domingo, 29 de novembro de 2015

Alex, a Biografia

Mais uma obra prima no universo das biografias. O personagem é um dos maiores camisas 10 do futebol brasileiro. “Alex, a Biografia” (Editora Planeta) foi escrito por outro craque do jornalismo esportivo, Marcos Eduardo Neves, autor também de outra biografia histórica sobre outro jogador polêmico, Heleno de Freitas, e que virou até filme.

E o melhor de tudo. A biografia de Alex não é “chapa branca”, como o próprio autor faz questão de frisar. Alex é personagem polêmico, craque que talvez não tenha tido o devido reconhecimento enquanto atuava pelos gramados do Brasil e do mundo.

Mais um livro fundamental para a literatura esportiva brasileira.

Sinopse (da editora):

“Alex, a Biografia” retrata a trajetória do craque Alex, ídolo imortal das torcidas do Coritiba, Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe, da Turquia. As dificuldades da infância pobre, os percalços no começo da carreira, os maiores títulos, o porquê de não ter sido convocado para nenhum Mundial, apesar da inquestionável técnica, tudo está exposto com clareza na obra.

O livro apresenta, narrado ora pelo próprio jogador, ora pelo autor do livro, Marcos Eduardo Neves, detalhes da sua vida amorosa e pessoal jamais revelados anteriormente, como gravidezes perdidas e momentos de angústia às vésperas do parto complicado de cada um dos três filhos. 

Bastidores do futebol são enfatizados, como companheiros de posição tentando puxar tapete, trairagem de treinador, momentos de tristeza, decepção, revolta e incontáveis alegrias.

Os motivos de ter virado mais do que celebridade, e sim personalidade, na Turquia: a identificação com o país, o respeito à cultura, a devoção a seu clube. O craque disseca todos os fatores que fizeram com que pedisse a rescisão de seu contrato, em 2012. Conta pormenores da romaria e vigília de milhares de torcedores por 12 dias e 12 noites defronte à sua casa, além da despedida emocionada no aeroporto Atatürk.

Termina com sua volta triunfal ao futebol brasileiro, onde liderou a posição do Bom Senso FC, movimento que luta contra os poderosos pelo bem do esporte.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo a quarta capa do livro, assinada por outro craque do futebol e das letras, Tostão. Mais abaixo, um trecho de um dos capítulos da obra.

QUARTA CAPA
Por Tostão

Alex foi ídolo do Coritiba, do Palmeiras, do Cruzeiro e do Fenerbahce, da Turquia. É um dos craques que não jogaram uma Copa do Mundo. Uma razão é que competia com Ronaldinho, Rivaldo e Kaká, que se tornaram os melhores do mundo. Outra é que muitos não compreenderam a grandiosidade de seu talento. Alex, diferentemente do jogador que estava sempre com a bola, tentando uma jogada, muitas vezes, errada e impossível, esperava o momento certo para brilhar, assim como os grandes pintores impressionistas iam para os campos abertos, à espera do brilho ideal da luz para fazer suas obras geniais.

Alex era muito técnico, minimalista. Em poucos lances e com poucos movimentos, decidia a partida. Não tinha excessos nem firulas. Mesmo sendo um meia armador, de passes espetaculares, fez também muitos gols, mais de 400, muitos belíssimos, magistrais.

Alex, dentro e fora de campo, foi um atleta inteligente, lúcido, que falava o que pensava e que pensava antes de fazer. É um dos líderes do Bom Senso F. C., que luta para melhorar o futebol brasileiro. Alex é um dos grandes da história do futebol. “O que a memória amou se tornou eterno” (Adélia Prado).

CRUZEIRO,2003:

"Como disse, a ideia central era fazer a bola passar o tempo todo pelos meus pés. Na nossa primeira conversa, anunciou que traçaria um objetivo para mim. Eu teria de treinar muito e emagrecer. Sua equipe determinaria um peso e um percentual de gordura para eu trabalhar em cima dessa meta o ano inteiro.

Sentei com a Patrícia, a nutricionista do clube, que me avisou para ter cuidado com certas coisas. Por exemplo, churrasco. Eu teria de comer muita melancia. Os caras me chamavam de louco, eu falava que ia dar certo, mas foi difícil. Cheguei a parar no hospital duas vezes. Minha mulher discutiu com o Vanderlei umas três vezes por causa disso. Mas ele levava na boa; me mandava fazer um exercício aqui e outro ali. Deu certo. Pude, pela primeira vez na carreira, jogar abaixo do meu peso.”

– Fiz uma prescrição para reduzir a gordura corporal e aumentar a massa muscular do Alex – conta a nutricionista Patrícia Fernandes Teixeira, que foi auxiliada pelo fisiologista Emerson Silami. – Ele perdeu entre seis e sete quilos de gordura e ganhou de três a quatro de massa muscular. Obteve uma transformação física fantástica. Ampliou a explosão, a força e a velocidade em cerca de 20 a 30%. Com os micronutrientes e a hidratação, melhorou a recuperação, ganhando mais energia para gastar por jogo.

Segundo ela, o atleta teve maturidade e consciência para usar a ciência a seu favor:
– O Alex passou por uma reeducação alimentar, pois se excedia no consumo de carboidratos e gordura – esclarece. – Elaborei um cardápio específico para que pudesse perder peso e reduzir o índice de gordura. A meta foi atingida em fevereiro. Depois, foi trabalhar a manutenção.

Segundo o preparador físico Antonio Mello, o tratamento, baseado em exercícios e alimentação natural, não se valeu do uso de suplementos. Ainda assim, o percentual de gordura do Alex, que em outubro de 2002 era de 14%, caiu para 8,5% em março do ano seguinte.

– No Cruzeiro o Alex jogou não muito, mas sim acima de qualquer nível de excelência – elogia Mello. – Eu o avaliei de longe durante toda a carreira e percebi que detinha força e potência. Sua qualidade física era inata e tinha uma baita explosão. Além disso, fazia a bola ficar mais rápida, tamanha a precisão no passe. Ele gostou de trabalhar comigo, até porque eu não o colocava para correr tiros longos, só distâncias curtas.

“Nessa reeducação alimentar, aconteceram cenas ridículas. No dia seguinte a uma partida, estava comendo um doce num restaurante, o Vanderlei entrou no local e quem estava comigo na mesa escondeu a sobremesa para que ele não a enxergasse. Não havia descanso. Diariamente eu era obrigado a me pesar e a cada duas semanas analisavam o meu percentual de gordura.”

– O Alex só comia melancia e tomava Xenical, um remédio para emagrecer – lembra Roberta, mulher de Paulo Miranda. – A gente ia jantar e, como o Vanderlei queria fazer dele o melhor jogador do Brasil, ele ficava só na melancia. Na sua casa tinha strogonoff, cachorro-quente, e ele só na melancia e no Xenical. Chegava a se borrar nas calças.

“Antes de um jogo no Mineirão eu vomitei o dia inteiro, de fraqueza. Não reunia forças para ficar de pé. O Vanderlei me dava apoio, dizia que eu conseguiria, me estimulava. Fizemos um 2003 espetacular, mas foi um sacrifício desumano. Essa é a palavra: o que fiz naquele ano foi desumano."

Sobre o autor:
Marcos Eduardo Neves é jornalista e escritor. Especializou-se em biografias. Autor de “Nunca houve um homem como Heleno”, livro que virou filme no Brasil protagonizado por Rodrigo Santoro, escreveu obras que atravessaram fronteiras. Como “Vendedor de Sonhos – A vida e a obra de Roberto Medina”, que apresenta o criador do maior festival de música do mundo, o Rock in Rio, vendido também em Portugal e na Espanha – onde, por sinal , “Alex” será republicado, assim como na Turquia. Com passagens por importantes veículos de comunicação do país, como o Jornal do Brasil, trocou as redações pela literatura. Apadrinhado por Ruy Castro, que assegurou ter parado de escrever biografias desde que notou a ascensão do jovem, Marcos Eduardo Neves vem sendo sempre indicado pelo mestre e já produziu relevantes biografias sobre astros do esporte, como o perfil de Francisco Horta e a história completa do ex-jogador Renato Gaúcho, além da obra “20 Jogos Eternos do Flamengo”. “Alex, a Biografia” é seu oitavo livro.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Política, Propina e Futebol


Os bastidores do futebol mundial vasculhado por um craque do jornalismo investigativo. Jamil Chade, correspondente internacional do jornal O Estado de São Paulo, revela, em ampla pesquisa, o submundo das negociatas e corrupção que acabaram levando à prisão, vários dirigentes do futebol mundial, incluindo o ex-presidente da CBF, José Maria Marin.

Uma obra fundamental na literatura esportiva brasileira e mundial: "Política, Propina e Futebol" (Editora Objetiva).

Calendário de lançamentos: dia 24/11, Livraria Cultura, em Porto Alegre. Dia 27/11, Livraria Cultura, Conjunto Nacional, em São Paulo. Sempre às 19hs.

Sinopse:

Em seu novo livro, "POLÍTICA, PROPINA E FUTEBOL", Jamil Chade revela com exclusividade a rota do dinheiro do futebol. A partir de documentos exclusivos, ele mostra como o esporte se transformou em uma máquina de enriquecimento para um grupo de oligarcas da bola. Esse grupo sequestrou o futebol e, por consequência, a emoção do torcedor. 

Em um trabalho de denúncia que é o resultado de 15 anos de cobertura da Fifa, o autor entra na intimidade de vários dos cartolas hoje detidos, revela conversas esclarecedoras e desvenda acordos milionários. 

O autor, porém, não se limita a investigar apenas o mundo do futebol. Em seu livro, Chade apresenta a rede de cúmplices – na política e no mundo empresarial – que alimentou um esquema de corrupção e troca de favores. 

Em “Propina, Política e Futebol”, o autor traz importantes revelações:

- Um mergulho inédito nos dias que levaram às prisões dos dirigentes da Fifa em Zurique, com detalhes da operação e o que de fato ocorreu nos bastidores da entidade naquele turbulento mes de maio de 2015.

- Detalhes de como funcionava o pagamento de propinas. 

- Revelações de como o dinheiro que deveria ser usado para obras sociais e construção de campos para jovens foi desviado para contas secretas. 

- Os acordos secretos da CBF que transformaram a seleção brasileira em um produto explorado comercialmente pelos dirigentes, sem qualquer plano esportivo. 

- O uso de paraísos fiscais para desviar milhões de dólares dos amistosos da seleção brasileira.

- Chade, ao contrário da tendência de apontar a Fifa como única responsável pela corrupção, revela como os dirigentes tiveram cúmplices em diversos dos escândalo, inclusive de político. 

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo um dos capítulos da obra:

“A vez do torcedor-cidadão”
Por Jamil Chade

O evento de 2014 de fato justificou o nome “Copa das Copas”, tanto dentro como fora de campo. Mexeu com os brios dos torcedores e com os estratagemas de campanhas eleitorais. Afetou setores inteiros da economia e fez políticos locais, estaduais e nacionais recalcularem cada uma de suas frases. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o historiador Flávio de Campos, coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), da Universidade de São Paulo (USP), foi contundente: provavelmente em nenhuma outra época, tanto do país como das Copas, o futebol e a política estiveram tão interligados quanto no Mundial de 2014.

Talvez em nenhum momento na história do Brasil e das Copas do Mundo a política tenha se articulado tanto com o esporte. Desde junho de 2013 a política acompanhou o desenrolar do torneio. Às vésperas da abertura havia um clima de desmobilização torcedora, uma apatia torcedora, e isso foi se modificando. Aquilo começou a se transformar em uma mobilização da torcida verde-amarela e curiosamente na desmobilização das manifestações sociais e mesmo dos movimentos grevistas de várias categorias que haviam se apresentado no mês de maio e começo de junho.

De fato, se o governo alertou dias antes de o Mundial começar que quem usasse a Copa para ganhar votos “quebraria a cara”, foi justamente o Palácio do Planalto que se apressou em instrumentalizar o fato de que o caos não aconteceu para ganhar créditos políticos. O governo federal convocou a imprensa e informou que 1 milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil, superando a meta dos organizadores. Desse total, 95% disseram que queriam voltar no futuro e deixaram no país o equivalente a US$700 milhões. Dilma Rousseff declararia, na época: “Nós vivemos, nesses dias, uma festa fantástica. Mais uma vez, o povo brasileiro revelou toda a sua capacidade de bem receber. Mais uma vez, os brasileiros, aí incluídos o governo federal, os governos estaduais nas doze cidades-sede, os prefeitos das doze cidades-sede e, sem sombra de dúvida, os torcedores e todos os amantes do futebol, asseguraram uma festa que, eu tenho certeza, é, sem dúvida, uma das mais bonitas do mundo. A gente dizia que ia ter a Copa das Copas. Tivemos a Copa das Copas. Tivemos, sem tergiversar, um problema que foi a nossa partida, nosso jogo com a Alemanha. No entanto, acredito que tudo na vida é superação. Derrotamos, sem dúvida, essa previsão pessimista e realizamos, com imensa e maravilhosa contribuição do povo, essa Copa das Copas”.

O então ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, preferiu apostar no impacto da Copa para o Brasil no exterior. “Somos um dos poucos países capazes de organizar um evento de tamanha complexidade, com qualidade de infraestrutura e organização, e com um povo maravilhoso que acolheu muito bem a todos”, afirmou. Do total de 1 milhão de visitantes, 364 mil deles eram sul-americanos que aproveitaram o fato de a Copa acontecer na região para participar da festa. Cento e sessenta mil argentinos estiveram no Brasil. De fora do continente, os americanos lideraram, com 111 mil pessoas viajando ao Brasil. O ministro-chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, completou: “Perdemos a taça, mas o Brasil ganhou a Copa. O Brasil soube ganhar, soube perder, soube receber, soube celebrar com paz, com respeito, um clima altamente receptivo que encantou o mundo. Essa celebração ficará para sempre na memória e na imagem do que somos como povo e sociedade”.

Tanto o governo como a oposição mudaram de discurso sobre a Copa do Mundo em cada novo lance. Em 30 de maio de 2014, antes de a Copa começar, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o evento ajudaria a melhorar a economia do país e que o resultado do PIB no segundo trimestre de 2014 provavelmente seria mais favorável que nos três primeiros meses do ano. Mas, semanas depois de o Mundial terminar, o mesmo Mantega tinha outra avaliação. Na verdade, a Copa havia prejudicado o PIB do trimestre.
“[A Copa] foi um sucesso do ponto de vista da organização. Do ponto de vista da produção e do comércio, prejudicou”, afirmou Guido Mantega em entrevista à Folha de S.Paulo no dia 14 de agosto. “[Durante o evento] tivemos muito poucos dias úteis. A produção industrial caiu e o comércio cresceu pouco. De fato, não foi um bom resultado”, completou.

Nos meses que se seguiram ao torneio, o Brasil entrou em recessão, a dívida pública explodiu, o desemprego voltou a assustar e o país mergulhou em uma fase dramática diante das descobertas de casos de corrupção. Nenhuma previsão otimista do governo feita nos dias seguintes à final do Mundial se concretizou. E a população rapidamente viu a elite do país abandonar menções à Copa, para nunca mais falar do assunto.

Os estádios vazios se transformaram nos monumentos de um projeto que serviu a poucos com o dinheiro de muitos. O Mundial não garantiu uma nova fase ao futebol nacional. Na manipulação de um sentimento popular, da emoção do gol, do simbolismo da entrega de um troféu, na instrumentalização da vaia, a realidade é que a Copa terminou no Brasil sem vencedores entre a classe política. Talvez alguns tenham perdido mais que outros. Mas todos saíram de alguma forma derrotados, e, sabendo que a sociedade não aturaria ver santinhos distribuídos nas portas dos estádios, candidatos e políticos acabaram neutralizados pelos verdadeiros astros em campo e pelas torcidas na arquibancada.

Mas a Copa foi desperdiçada para o Brasil? A crise de corrupção na Fifa foi esquecida pelo mundo?

Em um poderoso e inesperado legado, a Copa de 2014 foi um ponto de virada na história do futebol, que culminaria nas prisões de cartolas um ano depois, em Zurique. O evento demonstrou às classes políticas de todo o mundo que não havia mais espaço para confundir torcedores e eleitores. Não existe, em uma democracia, lugar para o patriotismo servil, muito menos quando ele é associado ao futebol. Em 1976, Pelé, Carlos Alberto Torres e Leão subiram ao camarote do Maracanã em um jogo da Seleção e homenagearam o general Ernesto Geisel, então presidente. Além de entregarem ao ditador uma Bíblia, deram um troféu agradecendo pela regulamentação da profissão de atleta.

Em 2014, foi a sociedade que ganhou um troféu e foi ela mesma que o entregou. Uma sociedade que se dá o poder de rejeitar a manipulação política de um evento, de questionar gastos e de sair às ruas demonstra o fortalecimento de uma democracia capaz até mesmo de abalar teses como a do cientista político e senador italiano Gaetano Mosca, que no início do século XX apontava para o aspecto ilusório de um sistema político que, segundo ele, apenas serviria para legitimar o poder de uma elite.

Politizada em cada gesto, em cada gol, em cada estádio e em cada hino nacional, a Copa de 2014, ironicamente, ajudou de maneira sinuosa a fortalecer a democracia no Brasil. Das ruas de 2013 aos cartazes contra a Fifa. Das exigências, ainda que descabidas, ao temor de deputados e políticos, que, às pressas, modificaram leis. Da arrogância da Fifa aos acordos sujos da CBF com políticos locais. Do racismo mais que vigente na sociedade brasileira e que deixou milhões sem acesso aos estádios ao impacto mundial da festa. Da paixão inabalada pelo futebol no Brasil aos candidatos perdidos, sem saber como reagir diante de cada gol, o Mundial escancarou todas as contradições, limites e forças presentes no país.

Assim que a sociedade se deu conta de que, com seu dinheiro, uma classe política e cartolas se aproveitariam do evento para ganhar popularidade, essa mesma sociedade sequestrou de volta a ocasião para mostrar ao mundo que não toleraria tal manipulação. Quando políticos ensaiaram uma crítica de que aquele “não era o momento” de fazer protestos, foi a sociedade que os lembrou de que tampouco era o momento de pedir votos entre gols e jogadas de efeito.

A Copa não deixou nada insinuado. Os mitos, os dramas e os ensejos sucumbiram ao explícito, ao manifesto. O futebol vive seu momento mais perigoso, sequestrado por interesses pessoais, por partidos, por organizações criminosas.

O movimento contaminou de uma vez por todas a Fifa, com cobranças cada vez maiores sobre como a entidade agiu para dar o Mundial ao Catar em 2022, sobre como os acordos com Putin tentam blindar a Copa de 2018 e sobre como seus dirigentes teriam construído um império com base na fraude e na lavagem de dinheiro.

Quando, no dia 27 de maio de 2015, a polícia entrou no saguão do hotel em Zurique, não estava apenas cumprindo um pedido de cooperação do FBI. Também estava, de certa forma, chancelada por um sentimento generalizado de que um “basta” tinha de ser dado a uma estrutura corrupta. Mesmos seus cúmplices — políticos, televisões e multinacionais — chegaram à constatação de que já não teriam a mesma força para blindar esses caudilhos.

Por enquanto, não se sabe o resultado final de um processo que abalou os pilares do poder do futebol. Mas dificilmente o que foi iniciado poderá ser revertido.

A revolta começou quando o suposto país do futebol questionou o esporte e seus ídolos e se completaria um ano depois, com a ajuda da polícia de um país — os EUA — que não tem por hábito suspender a vida e a morte por noventa minutos para ver um jogo da Copa.

Se no Carnaval as máscaras servem para criar uma nova realidade, ainda que temporária, a fantasia da Copa dessa vez apenas acentuou a realidade de uma sociedade complexa, desigual e com profundos problemas sociais, mas que deixou clara a recusa em ser tratada apenas como “torcedora”. E isso contaminou o mundo do futebol.

No fundo da prisão, como apontaria Albert Camus, o sonho não tem limite, nem a realidade serve como freio. O tempo da revolta no futebol chegou, e, ao que tudo indica, nem mesmo as paredes de mármore da Fifa poderão impedir que se pense em uma nova forma de organizar o jogo.

Longe de ocultar, a máscara da festa do futebol que seduziu o mundo por tantos anos acabou sendo insuficiente para esconder a existência de um saque. No futebol, em mais de um século de história da Fifa, nunca o momento foi mais legítimo como agora para uma transformação. Que a bola possa continuar rolando. Mas que o berro sincero do torcedor se confunda com seu grito legítimo de um protesto cidadão.

Sobre o autor:

Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Europa desde 2000. Com viagens a mais de 70 países, acompanhou presidentes e papas, e esteve em campos de refugiados no Iraque, na Somália, em Darfur e na Libéria. Já cobriu três Copas do Mundo, além de Olimpíadas e Eurocopas. Publicou os livros “A Copa como ela é”, “Rousseff” e “O mundo não é plano”, finalista do Jabuti e vencedor do Nicolas Bouvier, principal prêmio jornalístico da Suíça. Em 2011 e em 2013, foi eleito o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo grupo Comunique-se. Em 2015, Chade foi convidado para fazer parte de uma rede mundial de especialistas no combate à corrupção, sob o comando da entidade Transparência Internacional. Ele vive em Genebra, Suíça, e é pai de dois são-paulinos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Moacir Japiassu, mais um craque que se vai

O Brasil perdeu um de seus maiores jornalistas. Paraibano de origem, Moacir Japiassu criou raízes enormes no triângulo Minas, Rio e São Paulo. Trabalhou nas principais redações do país, no impresso, internet e televisão. Foi editor-chefe do “Fantástico” (TV Globo) e responsável por criar os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Passou também em grandes veículos de comunicação como Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, IstoÉ, Veja, Placar e Elle.


Japiassu também era escritor com romances e livros escritos sobre diversos temas. Foram mais de 50 anos dedicados à escrita.

E o futebol não poderia ficar fora de suas paixões. Japiassu criou e dirigiu a revista FootBall, uma das mais modernas e inteligentes já feitas entre as publicações brasileiras.

Em 2008, Japiassu era um dos craques integrantes do livro organizado pelo escritor e poeta Cyro de Mattos: “Contos Brasileiros de Futebol” (Editora LGE).

Era uma verdadeira seleção de craques da literatura como Aércio Consolin, Aldyr Schlee, Antonio Barreto, Caior Porfírio Carneiro, Deonísio da Silva, Dias da Costa, Duílio Gomes, Edilberto Coutinho, Edson Gabriel Garcia, Hélio Pólvora, José Cruz Medeiros, Lourenço Cazarré, Luís Henrique, Moacir Japiassu, Renard Perez, Salim Miguel, Sérgio Sant’Anna, Suzana Monteiro e também o organizador, Cyro de Mattos.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o conto escrito por Japiassu nesta publicação.

A Bola e a Rede
Por Moacir Japiassu

Quando o bando do cangaceiro Zé do Pipiu entrou em Rio Branco, na manhã de 17 de abril de 1934, o único homem que não borrou as calças foi o coronel Lenildo Pessoa; pelo contrário o fazendeiro comia um prato de cuscuz com leite na pensão de dona Reka, prostituta aposentada, e recebeu a notícia da invasão por um esbaforido portador. “Seu coroné, o capitão Zé do Pipiu tá na porta do cinema e manda chama o sinhô”. Comunicou o pipoqueiro Catôta.

Dona Reka saiu correndo para proteger algumas de suas meninas, o alarido foi grande, mas Lenildo não afastou o prato. “Diga pro capitão Zé do Pipiu que a distância daqui pro cinema é a mesma pra cá; se ele quer me ver, que venha aqui”, respondeu o coronel ao semi-desfalecido Catôta. Pois Zé do Pipiu, que tinha a feia intenção de saquear a cidade, fez hora na porta do cinema, espancou uns dois ou três meninos e depois abandonou o projeto; enfiou-se de novo na caatinga, acompanhado de seu bando imundo. O povo de Rio Branco elegeu o coronel Lenildo Pessoa o homem mais macho do sertão e lhe devotou veneração pelos anos afora.

Nos anos 40 e 50 a fama da macheza se espalhou pelo Nordeste e o nome de Lenildo, apesar de meio afrescalhado, foi dado a muito menino de boa família; teve até padre chamado assim. Certa vez, em meados da década de 50, Rio Branco promoveu festança de muitos dias, pelo aniversário da cidade. Barraquinhas, quermesse, filme novo no Cine Bandeirante. O prefeito, eleito não-sei-quantas-vezes, era justamente o coronel Lenildo, que recebeu com simpatia a ideia de se trazer o Sport Club Recife para um jogo com o Democrático. O Sport era campeão pernambucano e nele jogava o goleiro Oswaldo Baliza, celebre no país inteiro, embora já em fim de carreira.

“Tá bom, a gente traz o time”, concordou o coronel, “mas o Democrático não pode perder. Festa com derrota é coisa que não combina...”. O Sport, clube calejado naquele interiorzão, exigiu cota antecipadamente paga e juiz neutro – acabou atendido. O coronel foi pessoalmente receber o árbitro do jogo na estação. Era um rapaz moço, de Caruaru. O coronel cumprimentou-o, sentou-se a seu lado no carro da prefeitura e perguntou: “O considerado tem família?”. O juiz da partida respondeu: “Tenho mulher e dois filhos pequenos, coronel; Alceu tá com três anos e Ma...”.

O homem nem completou a frase. O coronel Lenildo foi direto ao assunto: “Pois olhe: se o Democrático perder esse jogo é bem possível que o senhor não veja mais esses meninos...Não é por mim, é que o povo de Rio Branco vai invadir o campo e nem eu vou poder evitar o linchamento”. O juiz empalideceu. “Coronel, o Democrático vai ganhar e nem precisa de mim; é um time de cabra macho...”, anteviu Sua Senhoria...

Domingo, campo cheio, nem bem o juiz apitou o início da partida e teve que anular dois gols do Sport. O jogo chegou ao final do primeiro tempo num penso zero a zero arrancado no apito e o juiz chegou à “Tribuna de Honra” num desespero de dar pena: “Coronel, o empate serve?”, perguntou o infeliz. Lenildo foi cruel: “É Democrático um a zero ou nada...”.

No segundo tempo, com mais seis gols anulados e quatro jogadores expulsos, o Sport continuava dominando a partida. No finzinho do jogo, quando o coronel Lenildo já alisava o cabo de madrepérola de seu revólver, o juiz ganhou coragem e apitou pênalti a favor do Democrático. Plantado no gol, enorme e sorridente, estava Oswaldo Baliza. O centroavante Bininho distância, meteu o bico na bola e Oswaldo nem precisou se mexer, pegou fácil. “O senhor se boliu muito!” – gritou Sua Senhoria, e mandou cobrar de novo. Bininho tomou descomunal distância, arrancou lá do meio do campo e meteu o pé na bola com fúria. O foguete passou raspando o travessão – foi estourar na porta da casa de dona Reka, mas o juiz correu para o meio do campo. “Foi gol! Furou a rede!” gritou ele. Aí o coronel levantou-se e ordenou que a torcida aplaudisse. Democrático um a zero.