terça-feira, 19 de maio de 2015

O livro das bolas de futebol

Sem “ela” não existiria o jogo que fascina gente dos quatro cantos do planeta. Mas por incrível que pareça, são raros os livros que falem somente dela. Agora, a literatura esportiva tem uma obra de referência quando o assunto é a bola. “O livro das bolas de futebol” (Panda Books), do jornalista Erich Beting, tem de tudo um pouco e muito mais...

Sinopse (da editora):

Neste livro você irá conhecer a história da bola desde a sua criação pelo povo maia até a alta tecnologia empregada na fabricação para torná-la mais eficiente nos jogos. 

Além disso, cada capítulo traz o registro de todas as bolas usadas nos campeonatos internacionais, nos campeonatos nacionais e as bolas históricas que marcaram época, como a bola de cadarço da década de 1910 e a que esteve no jogo da Seleção Brasileira em 1956.


Uma obra inédita para os colecionadores e fãs do futebol.

Apresentação
Por Erich Beting

O Dono da Bola

Aquele que começou a usar essa expressão para se referir a quem de fato manda num time foi sábio. Afinal, por mais importante que seja o atleta, o técnico, a torcida ou, às vezes, até mesmo o árbitro em um jogo de futebol, somente um personagem tem a atenção plena das pessoas: a bola.

É para ela que olhamos, é com ela dentro do gol que nós sonhamos (o gol do outro time, é claro!). Ser o dono da bola, em uma pelada ou na final de Copa do Mundo, significa ser “o cara”.

Por isso mesmo, toda criança sonha em ter uma bola. Pode ser de meia, papel, borracha ou, na melhor das possibilidades, uma réplica idêntica àquela chutada nos famosos gramados do mundo. É também muito provável que a primeira paixão e a primeira desilusão na vida de uma criança tenham relação direta com uma bola. 

Isso aconteceu comigo. A primeira vez que dividi minha cama com alguém foi com uma bola. Ou melhor, com A Bola, a minha primeira bola. Uma paixão embalada pelo perfume do couro, pela alegria das peladas no prédio, no clube, no campo ou na praia. Foi minha companheira até nos sonhos – nos dias em que era parceira também no banho, ganhava a permissão da minha mãe para dormimos abraçados, naquele sentimento de amor eterno. Até que a morte apareceu num pavoroso chute que a levou para o meio da rua e dali para a roda de um maldito carro que não teve tempo de evitar o atropelamento. O som do estouro até hoje é cristalino na memória. O duro golpe do fim da primeira paixão só conseguiu ser digerido pelos outros amores esféricos que passaram a ocupar minha vida.

Mas o que faz uma bola ter essa bola toda?

No passado, quando ainda nem era tão redonda assim, ela já tinha uma aura de importância. Nos primórdios da civilização humana, saber o que fazer com uma bola poderia significar, literalmente, a salvação de sua vida.

Hoje a coisa mudou. Ser o dono da bola dá prestígio e rende bastante dinheiro para quem sabe tratá-la muito bem. A evolução mundial do futebol trouxe tanto poder a esse objeto esférico que, por conta dele, algumas centenas de milhões de dólares são movimentadas ao redor da Terra.

Os tempos podem ter mudado, o futebol pode ter evoluído, mas uma coisa nunca vai mudar – todos querem ser donos da bola.

Milhões de bolas

Com o crescimento do futebol no mundo, calcular quantas bolas são produzidas por ano é uma tarefa impossível. No que diz respeito às bolas fabricadas segundo o padrão de qualidade internacional, as que recebem o selo de “bola aprovada”, a estimativa mais precisa que temos é dada pela Fifa em conjunto com a Nike e a Adidas, os dois grandes fabricantes de bolas no mundo. Segundo eles, cerca de 40 milhões de unidades são produzidas anualmente, podendo chegar a 60 milhões em período de Copa do Mundo.

Noventa fábricas possuem contrato de licenciamento com a Fifa, e as análises indicam que as grandes marcas esportivas são responsáveis por três quartos da produção de bolas do mercado mundial. Boa parte da fabricação tem como origem os países da Ásia: os materiais sintéticos são produzidos em Taiwan, Índia, Tailândia, China, entre outros, enquanto o Paquistão se tornou especialista na montagem das bolas.

Bola murcha

Esse crescimento da indústria de consumo no futebol trouxe também graves problemas. No início da década de 1990, as principais fabricantes mundiais de bolas terceirizaram suas linhas de produção para países africanos e asiáticos. Marrocos, Índia, China, Vietnã e Paquistão se tornaram os grandes produtores de bolas no mundo. Como exemplo, a bola oficial da Copa do Mundo de 1998, realizada na França, foi produzida no Marrocos.

A busca por esses países teve como motivo manter a margem de lucro das empresas com a venda do produto. Com a mão de obra mais barata e a carga tributária menor, as grandes marcas esportivas começaram a contratar empresas desses locais para confeccionar as bolas. Esses produtores, por sua vez, para ganhar e manter o cliente, reduziam ao máximo o custo local para produzir uma bola. 

Em poucos anos, surgiram denúncias com relação ao uso de trabalho escravo e também infantil nessas fábricas. Comprovou-se que na Índia e no Paquistão era comum que famílias inteiras executassem trabalhos semiescravos e escravos, e os intermediários, que lhes forneciam o material, ficavam com a maior parte dos rendimentos. Mulheres e crianças recebiam o equivalente a trinta centavos por bola costurada – um trabalho que exige força física, machuca as mãos e prejudica a visão. Várias reportagens e investigações concluíram que o negócio era dominado por grandes máfias em vários dos países que tinham a produção de bolas terceirizada.

Preocupada com essa questão, a Fifa adotou em 1996 um código de conduta na fabricação de produtos licenciados pela entidade, tentando assegurar que neles não houvesse trabalho escravo ou infantil. A Uefa também adotou esse código a partir da Eurocopa de 2000.

As bolas pelo mundo

A Fifa tem atualmente 208 países filiados, organizados em cinco confederações. Confira os diferentes nomes para “bola” em alguns desses países e em quais lugares a redonda é também chamada de “bola”.

País e Termos para “bola”

Albânia (top), Andorra (bola), Argentina (balón ou pelota), Azerbaijão (top), Bósnia e Herzegovina (lopta), Brunei (bola sepak), Dinamarca (bold), Eslováquia (gul’a), Filipinas (bola), Finlândia (pallo), Haiti (ballon ou boul), Holanda (bal), Hungria (labsa), Indonésia (bola), Irlanda (ball ou liathróid), Islândia (bolti), Itália (pallone), Letônia (bumba), Lituânia (kamuolys), Macau (bola ou ),Malásia (bola), Moldávia (minge), Portugal (esférico), República Tcheca (koule), Romênia (minge), Suécia (boll), Tanzânia (mpira), Timor-Leste (bwola), Vietnã (banh).

As principais empresas fabricantes se eximiram de culpa e cancelaram seus contratos com os fornecedores socialmente irresponsáveis. Desde então, passaram a adotar políticas rígidas para a aprovação de fornecedores de mão de obra e, além disso, passaram a investir milhões de dólares em ações de marketing social. De todo modo, os custos de produção permanecem mais baixos nos países asiáticos, que continuam a ser os principais produtores de bolas no mundo.

Sobre o autor:
Erich Beting nasceu em 1979 e é jornalista esportivo. Trabalhou em jornal, rádio, TV e internet. Começou sua carreira na Folha de S.Paulo, passou pelo Lance!, pelo site Esporte Bizz e foi comentarista e apresentador do canal BandSports. É dono do site Máquina do Esporte, sobre negócios do esporte, tem um blog no UOL, em que também comenta sobre futebol, e ainda é professor e palestrante. Tinha seis anos quando ganhou sua primeira bola de couro, desde então é fascinado pelo cheiro de bola nova, mesmo ela não sendo mais de couro natural... Beting nunca plantou uma árvore, mas já teve dois filhos e publica agora seu segundo livro para contar a história das bolas e manter na nova geração a paixão pelo futebol sempre acesa.

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