quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Moacir Japiassu, mais um craque que se vai

O Brasil perdeu um de seus maiores jornalistas. Paraibano de origem, Moacir Japiassu criou raízes enormes no triângulo Minas, Rio e São Paulo. Trabalhou nas principais redações do país, no impresso, internet e televisão. Foi editor-chefe do “Fantástico” (TV Globo) e responsável por criar os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Passou também em grandes veículos de comunicação como Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, IstoÉ, Veja, Placar e Elle.


Japiassu também era escritor com romances e livros escritos sobre diversos temas. Foram mais de 50 anos dedicados à escrita.

E o futebol não poderia ficar fora de suas paixões. Japiassu criou e dirigiu a revista FootBall, uma das mais modernas e inteligentes já feitas entre as publicações brasileiras.

Em 2008, Japiassu era um dos craques integrantes do livro organizado pelo escritor e poeta Cyro de Mattos: “Contos Brasileiros de Futebol” (Editora LGE).

Era uma verdadeira seleção de craques da literatura como Aércio Consolin, Aldyr Schlee, Antonio Barreto, Caior Porfírio Carneiro, Deonísio da Silva, Dias da Costa, Duílio Gomes, Edilberto Coutinho, Edson Gabriel Garcia, Hélio Pólvora, José Cruz Medeiros, Lourenço Cazarré, Luís Henrique, Moacir Japiassu, Renard Perez, Salim Miguel, Sérgio Sant’Anna, Suzana Monteiro e também o organizador, Cyro de Mattos.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o conto escrito por Japiassu nesta publicação.

A Bola e a Rede
Por Moacir Japiassu

Quando o bando do cangaceiro Zé do Pipiu entrou em Rio Branco, na manhã de 17 de abril de 1934, o único homem que não borrou as calças foi o coronel Lenildo Pessoa; pelo contrário o fazendeiro comia um prato de cuscuz com leite na pensão de dona Reka, prostituta aposentada, e recebeu a notícia da invasão por um esbaforido portador. “Seu coroné, o capitão Zé do Pipiu tá na porta do cinema e manda chama o sinhô”. Comunicou o pipoqueiro Catôta.

Dona Reka saiu correndo para proteger algumas de suas meninas, o alarido foi grande, mas Lenildo não afastou o prato. “Diga pro capitão Zé do Pipiu que a distância daqui pro cinema é a mesma pra cá; se ele quer me ver, que venha aqui”, respondeu o coronel ao semi-desfalecido Catôta. Pois Zé do Pipiu, que tinha a feia intenção de saquear a cidade, fez hora na porta do cinema, espancou uns dois ou três meninos e depois abandonou o projeto; enfiou-se de novo na caatinga, acompanhado de seu bando imundo. O povo de Rio Branco elegeu o coronel Lenildo Pessoa o homem mais macho do sertão e lhe devotou veneração pelos anos afora.

Nos anos 40 e 50 a fama da macheza se espalhou pelo Nordeste e o nome de Lenildo, apesar de meio afrescalhado, foi dado a muito menino de boa família; teve até padre chamado assim. Certa vez, em meados da década de 50, Rio Branco promoveu festança de muitos dias, pelo aniversário da cidade. Barraquinhas, quermesse, filme novo no Cine Bandeirante. O prefeito, eleito não-sei-quantas-vezes, era justamente o coronel Lenildo, que recebeu com simpatia a ideia de se trazer o Sport Club Recife para um jogo com o Democrático. O Sport era campeão pernambucano e nele jogava o goleiro Oswaldo Baliza, celebre no país inteiro, embora já em fim de carreira.

“Tá bom, a gente traz o time”, concordou o coronel, “mas o Democrático não pode perder. Festa com derrota é coisa que não combina...”. O Sport, clube calejado naquele interiorzão, exigiu cota antecipadamente paga e juiz neutro – acabou atendido. O coronel foi pessoalmente receber o árbitro do jogo na estação. Era um rapaz moço, de Caruaru. O coronel cumprimentou-o, sentou-se a seu lado no carro da prefeitura e perguntou: “O considerado tem família?”. O juiz da partida respondeu: “Tenho mulher e dois filhos pequenos, coronel; Alceu tá com três anos e Ma...”.

O homem nem completou a frase. O coronel Lenildo foi direto ao assunto: “Pois olhe: se o Democrático perder esse jogo é bem possível que o senhor não veja mais esses meninos...Não é por mim, é que o povo de Rio Branco vai invadir o campo e nem eu vou poder evitar o linchamento”. O juiz empalideceu. “Coronel, o Democrático vai ganhar e nem precisa de mim; é um time de cabra macho...”, anteviu Sua Senhoria...

Domingo, campo cheio, nem bem o juiz apitou o início da partida e teve que anular dois gols do Sport. O jogo chegou ao final do primeiro tempo num penso zero a zero arrancado no apito e o juiz chegou à “Tribuna de Honra” num desespero de dar pena: “Coronel, o empate serve?”, perguntou o infeliz. Lenildo foi cruel: “É Democrático um a zero ou nada...”.

No segundo tempo, com mais seis gols anulados e quatro jogadores expulsos, o Sport continuava dominando a partida. No finzinho do jogo, quando o coronel Lenildo já alisava o cabo de madrepérola de seu revólver, o juiz ganhou coragem e apitou pênalti a favor do Democrático. Plantado no gol, enorme e sorridente, estava Oswaldo Baliza. O centroavante Bininho distância, meteu o bico na bola e Oswaldo nem precisou se mexer, pegou fácil. “O senhor se boliu muito!” – gritou Sua Senhoria, e mandou cobrar de novo. Bininho tomou descomunal distância, arrancou lá do meio do campo e meteu o pé na bola com fúria. O foguete passou raspando o travessão – foi estourar na porta da casa de dona Reka, mas o juiz correu para o meio do campo. “Foi gol! Furou a rede!” gritou ele. Aí o coronel levantou-se e ordenou que a torcida aplaudisse. Democrático um a zero.


Nenhum comentário:

Postar um comentário