quinta-feira, 16 de abril de 2015

Nunca Mais!


Ele é jornalista “de primeira” e nem por isso deixou de declarar o clube de coração durante toda a carreira profissional. Nestor Mendes Jr é mais um entre os milhares de torcedores do Bahia espalhados pelo país. Ele que já era autor do livro sobre os 70 anos do Bahia, agora, deixa para a literatura esportiva um livro importantíssimo sobre um tema polêmico, desafiador e que poucos autores (independentes) se atrevem escrever, por conta de retaliações. “Nunca mais! – 25 anos de luta pela liberdade no Esporte Clube Bahia” é revelador dos bastidores políticos em um dos clubes mais populares do Brasil.

Sinopse
O livro Nunca mais! – 25 anos de luta pela liberdade no esporte clube bahia, do jornalista baiano Nestor Mendes Jr., com apresentação de Juca Kfouri, conta a história de 25 anos do movimento político de oposição que culminou, em 2013, na derrocada do grupo de cartolas que comandava o Bahia desde a década de 1970.

O título da obra foi tomado por empréstimo dos versos do Hino ao Dois de Julho, de Ladislau de Santos Títaro: “Nunca mais o despotismo /Regerá nossas ações/ Com tiranos não combinam /Brasileiros corações”. “A letra do Hino da Independência da Bahia reage a um governo sem leis, em que só uma pessoa possuía o direito de governar e a população não podia nem se manifestar. A mesma coisa acontecia no Bahia. E, posso garantir que, nunca mais, depois da democratização, o Bahia será o clube de um dono só”, explica Mendes Jr.

Fundado em 1931, o Esporte Clube Bahia conta com uma das torcidas mais apaixonadas do Brasil. Foi o primeiro campeão brasileiro, em 1959, repetindo o feito em 1988. Clube de massas, popular, contudo, em mais de 83 anos de existência, o Bahia nunca foi democrático.

O marco da luta pela democracia – uma batalha política renhida deflagrada nos bastidores do clube - é o Movimento de Renovação do Bahia, de 1989, justamente no ano da conquista título de Campeão Brasileiro de 1988 – em decisão que ocorreu no dia 19 de fevereiro de 1989, contra o Internacional, no Beira Rio.

“Durante toda essas décadas após o Bi-Brasileiro, houve uma incontida insatisfação entre os cardeais tricolores, no Centro de Treinamento do clube, o Fazendão, e em parte da torcida, contra o personalismo de Paulo Maracajá. As conquistas do hepta no Campeonato Baiano e do Campeonato Brasileiro de 1988  criaram a nuvem de fumaça que encobriria a verdadeira realidade do clube de um dono só, sem planejamento e sem qualquer visão de futuro”, conta Mendes Jr.

No seu primeiro livro sobre o clube – Bahia Esporte Clube da Felicidade: 70 anos de glórias – o jornalista praticamente ignorou os cartolas, lançando todo o protagonismo da triunfal existência do Bahia sobre os jogadores e a fanática torcida tricolor. “Desta vez, não. Osório Vilas Boas, Paulo Maracajá e seus títeres, os Guimarães, estão todos retratados a partir de fatos, assim como os nomes dos que ousaram se insurgir contra a Bastilha Tricolor. A bibliografia é extensa porque cito todas as reportagens, artigos e livros onde foi retirado o material para essa narrativa histórica”, conta Mendes Jr.

A política, os conchavos de bastidores, a ditadura, a farsa eleitoral, o Conselho Deliberativo de faz-de-conta, os movimentos de oposição, a posição de cada um dos principais atores dessa batalha são os elementos que perpassam todas as 248 páginas de Nunca Mais! – 25 anos de luta pela liberdade no Esporte Clube Bahia.

Estão retratados movimentos como o “Maracajá: Devolva Meu Bahia”, que foi um extraordinário sucesso de marketing, concebido por Durval Luiz Saback Silva - o Dudy Silva; Democracia Tricolor, que foi vendido por um traidor; o nascimento de grupos como Bahia Livre, Unidade Tricolor, Revolução Tricolor e os sites ecbahia.com e BBMP – Bor Bahêa Minha Porra; a Passeata dos 50 mil, em 2006, do Campo Grande à Praça Castro Alves; o Bahia da Torcida e a Assembleia Geral, ambos em 2013, que foram decisivos e fincaram o marco pelas eleições diretas no Bahia.

“Nomes como o de Fernando Jorge Carneiro, Luis Osório Vilas Boas, Fernando Schmidt, Fernando Passos, Fátima Mendonça, Samuel Celestino, Mário Kertész, Guilherme Bellintani, Reub Celestino, Jorge Maia, Darino Sena, Emanuel Vieira, Pedro Barachísio Lisboa, Paulo Roberto Sampaio, Carlos Rátis, Pedro Barachísio Lisboa, Antonio Miranda, Saul Quadros, André Uzêda, Marcelo Santana, Sidônio Palmeira, Nelson Barros Neto, entre tantos outros, foram decisivos para virar o jogo e democratizar radicalmente o Bahia”, diz o autor.

“Não lutamos e derrotamos a ditadura no Bahia para tomar o poder, mas para que pudéssemos ter regras claras, legais e democráticas por essa disputa de poder. Maracajá dizia que, com a democracia, o “anão do Baby Beef” (em referência ao porteiro de um extinto restaurante de Salvador) corria o risco de ser eleito presidente do clube. Talvez, o anão tivesse mais sucesso que os testas-de-ferro inexpressivos que ele colocou para tomar conta de sua cadeira de presidente. Como escreveu o poderoso jornalista Cruz Rios, em 1996, o cartola imitava a Luís XV, rei de França: ‘aprés moi le deluge’ - depois de mim, o dilúvio”, relata o escritor. 

O ex-presidente - e um dos maiores benfeitores do clube, sobretudo na área patrimonial - o arquiteto Antonio Pithon, ganhou um capítulo especial, onde é contada a sua ascensão e queda. Ao manter toda a estrutura de “colaboradores” de Maracajá no Fazendão, Pithon foi sendo minado, solapado, boicotado, diariamente. Tudo o que fazia, inclusive a sua vida privada, era repassado aos seus inimigos aliados.  Sobre a controvertida contratação do jogador português Jorge Silva, Pithon não tem dúvida em acusar: “A transferência de Jorge Silva foi boicotada dentro do próprio Bahia. Quando consegui a documentação, em outubro de 1997, machucaram o jogador no treino, impossibilitando-o de jogar”.

O livro também conta a história da dinastia da família Guimarães, pai e filho, no clube. O primeiro contato do pai com o clube já foi muito desastroso. Em 10 de maio de 2005, em entrevista ao Correio da Bahia, o próprio Marcelo Guimarães disse que o seu envolvimento com o Esporte Clube Bahia começou durante a infância, na Ribeira. “Eu acompanho a vida do clube desde 1959. Tinha apenas 10 anos e sua concentração era na Ribeira, perto de minha casa. Eu conhecia todos os jogadores. Era eu quem ia comprar cigarro para Marito, Biriba, Vicente e outros grandes craques do passado”.

Os reinados de “Marcelo I” e “Marcelo II” foram desastrados. São tempos de goleadas históricas para o arquirrival, rebaixamentos por diversas vezes para as Séries B e C do Campeonato Brasileiro, acusações de negociatas e transações poucos transparentes, além de insolvência e total perda de credibilidade.

Nunca Mais! – 25 anos de luta pela liberdade no Esporte Clube Bahia também relata os bastidores da primeira intervenção judicial no clube, em 6 de dezembro de 2011, em ação movida pelo advogado Pedro Barachísio Lisboa, que durou menos de 24h, mas se desenrolaria através do tempo pelos escaninhos e labirintos do Tribunal de Justiça da Bahia. Em 2013, depois de o presidente Marcelo Guimarães Filho debochar e fazer escárnio das decisões da Justiça nas redes sociais, a diretoria do clube é destituída definitivamente, com a posse do interventor Carlos Rátis.

Cansada de tantos desmandos, em 2013 a torcida voltou às ruas, se associou em massa e decidiu pela eleição direta do presidente do clube, realizada no dia 7 de setembro de 2013. Pode se considerar como a primeira revolta popular vitoriosa em um clube de futebol no Brasil que conseguiu destronar a elite dirigente e subverter a ordem até então vigente.

Eleito pelo voto direto dos sócios do Bahia, o presidente Fernando Schmidt cumpriu fielmente as suas promessas de campanha, principalmente no que tange à garantia de absoluta transparência.  Sem temor, abriu todas informações do relatório da auditoria, que apontava, preliminarmente, um rombo de R$ 83,2 milhões nas contas do clube.

O seu principal feito nesta área, contudo, foi divulgar a “Lista do Jabá”, divulgando os nomes dos radialistas que se recebiam benesses e eram favorecidos por contratos suspeitos com o clube. Mais de 95% da torcida apoiou a divulgação dos nomes, segundo enquete, realizada durante 10 dias, pelo site ecbahia.com, ouvindo cerca de 5.500 internautas.

A repercussão do “Jabaleaks” – em referência ao Wikileaks, o site de Julian Assange que divulgou sigilos diplomáticos - foi tremenda nas redes sociais. O repórter da Rádio Metrópole, Marinho Júnior, disse no Twitter: “Se for falar de quem o clube dava passagem, não vai sobrar um! Todos recebiam. Todos”! Em reação, o jornalista do Correio da Bahia, Marcelo Sant`Ana, foi enfático: “Rádios, né? Exclua jornal, TV e web. Grato”!

Enquanto a hipocrisia grassava pelos microfones em estéreis notas dissonantes, a torcida do Bahia entrava em convulsão orgásmica. Jura da Ribeira e Vitaum foram a sensação no Youtube com a música "Jabazeira Eu, Jabazeira Ela", parodiando um sucesso da banda Chiclete com Banana.

Ao final do livro, Nestor Mendes Jr. diz que essa epopeia dos movimentos de oposição foi para garantir a transparência, a lei e a democracia: “Não foi um grupo que chegou ao poder em razão direta da queda de outro. Não foi a vitória da oposição contra a eterna situação. Foi uma mudança definitiva no jeito de fazer as coisas. Foi uma espécie de vacinação coletiva contra o arbítrio. A refundação do Bahia foi operada por sua própria torcida, única e eterna proprietária do destino do Esporte Clube Bahia, nascido em 1º de janeiro de 1931. Nunca mais o Bahia terá um dono: o dono agora somos todos nós, seus sócios e torcedores”.

Sobre o autor:
Nestor Mendes Jr., 51 anos, nasceu em São Sebastião do Passé, Bahia. Formado em Jornalismo, pela Universidade Federal da Bahia, e em Direito, pela Universidade Católica do Salvador, trabalhou em diversos veículos de comunicação do Estado, como A Tarde, TV Bahia, Tribuna da Bahia, Correio da Bahia, Bahia Hoje, Rádio Sociedade e Rádio Educadora e como repórter free lancer do Jornal do Brasil.
Atuou, fazendo marketing político, em 14 campanhas eleitorais.
É autor do livro Bahia Esporte Clube da Felicidade – 70 anos de Glórias, com 186 páginas, em edição de luxo, que conta a trajetória de 70 anos do Esquadrão de Aço.

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