quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Copa das Copas?

Um “time” de mestres, literalmente, deixa para a literatura esportiva um documento histórico. “A Copa das Copas? Reflexões sobre o Mundial de 2014 no Brasil” (Edições Ludens”), teve a organização do professor José Carlos Marques, da Unesp, em parceria com o Ludens e o GP de Comunicação e Esporte da Intercom. A obra reúne alguns dos principais pesquisadores sobre o futebol da universidade brasileira.

Literatura na Arquibancada agradece ao prof. José Carlos Marques, a cessão do link com o e-book completo para leitura:

Prefácio
“As minhas copas”
Por Prof. José Carlos Marques

Prof. José Carlos Marques
No dia 27 de maio de 1998, a poucos dias do início da Copa do Mundo da França, o escritor Luís Fernando Verissimo publicava no Jornal do Brasil e em O Estado de S. Paulo a crônica intitulada “A do Pelé”. Ao longo do texto, o cronista gaúcho comentava as contradições que envolveram o Mundial do México de 1970 e o período no qual o Brasil assistia à Ditadura Militar instituída em nosso país em 1964. Tratava-se de um momento em que, segundo o mesmo Verissimo, vivíamos “numa espécie de clandestinidade clandestina”, pois aquela competição fora disputada num clima de ambiguidades entre o apoiar e o não apoiar a Seleção Brasileira. Ainda nas palavras dele, “Nunca foi tão difícil e nunca foi tão fácil torcer pelo Brasil. Difícil porque torcer era uma forma de colaboracionismo, fácil porque o time era de entusiasmar qualquer um.”.

O que me chama a atenção nessa crônica, entretanto, é seu primeiro parágrafo, no qual o autor subordina temporalmente nossa vida em torno do ciclo quadrienal cumprido pelas Copas do Mundo:

Como o personagem do poema de T.S. Eliot que podia medir sua vida em colherinhas de café, podemos medir nossos últimos 28 anos em Copas do Mundo. Foram sete, cada uma correspondendo a uma etapa do nosso relacionamento com o futebol, ou com a Seleção, que é o futebol depurado das suas circunstâncias menores, e portanto com o país.

No meu caso particular, posso afirmar que este ciclo teve início em julho de 1966, quando eu ouvia, de dentro da barriga de minha mãe, as comemorações de meu pai, de meus tios e de meu avô ao ouvirem, pelo rádio, as façanhas que a Seleção Portuguesa realizava na Copa da Inglaterra por meio do virtuosismo de craques como Torres, Coluna, Eusébio & Cia. Fui nascer apenas em outubro daquele ano, já em meio à ressaca do terceiro lugar conquistado por Portugal em campos ingleses, mas quatro anos depois eu já era submetido a novo batismo de fogo, agora acompanhado de um irmão de apenas seis meses, com quem eu julgo ter assistido aos festejos do tricampeonato brasileiro, na tal “Copa do Pelé”.

Digo isto porque, à semelhança do Verissimo e à semelhança do personagem do T.S. Eliot, tenho a impressão de que também posso medir minha vida em Copas do Mundo. Contando com a de 1966, que certamente incubou o futebol no líquido amniótico que me alimentava até então, já posso contabilizar 13 Copas, incluída a de 2014, realizada no Brasil (e, para quem gosta de números, o título deste livro também tem 13 letras!). Lembro e relembro de fases da minha existência (como a infância, os tempos de colégio, a chegada à universidade, o casamento, o início do Mestrado e do Doutorado etc.) fazendo correlações com o que acontecia no mundo a partir das realizações dos mundiais de futebol. É como se o sentido evolutivo da vida fosse dado em anos pares, sempre de quatro em quatro anos, com um jogo que opunha indivíduos de lado a lado brigando pela posse de uma bola.

O que os artigos aqui reunidos querem fazer é algo bastante similar, ou seja, interpretar os fatos e circunstâncias que envolveram a Copa do Mundo de 2014 e perceber de que forma um acontecimento esportivo consegue dotar-se de tanta significação em meio à sociedade brasileira, influenciando e marcando a cena cotidiana por inúmeras semanas, antes e depois de o evento ter ocorrido. Quais imbricações culturais, políticas, sociais, econômicas, entre outras, são e foram operadas com a realização deste megaevento na Terra Brasilis? Tanto ou mais importante do que a academia discutir e debater a organização da Copa-2014 antes de ela começar era a academia voltar-se a este evento após a sua realização e procurar dar sentido a ele. Daí o significado desta iniciativa.

Para tanto, foram convidados alguns pesquisadores que, nos últimos anos, vêm sendo responsáveis por incluir e manter o esporte, de forma geral, e o futebol, em particular, na agenda da pesquisa e da discussão acadêmica no Brasil. Nenhum dos autores aqui presente caiu de paraquedas na obra, e muitos já solidificaram suas carreiras por meio das investigações e da dedicação que destinam a este tema em suas universidades. O leitor pode estar certo de que tem em mãos um retrato abrangente dos principais grupos e pesquisadores contemporâneos que tratam do futebol na universidade brasileira, nem que, para isso, tivéssemos que recorrer a um estrangeiro, mas que mantém presença constante nos eventos e congressos acadêmicos em nosso país. A lamentar temos apenas a ausência de alguns poucos atletas, que não puderam atender ao chamado, ora porque estavam sobremaneira atarefados, ora porque entregues “ao departamento médico” durante os meses em que este livro foi composto.

Ainda que estejamos não muito distantes dos acontecimentos da Copa de 2014, penso que a massa crítica aqui presente cumpre positivamente o princípio basilar da pesquisa acadêmica: reunir ou investigar informações sobre um determinado assunto com a intenção de compreendê-lo melhor a partir de variados aspectos. Esta obra realiza tal tarefa por meio de leituras diferentes, por vezes contrastantes e opostas, mas sempre com a riqueza do olhar e com a graça da polifonia. E não seria demais afirmar que, se estivessem em campo, os artigos cá reunidos jamais perderiam por 7 x 1, qualquer que fosse o adversário!

Por último, cabem alguns agradecimentos: aos autores, inicialmente, pela gentileza em aceitar a convocação e por retribuírem a ela com sua contumaz habilidade crítica; ao GECEF (Grupo de Pesquisa e Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol), por meio do qual a obra pôde ser pautada e organizada; ao Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP/Campus de Bauru, pelo auxílio e financiamento de sua publicação; ao Grupo de Pesquisa em Comunicação e Esporte da Intercom, pela parceria no agendamento das discussões que culminaram com o lançamento deste projeto; e às Edições Ludens, pela colaboração na reta final com a edição dos materiais.
Boa leitura!

Apresentação
Por Ary José Rocco Júnior

A belíssima imagem do Cristo Redentor, iluminado em verde e amarelo, com o Estádio do Maracanã ao fundo, banhado por intensa queima de fogos, correu o mundo na noite do dia 13 de julho de 2014. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas tenham visto essa imagem em todo o mundo.

Minutos antes, Philipp Lahm, capitão da seleção da Alemanha, havia erguido a Taça FIFA, cobiçado troféu entregue à seleção campeã do mundo de futebol. Estava encerrada, pelo menos de forma simbólica, a principal competição esportiva do planeta, e, com ela, mais um importante capítulo da história recente do Brasil.

Desde o dia 7 de outubro de 2007, quando o país foi oficializado pela FIFA como sede de sua competição mais importante, o Mundial de seleções, o Brasil viveu um dos períodos mais interessantes de sua rica trajetória. Ao contrário daquilo que o senso comum imaginava, por ser o “país do futebol”, a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 evidenciou as principais contradições de uma jovem nação que ainda amadurece em suas instituições políticas, sociais e econômicas.

Aquilo que parecia ser motivo de festa para o país, a celebração de seu esporte favorito e do seu principal motivo de identificação no cenário internacional, foi alvo, internamente, de manifestações populares que explodiram por todas as principais cidades do Brasil, em busca de uma sociedade mais justa e democrática. A realização do evento no país estava em xeque.

Celebrada por uns, criticada por outros, a Copa do Mundo de 2014 marcou, assim, um dos momentos mais importantes da história recente da República, em que conceitos como democracia, cidadania, responsabilidade social, transparência, mobilidade urbana, capacidade de sediar o evento etc., foram amplamente discutidos por toda a sociedade brasileira.

Mais uma vez, como sempre ocorreu em sua história moderna, o futebol expôs de forma clara as contradições históricas da sociedade brasileira. Contradições essas que explicitaram diversos pontos de vista da importância, ou não, do evento Copa do Mundo para o Brasil. Da capacidade do país em organizar o evento até a discussão sobre o que restaria como legado da competição para a sociedade brasileira, diversos temas, com um espectro extenso e variado de opiniões, foram debatidos em um Brasil que sofre “na pele” a dureza de seu processo de amadurecimento democrático.

É essa riqueza de pontos de vista – cultural, social, político, econômico, jurídico, midiático, esportivo – sobre a Copa do Mundo de 2014 que o público encontrará nesta obra, A Copa das Copas?, que o GECEF (Grupo de Pesquisa e Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol), apoiado pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação e Esporte da Intercom e pelas Edições Ludens, coloca à disposição do público leitor, interessado ou não no futebol brasileiro.

Isso mesmo, amigo leitor! A obra não se destina apenas aos fãs, estudiosos ou pesquisadores do esporte mais importante do país. A Copa das Copas?, pela importância da realização do Mundial em nosso país, transcende o universo do futebol. O livro é, antes de ser um livro sobre esporte, um olhar sobre o Brasil contemporâneo, suas contradições, dúvidas e angústias, evidenciadas pela organização do evento mais visto em todo planeta.

A importância cultural do futebol no país, principalmente na construção da identidade do “ser brasileiro” em tempos de megaeventos marca presença nesta obra. Afinal, “Copa pra quem?”. Assim como ocorrera com o Mundial de 1950, a Copa do Mundo de 2014 trouxe vasta contribuição para a construção do imaginário popular do brasileiro. Leia o livro e veja como.

A mídia, parceira inexorável do esporte, também esteve presente de forma marcante no Mundial. Em um livro sobre comunicação e esporte, a cobertura midiática do evento não poderia deixar de chamar a atenção dos pesquisadores da área. “A Copa das Copas?” também lança seu olhar sobre esse tema.

A idolatria sobre o ídolo jovem Neymar e a evolução das transmissões esportivas também fazem parte da pauta de discussão da obra do GECEF. O livro lança novas discussões sobre o papel da mídia na construção do imaginário popular e na sua importância para o desenvolvimento tecnológico das relações cada vez mais fortes entre os meios de comunicação e os megaeventos esportivos.

Alemanha e Argentina fizeram o duelo final da Copa do Mundo de 2014.

A Copa das Copas? reproduz em suas páginas o confronto que decidiu a competição. Porém, ao final da leitura do livro, o leitor não encontrará o campeão. Conhecerá, sim, a visão dos finalistas sobre a competição realizada no Brasil. Nossos vizinhos argentinos e os eficientes e pragmáticos alemães lançaram olhares interessantes e peculiares dos trinta dias de competição em território brasileiro. Leia a obra e entenda como ocorreu mais essa disputa entre europeus e sul-americanos.

A importância da gestão estratégica da comunicação entre entidades esportivas e a sociedade também está presente no livro organizado pelo GECEF. A obra mostra como a correta gestão de uma agremiação esportiva reflete, de forma clara, na performance esportiva no campo de jogo. A Copa das Copas? mostra isso de forma bastante clara para você, amigo leitor. A relevância econômica e mercantil da Copa do Mundo FIFA de 2014, o maior megaevento esportivo do planeta, não poderia ficar de fora de uma obra de referência sobre o Mundial realizado no Brasil. Os mecanismos de gestão imagética e o Código de Conduta nos Estádios durante o evento são as duas vertentes da questão econômica abordados em A Copa das Copas?.

Além dos aspectos culturais, econômicos e sociais apresentados em diversos textos da obra, o livro organizado pelo GECEF traz, também, a discussão sobre a Lei Geral da Copa e seus desdobramentos jurídicos sobre a sociedade brasileira. Entre o fascínio das ruas e o fascismo dos craques, ao retomar a discussão sobre a cobertura que a imprensa esportiva nacional fez do Mundial, A Copa das Copas? conclui que o “O Brasil não é para principiantes” e que “Fomos goleados também fora de campo”.

Para fechar a obra, como a cereja do bolo, A Copa das Copas? apresenta ao leitor o Homo brasilis, o ‘sacana coça-saco tropical’, em uma discussão que envolve o discurso fundador do país e um enigmático professor alemão. Para entender o que tudo isso junto significa, só lendo de forma completa este material.

Para finalizar, convido você, caro leitor, a responder, ao final da leitura integral do livro, à pergunta que a obra do GECEF deixa pairando sobre a cabeça de todos nós: A Copa das Copas? Não olhe com essa cara para mim, amigo leitor. Mesmo após a leitura, não tenho ainda minha resposta. Porém, uma coisa a você que está conosco agora posso garantir:

A Copa das Copas? é o “Livro dos Livros” sobre a Copa do Mundo de 2014. Leia e veja você mesmo se não estou certo. Boa leitura!


Um comentário:

  1. Vou refletir...
    Volto para comentar.
    Beijo Andre.
    Continuo sua fã.
    Beijo.

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