segunda-feira, 9 de maio de 2016

A biografia de Tite

Adenor Leonardo Bachi, prazer, Tite. O apelido pelo qual é conhecido surgiu graças a uma confusão feita por Luiz Felipe Scolari – o Felipão – no final da década de 70. O técnico mais “badalado” no momento do futebol brasileiro ganhou sua primeira biografia: “Tite” (Panda Books). Campeão mundial pelo Corinthians, cotado para ser o substituto do atual técnico da seleção brasileira, Tite é considerado pela grande maioria (especialistas ou não) um dos melhores técnicos do Brasil.

Camila Mattoso, jornalista autora da biografia, ouviu quase uma centena de fontes para traçar este perfil onde são revelados, além da trajetória profissional do técnico, episódios inéditos dos bastidores do futebol e de sua vida pessoal.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo, sinopse e um trecho da obra, gentilmente cedido pela editora.


Sinopse: (da editora)

Conhecido pelo bem-sucedido trabalho com o Corinthians, o técnico Tite foi procurado duas vezes pela CBF, em 2015, para assumir o comando da Seleção Brasileira. O furo é revelado pela jornalista esportiva Camila Mattoso, em Tite, livro recém-lançado pela editora Panda Books.

Gaúcho de Caxias do Sul, Adenor Leonardo Bachi é, hoje, considerado um dos melhores técnicos de futebol do Brasil. Responsável pela guinada do Corinthians na década de 2010, Tite já conquistou no comando do timão nada menos do que seis títulos, entre eles a tão sonhada Libertadores e o Mundial de Clubes.

Dividido em 13 capítulos – número da sorte de Tite –, o livro traça um perfil do treinador. A linguagem leve e descontraída que domina o texto da autora é escancarada logo no sumário: os capítulos são nomeados por palavras inventadas, todas terminadas com o sufixo “dade”. Os mais ligados à história de Tite entenderão: trata-se de uma piada com o termo “treinabilidade”, usado por ele numa entrevista coletiva em 2010, e que acabou se tornando motivo de gozações.

Graças às 84 fontes entrevistadas por Camila Mattoso, são revelados também episódios inéditos dos bastidores do futebol, como a vez em que Jorge Henrique chegou bêbado no último treino antes da viagem para o Mundial de Clubes, em 2012, e detalhes da vida pessoal de Tite. O treinador é conhecido por seu temperamento reservado, calmo e ponderado, mas já se envolveu em desavenças com personalidades do futebol, como os jogadores D’Alessandro, Adriano Imperador, o jornalista Galvão Bueno e o próprio Felipão. Diferentemente do que muitos pensam, não foi a declaração polêmica de Felipão em relação à eliminação do Corinthians pelo Tolima, na pré-Libertadores de 2011, que pôs fim à amizade.

De atacante da Portuguesa à glória no comando do Corinthians, o caminho do gaúcho Tite não foi curto. Desde criança, Ade – apelido que ganhou da família – gostava de futebol e passava horas jogando com o irmão Miro. Quem descobriu seu talento com a bola foi Luiz Felipe Scolari, no final da década de 1970. Ade era o camisa 10 de sua equipe na escola quando Scolari, que na época já se aventurava como treinador, vidrou os olhos no garoto. Alguns anos mais tarde, os dois se trombaram e o encontro resultou num teste para jogar no Caxias, do Rio Grande do Sul. O apelido Tite veio daí: Felipão lembrou da fisionomia do camisa 10, mas confundiu seu nome com um meio-campista da mesma equipe, o Tite. Chamou Ade de Tite e, com a confusão, surgiu o apelido que marcaria toda sua trajetória no futebol.

Tite foi aprovado no teste de Felipão, e as portas do futebol abriram-se para ele. Logo foi chamado para atuar no Grêmio, seu time do coração, mas em uma semana fugiu da concentração e voltou para casa. Mais tarde, jogou na Portuguesa e, então, no Guarani. Aos 27 anos, depois de lesões graves nos joelhos e sete cirurgias, encerrou prematuramente sua carreira de jogador de futebol. Treinou, então, São Caetano, Grêmio, Atlético Mineiro, Palmeiras, Internacional, os árabes Al Ain e Al Whada e, é claro, o Corinthians, onde alavancou seu nome. Na segunda passagem pelo Timão, de 2010 a 2013, o técnico com mais vitórias na história do clube conquistou um Brasileiro (2011), um Paulista (2013), uma Libertadores (2012), um Mundial (2012) e até uma Recopa (2013).

O livro traz ainda um caderno de fotos com registros dos tempos da Portuguesa (1984), da conquista da Copa do Brasil no comando do Grêmio (2001), do trabalho com o Internacional (2008-2009) e da bem-sucedida atuação no Corinthians (2010-).

Trecho de capítulo referente 
aos bastidores do “caso Adriano (Imperador)”.

“– Não era faz de conta. E eu era muito claro: “Se algum dia vocês chegarem aqui mamados, fala com a gente. Uma vez ou outra, é o tipo de coisa que acontece. A gente deixa separado para fazer um treinamento depois” – conta Tite. – “Fala para mim: ‘Enfi­ei o pé na jaca. Estou puto porque queria jogar e por isso atrasei’. Qualquer coisa que seja.” Não importa, mas tem que ser leal. É uma regra geral que vale para todos.  (...)

Adriano, quando descoberto, era mais franco.

– Ele era muito franco. Acho que só tive tanta paciência com ele porque era autêntico. Falava tudo na frente. Chegava e dizia: “Não tenho condição hoje, não vai dar”. O extracampo dele era realmente muito complicado – lembra Tite.

(...)

– Nós nos afrontamos. Havia outras pessoas por perto. O Edu Gaspar estava. Eu disse: “É só eu e ele aqui, e ninguém se mete”. E eu aumentei o tom de voz e falava: “Tu tá errado, tu faz isso, tu faz aquilo”. Ele respondia, aumentando o tom de voz também, um perto do outro.
Tentava falar mais alto para fazer Tite recuar.

– Ele queria me convencer de que eu estava errado. Dizia que tava se dedicando, que tava na luta. Que não foi no treino porque não deu, que não sei lá o quê... Que era humano. Mas ele não tava tentando – termina Tite.

O Corinthians rescindiu o contrato em março de 2012, depois de 67 atrasos, contando treinos e sessões de ­fisioterapia. (...)”

Sobre a autora:
Camila Mattoso é jornalista e começou sua carreira na Rádio Bandeirantes. Morou em Londres por um ano, onde trabalhou com Andrew Jennings, o repórter da BBC que ajudou o FBI a desvendar o escândalo da Fifa. Ganhou projeção fazendo matérias e entrevistas sobre os bastidores dos clubes, das federações e da CBF. Cobriu a Olimpíada de Londres pela ESPN, a Copa das Confederações 2013 pelo Lance! e a Copa do Mundo 2014 pela ESPN. Atualmente é repórter do caderno de esportes da Folha de S.Paulo