terça-feira, 5 de maio de 2015

A biografia de Edvaldo "Bala" Valério

A literatura esportiva precisa (e muito) de títulos que não retratem apenas o tema futebol.  A biografia “Edvaldo Bala Valério - a braçada da esperança” (Editora Via Escrita), de autoria do jornalista Raphael Carneiro, por exemplo, é fundamental, pois, nem só de medalhistas de ouro se faz um país campeão.

Sinopse (da editora):

Negro, baiano, de origem humilde e sem grande estrutura para treinamento, Edvaldo Valério fez história na natação brasileira. Nos Jogos Olímpicos de 2000, o nadador foi o responsável por fechar o revezamento 4x100m livre e garantir a medalha de bronze para o Brasil - a única naquela edição dos Jogos. Agora, 15 anos depois do feito, a vida do atleta está registrada em livro. A biografia “Edvaldo Bala Valério - a braçada da esperança”, de autoria do jornalista Raphael Carneiro e publicado pela Editora Via Escrita, será lançada em Salvador no dia 13 de maio, na Saraiva do Salvador Shopping.

Primeiro negro a ganhar uma medalha da natação brasileira nos Jogos Olímpicos, Edvaldo Valério superou desconfiança, a ciência e o preconceito para chegar ao topo do esporte. Curiosamente, o lançamento acontecerá na mesma data em que é comemorada a assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravatura no Brasil. 

Com entrevistas de companheiros de natação, treinadores, pais e amigos, além de dados históricos, o livro traça passo a passo o que foi feito antes dos Jogos Olímpicos de 2000 e após a conquista da medalha de bronze do revezamento 4x100m livre. Histórias curiosas, situações inusitadas, decepções, preconceito e muito realismo irão acompanhar o leitor nesta jornada.

“O livro tem como objetivo registrar historicamente o feito do nadador e atender à demanda das publicações sobre o esporte brasileiro. A natação é um esporte com grande popularidade no Brasil, praticado tanto por questões médicas quanto pelo prazer do esporte. Entretanto, não existem registros históricos dos grandes nomes da modalidade. A intenção do projeto é mostrar toda a carreira de Valério, inclusive explicar os motivos do que podemos chamar de sumiço dele após as Olimpíadas de 2000”, comentou o jornalista Raphael Carneiro.

O livro tem prefácio do ex-nadador Gustavo Borges, companheiro de Valério na seleção brasileira de natação e no revezamento medalhista, e orelha do comentarista do SporTV Alexandre Pussieldi.

Apresentação

Edvaldo Valério Silva Filho fez história ao se tornar o primeiro nadador negro brasileiro a ganhar uma medalha olímpica. Principal nome da natação da Bahia, o atleta teve uma carreira baseada na superação. De família humilde, precisava da ajuda dos companheiros de clube para se manter no esporte. Sofreu preconceito pela cor da pele e contrariou todas as análises fisiológicas de que o corpo do negro não é apto para a natação de velocidade.

Conhecido como Valério Bala, o baiano foi o responsável por fechar o revezamento 4x100m do Brasil nas Olimpíadas de Sydney. Mesmo ao lado de atletas como Fernando Scherer, o Xuxa, e Gustavo Borges, foi ele quem garantiu o bronze, ao cair na piscina com o Brasil na quinta colocação e encerrar a prova no terceiro lugar.

Este livro é mais do que uma biografia. É um registro para a perpetuação da história do esporte brasileiro. Em um país de memória curta, este projeto resgata a trajetória de um dos grandes talentos da natação nacional, que ficou pelo caminho das piscinas devido, em grande parte, à falta de estrutura necessária para uma carreira de alto nível.

Com entrevistas de companheiros de natação, treinadores, pais e amigos, além de dados históricos, o livro traça passo a passo o que foi feito antes dos Jogos Olímpicos de 2000 e após a conquista da medalha de bronze do revezamento 4x100m livre. Histórias curiosas, situações inusitadas, decepções, preconceito e muito realismo irão acompanhar o leitor nesta jornada que, espero, será tão prazerosa quanto foi para mim ao conhecê-la e escrevê-la.

Boa leitura!

Prefácio para Edvaldo Bala Valério
Por Gustavo Borges

Fico muito feliz por escrever o prefácio de um livro que conta a história de um batalhador do nado, que sempre superou obstáculos e preconceitos para se tornar o primeiro negro brasileiro a conquistar uma medalha olímpica na natação. Quando o conheci, a impressão era a de que ele não levava muito jeito para nadar, mas com treino e vontade ele virou o que mais tarde conheceríamos por “Bala”.

A final do 4x100m livre nos Jogos de Sydney, em 2000, foi uma competição espetacular e um revezamento fantástico. Na mesma prova, quatro anos antes na Olimpíada de Atlanta, terminamos em quarto lugar. Chegamos à Austrália, país da natação, assim como os Estados Unidos, com uma expectativa muito grande. Sabíamos que o nosso revezamento havia evoluído muito no último ciclo olímpico. O Edvaldo, particularmente, estava em grande fase.

Nas eliminatórias, a Holanda, que seria a nossa maior adversária na briga pelo bronze – admitindo-se à luz da razão que Estados Unidos e Austrália disputariam os dois primeiros lugares –, foi desclassificada. Mas ainda assim teríamos de passar por outras superações. Nos classificamos em quinto, com Rússia e Alemanha também à nossa frente.

Aquela noite de 16 de setembro de 2000 foi especial. A mídia do mundo inteiro estava presente na piscina coberta do Parque Olímpico. Nas arquibancadas, a torcida australiana, motivada pelo ídolo Ian Thorpe, tomou todo o espaço disponível na esperança de ver cair um tabu de 36 anos. Os Estados Unidos não perdiam o revezamento em uma Olimpíada desde 1964, em Tóquio. Minha esposa e meu filho também estavam nas tribunas. Pela primeira vez eles me acompanhavam em uma final olímpica.

A estratégia que adotamos foi a de iniciar o revezamento com os dois nadadores mais experientes, o Xuxa (Fernando Scherer) e eu. Depois optamos por deixar o cara mais tranquilo para fechar a prova. A melhor escolha só poderia ser um baiano. Não deu outra. Jogamos a batata quente nas mãos – e nos braços – do Edvaldo.  

Eu caí na água, depois do Xuxa, entre o terceiro e o sexto, no bolo. Em seguida, o Carlos Jayme mergulhou e manteve a nossa posição. Quando o Edvaldo caiu para finalizar a disputa nós estávamos em quinto. Foi embolado até o fim, mas ele segurou o bicampeão olímpico dos 100m livre, Popov, da Rússia, meu maior concorrente na época, e ainda ultrapassou Alemanha e Itália para consolidar a medalha de bronze para o Brasil. Diante dos torcedores enlouquecidos, a Austrália quebrou o tabu e conquistou o ouro, com direito a recorde mundial. Os Estados Unidos ficaram com a prata. 

O Bala teve um desempenho decisivo. Foi sereno, focado e demonstrou a tranquilidade necessária para permitir que trouxéssemos a medalha para casa. Aproveitou a oportunidade como ninguém aproveitaria. Foi um momento marcante em minha carreira. Conquistamos a primeira medalha brasileira nos Jogos de Sydney, o que provocou grande repercussão. Eu me tornava, naquele momento, o maior medalhista brasileiro em Olimpíadas, com quatro pódios em três edições. Alguns dias depois, nas regatas, Torben Grael também chegaria à quarta medalha olímpica.

Com este livro, acredito que o Bala terá a oportunidade de levar aos leitores, admiradores e fãs da natação a sua história, repleta de superações e desafios, que em nossas carreiras eram constantes, principalmente o revezamento 4x100m livre em Sydney. Quero deixar a mensagem de quem acompanhou o Bala de perto e se tornou testemunha de seu esforço e de sua dedicação à modalidade que escolhemos como o rumo de nossas vidas. Bala, desejo a você muitas vitórias e alegrias tão intensas como as que vivemos há 15 anos em Sydney.  

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