segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Rivellino

Um dos maiores camisas 10 de todos os tempos do futebol mundial, Rivellino, tem agora mais uma obra para entrar na história da literatura esportiva brasileira. “Rivellino” (Editora Contexto) foi escrito pelo experiente jornalista Maurício Noriega. Um livro para conhecer, “por dentro e por fora”, um dos grandes gênios do planeta bola.

Sinopse (da editora):

Rivellino, a Patada Atômica, o campeão do mundo pela seleção brasileira de 1970. Ídolo de ontem e das novas gerações – de torcedores e de jogadores. Como não lembrar seus dribles e a potência daquela canhota? Conhecido até hoje como Reizinho do Parque – por suas proezas como atleta do Corinthians –, Rivellino brilhou também do outro lado da ponte aérea: até hoje é considerado o maior jogador da história do Fluminense.

Conhecedor profundo de futebol, o jornalista Maurício Noriega nos conta a vida e a carreira de um dos maiores jogadores do futebol brasileiro. 

Os fãs descobrirão os bastidores da vida do Roberto e saberão como o menino que saiu da várzea de São Paulo se transformou no grande Rivellino, destaque até na maior seleção de todos os tempos. 

O livro é recheado de fotos de diversas épocas e pontuado por depoimentos da família, do próprio Rivellino e de outras grandes estrelas do futebol, como Pelé, Neto, Zico, Tostão, Beckenbauer e Platini, em entrevistas exclusivas.

“É claro que ele está na lista dos cinco melhores jogadores da história do futebol! Até hoje eu cito o Riva em minhas entrevistas como um craque fora de série. Era muito habilidoso, tinha uma grande visão de jogo e também era um excelente cobrador de faltas. Pelo Santos, todas as vezes que íamos jogar contra ele, tinha um jogador especialmente escalado para marcá-lo.”
– Pelé

Apresentação
Por Maurício Noriega

A cobrança, em tom ríspido, mas sem disfarçar certo ar de galhofa, me fez rir e sentir uma pontinha de orgulho. Fiquei imaginando se era assim que ele cobrava seus companheiros em treinamentos ou em jogos com as camisas do Brasil, do Corinthians, do Fluminense.

A cena foi reproduzida todas as manhãs em que eu o encontrei para enfileirar entrevistas como ele enfileirava adversários. Cena e cenário se repetiam em seu refúgio. Uma pesada porta de ferro afasta os sons frenéticos da metrópole. Em meio ao silêncio e ao canto dos pássaros, ele devora as páginas esportivas do jornal, banhado pela luz do sol. Aproveitando-se do transe informativo do dono, um papagaio sai da gaiola e, sorrateiramente, busca a porta. O bicho só não conta com a visão espacial privilegiada do leitor, que rapidamente se levanta, gira o corpo e, em tom duro, mas com carinho de dono, ordena que a ave retorne à gaiola, não sem ouvir uma bronca.

“Ele acha que pode me enganar”, gaba-se, enquanto brinca com o animal. Embora a paisagem tenha mudado radicalmente em mais de 50 anos, ele conhece cada centímetro daquele território. Desde os tempos em que em vez de carros corria um riacho do outro lado da porta de ferro. Tempos em que havia campos de futebol de várzea onde hoje existem viadutos, pontes e centros comerciais. 

O telefone toca e interrompe o breve devaneio. É mais um convite para um churrasco com amigos dos velhos tempos.

Embora haja futebol por todos os lados, nada naquele ambiente sugere fausto, ostentação, mesmo que nas fotos desfilem legítimos integrantes da realeza dos craques – como ele, o interlocutor de dezenas de entrevistas e bate-papos que foram o material fundamental para este livro. A proposta aqui é fazer um perfil do jogador e buscar os motivos que o transformaram em mito.

Não haveria lugar melhor para vasculhar a história de um dos maiores gênios do futebol. Foi respirando aqueles ares e vendo aquela paisagem, hoje definitivamente transformada, que o garoto Roberto aprendeu os truques que o tornaram Rivellino, o Reizinho do Parque, a Patada Atômica, o maior jogador do Fluminense, o campeão do mundo pela seleção brasileira de 1970.

Convido o leitor a embarcar comigo nessa viagem ao tempo de um futebol iluminado, sob o comando da canhota mais reverenciada de todos os tempos. No caminho, minha meta é tentar explicar por que gente como Maradona, Zidane, Platini e Beckenbauer, só para citar alguns, idolatra Rivellino; além de buscar as razões pelas quais o futebol brasileiro desaprendeu a nos brindar com jogadores como ele. A mudança de um país rural para urbano, o negócio se impondo sobre o jogo e a tendência a copiar o modelo de jogo europeu aparecem como os principais “marcadores”.

Boa viagem!

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o início do primeiro capítulo da obra. A versão completa da degustação deste primeiro capítulo você encontra no site da editora em http://editoracontexto.com.br/lancamentos/rivellino.html


De canoa. Para ver o ídolo Chiquita

De como o garoto Roberto descobriu o futebol nas ruas e nos campos de
várzea de uma São Paulo que não existe mais.

O cruzamento das avenidas Vicente Rao e Luiz Carlos Berrini, próximo à ponte do Morumbi, é um dos mais movimentados de São Paulo. Milhares de pessoas circulam em alta velocidade entre dois gigantescos centros de compras, hotéis e dezenas de modernos edifícios que abrigam grandes empresas.

É difícil acreditar que onde hoje há asfalto e veículos corria o leito de um riacho cujas águas límpidas se espalhavam numa várzea em tempos de cheia. O córrego desaguava no rio Pinheiros, que até os anos 1960 era sinuoso como a natureza projetara – seu curso ainda não havia sido retificado pelo ser humano.

A cidade de São Paulo da transição dos anos 1940 para 1950 ainda era provinciana, com poucos ares de metrópole. Era possível, por exemplo, ir de canoa de uma casa no bairro conhecido como Brooklin Paulista, próximo de onde fica o Esporte Clube Banespa, até as margens do rio Pinheiros. O local era infestado por nascentes cujos cursos de água seguiam até dois vales.

Ali transformados em rio, eles finalmente alcançavam seu destino final, o Pinheiros. Daí veio o termo “águas espraiadas”, que era o nome da avenida atualmente chamada de Roberto Marinho.

Entre uma pescaria e outra no riacho, a diversão da molecada era ir de canoa até os campos de futebol de várzea que ficavam à beira do rio Pinheiros. Recém-chegados da Aclimação, bairro mais próximo do Centro, os irmãos Abílio e Roberto se adaptaram rapidamente ao novo bairro e engrossaram a turma da rua Joaquim Guarani, que acompanhava alguns dos principais clássicos de várzea da Zona Sul de São Paulo, nos quais se reuniam times lendários como América de Santo Amaro, Vila Carmem, Durex, Minister. Brilhavam ídolos daqueles moleques com os pés enlameados – craques de fama local, como Chiquita e Airton.

Ao voltar para casa, Abílio e Roberto disputavam animadas partidas de gol a gol, modalidade na qual cada um tentava vazar a meta adversária com um chute, sempre imitando o estilo dos ídolos da várzea. Chiquita era o favorito de Roberto, o mais novo. O garoto admirava o jeito de bater na bola de seu herói. Os chutes não eram apenas potentes, tinham estilo. Formavam curvas e trajetórias que confundiam os marcadores adversários. As disputas de gol a gol no quintal dos irmãos, sob a supervisão de Wilma, irmã mais velha, tinham cadeiras como gols improvisados. Até que um dia eles resolveram sofisticar a brincadeira e adaptaram um galinheiro do pai como meta. Abílio começou a provocar o caçula, cuja pontaria estava ruim. Inspirado pelos chutes de curva de Chiquita, o canhoto Roberto meteu o que ele chamava de “uma rosca” na bola. Bateu com o lado externo do pé esquerdo, com raiva. A trajetória inicial parecia inofensiva. Mas o percurso sinuoso da pelota encontrou a porta do galinheiro, que não resistiu à força do chute e cedeu. Foi um deus nos acuda!

Galinha para um lado, pena e milho para outro; um escarcéu no quintal da família que rendeu uma bela bronca do patriarca e proprietário do galinheiro, Nicolino, que descansava lendo no jornal as notícias de seu time, o Palmeiras.

Foi assim, sem glamour ou grandes planos, que teve início a saga de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Seguramente um dos dez melhores e mais marcantes artistas desse jogo apaixonante.

O destruidor do galinheiro do seu Nicolino foi o filho Roberto Rivellino, que cerca de 15 anos mais tarde seria conhecido como Reizinho do Parque e Patada Atômica. A transformação do futebol de brincadeira de rua em profissão aconteceu naturalmente. Nada foi sonhado nas noites de infância e adolescência. “Quando era garoto, nunca pensei que seria jogador de futebol, que chegaria a jogar em times grandes e na seleção brasileira. Eu gostava de jogar bola na rua, nos campinhos de terra, como qualquer moleque da minha idade. Nada mais do que isso”, recorda, simples assim.

Jogadores de futebol, quando entrevistados sobre sua infância, geralmente citam pretensões nada modestas. Muitos dizem que sonhavam com gols em finais de Copa do Mundo. Outros citam nominalmente jogadores que viam pela tv e nos estádios ou cujas façanhas escutavam pelo rádio. Para Rivellino nada disso aconteceu. “Eu nunca tive um ídolo desses de dizer que eu copiei. Quando eu era moleque não tinha televisão, a gente ouvia os jogos pelo rádio ou escutava o que os mais velhos contavam.

Eu sempre gostei de jogadores que tratavam bem a bola, com categoria, batiam com estilo. Lembro-me desses caras da várzea, do Chiquita, do Airton, e também gostava do que falavam do Zizinho, do Didi. Mas não posso dizer que foram minha inspiração.”

A vida corria tranquila na região conhecida como Baixada do Brooklin Paulista. O clã chefiado pelo patriarca Biaggio Rivellino, avô paterno de Roberto, era proprietário de uma vasta área que ia do cruzamento das atuais avenidas Santo Amaro e Vicente Rao até quase a margem do rio Pinheiros.

As peladas não tinham times definidos, era tudo na base da brincadeira. A única regra pregava que os irmãos Abílio e Roberto não podiam atuar no mesmo time, porque era covardia. Abílio era ponta-direita. Rápido e driblador, humilhava os marcadores com extrema facilidade. O canhoto Roberto era hábil, inteligente e chegava a machucar com a força de seu chute. “Uma vez eu quebrei o braço de um menino com meu chute. Tinha um amigo nosso chamado Maurício, que era descendente de índios e ficava com aquela porra do arco e flecha o dia inteiro. Aquilo me irritava. Um dia peguei uma varada e acertei a cabeça dele, que desmaiou. Falavam que eu tinha matado o Maurício, que seria preso. Eu chorava feito um desesperado”, recorda.

Quem organizava as peladas, com a condição de que Abílio e Roberto estivessem em equipes diferentes, era um senhor que fazia questão de ser chamado pelo nome completo: Maurício Celso de Rezende Simões. Ele apitava os jogos, expulsava jogadores e gostava de interromper e orientar os jovens atletas quando entendia que tinham feito alguma coisa errada. Gabava-se para os amigos dizendo que tinha ensinado Rivellino, o Roberto, a chutar de perna esquerda.

A versão de Simões é contestada pela memória de Roberto. “Nunca ninguém me ensinou a chutar. Claro que você aprende muita coisa, mas o meu chute é dom, é natural; eu fui aprimorando jogando na rua, na várzea e depois nos clubes. Tenho fotografias de quando tinha 3, 4 anos de idade e já tinha a postura de bater na bola que eu mostrei depois como profissional”, afirma.

A primeira investida num futebol mais sério foi organizada no campinho que ficava a poucos metros de onde está localizado o Esporte Clube Banespa, praticamente na esquina das avenidas Santo Amaro e Vicente Rao. Ali foi a primeira sede, improvisada, de um tradicionalíssimo clube paulistano, o Clube Atlético Indiano. Sede era força de expressão, porque havia o campo, um vestiário improvisado e nada mais, em uma área que pertencia à família de Rivellino e era alugada para os boleiros do Indiano.

Um diretor do Banespa viu Rivellino jogando futebol na rua Joaquim Guarani, onde a família vivia, e convidou ele e os amigos para uma partida contra o time de futsal (à época, futebol de salão) do clube. “Demos uma porrada neles com nosso time, que só tinha moleque de rua. Gostei do salão e comecei a jogar também no campo, pelo juvenil do Banespa”, lembra. Apesar da nova rotina, o futebol era apenas mais uma entre muitas brincadeiras. “Eu não ficava curtindo futebol no rádio, eu queria jogar bola. Gostava de um time – no meu caso, esse time era o Palmeiras – mas não ficava ligado nos jogos. Ia jogar minhas peladas. Ou ficava no peão, na pipa”, conta. A paixão pelo Palmeiras vinha da família de origem italiana. Seu Nicolino fazia questão de ressaltar que era Palestra. Roberto tinha um papagaio chamado Totó, a quem ensinou gritar “gooooooool do Palmeiras”.

“Quando eu era garoto, o Palmeiras veio treinar no Banespa. Eu subia na cerca, pulava o muro, queria ver Valdir de Morais, Djalma Santos, Aldemar, Waldemar, Zequinha, Chinesinho, Vavá, Romero, Ferrari. Nunca neguei que eu era palmeirense; somos descendentes de italianos.”

Claro que a família Rivellino também ia aos estádios. Para o jovem Roberto, dois dias de arquibancada ficaram marcados na memória. “Lembro-me da inauguração do Morumbi, tinha muita gente. Mas nunca me esqueço de ter visto um Santos e Botafogo, no Pacaembu. Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe no Santos. Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo no Botafogo. Foi 4 a 2 para o Botafogo. Eu ali, moleque, olhando Pelé, Garrincha, Didi...”, recorda, nostálgico.

O sucesso no futsal do Banespa e no futebol de campo do clube Indiano transformou Roberto em uma espécie de celebridade entre os caçadores de talento do futebol paulistano. Seu chute com a perna esquerda chamava a atenção dos olheiros dos grandes clubes.

Até que os dois maiores rivais do futebol paulista, Corinthians e Palmeiras, travaram mais uma de suas muitas batalhas. Dessa vez, não apenas pelos pés, mas também pelo coração de um jovem craque.

Sobre o autor:
Maurício Noriega, paulista de Jaú, cidadão de Bariri, é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero de São Paulo, com Master em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais. Em mais de 25 anos de carreira, trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Diário Popular, A Gazeta Esportiva, Lance! e na Rádio Bandeirantes. Organizou a operação editorial brasileira do portal esportivo internacional SportsJÁ! Participou de diversas coberturas internacionais, entre elas Jogos Olímpicos, Jogos Pan-americanos, Copa América, Eurocopa, Copa do Mundo, GPs de Fórmula 1, Atletismo e Mundiais de Vôlei e Basquete. Desde 2002 é comentarista e apresentador do canal SporTV, com passagem pelo jornal Bom Dia São Paulo, da Rede Globo. Ganhou por cinco vezes (2005, 2006, 2007, 2010 e 2011) o prêmio Ford/Aceesp de melhor comentarista esportivo. Pela Editora Contexto, publicou os livros Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro e Oswaldo Brandão.


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