quinta-feira, 24 de março de 2016

Cruyff: mais um craque que se vai

Mais uma grande estrela do futebol mundial nos deixou. Johann Cruyff era astro de uma seleção revolucionária, a Holanda, de 1974 e seu “carrossel”. A “laranja mecânica” encantou o mundo e fez de seu estilo e tática de jogo, objeto de estudos e pesquisas eternas.

Cruyff era polêmico, também. Virou técnico, do poderoso Barcelona. E está na galeria dos imortais do futebol mundial.  

Literatura na Arquibancada resgata, abaixo, capítulo do livro sobre Cruyff, em A Magia da Camisa 10 (Verus Editora, 2006). O mais curioso nisso é que Cruyff não jogava com a 10, mas com a 14. Você entenderá porque Cruyff era um legítimo 10.

A Magia da Camisa 10
Por André Ribeiro e Vladir Lemos

Nascido em 25 de abril de 1947, no pequeno bairro de Weidestraat, próximo de Amsterdã, Cruyff era filho de uma família pobre. Hermanus, seu pai, vendia frutas e legumes em uma barraca, enquanto que a mãe, dona Petronella, era uma das faxineiras do Ajax, clube de futebol mais importante em Amsterdã.

Hendrik Johannes Cruijff, foi descoberto por acaso. Corria o ano de 1966 e Vik Buckingham, perto de deixar o cargo de treinador no clube, se encantou com o toque de bola do pequeno Johann. Colocou-o no time, e passou o comando para Rinus Michels, um ex-centroavante do Ajax de porte físico imponente. Rinus, integrante de uma escola de treinadores dispostos a provar que era possível alargar a maneira de encarar o futebol, fez de Cruyff e sua genialidade, ótimos instrumentos para colocar em pratica teorias revolucionárias.

Nós pés de Cruyff o futebol conquistou a qualidade de ser imprevisível. Mas não foi fácil para o menino chegar até ali. A família não tinha dinheiro nem mesmo para comprar um par de chuteiras. O jeito era jogar bola com os amigos calçando sapatos, que não duravam duas semanas nos pés do pequeno craque:

- “Meu pai se irritava, e chegou a me castigar algumas vezes. Até que um dia decidiu comprar sapatos para jogar futebol, bem resistentes. Tiraram as travas e reforçaram a sola. Como não rasgavam, podia usar o tempo todo”.

Calçando sapatos ou chuteiras, o futebol de Cruyff era grande. Com apenas 10 anos foi escolhido entre 300 meninos para jogar nas categorias de base do Ajax. A felicidade durou pouco. Quando completou 12 anos, seu pai morre e a mãe é obrigada a vender a barraca de frutas que garantia o sustento da família. Cruyff e seu irmão passam a ter que ajudar a pagar as contas do final de mês. O pequeno Johann encontrou o útil e o agradável. Como morava a meio quilômetro do campo do Ajax acabou praticamente adotado por um amigo da família que cuidava do estádio. Ganhava alguns trocados para ajudar a tratar da grama, para colocar as bandeiras nas laterais do campo, cuidar dos uniformes e limpar as chuteiras de outros jogadores.

Vivendo o dia-a-dia do clube, Cruyyf se projetou de forma meteórica entre os jogadores das categorias menores. Aos quinze anos, enfrentava adversários maiores, e fazia da técnica apurada uma arma  para vencê-los. Foi nesta época que ganhou o apelido que carregaria para o resto da vida, “El Flaco” (o magro):

- “Eu era muito, muito magro. Não pesava nada. A única forma de dominar o jogo era com a técnica. Em minha primeira partida tinha tão pouca força que não me deixavam nem mesmo bater  os escanteios porque a bola não chegava ao gol”.

Se não tinha força, a técnica era inigualável. Em 1964, Cruyff estreava no time principal e daquele momento em diante, estava em campo para começar a mostrar tudo que aprendera. Na estreia perdeu para o Groningen por 3 a 1, mas foi dele o único gol do Ajax. Começava a ser escrita neste momento a trajetória de um dos melhores jogadores do século 20. 

Não era à toa que nos momentos que precederam o encontro entre Brasil e Holanda no mundial de 74, a comissão técnica do time brasileiro estivesse apreensiva.  O homem do ataque mágico do Ajax e capitão da seleção, já era o principal jogador da história da Holanda, e não por acaso. Em 1969, além dos títulos da liga, havia se convertido no maior goleador do país marcando 33 gols em 49 partidas e levado pela primeira vez um time holandês a uma final da Copa da Europa, título que conquistaria dois anos depois no majestoso estádio de Wembley, em final contra o time grego, Panatinaikos. 

O jogador de estatura pequena, à primeira vista inadequada para as duras exigências do futebol, se tornava mais imponente a cada partida. Entre 1971 e 1972, como se não bastasse vencer a liga pela quinta vez, e ser tri da Copa da Holanda, Cruyff, escreveria no estádio de Kuip, em Roterdan, outro momento histórico. Foram dele os dois gols da vitória sobre a Inter de Milão que deram ao Ajax a segunda Copa da Europa consecutiva, e que ainda levariam o time a ser campeão Mundial Interclubes, contra o Independiente, da Argentina.

Ao derrotar a Juventus de Turim, em 1973, e se sagrar campeão europeu pela terceira vez o Ajax passou a representar a máxima potência do futebol mundial. Cruyff conquistava o segundo troféu de melhor jogador europeu de sua carreira. O fato de ter sido vetado como capitão do time em 1973, por ter se recusado a jogar contra o Bayern de Munique, iria acelerar a sua saída para o futebol espanhol. Uma longa negociação marcou a transferência. O clube queria negociá-lo com o Real Madrid, mas Cruyff, que tinha fama de rebelde, queria jogar exatamente com a camisa do maior rival madrilenho. Transformou-se no jogador mais caro da Liga espanhola com os 60 milhões de pesetas pagos pelo Barcelona, além do salário mensal de 12 mil dólares. 

Gastar tanto dinheiro com um único atleta justificou-se bom negócio para o clube catalão. A primeira temporada com a camisa do Barcelona seria a melhor de Cruyff no país. O time estava na penúltima posição, e com o talento de Cruyff, voltaria a ganhar a liga espanhola depois de 14 anos. Entre os feitos, uma das derrotas mais humilhantes já sofridas pelo Real Madrid no estádio Santiago Bernabeu. Uma goleada por 5 a 0 para a qual Cruyff contribuiu com um gol antológico marcado pela habilidade e inteligência.         

No dia 3 de julho de 1974, o símbolo maior do futebol holandês estava a uma partida da final da Copa do Mundo. Os tricampeões brasileiros sabiam que para chegar à vitória, no Westfalen Stadion teriam que derrotar algo novo. Diante do “carrossel holandês” era impossível encontrar a compreensão exata do futebol, a rotação dos jogadores dava a impressão de que os holandeses tinham descoberto a fórmula para estar em todos os lugares do campo. Após vencer o Brasil por 2 a 0, os holandeses surpreenderiam o mundo ao perderem para a Alemanha na final.

Cruyff não jogaria outra Copa. Em 1978, não foi à Argentina como forma de protesto ao governo totalitarista do país-sede, mesmo ano em que deixou o Barcelona para jogar nos Estados Unidos. Trocar o Barça pelo futebol americano parecia loucura, mas a verdade é que fora dos gramados, Cruyff mostrou-se um fracasso. Gastou quase toda a fortuna que ganhara com o futebol na criação de porcos. O negócio quebrou e o jeito foi aceitar a proposta de jogar nos Estados Unidos. Três anos depois, regressou à Espanha, onde jogou, apenas, alguns meses pelo clube Levante. No mesmo ano, em 1981, volta a jogar pelo Ajax onde é novamente campeão da Liga holandesa. Nas duas temporadas seguintes, 1982 e 1983, Cruyff está irreconhecível dentro de campo. A morte de seu pai adotivo era a justificativa para a queda de rendimento. O presidente do Ajax, não entendia assim. Preferiu disparar acusações contra o craque, e o pior, afirmar que Cruyff já não tinha qualidade suficiente para jogar a primeira divisão do futebol holandês. Deve se arrepender até hoje. Cruyff deu o troco, na mesma moeda:

- “Não há nenhum presidente que me diga o que tenho que fazer. Troquei o Ajax pelo Feyenoord. Com a raiva que sentimos, pode-se chegar muito longe”.

E bota longe nisso. Cruyff sabia o que estava fazendo quando decidiu vestir a camisa do maior rival do Ajax. Marcou 13 gols, conquistou a Liga, a Copa, e aos 37 anos após receber novamente o título de melhor jogador da liga holandesa decide encerrar a carreira.

Como alguém que não tem o poder de se separar do futebol, após a saída triunfante dos gramados, Cruyff passa a trabalhar como diretor técnico do Ajax, em 1985. Nos três anos seguintes, vira o técnico do clube onde construiu a carreira. Mais do que títulos, as equipes formadas pelo lendário jogador holandês são o reflexo do estilo brilhante que ele um dia mostrou com a bola nos pés. Na primeira temporada como treinador, o ataque do Ajax marca 120 gols em 34 partidas. Em 1986, é reconhecido pela conceituada revista World Soccer Magazine, como o melhor técnico do mundo.

A partir de 1988, Cruyff aceita o desafio de dirigir o Barcelona, uma das maiores equipes da Europa. O clube catalão estava enterrado em uma grave crise política, com os jogadores pedindo a cabeça do presidente do clube, José Luis Niñez. Cruyff contornou a crise e na primeira temporada no Barça montou um ataque que atingiu a marca de 80 gols. Para atingir este objetivo, usou o senso tático para tirar o máximo possível dos jogadores, e sempre exigiu deles aquilo que nunca deixou faltar enquanto esteve em campo, um toque de bola primoroso. Acreditando em estabelecer uma mentalidade e não apenas um padrão de jogo, pôs fim a hegemonia do rival Real Madrid, na temporada 90/91. É neste período que o Barcelona de Cruyff ganha a fama de “Dream Team”. Brilham as estrelas do búlgaro Stoichkov, do holandês Koeman, do espanhol Guardiola e do brasileiro Romário.

Em qualquer posição, Cruyff parecia fazer questão de correr riscos. Dizem até, que certo dia, quando ainda dirigia o time catalão aceitou dar folga ao genioso atacante Romário, caso ele marcasse três gols diante do Real Madrid. Depois do combinado, Romário na mesma noite embarcou para o Brasil, e Cruyff colocou no currículo nova goleada por 5 a 0 no Real Madrid, dessa vez, como técnico.

Cruyff foi responsável por grande parte da magia daquela década. O fato interessante é que o jogador símbolo do “futebol-total” considerado por muitos a mais revolucionária visão tática do jogo, não carregava o número 10 nas costas. Desde que ganhou o primeiro título com as equipes menores do Ajax, o menino do subúrbio pobre de Amsterdã fez questão de entrar em campo com o numero 14 nas costas. Para Cruyff o número escolhido eternizava a idade que tinha quando descobriu a emoção de se tornar campeão. Não deixava de ser uma metáfora também, afinal, no tipo de futebol praticado por Cruyff e seus companheiros as posições não eram fixas. Com ele em campo a magia da camisa 10 estava, na verdade, escondida sob o número 14.         
               
Se a magia da camisa 10 existe, a estrela de Cruyff não poderia ser ofuscada por nenhum outro craque do planeta na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, mesmo sabendo que o número que utilizava não respeitava a mística consagrada pelo rei do futebol.