terça-feira, 14 de julho de 2015

A Bola Rolou



Escrever sobre as origens e a evolução do futebol não é tarefa fácil. Antes da escrita, há o penoso processo de pesquisa. Por essas razões, livros publicados sobre essa temática são normalmente frutos de teses e estudos acadêmicos. E é aí que, muitas vezes, o leitor acaba se assustando e não se interessando pelos poucos livros publicados sobre esse fantástico período histórico do esporte número um do Brasil.

Não é o caso de “A bola rolou: o Velódromo Paulista e os espetáculos de futebol, 1895-1916”, de Wilson Gambeta, Mestre e Doutor em História Social pela USP. O livro integra a Coleção: Memoria e sociedade da Sesi Editora – SP.

Gambeta escreve para o leitor “médio”, o amante da história do futebol, e não para historiadores eruditos ou pesquisadores aficionados por estatísticas. Uma história para se ler, e, principalmente, aprender.

E Gambeta não é “marinheiro de primeira viagem”. “A bola rolou” é, na verdade, uma extensão de outro livro seu lançado em 2014: Primeiros Passes – Documentos para a história do futebol em São Paulo (1897-1918)(Edições Ludens/Attar Editorial). E outra obra obrigatória que o Literatura na Arquibancada destacará em outro post. Para o autor: “As duas obras se complementam, uma reforça a outra. Elas formam um "PAR-CASADO" para dar conta do mesmo período histórico. Em conjunto, esses livros representam o mais aprofundado estudo já realizado sobre as primeiras décadas do futebol brasileiro, particularmente para São Paulo.”

Sinopse (da editora):

Em A bola rolou, Wilson Gambeta examina a simbologia contida nos espetáculos esportivos para acompanhar a trajetória de adaptação da antiga elite agrária paulista à moderna vida urbana. Os esportes ingleses, concebidos dentro da ideologia liberal-burguesa, foram introduzidos em São Paulo na passagem do século XIX para o século XX. As disputas esportivas, baseadas no equilíbrio igualitário, ganharam novos significados ao serem assimiladas pela sociedade local, recém-saída do escravismo. Elas foram reinterpretadas segundo uma mistura contraditória de valores que oscilavam entre o mundo agrário e o urbano, o velho e o novo. Os clubes atléticos apareceram na capital paulista como arremedos das agremiações civis modernas. Algumas das principais associações dedicadas aos espetáculos esportivos, organizadas por grupos de jovens para a integração social fora do lar, foram atravessadas pelos costumes tradicionais das famílias fazendeiras e pelos interesses políticos da oligarquia regional.

Introdução (início):
Por Wilson Gambeta

Os brasileiros que se interessam pelo esporte conhecem um relato, repetido infinitas vezes, sobre a chegada do futebol ao país: Charles Miller desembarcou no porto de Santos, em novembro de 1894, trazendo na bagagem duas bolas de couro, uma bomba de ar para enchê-las, um par de chuteiras, duas camisas de times que ele defendera na Inglaterra e um livro de regras do association football. Miller pertencia à pequena comunidade britânica radicada na cidade de São Paulo, era brasileiro de nascimento, filho de pai escocês e de mãe brasileira filha de inglês.

Ele divulgou o novo jogo entre seus amigos do clube da colônia inglesa, o São Paulo Athletic Club (SPAC, fundado em 1888), e organizou treinos na várzea do Carmo, nas proximidades do Gasômetro, com a participação de funcionários da São Paulo Gas Co., do London Bank e da São Paulo Railway. O primeiro jogo foi realizado com times improvisados, em 14 de abril de 1895, com o placar final de quatro gols para The Gas Works Team e dois para The São Paulo Railway Team. Teve início assim, com pontapé inicial inglês, a história do futebol no Brasil. Essa narrativa é sempre lembrada pela imprensa esportiva e citada por diversos historiadores como o ato fundador do nosso esporte máximo.

Há alguns anos o historiador José Moraes dos Santos Neto contestou a paternidade de Charles Miller e defendeu uma versão um pouco diferente.

Colégio Jesuíta São Luiz - Itú - SP
O futebol brasileiro teria raízes nas atividades educativas do colégio jesuíta São Luiz, em Itu, a setenta quilômetros da capital paulista, entre os anos de 1880 e 1890.1 Alguns dos professores jesuítas haviam visitado colégios da Europa e de lá o padre José Mantero trouxera duas bolas para a prática do futebol. Elas foram usadas no pátio da escola em jogos recreativos sem regras formais. Mais tarde, a partir de 1894, o padre Luiz Yabar, que conhecera bem o jogo em escolas europeias, adotou as regras do association football e organizou os alunos em quatro times para a disputa de um campeonato interno. O historiador Santos Neto defende que o futebol, depois de introduzido no colégio jesuíta, foi divulgado fora da escola por antigos alunos e se popularizou, inclusive entre operários, antes mesmo que os sócios do fechado clube inglês começassem a jogá-lo em São Paulo. O autor citou ex-alunos do colégio que espalharam o futebol em outras cidades; alguns estariam entre os fundadores dos primeiros clubes a disputar o campeonato paulista: Arthur Ravache no Sport Club Germania (SCG); Carlos Silveira e os irmãos José e Vicente de Almeida Sampaio na Associação Athletica Mackenzie College (AAMC). A hipótese de Santos Neto é plausível.

O historiador John Mills, porém, recusou de modo veemente, em publicação de 2005, as versões que questionam o pioneirismo de Charles Miller.

Defendeu que as atividades recreativas jogadas com os pés, ainda que tenham ocorrido mais cedo em algumas escolas, não podem ser confundidas com a institucionalização do futebol. Mostrou que não são novas na imprensa esportiva as citações sobre práticas de jogos com bolas nos colégios jesuítas de Nova Friburgo (o Anchieta) e de Itu (o São Luiz) ou entre marinheiros ingleses nos portos, mas que todos os cronistas especializados em esportes sempre concordaram que a adoção das regras oficiais inglesas e a organização de times só começaram, de fato, com o retorno de Miller ao Brasil.

Se a questão fosse apenas indicar um precursor, parece difícil negar a Miller o mérito de ter organizado o futebol dentro de um clube esportivo e de ter realizado os primeiros jogos com as regras inglesas fora das escolas.

Certamente, a qualidade do futebol jogado no SPAC foi uma referência para outras associações esportivas fundadas nos anos seguintes: A. A. Mackenzie College (1898), Sport Club Internacional (1899), Sport Club Germania (1899) e Club Athletico Paulistano (1900). Ao que se sabe, nos primeiros tempos os jogos foram disputados entre os sócios do SPAC e em 1899 começaram as partidas amistosas entre clubes. Em 13 de dezembro de 1901 esse movimento esportivo culminou na fundação da Liga Paulista de Football, idealizada por Antonio Casemiro da Costa (Costinha), outro líder importante. Em maio do ano seguinte, os cinco clubes deram início ao primeiro campeonato do país. Os registros que restaram do passado não são suficientes para negar a versão tradicionalmente aceita pela crônica esportiva que atribui a Charles Miller e a Casemiro da Costa o papel de principais articuladores desse esporte em São Paulo.

Colégio São Luiz - Itú SP
Afastando um pouco o olhar da dúvida que sobrevive na historiografia local – entre o pioneirismo de Charles Miller ou do padre Luiz Yabar –, todavia é possível notar que não se trata de uma oposição entre duas histórias distintas. Uma visão panorâmica pode diluir o sentido dessa questão e tornar irrelevantes os fatos pontuais. Para os dois autores citados, Santos Neto e Mills, o início regular do futebol moderno no Brasil se deu em 1894.
A importação das regras é o momento decisivo, pois permite que os times disputem entre si, ou seja, que se comuniquem em uma linguagem lúdica comum, independente dos clubes, escolas, cidades ou países a que pertençam.

A trajetória do jogo de bola também coincide para os dois autores: teve início nas instituições escolares europeias que educavam os filhos de famílias ricas. Várias das famílias britânicas radicadas em São Paulo eram de funcionários de empresas estrangeiras e, não raro, embarcavam os seus filhos para estudarem em escolas da mãe-pátria. Miller, filho de um funcionário técnico da São Paulo Railway, tornou-se um aficionado e competente futebolista depois de cursar escolas inglesas durante dez anos e lá jogar entre 1892 e 1894. De maneira análoga, os professores jesuítas que trouxeram os jogos escolares da Europa para Itu atendiam aos anseios da sua rica clientela.

O Collegio de São Luiz, fundado em 1861, era um internato de ensino fundamental que recebia garotos de famílias abastadas vindos de várias cidades, principalmente da capital paulista. No final do Império se tornou uma prática costumeira entre as famílias endinheiradas mandar os meninos para internatos afastados dos maiores centros urbanos. Ali eles receberiam uma educação com pedagogias importadas, pois os pais esperavam que os garotos tivessem uma educação básica compatível com as escolas estrangeiras.

Muitos dos jovens recém-formados seguiram estudos secundários e superiores em instituições europeias, por isso mesmo o ensino de línguas era privilegiado nesses albergamentos de ensino básico.

Nas duas bagagens pelas quais a bola desembarcou no Brasil – buscada pelo professor jesuíta e trazida pelo jovem estudante anglo-brasileiro – a mesma influência cultural foi embalada. Ela proveio do modelo de educação inglesa que incluía a missão de desenvolver tanto a capacidade física e moral dos jovens quanto a intelectual.

Ao longo do século XIX, as escolas europeias compensaram a falta de atividades da vida urbana com a criação de pedagogias para o corpo. A educação física seria a melhor forma de dar vigor àqueles que no futuro assumiriam o comando das tropas, dos negócios e da nação, e também de inculcar valores morais, como companheirismo, disciplina, respeito, lealdade, liderança, combatividade, entre outros. Inúmeras modalidades inspiradas na ginástica militar ou nos jogos tradicionais foram adaptadas e submetidas as regras próprias de cada escola. A educação alemã e a francesa preferiam a disciplina da ginástica, enquanto a inglesa incentivava as disputas lúdicas.

Em meados daquele século existiam variações do futebol sendo jogadas nas chamadas public schools inglesas – internatos particulares de ensino secundário, de alto preço, que educavam os filhos das elites –, em algumas era admitido segurar a bola com as mãos, agarrar o adversário e chutar as canelas. A uniformização das regras para permitir jogos entre agremiações independentes, o que originou os esportes atuais, foi feita por old boys (os alumni, ex-secundaristas) ao ingressarem nas universidades. Em Londres, as diferenças entre estilos do jogo foram reduzidas a duas modalidades: o rugby football e o association football. O futebol sem o uso das mãos (soccer) passou a ser dirigido pela Football Association, fundada no ano de 1863, a qual organizou o primeiro campeonato nacional em 1872. A partir da Inglaterra o novo esporte foi divulgado no arquipélago e nas colônias do Império Britânico, depois em países do continente europeu e nas Américas, enfim, em qualquer lugar em que a pedagogia inglesa exercesse influência no ensino escolar e onde atuassem empresas de capital inglês.

Quando se compara a história do futebol em diferentes países é possível constatar as duas formas básicas de propagação no final do século XIX interagindo entre si: a) no âmbito do ensino, introduzido por professores de escolas secundárias e universidades, com a importação do jogo recreativo seguida por campeonatos intercolegiais e universitários; b) no cotidiano urbano, por iniciativa de old boys que voltavam de estudos no exterior e de funcionários graduados de empresas inglesas, com a fundação de clubes esportivos, adoção das regras inglesas e a organização de uma liga local para disputar campeonatos.

Em alguns países tal propagação aconteceu em etapas distintas, com a primeira desencadeando e tendo uma influência decisiva sobre a segunda, como aconteceu em Buenos Aires. Em outros, as duas formas aconteceram simultaneamente, com os jogos escolares tendo um peso menor para a divulgação do esporte, como é o caso de São Paulo.

Ao levantar o olhar para descortinar o horizonte do passado, a polêmica sobre a paternidade do futebol brasileiro, iniciada entre Santos Neto e Mills, se dilui. As iniciativas individuais a que se referem os historiadores foram quase concomitantes e fizeram circular informações culturais equivalentes.

O jogo de bola pode ter entrado por ações semelhantes por meio de outras tantas portas pelo país afora. O problema dessa abordagem está em querer encontrar o ponto original da implantação e atribuí-la a um fundador paternal: um jogador/professor pioneiro. É difícil aceitar a ideia de que o futebol chegou de forma casual e recebeu adesões espontâneas da população a partir de um lugar específico, expandindo-se em círculos concêntricos. Identificar a introdução mais remota – como se isso fosse possível – não bastaria para compreender a naturalização do jogo, nem sobre como ele ganhou o formato de espetáculos massivos. A localização de um ato fundador pouco esclarece sobre a dinâmica desse fenômeno, diversificado e plural, que mais tarde atingiu enorme magnitude no país. As ações individuais devem ser pensadas sempre em correlação às mudanças na sociedade. É o que pretendo fazer neste estudo.

(...)

Sobre o autor:
Wilson Gambeta é formado em História e Filosofia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em História Social pela mesma. Autor do livro Primeiros Passes: documentos para a história do futebol em São Paulo (1897-1918).