segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Política, Propina e Futebol


Os bastidores do futebol mundial vasculhado por um craque do jornalismo investigativo. Jamil Chade, correspondente internacional do jornal O Estado de São Paulo, revela, em ampla pesquisa, o submundo das negociatas e corrupção que acabaram levando à prisão, vários dirigentes do futebol mundial, incluindo o ex-presidente da CBF, José Maria Marin.

Uma obra fundamental na literatura esportiva brasileira e mundial: "Política, Propina e Futebol" (Editora Objetiva).

Calendário de lançamentos: dia 24/11, Livraria Cultura, em Porto Alegre. Dia 27/11, Livraria Cultura, Conjunto Nacional, em São Paulo. Sempre às 19hs.

Sinopse:

Em seu novo livro, "POLÍTICA, PROPINA E FUTEBOL", Jamil Chade revela com exclusividade a rota do dinheiro do futebol. A partir de documentos exclusivos, ele mostra como o esporte se transformou em uma máquina de enriquecimento para um grupo de oligarcas da bola. Esse grupo sequestrou o futebol e, por consequência, a emoção do torcedor. 

Em um trabalho de denúncia que é o resultado de 15 anos de cobertura da Fifa, o autor entra na intimidade de vários dos cartolas hoje detidos, revela conversas esclarecedoras e desvenda acordos milionários. 

O autor, porém, não se limita a investigar apenas o mundo do futebol. Em seu livro, Chade apresenta a rede de cúmplices – na política e no mundo empresarial – que alimentou um esquema de corrupção e troca de favores. 

Em “Propina, Política e Futebol”, o autor traz importantes revelações:

- Um mergulho inédito nos dias que levaram às prisões dos dirigentes da Fifa em Zurique, com detalhes da operação e o que de fato ocorreu nos bastidores da entidade naquele turbulento mes de maio de 2015.

- Detalhes de como funcionava o pagamento de propinas. 

- Revelações de como o dinheiro que deveria ser usado para obras sociais e construção de campos para jovens foi desviado para contas secretas. 

- Os acordos secretos da CBF que transformaram a seleção brasileira em um produto explorado comercialmente pelos dirigentes, sem qualquer plano esportivo. 

- O uso de paraísos fiscais para desviar milhões de dólares dos amistosos da seleção brasileira.

- Chade, ao contrário da tendência de apontar a Fifa como única responsável pela corrupção, revela como os dirigentes tiveram cúmplices em diversos dos escândalo, inclusive de político. 

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo um dos capítulos da obra:

“A vez do torcedor-cidadão”
Por Jamil Chade

O evento de 2014 de fato justificou o nome “Copa das Copas”, tanto dentro como fora de campo. Mexeu com os brios dos torcedores e com os estratagemas de campanhas eleitorais. Afetou setores inteiros da economia e fez políticos locais, estaduais e nacionais recalcularem cada uma de suas frases. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o historiador Flávio de Campos, coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), da Universidade de São Paulo (USP), foi contundente: provavelmente em nenhuma outra época, tanto do país como das Copas, o futebol e a política estiveram tão interligados quanto no Mundial de 2014.

Talvez em nenhum momento na história do Brasil e das Copas do Mundo a política tenha se articulado tanto com o esporte. Desde junho de 2013 a política acompanhou o desenrolar do torneio. Às vésperas da abertura havia um clima de desmobilização torcedora, uma apatia torcedora, e isso foi se modificando. Aquilo começou a se transformar em uma mobilização da torcida verde-amarela e curiosamente na desmobilização das manifestações sociais e mesmo dos movimentos grevistas de várias categorias que haviam se apresentado no mês de maio e começo de junho.

De fato, se o governo alertou dias antes de o Mundial começar que quem usasse a Copa para ganhar votos “quebraria a cara”, foi justamente o Palácio do Planalto que se apressou em instrumentalizar o fato de que o caos não aconteceu para ganhar créditos políticos. O governo federal convocou a imprensa e informou que 1 milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil, superando a meta dos organizadores. Desse total, 95% disseram que queriam voltar no futuro e deixaram no país o equivalente a US$700 milhões. Dilma Rousseff declararia, na época: “Nós vivemos, nesses dias, uma festa fantástica. Mais uma vez, o povo brasileiro revelou toda a sua capacidade de bem receber. Mais uma vez, os brasileiros, aí incluídos o governo federal, os governos estaduais nas doze cidades-sede, os prefeitos das doze cidades-sede e, sem sombra de dúvida, os torcedores e todos os amantes do futebol, asseguraram uma festa que, eu tenho certeza, é, sem dúvida, uma das mais bonitas do mundo. A gente dizia que ia ter a Copa das Copas. Tivemos a Copa das Copas. Tivemos, sem tergiversar, um problema que foi a nossa partida, nosso jogo com a Alemanha. No entanto, acredito que tudo na vida é superação. Derrotamos, sem dúvida, essa previsão pessimista e realizamos, com imensa e maravilhosa contribuição do povo, essa Copa das Copas”.

O então ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, preferiu apostar no impacto da Copa para o Brasil no exterior. “Somos um dos poucos países capazes de organizar um evento de tamanha complexidade, com qualidade de infraestrutura e organização, e com um povo maravilhoso que acolheu muito bem a todos”, afirmou. Do total de 1 milhão de visitantes, 364 mil deles eram sul-americanos que aproveitaram o fato de a Copa acontecer na região para participar da festa. Cento e sessenta mil argentinos estiveram no Brasil. De fora do continente, os americanos lideraram, com 111 mil pessoas viajando ao Brasil. O ministro-chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, completou: “Perdemos a taça, mas o Brasil ganhou a Copa. O Brasil soube ganhar, soube perder, soube receber, soube celebrar com paz, com respeito, um clima altamente receptivo que encantou o mundo. Essa celebração ficará para sempre na memória e na imagem do que somos como povo e sociedade”.

Tanto o governo como a oposição mudaram de discurso sobre a Copa do Mundo em cada novo lance. Em 30 de maio de 2014, antes de a Copa começar, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o evento ajudaria a melhorar a economia do país e que o resultado do PIB no segundo trimestre de 2014 provavelmente seria mais favorável que nos três primeiros meses do ano. Mas, semanas depois de o Mundial terminar, o mesmo Mantega tinha outra avaliação. Na verdade, a Copa havia prejudicado o PIB do trimestre.
“[A Copa] foi um sucesso do ponto de vista da organização. Do ponto de vista da produção e do comércio, prejudicou”, afirmou Guido Mantega em entrevista à Folha de S.Paulo no dia 14 de agosto. “[Durante o evento] tivemos muito poucos dias úteis. A produção industrial caiu e o comércio cresceu pouco. De fato, não foi um bom resultado”, completou.

Nos meses que se seguiram ao torneio, o Brasil entrou em recessão, a dívida pública explodiu, o desemprego voltou a assustar e o país mergulhou em uma fase dramática diante das descobertas de casos de corrupção. Nenhuma previsão otimista do governo feita nos dias seguintes à final do Mundial se concretizou. E a população rapidamente viu a elite do país abandonar menções à Copa, para nunca mais falar do assunto.

Os estádios vazios se transformaram nos monumentos de um projeto que serviu a poucos com o dinheiro de muitos. O Mundial não garantiu uma nova fase ao futebol nacional. Na manipulação de um sentimento popular, da emoção do gol, do simbolismo da entrega de um troféu, na instrumentalização da vaia, a realidade é que a Copa terminou no Brasil sem vencedores entre a classe política. Talvez alguns tenham perdido mais que outros. Mas todos saíram de alguma forma derrotados, e, sabendo que a sociedade não aturaria ver santinhos distribuídos nas portas dos estádios, candidatos e políticos acabaram neutralizados pelos verdadeiros astros em campo e pelas torcidas na arquibancada.

Mas a Copa foi desperdiçada para o Brasil? A crise de corrupção na Fifa foi esquecida pelo mundo?

Em um poderoso e inesperado legado, a Copa de 2014 foi um ponto de virada na história do futebol, que culminaria nas prisões de cartolas um ano depois, em Zurique. O evento demonstrou às classes políticas de todo o mundo que não havia mais espaço para confundir torcedores e eleitores. Não existe, em uma democracia, lugar para o patriotismo servil, muito menos quando ele é associado ao futebol. Em 1976, Pelé, Carlos Alberto Torres e Leão subiram ao camarote do Maracanã em um jogo da Seleção e homenagearam o general Ernesto Geisel, então presidente. Além de entregarem ao ditador uma Bíblia, deram um troféu agradecendo pela regulamentação da profissão de atleta.

Em 2014, foi a sociedade que ganhou um troféu e foi ela mesma que o entregou. Uma sociedade que se dá o poder de rejeitar a manipulação política de um evento, de questionar gastos e de sair às ruas demonstra o fortalecimento de uma democracia capaz até mesmo de abalar teses como a do cientista político e senador italiano Gaetano Mosca, que no início do século XX apontava para o aspecto ilusório de um sistema político que, segundo ele, apenas serviria para legitimar o poder de uma elite.

Politizada em cada gesto, em cada gol, em cada estádio e em cada hino nacional, a Copa de 2014, ironicamente, ajudou de maneira sinuosa a fortalecer a democracia no Brasil. Das ruas de 2013 aos cartazes contra a Fifa. Das exigências, ainda que descabidas, ao temor de deputados e políticos, que, às pressas, modificaram leis. Da arrogância da Fifa aos acordos sujos da CBF com políticos locais. Do racismo mais que vigente na sociedade brasileira e que deixou milhões sem acesso aos estádios ao impacto mundial da festa. Da paixão inabalada pelo futebol no Brasil aos candidatos perdidos, sem saber como reagir diante de cada gol, o Mundial escancarou todas as contradições, limites e forças presentes no país.

Assim que a sociedade se deu conta de que, com seu dinheiro, uma classe política e cartolas se aproveitariam do evento para ganhar popularidade, essa mesma sociedade sequestrou de volta a ocasião para mostrar ao mundo que não toleraria tal manipulação. Quando políticos ensaiaram uma crítica de que aquele “não era o momento” de fazer protestos, foi a sociedade que os lembrou de que tampouco era o momento de pedir votos entre gols e jogadas de efeito.

A Copa não deixou nada insinuado. Os mitos, os dramas e os ensejos sucumbiram ao explícito, ao manifesto. O futebol vive seu momento mais perigoso, sequestrado por interesses pessoais, por partidos, por organizações criminosas.

O movimento contaminou de uma vez por todas a Fifa, com cobranças cada vez maiores sobre como a entidade agiu para dar o Mundial ao Catar em 2022, sobre como os acordos com Putin tentam blindar a Copa de 2018 e sobre como seus dirigentes teriam construído um império com base na fraude e na lavagem de dinheiro.

Quando, no dia 27 de maio de 2015, a polícia entrou no saguão do hotel em Zurique, não estava apenas cumprindo um pedido de cooperação do FBI. Também estava, de certa forma, chancelada por um sentimento generalizado de que um “basta” tinha de ser dado a uma estrutura corrupta. Mesmos seus cúmplices — políticos, televisões e multinacionais — chegaram à constatação de que já não teriam a mesma força para blindar esses caudilhos.

Por enquanto, não se sabe o resultado final de um processo que abalou os pilares do poder do futebol. Mas dificilmente o que foi iniciado poderá ser revertido.

A revolta começou quando o suposto país do futebol questionou o esporte e seus ídolos e se completaria um ano depois, com a ajuda da polícia de um país — os EUA — que não tem por hábito suspender a vida e a morte por noventa minutos para ver um jogo da Copa.

Se no Carnaval as máscaras servem para criar uma nova realidade, ainda que temporária, a fantasia da Copa dessa vez apenas acentuou a realidade de uma sociedade complexa, desigual e com profundos problemas sociais, mas que deixou clara a recusa em ser tratada apenas como “torcedora”. E isso contaminou o mundo do futebol.

No fundo da prisão, como apontaria Albert Camus, o sonho não tem limite, nem a realidade serve como freio. O tempo da revolta no futebol chegou, e, ao que tudo indica, nem mesmo as paredes de mármore da Fifa poderão impedir que se pense em uma nova forma de organizar o jogo.

Longe de ocultar, a máscara da festa do futebol que seduziu o mundo por tantos anos acabou sendo insuficiente para esconder a existência de um saque. No futebol, em mais de um século de história da Fifa, nunca o momento foi mais legítimo como agora para uma transformação. Que a bola possa continuar rolando. Mas que o berro sincero do torcedor se confunda com seu grito legítimo de um protesto cidadão.

Sobre o autor:

Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Europa desde 2000. Com viagens a mais de 70 países, acompanhou presidentes e papas, e esteve em campos de refugiados no Iraque, na Somália, em Darfur e na Libéria. Já cobriu três Copas do Mundo, além de Olimpíadas e Eurocopas. Publicou os livros “A Copa como ela é”, “Rousseff” e “O mundo não é plano”, finalista do Jabuti e vencedor do Nicolas Bouvier, principal prêmio jornalístico da Suíça. Em 2011 e em 2013, foi eleito o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo grupo Comunique-se. Em 2015, Chade foi convidado para fazer parte de uma rede mundial de especialistas no combate à corrupção, sob o comando da entidade Transparência Internacional. Ele vive em Genebra, Suíça, e é pai de dois são-paulinos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário