no ângulo. O goleiro nem se mexeu. Um golaço sem registro no YouTube. O Holanda fazia 2 a 0, resultado suficiente para seguir vivo até o dia seguinte, domingo, quando torceria para um empate entre Sul América Esporte Clube e São Raimundo não fosse a falta de estádios em Manaus à época, esse jogo deveria ter acontecido no mesmo dia.

Emoções suspensas no ar. Os jogadores não podiam explodir, extravasar, tampouco chorar e se deprimir. Mas o dinheiro de Benigno não podia esperar.

Vista aérea de Rio Preto da Eva
Fundado em 2007, o Holanda tem uma vida futebolística modesta. O nome foi escolhido por questões práticas. É verdade que a cidade-sede do time, Rio Preto da Eva, é a maior produtora de laranjas de toda a região Norte do Brasil. Também é verdade que os donos do time se dizem fãs da seleção holandesa de 1974, conhecida como Carrossel e Laranja Mecânica. Mas o fato é que o nome foi adotado porque Holanda estava disponível na Federação Amazonense de Futebol (FAF), pois começara a ser usado por um clube amador fundado em 1984. Como iniciar do zero um processo de registro na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a entidade máxima do esporte no país, levaria tempo e custaria dinheiro, os cartolas aproveitaram o que estava à mão mesmo.

O time também serviu aos interesses pessoais do presidente do clube, Paulo Radin, cunhado de Benigno. Além da aparente preocupação com a prosperidade do futebol local, Radin alça seus voos políticos. Secretário-geral do Partido Social Democrático (PSD) no Amazonas e peça-chave na campanha vitoriosa do ex-governador Omar Aziz ao Senado, eleito em 2014, ele disse ter encontrado no Holanda uma forma de ocupar as crianças com quem trabalhava numa ONG.

Por isso mesmo, o time quase não tem torcida. Em um dos jogos da equipe, contra o Sul América, em 6 de abril de 2014, o público pagante oficial foi de zero pessoas. A bilheteria, ao lado da porta de entrada, até estava aberta, só que sem bilheteiro. Um jovem aparentando uns 16 anos cuidava da catraca, mas deliberadamente deixava passar conhecidos, amigos e parentes de atletas. Estava muito mais preocupado em cortejar uma moça de shortinho. Um vira-lata fazia as vezes de segurança. O máximo que conseguia era colocar a língua para fora pedindo água, deitado num mato mal cortado.

As dificuldades do Holanda começaram já no primeiro jogo oficial, em 2008, ocorrido na cidade de Itacoatiara, a 260 km de Manaus e a 180 km de Rio Preto da Eva. Os jogadores seguiam em um ônibus que quebrou na estrada. Com o risco de perderem por WO, chegaram ao estádio espremidos na carroceria de um caminhão.

Naquele ano de estreia, num sucesso que poderia impulsionar sonhos de grandeza por aquelas bandas, o Holanda foi campeão da série B e subiu para a primeira divisão do Estadual.

Em 2014, o time teve apenas dois meses e 12 dias de atividades entre a estreia e o último jogo no Campeonato Amazonense. Naquele sábado de abril, havia a esperança de sobrevida. Com o resultado de domingo, o São Raimundo batendo o Sul América por 1 a 0, ocorreu o golpe final do rebaixamento. O golaço nos minutos finais contra o Iranduba fora em vão.

No ano seguinte, a situação seria ainda pior. O time da camisa laranja não jogou o campeonato local porque a segunda divisão do Estadual deixou de existir, assim como já havia acontecido em outros anos. Mesmo quando a segundona existe, nunca se sabe quem serão os times participantes. A confirmação costuma ser de última hora, pois muitos podem não ter o dinheiro necessário para entrar em campo.

Jogadores, torcedores e técnicos sabem dessa situação melhor do que ninguém, assim como têm a clareza de que as chances de algo mudar efetivamente são as mesmas de o Nacional Futebol Clube disputar a Copa Libertadores. Para se ter uma ideia, o time mais popular e vitorioso do Amazonas foi o único representante do estado no Campeonato Brasileiro de 2014 na quarta divisão…

A situação se repete a cada ano. É sempre assim. Quando o torneio estadual acaba, todos ficam sem atividade, e os jogadores, desempregados, precisam correr atrás do próximo campo de futebol.

De 1993 a 2018, apenas sete dos 22 Campeonatos Amazonenses duraram mais de três meses. No fim das contas, muitos profissionais acabam seduzidos por ligas municipais e campeonatos amadores de todo tipo, que costumam pagar entre R$ 50 e R$ 100 por jogo.

Esqueça, portanto, os milionários aos quais assistimos na TV e as cifras siderais de transferências de jogadores. Pense no operário que joga para um time na mesma condição que um pedreiro numa obra: o trabalho acaba quando o campeonato acabae olhe lá. Pense no jovem, em muitos casos, já com família para sustentar, que tem de se virar com o pouco que recebe isso quando recebe. Pense na infraestrutura inadequada, no assédio moral e em todas as aflições comuns a quem se preocupa com o sonho de um dia ser contratado por um time médio para, oxalá, chegar a um grande. É dele que estamos falando, desse pé-de-obrauma multidão boleira capaz de formar cerca de 730 times completos de futebol, com reserva e tudo, conforme os dados do Bom Senso FC. Como nas séries A e B do Campeonato Brasileiro, a nossa elite futebolística, há apenas 40 clubes, não resta dúvidas de que, falando desses microcosmos, estamos retratando é grossa maioria do futebol brasileiro. A realidade de quem quer viver jogando bola.


Apoie a publicação, participando da "vaquinha" coletiva, via crowdfunding 
https://benfeitoria.com/aselvadofutebol

Sobre os autores:

Raul Andreucci é o idealizador da No Barbante, uma editora dedicada ao futebol. Como qualquer projeto independente no país, faz de tudo um pouco. Principalmente como editor. Mas sai até de livreiro. E adora! A casa de publicações é o sonho concretizado de um jornalista e pesquisador que também gostava das Redações e da academia, mas ainda não tinha se encontrado definitivamente em nenhum desses dois cantos. Agora tem um pra lá especial para chamar de seu. E o melhor: descobrindo cada vez mais gente para curtir e fazer junto!





Repórter do Estadão, Tulio Kruse trabalhou como freelancer durante a maior parte da carreira – já são quatro anos. Na área de Direitos Humanos, já pesquisou sobre as cadeias produtivas do cacau, da construção civil e confecção da moda, e foi responsável pela pesquisa que embasou o documentário Terminal 3, sobre a vida de operários resgatados em condições análogas à escravidão em uma obra do maior aeroporto da América Latina, em Guarulhos. A Selva do Futebol foi a primeira reportagem publicada profissionalmente, fruto de um trabalho desenvolvido no seu último ano na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde se formou. Hoje, escreve sobre administração pública, polícia e o que mais lhe for pautado.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

J. Hawilla: "O Delator"


O título do livro diz quase tudo. “O delator: A história de J. Hawilla, o corruptor devorado pela corrupção no futebol”, conta a história do jornalista que se transformou no maior empresário do marketing esportivo do Brasil, e, também, do maior escândalo de corrupção do futebol mundial, conhecido como Fifagate.


Os autores Allan de Abreu (direita) e Carlos Petrocilo.
Os autores, Allan de Abreu e Carlos Petrocilo, mergulharam fundo em uma pesquisa para desvendar a ascensão, queda e destruição do império criado por J. Hawilla.

Pela sinopse apresentada pela Editora Record, já temos a dimensão deste trabalho primoroso de investigação jornalística.




Sinopse (da editora)

Os labirintos de uma história essencial para a compreensão dos avanços e mazelas do nosso futebol.


José Hawilla, o maior empresário do marketing esportivo do Brasil, dono de uma fortuna estimada em R$ 1,6 bilhão, foi preso em 2013, em Miami, por agentes do FBI. Era o início de uma saga surpreendente: para escapar de uma condenação judicial quase certa, o brasileiro decidiu tornar-se um delator e, mais do que isso, um espião a serviço do governo norte-americano. A conversão de corruptor em delator seria a segunda grande metamorfose na vida de J. Hawilla. Por décadas, o ex-radialista nascido no interior paulista e convertido do dia para a noite em poderoso empresário lubrificou uma engrenagem de propinas com sofisticados esquemas de corrupção que desviaram muitos milhões para os bolsos de cartolas mundo afora, sem contar o dele mesmo. Flagrado, implodiu seus próprios métodos criminosos. Ao longo de dois anos, por meio de dezenas de entrevistas e pesquisa em milhares de páginas de documentos, os repórteres Allan de Abreu e Carlos Petrocilo investigaram a fundo a vida do empresário.


O livro causou tanta repercussão que vai virar até série de televisão e, talvez, em filme longa-metragem. Os direitos de O Delator foram adquiridos pela Paris Entretenimento e em breve deverá estrear.

Hawilla ficou pouco tempo preso, nos Estados Unidos, porque fez um acordo com a justiça norte-americana. Além de confessar crimes de formação de quadrilha, obstrução de Justiça, lavagem de dinheiro e fraude bancária de milhões de dólares em contratos de marketing, teve de pagar 151 milhões de dólares de multa.

Hawilla começou a carreira de jornalista bem jovem. Era repórter, em rádios do interior paulista, na década de 1960, até que, em 1968, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou em grandes emissoras, como a Bandeirantes e a Globo.


Em 1979, quando já trabalhava na TV Globo, foi demitido da emissora, por participar da greve dos jornalistas. No ano seguinte, começaria uma verdadeira saga empresarial, utilizando talento, e, ao mesmo tempo, negócios inescrupulosos. A porta de entrada no mundo dos negócios foi a criação da Traffic, que começou como simples vendedora de placas em estádios de futebol até chegar a contratos multimilionários pelos direitos de transmissões esportivas.

Foi inocentado em duas CPIs, no ano 2.000, após a revelação de um contrato de 160 milhões de reais, entre sua empresa e a CBF, presidida por Ricardo Teixeira, com a Nike para o fornecimento de material esportivo para a Seleção.


Em 2003, ampliaria ainda mais seu quase império, quando criou a rede TV TEM, com a compra de quatro afiliadas da Rede Globo. Dois anos depois, virou dono da rede de jornais Bom Dia, no interior paulista.

E não parou por aí. Hawilla também foi proprietário de uma construtora, montou uma luxuosa produtora de tevê, além de adquirir várias fazendas no interior de São Paulo e Mato Grosso.

Desde 2013, ano de sua prisão e, até a sua morte, em maio de 2018, a vida de Hawilla foi do céu ao inferno. Se curou de um câncer na garganta, mas não resistiu a uma doença grave nos pulmões.


O Delator é um gol de letra na história da literatura esportiva e, porque não, do jornalismo investigativo brasileiro.

Pouco antes de seu lançamento, exatamente um ano atrás, a revista piauí, disponibilizou na íntegra um dos capítulos da obra.

E só por estes trechos, percebe-se a qualidade do trabalho apresentado pelos dois autores, Allan de Abreu e Carlos Petrocilo.

                                                                          

                                                                                 ****

Trecho do livro O Delator.

Bem ao seu estilo Galvão Bueno, microfone a tiracolo, caprichava no tom das palavras e no discurso repleto de deferências ao grande amigo Jotinha.

“Hawilla, você não precisa mais de dinheiro”, disse o locutor, virando-se para o protagonista da festa com um sorriso largo.

“Preciso, sim”, disse o empresário.

Explodiu no ambiente uma sonora gargalhada.


O empresário inaugurava naquela tarde de 10 de março de 2009 um moderníssimo centro de treinamento em Porto Feliz, interior de São Paulo, de números superlativos: 156 mil metros quadrados, alojamento para 144 jogadores, salas de fisioterapia, musculação, fisiologia, piscina e refeitório para servir até 800 refeições por dia. Com um investimento de 18 milhões de reais, o CT seria uma grande incubadora de atletas nas categorias de base para o Desportivo Brasil, clube-empresa de Hawilla. A ideia era construir outros dez CTs semelhantes pelo país, para descobrir craques em potencial.

“Nasce aqui o primeiro clube essencialmente empresa do Brasil. Acho que vamos ser um modelo, porque o futuro pede a profissionalização do futebol”, discursou o empresário.
Para tanto, Hawilla havia recorrido ao então consultor Carlos Alberto Parreira. “O Hawilla sempre foi muito caprichoso. Quando fazia as coisas, fazia muito bem-feito. Foi um centro de treinamento muito bem montado”, disse Parreira, técnico da Seleção na conquista da Copa do Mundo de 1994 e que, no comando da África do Sul no Mundial de 2010, levou sua equipe por duas semanas para se refugiar em Porto Feliz.


José Hawilla vivia o apogeu de sua fortuna e prestígio. Em maio de 2008, a revista inglesa World Soccer o colocou na 56ª posição dos homens mais influentes do mundo do futebol. Dois anos depois, a revista Placar fez um ranking dos “poderosos chefões” do futebol brasileiro. Ele ficou em segundo lugar, atrás apenas do então presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. “Nenhum personagem pode influenciar em tantos setores do futebol brasileiro como J. Hawilla. Sua atuação vai dos vestiários aos corredores da Fifa, passando por redações de meios de comunicação. É um dos poucos que Ricardo Teixeira ouve antes de tomar decisões”, escreveram os repórteres Ricardo Perrone e Bernardo Itri na Placar.

A Traffic, empresa de Hawilla, era, de longe, a maior empresa de marketing esportivo do Brasil, com faturamento médio anual de 100 milhões de reais, mas que por vezes superava os 300 milhões. Com filiais nos Estados Unidos e na Holanda e clientes na Europa, Ásia e nas três Américas, a empresa vendia os direitos de transmissão de 300 jogos por ano, de torneios como as eliminatórias da Copa do Mundo, Libertadores e Copa América.


Hawilla era dono do Desportivo Brasil, do Miami FC, na Flórida, e do Estoril Praia, na época um clube da segunda divisão do futebol português. Atuava no projeto da nova arena do Palmeiras e, ao lado do grupo Sonda, sua Traffic era a maior investidora do futebol brasileiro, administrando um fundo de 40 milhões de reais. Números estimados, já que a empresa, de capital fechado, nunca divulgou seus balanços financeiros anuais.

“Quanto a Traffic faturou em 2002?”, perguntou o repórter José Roberto Caetano, da revista Exame.
“Não posso falar.”
“Quanto pagou pelas três afiliadas da Rede Globo no interior de São Paulo?”
“Estou impedido de revelar por uma cláusula contratual.”
Disse que acabara de fechar um contrato de marketing esportivo, mas, sobre com quem seria:
“Não posso contar.”


Hawilla dava expediente diário na sede da Traffic, um prédio de design moderno no Jardim Paulistano, em São Paulo, a poucos metros do Parque do Ibirapuera. A área de 1 400 metros quadrados, que soma três lotes, foi adquirida em 1998 do Banco Itaú por 1,2 milhão de reais (5,2 milhões, em valores corrigidos). Dois anos depois, quando a empresa completou 20 anos, o empresário encomendou um projeto arquitetônico sob medida à empreiteira JHSF, que tem em seu portfólio prédios imponentes na capital paulista, como a sede do antigo Banco Santos.

A casa que hospedava a empresa de marketing esportivo foi derrubada para dar lugar a um edifício com pórtico de mármore, salões amplos com pé-direito alto e fachada de vidro que dão luminosidade ao ambiente. Quadros temáticos relacionados ao futebol, como o do artista Gustavo Rosa, logo na entrada à direita, e sofás muito amplos completavam o cenário. Na sala de Hawilla, chamava atenção uma bola usada na Copa do Mundo de 1962, assinada pelos jogadores da Seleção Brasileira da época.

Para espantar o “olho gordo”, o supersticioso empresário fez questão de colocar, próximo à porta de entrada da sede, um arranjo com sete raízes de plantas e muito sal grosso. Meses mais tarde, Hawilla comprou o terreno vizinho e, no mesmo estilo arquitetônico da Traffic, construiu uma produtora de vídeo, a TV 7, um investimento de 10 milhões de reais, em valores da época.


Havia dinheiro de sobra. Graças a isso, Hawilla seria aceito no mundo restrito da grã-finagem de São Paulo. Em agosto de 2011, foi um dos 600 convidados VIPs para o almoço de inauguração do novo hotel Fasano, grife da culinária paulistana, na Fazenda Boa Vista, na mesma Porto Feliz do centro de treinamento da Traffic. No cardápio, picadinho, arroz com castanha e ovo poché, preparados pelo chef francês Laurent Suaudeau, regado a taças de vinho, champanhe, caipirinha e clericot.

Nos negócios, o empresário aproveitava-se da penúria financeira dos clubes para avançar sobre a gestão das equipes. A Traffic FC administrava o futebol do Palmeiras (a parceria durou de 2008 a 2010) e do Ituano (entre janeiro de 2008 e maio de 2009), e detinha jogadores no Flamengo, Corinthians, Fluminense, São Paulo e Vitória, com lucros bastante elevados: em 2008, por exemplo, a empresa pagaria 1,5 milhão de dólares pelo passe do meia Everton e, dois anos depois, venderia o jogador por 10 milhões de dólares a um clube mexicano – um lucro de 650%. Em 2011, mantinha negócios com todos os clubes de futebol da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o que gerava inevitáveis questionamentos éticos.


Um exemplo concreto viria no fim do Brasileirão de 2008, quando o Vitória enfrentou o Palmeiras, clube parceiro da Traffic. Dois jogadores do time baiano, Willians e Marquinhos, já sabiam que no ano seguinte estariam no clube paulista e que, se o Vitória vencesse aquele jogo, desclassificaria a futura equipe para a Libertadores no ano seguinte. O jogo terminou 0 a 0.

Mas Hawilla dava de ombros às críticas da imprensa esportiva. Costumava atribuí-las à inveja de jornalistas de sua geração que, diferentemente dele, não haviam enriquecido com o futebol: “Mesmo que você trabalhe honestamente, com transparência e dignidade, como sempre foi feito aqui, eles falam. Uma meia dúzia de jornalistas esportivos. Acho que é mais inveja e rancor, porque, no fundo, eles querem profissionalização e sabem que trabalhamos bem”, disse certa vez.

O empresário havia sido bombardeado pela mídia em janeiro de 2009, quando o então ministro do Esporte, Orlando Silva, o nomeara membro do Conselho Nacional de Esporte, ligado à pasta. Silva, filiado ao Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, havia se aproximado da Traffic poucos meses antes – em junho de 2008, Hawilla foi um dos convidados para a festa de aniversário do ministro, em São Paulo. O empresário ingressou no órgão como “representante do desporto nacional”. Enquanto conselheiro, ele poderia, com os outros 21 membros, propor prioridades na aplicação de verbas ministeriais, emitir pareceres sobre questões esportivas nacionais e aprovar mudanças nos códigos da Justiça Desportiva. Além de atuar diretamente na organização da Copa de 2014 – na qual ele fatalmente teria negócios (como de fato teve). Uma raposa tomando conta do galinheiro? O então ministro não vê dessa forma. “Tínhamos a representação de atletas, árbitros, técnicos. Faltava o olhar do empresário. Ele enriqueceria o debate”, disse Silva.


Teixeira, Orlando e Hawilla.
Na época, a presença de Hawilla foi criticada pelo Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo e por membros do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). “Não acho que o conselho precise de empresários ligados a negócios esportivos. Precisa de gente que entenda de esporte”, disse o então presidente do sindicato, Rinaldo Martorelli.

A nomeação seria revogada em maio de 2009. Mas a amizade entre Hawilla e Orlando Silva permaneceu. O ministro estava em Porto Feliz, na inauguração do CT da Traffic, em março daquele ano, assim como o então governador José Serra e a nata da cartolagem brasileira: Ricardo Teixeira, Marco Polo del Nero, então presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), e seu vice, Reinaldo Carneiro Bastos.

Aliás, Hawilla convivia bem com gente de todos os espectros ideológicos, embora nunca tivesse se envolvido diretamente com a política, nem mesmo como financiador de campanha, ao menos em registros oficiais, com exceção de uma pequena doação à campanha bem-sucedida do deputado federal Edinho Araújo (PMDB) à Prefeitura de São José do Rio Preto, terra natal do empresário. Em 2010, Hawilla cedeu seu camarote no Morumbi para o ex-ministro José Dirceu assistir a um show de Paul McCartney, relevando o fato de o petista haver criticado os negócios da Traffic nos tempos em que era deputado.


José Serra e J. Hawilla
No entanto, era evidente a simpatia de Hawilla pela grã-tucanagem paulista, especialmente o conterrâneo Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, sem contar a amizade com aliados do PSDB, como Gilberto Kassab, hoje no PSD. Na campanha à Presidência da República de 2006, a Rede Bom Dia de Comunicações (rede de jornais de Hawilla no interior paulista) estampou um editorial na capa de suas quatro edições pregando voto em Alckmin contra Lula. O petista acabou reeleito.

Havia uma profunda sintonia entre Teixeira e Hawilla, seu sócio oculto, embora ambos tivessem personalidades bem distintas: o primeiro, explosivo, não raro grosseiro; o segundo, adepto das boas maneiras e da diplomacia. Água e óleo que, para desconfiança de muitos, se misturavam em meio a interesses financeiros comuns – ambos se entendiam apenas pela troca de olhares.

Teixeira era um operador do mercado financeiro que, mesmo sem muito interesse por futebol (seu esporte preferido é o turfe), chegou ao comando da CBF pelas mãos do sogro, o poderoso presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), João Havelange, que entregou a entidade à sanha do marketing esportivo e a transformou em uma máquina de fazer dinheiro – para a Fifa e para si próprio. Deu tão certo que decidiu fazer o mesmo no Brasil por meio do genro, um mineiro criado na Zona Sul do Rio com hábitos de playboy na juventude, casado com Lúcia, sua filha. Teixeira, que não havia passado de um lateral-direito esforçado no futebol de areia e que nunca administrara nenhum clube de futebol, de repente se via no comando da CBF.


A dupla Teixeira-Havelange personificou graves vícios que mancharam a imagem da administração do futebol brasileiro. É do poderoso chefão da Fifa uma das melhores definições do genro, que chegou a alimentar o desejo de assumir o comando da entidade com sede na Suíça, novamente com o auxílio prestimoso de Havelange, o “Rei Sol”: “Se a senhora um dia tivesse que definir a malandragem, no bom sentido”, disse uma vez à piauí, “ela se chamaria Ricardo Teixeira.”

Formulada em 2011, a frase parece premonitória da tempestade que cairia sobre a cabeça de Teixeira e Havelange meses mais tarde.

Mas, na noite de 17 de maio de 2010, uma segunda-feira, nada disso interessava. Hawilla gastou milhões numa festa no Hotel Unique, um dos mais sofisticados de São Paulo, para comemorar os 30 anos da Traffic. A lista de convidados era a prova do poder do empresário: além do onipresente Teixeira, Pelé, Galvão Bueno, Andrés Sanchez, Luciano Huck, Ronaldo Fenômeno. Da política, os tucanos Aloysio Nunes, Geraldo Alckmin, Vaz de Lima e Barros Munhoz; o cacique do PMDB Orestes Quércia; a petista Marta Suplicy e o então candidato a deputado Protógenes Queiroz, do PCdoB.


Entre tantos amigos ilustres, Hawilla, sempre gentil, esforçava-se para dar atenção a todos, em meio ao bombardeio de flashes das colunas sociais. Pelé, alvo natural da mídia, deixara de ser inimigo da máfia do futebol, e naquela noite lamentava não ter cursado marketing esportivo em vez de educação física: “Se tivesse feito, talvez estivesse trabalhando com ele [Hawilla]”, disse.

Entre doses de uísque e alguns canapés, os convidados assistiram ao show de um cover de Michael Jackson e, em seguida, a uma apresentação intimista de Lulu Santos, um dos cantores preferidos de Hawilla. O momento era de confraternização, mas nem assim o dono da Traffic perdia a oportunidade de fazer lobby por seus interesses.

Hawilla aproveitou a presença do ministro do Esporte e de Kassab, então prefeito de São Paulo, para pressionar Kassab a desistir do projeto de reforma do estádio do Morumbi para a Copa de 2014. De acordo com o empresário, a cidade deveria investir em um novo estádio para o mundial, mesmo pensamento de Teixeira – o próprio Hawilla havia intermediado um encontro semanas antes entre Kassab e Teixeira para tratar do assunto na fazenda do presidente da CBF, no Rio. Hawilla negou a existência da conversa. Mas aproveitou a festa para publicamente rasgar elogios ao prefeito paulistano: “O Kassab é a maior revelação da política brasileira nas últimas décadas”, disse.


Apenas duas semanas depois, os grandes amigos Hawilla e Teixeira conseguiriam fazer valer seus desejos. O prefeito, um são-paulino até então contrário à construção de uma nova arena na cidade, subitamente mudou de opinião, e o Morumbi perdeu a disputa. Com o apoio entusiasmado do corintiano Lula da Silva, já no ano seguinte, 2011, a Odebrecht iniciaria a construção da Arena Corinthians em Itaquera, na Zona Leste da capital. A obra, orçada inicialmente em 400 milhões de reais, foi concluída com atraso, às vésperas da Copa do Mundo, a um custo total de 1,2 bilhão de reais, parte financiada com dinheiro do BNDES.

O Itaquerão, como seria conhecido, entrou na mira da Lava Jato no início de 2017, quando delatores da Odebrecht disseram ter pago propina para o caixa dois de campanha de dois petistas: 50 mil reais para Vicente Cândido e 3 milhões de reais para Andrés Sanchez, o ex-presidente do Corinthians, presença marcante no jantar dos 30 anos da Traffic – ambos negam o recebimento do suborno. O próprio Marcelo Odebrecht questionou a utilidade da obra em depoimento aos procuradores do Ministério Público Federal: “É um absurdo. Você faz o estádio para um dia e depois tem que desmontar um bocado de coisas.”


As investigações da Lava Jato em relação à Arena Corinthians estão em andamento.
Kleber Leite era um dos convivas mais expansivos do banquete de 30 anos da Traffic. “Não poderia perder um show intimista do meu querido amigo Lulu.” Sempre simpático e sorridente, o ex-presidente do Flamengo mantinha com Hawilla uma amizade sólida que vinha do jornalismo esportivo – ambos haviam passado pelo rádio nos anos 70, Hawilla em São Paulo, Leite no Rio, e depois migraram juntos para o marketing no futebol. O primeiro fundou a Traffic, em 1980, e o segundo, a Klefer Produções e Promoções Ltda., três anos mais tarde.

Em vez de concorrerem entre si, uniram forças e montaram uma sociedade informal: o carioca tornava-se assim uma espécie de extensão de Hawilla no Rio de Janeiro. “Eu tenho pelo presidente da Traffic, J. Hawilla, o maior apreço possível, o tenho como um amigo querido. […] Uma pessoa não chega aonde o Hawilla chegou de graça, não chega subornando as pessoas, não chega enganando as pessoas. Chega por meio de trabalho, de competência. Ele é, inegavelmente, um gênio na matéria”, disse Kleber Leite em depoimento à CPI da CBF/Nike, em 2001.


Teixeira e Nuzman
Em março de 1985, Carlos Arthur Nuzman, presidente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), que seria preso em 2017, acusado de pagar propina para garantir o Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos, cedeu à Traffic “todos os direitos de organização, realização, promoção, exploração comercial e publicitária e direitos de transmissão para o Brasil e exterior de todas as competições de voleibol nacionais e internacionais”. Em troca, a Traffic pagaria à CBV 40% “do total líquido apurado em cada evento”. Na cláusula sexta, a empresa cedia à Klefer 50% dos direitos e obrigações do contrato.

Mas o acordo Traffic-CBV teve vida curta: seria rescindido em outubro de 1985 por falta de patrocínio – na ocasião, Nuzman declarou-se “atônito, decepcionado e chocado” com a atitude das empresas. Já a dobradinha Hawilla-Kleber permaneceu sólida.

Ambos se cumprimentavam com um beijo no rosto. O carioca costumava passar temporadas na mansão do amigo em São José do Rio Preto (SP) e era chamado de “tio Kleber” pelos filhos de Hawilla, Stefano, Rafael e Renata. A Klefer tinha parceria comercial com o Flamengo quando Kleber Leite assumiu a presidência do clube, em 1995. Para evitar questionamentos por parte da imprensa, ele encerrou o contrato com a sua empresa, mas logo em seguida fechou parceria de marketing entre o clube rubro-negro e a Traffic.


Em 1997, também na gestão de Leite no Flamengo, a empresa de Hawilla obteve um contrato mais do que generoso para cuidar das placas de publicidade do Maracanã. Sem licitação, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), que administrava o estádio, escolheu a dedo quatro empresas de marketing esportivo, “Traffic incluída”, para apresentar suas propostas no prazo de 24 horas. A empresa de Hawilla ofereceu 821 700 reais anuais por dezoito placas do estádio, ou 45 600 reais por painel, em valores da época. A Brilho Publicidade & Promoções ofertou 806 mil reais, mas prometeu aumentar a oferta em 48 horas. A Suderj, porém, ignorou a proposta e declarou vencedora a Traffic. Apesar do valor ligeiramente maior que o da concorrente, a Traffic propôs um valor baixíssimo se comparado ao que a Suderj faturara com as outras 22 placas que negociava diretamente com os patrocinadores naquele ano: 3,2 milhões de reais. Prejuízo para os cofres públicos, lucro certo para a Traffic.

Nos quatro anos em que Kleber Leite ficou à frente do Flamengo, Hawilla se tornaria uma espécie de conselheiro informal do clube. Foi o empresário paulista que indicou o amigo em comum Vanderlei Luxemburgo como treinador da equipe, em 1995, no galáctico time rubro-negro que tinha Romário, Edmundo e Sávio, mas ganhou apenas uma modesta Taça Guanabara. Jotinha soube retribuir a gentileza do “tio Kleber”: anos depois, o parceiro do Rio seria nomeado vice-presidente da empresa paulistana. A confiança entre eles parecia inabalável.

A festa da Traffic seguia perfeita, exceto por um detalhe: Teixeira e Ronaldo Fenômeno não se falavam. Estavam rompidos desde a Copa do Mundo de 2006, quando, após a eliminação da Seleção Brasileira, derrotada pela França nas quartas de final, o cartola criticou publicamente as farras noturnas protagonizadas pelo centroavante durante a competição na Alemanha. Três anos depois, Teixeira teria vetado a convocação do jogador para a Seleção, ignorando sua ótima fase no Corinthians. Por tudo isso, não havia clima para uma reaproximação naquela noite.


Teixeira e Ronaldo Fenômeno, na festa de Hawilla.
Acompanhado de dois seguranças e de Bia, então sua mulher, Ronaldo ignorou completamente a presença do presidente da CBF e sentou-se a uma mesa no fundo do salão, logo após o show do cover de Michael Jackson. Com uma taça de champanhe na mão, assistiu à apresentação seguinte, de Lulu Santos.

Hawilla, parceiro do ex-jogador nos torneios de golfe no São Paulo Golf Club, notou a saia justa e o burburinho. Resolveu entrar em ação. Conversou longamente com Teixeira num canto, depois foi até a mesa do atacante. Passados alguns minutos, Ronaldo cruzou o salão, chamou o cartola e lhe deu um longo e forte abraço. Teixeira retribuiu o carinho com um beijo no rosto do jogador. Graças a Hawilla, a paz estava selada.

“Foi a imprensa que brigou ‘ele comigo e eu com ele’”, disse o cartola, demonstrando sinais de leve embriaguez. “Quando duas pessoas se abraçam e se beijam, isso quer dizer o quê? Que elas se gostam. Precisa de mais alguma coisa?” Sorridentes, ambos posaram para fotos. Flashes pipocavam por todo canto. Já passava da meia-noite e a festa se encaminhava para o fim.

Quatro anos depois do grande baile da Traffic, a empresa ainda influenciava o marketing esportivo, mas havia sofrido fortes abalos em contratos da Copa América e da Copa do Brasil. Nem por isso o acordo firmado entre Hawilla e Teixeira foi interrompido, embora já não houvesse a ampla confiança mútua de anos anteriores.


Ricardo Teixeira estava em sua casa na Flórida quando o celular tocou. Era Hawilla, querendo marcar um encontro. Como não se viam havia tempos, combinaram um jantar no Smith & Wollensky, restaurante à beira-mar em Miami. Teixeira, que deixara a CBF em março de 2012, em meio a fortes suspeitas de corrupção, encontrou o Hawilla cordato de sempre, mas notou que ele estava um pouco tenso. A conversa começou amena, entremeada de algumas taças de vinho. De repente, o empresário começou a rememorar episódios do passado de ambos. Hawilla falava de dinheiro, lícito e ilícito, que correra na relação Traffic-CBF. Uma conversa estranha para o ambiente e as circunstâncias. Enquanto o velho parceiro falava, Teixeira olhou de soslaio para as mesas no entorno. Nada anormal, exceto o movimento dos garçons, que a todo momento passavam próximos à mesa deles.

Com toda a malandragem que lhe imputava o ex-sogro Havelange, Teixeira farejou a arapuca, e com razão: já delator, Hawilla era um grampo ambulante, cercado de agentes do FBI disfarçados de garçons. Subitamente o rosto do ex-cartola ruborizou. Encarou o empresário com os olhos cheios de raiva, socou levemente a mesa e levantou. Dedo em riste, apontou-o para o antigo parceiro: “Filho da puta!”

E foi embora, para espanto de Hawilla. Chegara, enfim, o divórcio, antes mesmo daquele fatídico 27 de maio de 2015, quando o FBI deflagrou a operação que desnudaria a máfia do futebol e o Brasil assistiria, perplexo, à confissão de graves crimes pelo magnata-que-se-dizia-honesto José Hawilla.

“Ele não merecia isso”, lamentava Galvão Bueno a amigos. Era o anticlímax dos tempos de Porto Feliz.

Na manhã daquele mesmo dia 27, a Polícia Federal invadiu a sede da Klefer no Rio. Cumpria mandados judiciais de busca e apreensão a pedido da Justiça norte-americana. Os agentes apreenderam computadores e coletaram milhares de páginas de documentos – parte seria remetida aos Estados Unidos. A Justiça brasileira também quebrou os sigilos bancário e fiscal de Kleber Leite, além de bloquear seus bens.

Semanas depois, o empresário obteve um habeas corpus no Tribunal Regional Federal (TRF) da 2ª Região que anulou toda a operação policial. Mesmo assim, não perdoaria o ex-amigo Hawilla, até porque, assim como Teixeira, já percebera algo estranho nas intenções e nas palavras do dono da Traffic antes de o Fifagate vir à tona: “Hawilla, me desculpa, presta atenção”, disse numa das conversas interceptadas pelo FBI. “Com base na nossa amizade, eu passei a vida toda contigo. E eu confio em você completamente. Nunca te questionei nada. Mas você tá sendo um tremendo cuzão! Como você desconfia de mim?”

Em depoimento à CPI da Máfia do Futebol na Câmara dos Deputados, em junho de 2016, Kleber Leite soltou o verbo contra Jotinha, que passou a ser “o senhor J. Hawilla”: “O problema do senhor J. Hawilla é o seguinte: eu, se advogado fosse, e se, porventura, um dia tivesse a necessidade de enfrentamento com ele, a primeira coisa que eu pediria seria um teste de sanidade mental com relação a ele. Eu duvido que ele esteja no gozo pleno de sua sanidade mental. […] O senhor Hawilla é uma pessoa de duas personalidades. Ele é uma pessoa extraordinária, delicada, doce, amável, meiga, amiga, quando não há qualquer interesse financeiro envolvido. Quando há dinheiro envolvido, é outra figura completamente diferente. Eu diria que há dois Hawillas, um normal, quando não há dinheiro envolvido, e outro, quando há dinheiro envolvido, é o ser mais materialista que eu já vi na minha vida.”


O empresário carioca já havia atacado o antigo parceiro em seu blog na internet: escrevera que “a cabeça” de Hawilla “deve ter sido afetada” pelo câncer na garganta (curado em meados de 2014). Procurado, Leite não quis se manifestar. E justificou-se: “Esta é a mais decepcionante página na minha história de vida com relação a um ser humano. Como não está em mim odiar, melhor esquecer. Em homenagem e respeito à família do seu personagem, nada tenho a declarar.” À imprensa, Ricardo Teixeira também atacaria o ex-amigo: “Ele está completamente descompensado e quer solucionar o problema dele.”

Os Hawilla assistiram a tudo perplexos e calados. A discrição em momentos difíceis, afinal, era parte dos ensinamentos que Fuad e Georgina, pais do empresário, legaram aos filhos e aos netos.

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Sobre os autores:

Allan de Abreu é repórter da Revista Piauí, autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela Editora Record.


Carlos Petrocilo é editor de esportes do Diário da Região, em São José do Rio Preto.