terça-feira, 27 de outubro de 2015

Giba neles!

Biografias de atletas que não pertençam ao mundo do futebol são raras na literatura esportiva. O argumento é a “falta de apelo popular”. Mas e no país em que o vôlei é praticamente o segundo esporte, em número de público e conquistas? Então, a biografia de Giba, ultra medalhista no esporte, no Brasil e no mundo, é de leitura obrigatória.

“Giba neles!” (Globo Livros) é uma autobiografia em que o atleta assina a obra com o jornalista Luiz Paulo Montes. A amizade entre ambos não deixou a obra “chapa branca” (aquela em que só se vem as coisas boas da vida do biografado). Pelo contrário. Logo no texto de apresentação (ver abaixo), Giba revela em detalhes um dos episódios mais polêmicos de sua trajetória campeã: o dopping por maconha que poderia encerrar uma das mais brilhantes carreiras do vôlei mundial.

Sinopse (da editora):

Seis vezes escolhido o melhor jogador, dono de três medalhas olímpicas, capitão da seleção brasileira. Giba trouxe muita alegria aos torcedores com seu talento nas quadras e vai emocionar os brasileiros mais uma vez ao contar a história de sua vida. O comentarista acaba de lançar Giba neles!, autobiografia escrita em parceria com o jornalista Luiz Paulo Montes.

Sem medo de se expor, Giba fala sobre seu diagnóstico de leucemia aos quatro meses de idade, de sua relação com a família e de um acidente, aos 11 anos, pouco depois de descobrir sua paixão pelo vôlei. Se 150 pontos no braço pareciam o fim do sonho, para ele foi mais um desafio a ser superado. Além das dificuldades que forjaram seu caráter e o estimularam a seguir em frente, Giba conta os momentos emocionantes de sua carreira e comenta episódios polêmicos como sua suspensão devido a um exame antidoping, na Itália, em 2003.

Giba Neles! revela a humanidade do ídolo ao falar da paternidade, das amizades e da família. O esforço para se recuperar de lesões, as negociações delicadas com times, a dedicação e o foco nos treinamentos. O Brasil viu Giba brilhar nas quadras, conquistar títulos e fazer história. Sua biografia mostra os bastidores de suas vitórias e derrotas. Em seu prefácio, o técnico José Roberto Guimarães, que levou o jogado para a seleção brasileira, recomenda: “Não fuja do encontro com um dos maiores ídolos do esporte brasileiro”.

Apresentação
(Por Giba e Luiz Paulo Montes)

Para começar, um set decisivo

“É tudo verdade, mãe.” Ela acabara de receber uma ligação de Glenda Kozlowski, repórter da Rede Globo. “O que a senhora tem a dizer sobre o doping do Giba?” “Nada”, respondeu ela. “Acho que há algum engano. Ele não foi pego no doping”, completou. Solange Santamaria, minha mãe, ainda não sabia, mas eu, de fato, havia sido flagrado em um exame feito no dia 15 de dezembro de 2002.

Minha mãe estava ao lado de Marino, o italiano com o qual tinha se casado pouco mais de um ano antes. Foi ele quem atendeu a ligação da repórter. Assim que conseguiu, minha mãe foi à varanda e me telefonou. Atendi confirmando. Já sabia o que havia sido publicado na imprensa, e ela só poderia estar me procurando para saber se o que havia acabado de ouvir era verdade. E era. Não prolonguei a conversa. Combinamos de falar sobre o assunto pessoalmente.

Dias antes, eu tinha sido comunicado do caso pela direção do Estense Ferrara, meu clube na época. Estava sozinho em casa, no centro da cidade. Meu telefone tocou, era Alessandra Principi, manager do clube. “Senhor Giba, preciso que compareça imediatamente ao escritório.” O trajeto de meu apartamento ao clube não era longo. Alessandra me esperava em sua sala. Parecia aflita — e estava. A notícia acabara de chegar aos dirigentes: meu teste havia dado positivo. O exame encontrou o metabólito thc, da maconha, em minha urina. 

“Eu? Imagina! Não usei nada.” Minha primeira reação foi negar. Mas não havia o que negar. Ferrara havia recebido a notificação do Comitê Nacional Olímpico Italiano (Coni). Eu sabia que tinha errado. Sabia que meu exame daria positivo desde o dia em que tinha feito o teste, depois de uma partida contra o Padova, em nosso ginásio. Agora quem estava aflito era eu. O que fazer? Minha carreira estava em risco. Minha imagem, arranhada. Logo quando eu havia sido campeão mundial com a seleção, na Argentina, em 2002. Pior: uma suspensão longa poderia me tirar dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Era tudo que eu não queria. Mas era algo em que eu, sinceramente, não havia pensado quando fumei maconha.

O fim de 2002 estava complicado. Meu primeiro casamento, com a fisioterapeuta Fabiane Pereira, com quem troquei alianças em 7 de maio de 2000, havia acabado. O lado psicológico estava afetado. Em quadra, eu não rendia tudo o que podia — e que gostaria. Eu tinha conhecido uma italiana, moradora de Ferrara, e haveria uma festa naquele 14 de dezembro. Mas como sair de casa se teria jogo na tarde seguinte? “Não vou”, disse a ela, “mas pode ir, vá curtir.” “Negativo. Se você não vai, vou ficar aqui com você. Tudo bem?”

Uma festa, na verdade, talvez fosse algo de que eu precisasse naquele momento. Para relaxar, curtir, deixar de pensar um pouco nos problemas da vida, nos obstáculos e percalços que surgiam a cada instante. Mas não naquele dia. Não era a hora. Eu e a tal italiana ficamos em minha casa. Uma noite agradável, deitados na cama, vendo um filme, tomando vinho. Minha cabeça estava longe.

“Você se importa?”, ela me questionou, mostrando um cigarro de maconha. “Não, não me incomodo.” E, de fato, não me incomodava, embora aquilo fosse completamente desapropriado para um atleta. Ela tinha maconha na bolsa. Iria para a festa e usaria a droga, mas ficou em casa comigo. Eu, vivendo um turbilhão de emoções e pensamentos, caí na tentação. A sensação foi ótima. Alívio. Os problemas ficaram para trás. Nem sequer me lembrava de que, a poucas horas dali, teria jogo. Nem sequer me lembrava da Olimpíada, muito menos da seleção brasileira.

A sensação foi momentânea, e o que ficou foi a angústia, que me acompanhou durante alguns dias, desde o momento em que realizei o teste. Sabia que daria positivo. Não havia como escapar. O tempo foi passando, em uma semana sairia o resultado e a bomba explodiria. Mas não explodiu. Quinze dias e nem sinal. “Não deu em nada”, imaginei. Não tinha com quem desabafar. Não poderia jamais externar, para quem quer que fosse, que eu havia fumado maconha na véspera de uma partida.

No dia seguinte, foi difícil tirar aquilo da cabeça. A partida, marcada para as seis da tarde, foi mais complicada do que imaginávamos. O Padova, nosso adversário, estava apenas na 13ª e penúltima colocação do campeonato, enquanto nós estávamos em sexto. Além disso, jogávamos com o apoio da nossa torcida, cerca de 1.600 pessoas. Mas isso não tornou nossa vida fácil. Pelo contrário. Ganhamos o primeiro set, perdemos o segundo, triunfamos no terceiro e eles levaram o quarto. Vencemos no tiebreak. Saí de quadra como maior pontuador de nossa equipe, com dezoito pontos. Gustavo Endres, companheiro de seleção, foi o MVP — Most Valuable Player, o equivalente a melhor jogador — do jogo. Durante a partida, porém, minha cabeça não ficou cem por cento focada no que acontecia em quadra. No começo do terceiro set, enquanto me preparava para receber um saque, vi a comissão de antidoping entrando no ginásio. Foi uma das poucas vezes que permaneci em quadra com a cabeça fora dela. Eles estavam ali para testar todos os 24 jogadores inscritos na partida. E foi exatamente esse o problema: eu estava entre eles. Não havia como fugir. 

Minha mãe chegou a Ferrara no dia 19 de dezembro. Passamos juntos as festas de fim de ano. Ela sabia que eu não estava bem e se colocou à disposição para ficar uns dias comigo, se eu achasse necessário. Havia chegado a hora de chamá-la. Mas nem pensar em contar o que, dias antes, eu havia feito. Mesmo que isso me angustiasse durante boa parte do tempo.

No dia 27 de janeiro a notícia se espalhou. As agências internacionais logo dispararam o texto para o mundo inteiro. Os sites brasileiros demoraram poucos minutos para estampar em suas manchetes: “Giba flagrado no exame antidoping pelo italiano”. Na Itália, a repercussão foi bem menor. Lá, a preocupação deles é muito maior com o lado humano de cada um. Noticiaram meu erro sem maiores alardes ou estardalhaços. Dias depois, ninguém mais falava nisso. Preocupavam-se mais em publicar fotos minhas ao lado de minha mãe. Sinal de fortaleza. Eu estava bem cuidado, bem acompanhado.

Foi pela imprensa que minha mãe e todos os familiares e amigos souberam de meu erro. Aos poucos recebi ligações e mensagens de apoio. Todos dizendo que estavam a meu lado e pedindo que não abaixasse a cabeça. De fato, todos ficaram comigo. Na época, as redes sociais não eram tão difundidas, o que não permitia tanto o contato entre fãs e atletas. Se fosse hoje, sei que seria massacrado publicamente — ainda assim, no Brasil algumas pessoas me tacharam de maconheiro. Eu, como exemplo para muitos, não poderia ter feito aquilo. Mas sou humano. Todos erram. Que atire a primeira pedra aquele que jamais cometeu um erro em sua vida.

Embora eu morasse sozinho na Itália, sabia que todos aqueles próximos a mim estariam ao meu lado no momento da dificuldade. Não sei o porquê, mas decidi não contar nada a eles, mesmo tendo ciência do que estava para explodir contra mim na imprensa mundial. Ser um grande atleta tem ônus e bônus. No momento da glória, você é reconhecido. Nos momentos adversos, todos falam sobre você. Sem exceção. Especialmente naquele momento, em que eu integrara a seleção na primeira conquista de um campeonato mundial. Estávamos no centro das atenções. Eu, então, ainda mais. Quase no olho do furacão.

Fui suspenso provisoriamente pela minha equipe até que houvesse o julgamento. O Comitê Olímpico Italiano recomendava a suspensão de oito meses, o que provavelmente me deixaria fora dos Jogos Pan-Americanos de 2003, em Santo Domingo. No Brasil, falava-se até em dois anos de exclusão das competições. Minha carreira corria risco. Recebi, na Itália, a visita de Bernardinho, que tinha compromisso marcado e esticou a viagem para nos encontrarmos. Ele me deu um voto de confiança. Disse que estava a meu lado e pediu que aquele erro jamais fosse repetido. Pediu também que, aos poucos, eu cortasse o cigarro.

Minha mãe chegou de Módena e conversamos sobre a minha suspensão. Ela jamais brigou comigo por meu ato. Mas não passou a mão na minha cabeça. “Mãe, e agora? Minha carreira vai acabar.” “Não vai. Errou? Agora pegue o avião, vá ao Brasil e se desculpe publicamente. Sobretudo com as crianças, que se espelham em você.” Prometi a ela que pensaria no assunto. “Não tem o que pensar. Vá, admita seu erro e se desculpe. Você tem muitos fãs. Embarque e vá conversar com a imprensa.”

Esse conselho foi o mesmo que recebi de Ary Graça, então presidente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). Sempre fomos muito próximos. Ao longo dos anos, nossa relação extrapolou os papéis de dirigente e atleta, embora eu fosse sempre o responsável por negociações de prêmios dos jogadores com ele. Tínhamos nossas discordâncias, mas sempre chegávamos a um acordo bom para os dois lados. “Quando eu fiquei sabendo, me entristeci e, automaticamente, liguei. Pedi que viesse conversar comigo, para eu saber do que se tratava. Combinamos que viria ao Brasil dias depois para fazer uma coletiva”, relembra o dirigente. Até hoje nós mantemos uma relação bastante próxima.

De longe, eu entrei em uma espécie de retiro. Mudei meu número de telefone para acabar com as ligações insistentes de jornalistas brasileiros. Já tinha decidido que não falaria com ninguém exclusivamente. Quando falasse, seria na coletiva que Ary ficou de organizar por meio da CBV. Mas ela só aconteceria após a divulgação da minha punição pela Federação Italiana. Enquanto isso, fiquei afastado dos jogos, mas continuava concentrado nos treinos. Minha mãe e Marino estavam sempre a meu lado, hospedados em casa, inclusive. Não me deixavam sozinhos. Impedido de jogar, não deixei de acompanhar a equipe nas partidas. E lá estavam eles comigo. Especialmente minha mãe, que saiu em diversas fotos de jornais a meu lado. Mesmo em viagens — as relativamente curtas, de até cem quilômetros —, eu ia acompanhado. O importante era que eu não tivesse espaço. Não para uma recaída, pois quanto a isso eu estava bem decidido. Mas para ficar cabisbaixo, chateado. O fundamental era pensar no futuro. A vida tinha de caminhar. Ainda tinha muito a dar ao vôlei. E o vôlei a mim.

Eu sabia do meu erro. Por isso resolvi, junto com os advogados italianos que me defenderiam no caso, não pedir contraprova. Se fizesse isso, eu provavelmente retardaria o julgamento e correria riscos de, mesmo no caso de uma suspensão mínima, perder a Liga Mundial. Era tudo que eu não queria. No dia 17 de fevereiro, fui convocado para uma primeira audiência, diante de um fiscal antidoping do comitê. Ali, decidiriam se eu seria julgado ou não. Apresentei a minha versão, expliquei o momento da vida pessoal pelo qual passava. Argumentamos, dizendo que a maconha não proporciona aumento de rendimento. E a decisão foi que nos encontraríamos de novo em quinze dias. Eu seria, de fato, julgado. O dia 3 de março de 2003 decidiria o meu futuro.






Sobre o autor:
Luiz Paulo Montes é jornalista, foi repórter de jornal e mídia online, trabalhou em alguns dos mais importantes veículos de imprensa do país. Fã de Giba desde a infância, hoje é, mais do que seu assessor pessoal, um grande parceiro e irmão de consideração.