quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A Esfera como Metáfora

Uma obra de referência para pesquisadores, jornalistas e estudiosos do futebol e da literatura esportiva brasileira. É o que o jornalista e professor Edônio Alves Nascimento acabou realizando quando apresentou em 2011 sua tese de pós-graduação em Estudos da Linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

A Esfera como metáfora: Representações do futebol no campo da literatura (editora Multifoco) virou, merecidamente, mais um livro fundamental para a história da literatura esportiva.

A ideia central desse amplo estudo é mostrar quando e como o futebol tornou-se um tema recorrente na literatura brasileira.

Sinopse (da editora):

Nelson Rodrigues
Eis aqui uma ampla investigação do futebol no Brasil tomando a Literatura como via de sua representação como linguagem. O autor expõe uma visão panorâmica da produção literária desse tema no País, no gênero conto de ficção, e ao mesmo tempo traz foco para alguns autores representativos dela, tais como os escritores Mário Filho; José Lins do Rego; Nelson Rodrigues e Lima Barreto, entre outros. O livro mostra que há uma homologia entre a maneira como o futebol no Brasil vai historicamente ganhando estilo – a ponto de formarmos uma escola brasileira do jogo – e a forma como nossos autores vão tratando o tema, elaborando, também, uma “maneira brasileira” de narrar literariamente o futebol.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo (e agradece desde já ao autor pela cessão) o texto de apresentação da obra.

“Um vazio assombroso; a história oficial ignora o futebol. Os textos de história contemporânea não o mencionam, nem de passagem, em países onde o futebol foi e continua um símbolo primordial de identidade coletiva.”
Eduardo Galeano

“Lotado: aqui dentro está um país inteiro!”
(Frase escrita no ônibus da Seleção Brasileira de futebol que disputou a Copa do Mundo da África do Sul em 2010)

 
“Desde que em 1942 o crítico literário Álvaro Lins fez a ligação da história de um jogador de futebol com a história da entrada do próprio jogo como tema de um romance da literatura brasileira (Água-mãe, de José Lins do Rego) uma questão na área dos estudos literários vem se impondo a uma constatação: como e em que medida o futebol se reflete na literatura brasileira, se este esporte, hoje de caráter e extensão nacionais, ainda não foi capaz de interessar os autores brasileiros na medida correspondente ao prestígio e à penetração que alcança nas camadas da população brasileira?

Essa inquietação atualíssima – embora um tanto já atenuada pelo volume cada vez mais crescente de novas publicações sobre o tema –, exposta ao público brasileiro em 1967 pelo jornalista Mário Pedrosa a partir de uma incitação crítica do escritor e tradutor Paulo Rónai, é de certa maneira a idéia motriz do presente trabalho, assim como o foi também para a iniciativa de Pedrosa em produzir e publicar a primeira tentativa de inventariar a produção literária brasileira sobre o tema do futebol em nossas letras.

Publicado em 1967, o seu livro Gol de letra é uma espécie de antologia que reúne, por critérios editoriais subjetivos e pouco críticos, textos produzidos sobre o futebol nos gêneros conto, romance, teatro, poesia, artigos, crônicas e excertos. Ainda assim – mesmo que seu trabalho não tenha obedecido a julgamentos críticos e historiográficos rigidamente acadêmicos – estava dado o pontapé inicial para uma futura avaliação mais sistemática e criteriosa da presença do futebol na literatura brasileira, intento que pretendemos realizar aqui, ainda que abrangendo, apenas, o gênero conto, dada a extensa lacuna do assunto na historiografia literária nacional.

Esse nosso trabalho, portanto, tem o objetivo manifesto de estudar o jogo de futebol no Brasil enquanto fato cultural e estético, tomando a Literatura e o Jornalismo, instâncias consagradas de representação desse esporte na comunicação social, como seu campo privilegiado de análise. A ideia central do estudo ora proposta é mostrar quando e como o futebol tornou-se tema recorrente na literatura brasileira, partindo inicialmente da sua abordagem jornalística, documentalista, referencial e ensaística, portanto – porque foi através dos jornais que o tema tornou-se literário – até chegarmos a uma visão, digamos, estética do jogo (o fruir do seu prazer através da linguagem), sendo sua representação literária o foco principal de nossa atenção.

Diante, pois, da necessidade de continuar esse trabalho (iniciado por Mário Pedrosa num outro âmbito) de dar visibilidade e legitimidade acadêmica à produção literária que tematiza o futebol, junto com a preocupação de estudá-la à luz das categorias, conceitos e métodos fornecidos pelas modernas correntes das teorias literárias e jornalísticas, é que apresentamos a oportunidade de empreendermos uma análise extensiva da parte representativa do conjunto dessa produção, particularizada nas obras de caráter ficcional que de outra parte também compõem o conjunto geral da literatura brasileira.

Nesse percurso, pretendemos também, por questões que explicitaremos oportunamente, empreender uma análise intensiva e vertical na produção de alguns autores que consideramos fundamental para o tratamento ficcional do tema do futebol em nossas letras. Autores que se expressaram em diversos gêneros de escrita (notadamente os que ligam o campo do jornalismo ao da literatura) os quais optamos por abordar no nosso estudo pelos motivos que explicaremos ao fim do primeiro capítulo deste trabalho.

Para cumprir tal fim, pensamos estruturar nosso trabalho de maneira que ele pudesse proporcionar uma abordagem que relacionasse metodologicamente produção literária e produção social; a escrita estética dos escritores e a escrita histórica dos atores sociais que, num espaço social determinado – uma sociedade que incorporou o futebol como jogo cultural predominante desde o início do século XX, caso da brasileira – inevitavelmente se imbricam e o fazem a tal ponto que uma dessas esferas necessariamente se reflete na outra, o que se dá por meio de um movimento dialético em que não raro a representação literária se volta para a representação social e vice-versa.

Neste contexto, tomamos o futebol aqui não apenas como um jogo em si, mas – e principalmente – como uma grande metáfora da vida social; um grande sistema de comunicação que, por encerrar uma verdadeira metalinguagem da cultura brasileira, forma, a partir de sua estrutura lúdico-competitiva de caráter essencialmente simbólico, um conjunto de sentidos e significados que comunica para além da sua mera visualidade objetiva e imediata; para além da sua realidade material como jogo tomado no seu sentido estritamente esportivo.

Sendo assim, resolvemos, por isso mesmo, tomar como a operacionalidade teórica básica do trabalho a mobilização de dois conceitos fundamentais: a ideia de representação literária da vida cotidiana aliada à noção de representação social, ambas categorias devidamente aplicadas à nossa análise do fato literário vinculado ao tema do futebol, o que deverá compor a nossa mirada histórica sobre a literatura brasileira produzida sobre ou em torno dessa questão.

Uma hipótese operativa foi por nós aventada no que concerne à abordagem proposta por esse nosso estudo: a ideia de que por ser o futebol um jogo que dadas as características intrínsecas e estruturais que o encerram, sua dimensão comunicativa exigiria, no nível de sua representação simbólica - no caso, literária -, narrativas que articulassem ou considerassem essas mesmas características (a magia, a imprevisibilidade, a surpresa, a beleza etc.) que, definidoras do jogo no seu conjunto, são também pertencentes à esfera do estético – da arte, por extensão.

Neste sentido, temos a suposição de que no caso das narrativas sobre o futebol brasileiro produzidas por nossos escritores, no longo percurso que vai do seu tratamento jornalístico à sua abordagem puramente literária, parece haver uma homologia entre a maneira como a prática do futebol entre nós vai ganhando características próprias, a ponto de formarmos uma escola brasileira de jogar futebol, e a maneira como os nossos escritores-jornalistas vão tratando o tema, algo que implicaria também na criação de uma “maneira brasileira” de narrar literariamente o futebol.

Feitas essas considerações teórico-metodológicas iniciais, desçamos às concepções estruturais do trabalho. Este estudo será composto desta introdução (em que se pretendeu apresentar sucintamente a motivação, a necessidade, a validade, a justificativa, a concepção e a metodologia escolhida para orientar a pesquisa e a análise do objeto de estudo: a presença do futebol na literatura brasileira nos gêneros de ficção, com enfoque no conto) devidamente complementada por mais três capítulos, onde se pretendeu resumir os resultados das avaliações e análises críticas das obras e autores elencados em sentido panorâmico, estudados todos sob o ponto de vista sócio-histórico e crítico-estético.

Entre uma ponta e outra, todavia, depois desta introdução, o capítulo segundo fará uma abordagem do tema da pesquisa tratando das questões teórico-conceituais e metodológicas sobre o jogo de futebol compreendendo-o como um fenômeno de comunicação estética em que se explicita a sua relação com a linguagem de uma forma geral e com a literatura de forma particular. Em ambos os casos, amiúde, concebe-se a linguagem também como uma forma de jogo ou meio produtor de sentidos de que se nutre o futebol como sistema metalingüístico de valor social e cultural estruturante. Daí fazerem-se as relações entre jogo, esporte, literatura e linguagem, absolutamente pertinentes para esse estudo.

O capítulo terceiro pretende realizar uma história panorâmica da presença do futebol na literatura brasileira por gêneros, destacando-se horizontal e verticalmente os de ficção, e, dentro destes, o conto. Aqui, serão apresentadas também as primeiras manifestações literárias do tema tomadas em sentido amplo e em sentido estrito; dos primeiros escritos sobre o futebol, mesmo que produzidos em registros de cunho informativo ou técnico – mas que se considere de valor historiográfico no sentido da abordagem proposta – até os registros propriamente literários: as peças de cunho estético, principalmente as crônicas e as primeiras histórias curtas de ficção. Concomitante a isso, pretende-se ter como resultado paralelo – o que virá no quarto capítulo - a produção de uma história crítica das principais obras da literatura brasileira que tematizam o futebol formalizadas no gênero conto, que receberá destaque analítico em função de critérios devidamente explicitados.

O quarto e último capítulo, portanto, incluirá uma análise mais vertical e aprofundada dos autores cujas obras contribuíram para firmar definitivamente a entrada do futebol como matéria potencial de transfiguração literária por meio da ficção, uma vez que o assunto, conforme demonstraremos, trafegará paulatinamente do âmbito do jornalismo para a seara específica da literatura, campo em que recebeu um tratamento estético mais apurado em razão da sua pertinente ligação com a esfera da arte e do jogo, numa conjunção de princípios e meios comuns a sua própria estruturação enquanto motivo de especulação e efetivações várias do âmbito da cultura.

Nesse sentido, a averiguação pragmática desse fato que envolve os autores e as obras que escolhemos como corpus de estudo do nosso trabalho exigiu, por exemplo, que criássemos ferramentas analíticas apropriadas para dar conta de sua complexidade e abrangência, e foi aí que ousamos estabelecer, por conta própria, embora que com a devida justificação teórica apresentada, categorias de leitura com as quais estudaríamos os textos que escolhemos para representar a nossa sondagem mais vertical do tema do futebol na literatura brasileira.

Para cumprir tal meta, empreendemos, nesse ponto do trabalho, uma leitura crítica um tanto heterodoxa de tais textos e de tais autores, o que implicou uma aproximação radical do olhar analítico com o objeto mesmo da análise, resultando daí que tal aproximação demandou o abandono, conscientemente feito por nós, das regras de citação do discurso com apropriação científica, feitas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT.

Assim, nesse ponto da nossa pesquisa, as citações dos textos analisados são feitas de forma livre no texto de análise (marcando-se devidamente com aspas, evidentemente, o discurso alheio) de modo que reste daí, numa espécie de supra-texto analítico, assinado por nós, as mesmas marcas autorais – informadas pelos componentes lúdicos do jogo e da linguagem – que serviram de critério de inclusão de tais produções no universo da nossa abordagem em questão.”

Sobre o autor:
EDÔNIO ALVES NASCIMENTO é de João Pessoa, Paraíba, formado em Jornalismo pela UFPB e pesquisador com Doutorado pela UFRN. É também professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba, tendo publicado também “As ligações perigosas: relações entre literatura e jornalismo na década de 70 no Brasil”, em 2006, pela Editora da UFPB.