sexta-feira, 17 de abril de 2015

O Jogador Secreto

No mundo do futebol moderno, só mesmo um autor “secreto” para poder contar tudo o que acontece nos bastidores deste esporte que movimenta bilhões. Mas a Editora Panda Books deve saber de quem se trata, caso contrário, não iria “bancar” o livro “O Jogador Secreto”. São histórias que em algum momento já ouvimos no futebol, aqui e acolá, mas quando todas se encontram agrupadas chega a impressionar.

Livro importante na história da literatura esportiva mundial.

Sinopse (da editora)

O Jogador Secreto

Cansado de ver tanta besteira circulando na mídia esportiva, um influente jogador decidiu botar a boca no trombone e revelar ao mundo o que realmente acontece nos bastidores do futebol, escrevendo uma coluna para a revista inglesa FourFourTwo. Em O Jogador Secreto, ele narra em mínimos detalhes o que se passa ao longo de uma temporada do futebol profissional inglês. Para se proteger, o autor esconde sua identidade. O que sabemos é que jogou pelas quatro divisões do Campeonato Inglês e representou seu país em jogos internacionais, atuando na Seleção.

O livro é dividido em capítulos que correspondem aos meses da temporada inglesa, que vai de julho a maio. As histórias são todas verídicas, baseadas na experiência própria do autor. A pitada de ficção fica por conta da cronologia dos casos: propositadamente, o Jogador Secreto misturou diversas temporadas em uma só, numa estratégia para despistar detetives de plantão na busca pela sua identidade.

Sem se preocupar em preservar a imagem de ninguém, o autor revela intrigas, casos extraconjugais, episódios de racismo, abusos de treinadores, pilantragens, festas e extravagâncias de jogadores. A narrativa se inicia em julho, na pré-temporada dos treinamentos. São seis semanas enfurnados no centro: segundo o autor, “a pior época do ano para um jogador”. É daí que se forma a equipe principal, da qual todos ralam para fazer parte. A pressão é tanta que, não raro, os jogadores escondem lesões para não serem cortados do time.

Agosto chega com otimismo. É a fase de amistosos, ainda livre das estressantes advertências que costumam sobrecarregar os ânimos ao longo da temporada. Os jogadores voltam a frequentar os vestiários, recheados de curiosas tradições: lá, por exemplo, é proibido falar em dinheiro. É também o mês em que eles reencontram suas mulheres depois do período de treinos. Isso gera uma tensão extra, dado o índice de casos extraconjugais e a velocidade com que as notícias desse tipo se espalham. O autor estima que apenas 30% dos jogadores sejam fiéis a suas companheiras.

Outubro é o mês em que tudo pode dar errado, porque é quando começa a temporada das demissões. Além disso, os jogadores já estão cansados e desenvolvem lesões e dores crônicas. Começa também a temporada de clássicos, o que acaba provocando episódios de insônia, devido à adrenalina dos jogos. A relação dos jogadores com a torcida é estremecida, dada a pressão do público em ver os resultados do time.

Em fevereiro começa a segunda metade do campeonato inglês e, com ela, o fantasma do rebaixamento, que agrava as crises de ansiedade e depressão nos atletas. Março é o mês mais desafiador para o técnico, que tem de lidar com o cansaço físico dos jogadores, preferindo muitas vezes escalar os mais descansados em detrimento dos habilidosos. Muitas vezes, isso provoca atritos entre a comissão técnica e os jogadores. Em abril, começam as especulações sobre as renovações dos contratos e, com elas, vem o peso sobre os jogadores com mais de trinta anos. Até que, em maio, termina o Campeonato Inglês e a temporada chega ao fim, dando início a um novo ciclo.

A edição brasileira de O Jogador Secreto conta ainda com um capítulo extra que reúne seis colunas do Jogador X, que, entre maio de 2011 e dezembro de 2012, revelou histórias dos bastidores do futebol profissional brasileiro em sua coluna na revista ESPN. Com o mesmo cuidado de não revelar sua identidade, o misterioso jogador critica a precária cobertura jornalística esportiva e os preconceitos que assombram o meio futebolístico, além de abrir o jogo sobre a existência da famigerada “mala preta” – o dinheiro que é oferecido aos jogadores para perder uma partida.

TRECHO

“Tenho sido bem-sucedido na ocultação da minha identidade, mas aconteceram alguns momentos de arrepiar os cabelos. Uma vez estava num posto de abastecimento quando vi a manchete ‘Escândalo de orgia na Premier League’, ou algo parecido, na primeira página de um tabloide. Comprei um exemplar para ver o que os rapazes haviam aprontado – apenas para descobrir que a história do jornal havia sido decalcada da minha mais recente coluna na revista FourFourTwo. Não sei por que deveria ter ficado preocupado. Não havia nomes nela. E então um colega jogador me apanhou com a boca na botija. Ou eu pensei que ele me apanhou – ainda não tenho a certeza.”

Sobre o autor:
O autor de O Jogador Secreto prefere manter sua identidade no anonimato. Jogou pelas quatro divisões do Campeonato Inglês e representou seu país em jogos internacionais, atuando na Seleção Inglesa. Revelou os bastidores do futebol em sua coluna na revista FourFourTwo.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Nunca Mais!


Ele é jornalista “de primeira” e nem por isso deixou de declarar o clube de coração durante toda a carreira profissional. Nestor Mendes Jr é mais um entre os milhares de torcedores do Bahia espalhados pelo país. Ele que já era autor do livro sobre os 70 anos do Bahia, agora, deixa para a literatura esportiva um livro importantíssimo sobre um tema polêmico, desafiador e que poucos autores (independentes) se atrevem escrever, por conta de retaliações. “Nunca mais! – 25 anos de luta pela liberdade no Esporte Clube Bahia” é revelador dos bastidores políticos em um dos clubes mais populares do Brasil.

Sinopse
O livro Nunca mais! – 25 anos de luta pela liberdade no esporte clube bahia, do jornalista baiano Nestor Mendes Jr., com apresentação de Juca Kfouri, conta a história de 25 anos do movimento político de oposição que culminou, em 2013, na derrocada do grupo de cartolas que comandava o Bahia desde a década de 1970.

O título da obra foi tomado por empréstimo dos versos do Hino ao Dois de Julho, de Ladislau de Santos Títaro: “Nunca mais o despotismo /Regerá nossas ações/ Com tiranos não combinam /Brasileiros corações”. “A letra do Hino da Independência da Bahia reage a um governo sem leis, em que só uma pessoa possuía o direito de governar e a população não podia nem se manifestar. A mesma coisa acontecia no Bahia. E, posso garantir que, nunca mais, depois da democratização, o Bahia será o clube de um dono só”, explica Mendes Jr.

Fundado em 1931, o Esporte Clube Bahia conta com uma das torcidas mais apaixonadas do Brasil. Foi o primeiro campeão brasileiro, em 1959, repetindo o feito em 1988. Clube de massas, popular, contudo, em mais de 83 anos de existência, o Bahia nunca foi democrático.

O marco da luta pela democracia – uma batalha política renhida deflagrada nos bastidores do clube - é o Movimento de Renovação do Bahia, de 1989, justamente no ano da conquista título de Campeão Brasileiro de 1988 – em decisão que ocorreu no dia 19 de fevereiro de 1989, contra o Internacional, no Beira Rio.

“Durante toda essas décadas após o Bi-Brasileiro, houve uma incontida insatisfação entre os cardeais tricolores, no Centro de Treinamento do clube, o Fazendão, e em parte da torcida, contra o personalismo de Paulo Maracajá. As conquistas do hepta no Campeonato Baiano e do Campeonato Brasileiro de 1988  criaram a nuvem de fumaça que encobriria a verdadeira realidade do clube de um dono só, sem planejamento e sem qualquer visão de futuro”, conta Mendes Jr.

No seu primeiro livro sobre o clube – Bahia Esporte Clube da Felicidade: 70 anos de glórias – o jornalista praticamente ignorou os cartolas, lançando todo o protagonismo da triunfal existência do Bahia sobre os jogadores e a fanática torcida tricolor. “Desta vez, não. Osório Vilas Boas, Paulo Maracajá e seus títeres, os Guimarães, estão todos retratados a partir de fatos, assim como os nomes dos que ousaram se insurgir contra a Bastilha Tricolor. A bibliografia é extensa porque cito todas as reportagens, artigos e livros onde foi retirado o material para essa narrativa histórica”, conta Mendes Jr.

A política, os conchavos de bastidores, a ditadura, a farsa eleitoral, o Conselho Deliberativo de faz-de-conta, os movimentos de oposição, a posição de cada um dos principais atores dessa batalha são os elementos que perpassam todas as 248 páginas de Nunca Mais! – 25 anos de luta pela liberdade no Esporte Clube Bahia.

Estão retratados movimentos como o “Maracajá: Devolva Meu Bahia”, que foi um extraordinário sucesso de marketing, concebido por Durval Luiz Saback Silva - o Dudy Silva; Democracia Tricolor, que foi vendido por um traidor; o nascimento de grupos como Bahia Livre, Unidade Tricolor, Revolução Tricolor e os sites ecbahia.com e BBMP – Bor Bahêa Minha Porra; a Passeata dos 50 mil, em 2006, do Campo Grande à Praça Castro Alves; o Bahia da Torcida e a Assembleia Geral, ambos em 2013, que foram decisivos e fincaram o marco pelas eleições diretas no Bahia.

“Nomes como o de Fernando Jorge Carneiro, Luis Osório Vilas Boas, Fernando Schmidt, Fernando Passos, Fátima Mendonça, Samuel Celestino, Mário Kertész, Guilherme Bellintani, Reub Celestino, Jorge Maia, Darino Sena, Emanuel Vieira, Pedro Barachísio Lisboa, Paulo Roberto Sampaio, Carlos Rátis, Pedro Barachísio Lisboa, Antonio Miranda, Saul Quadros, André Uzêda, Marcelo Santana, Sidônio Palmeira, Nelson Barros Neto, entre tantos outros, foram decisivos para virar o jogo e democratizar radicalmente o Bahia”, diz o autor.

“Não lutamos e derrotamos a ditadura no Bahia para tomar o poder, mas para que pudéssemos ter regras claras, legais e democráticas por essa disputa de poder. Maracajá dizia que, com a democracia, o “anão do Baby Beef” (em referência ao porteiro de um extinto restaurante de Salvador) corria o risco de ser eleito presidente do clube. Talvez, o anão tivesse mais sucesso que os testas-de-ferro inexpressivos que ele colocou para tomar conta de sua cadeira de presidente. Como escreveu o poderoso jornalista Cruz Rios, em 1996, o cartola imitava a Luís XV, rei de França: ‘aprés moi le deluge’ - depois de mim, o dilúvio”, relata o escritor. 

O ex-presidente - e um dos maiores benfeitores do clube, sobretudo na área patrimonial - o arquiteto Antonio Pithon, ganhou um capítulo especial, onde é contada a sua ascensão e queda. Ao manter toda a estrutura de “colaboradores” de Maracajá no Fazendão, Pithon foi sendo minado, solapado, boicotado, diariamente. Tudo o que fazia, inclusive a sua vida privada, era repassado aos seus inimigos aliados.  Sobre a controvertida contratação do jogador português Jorge Silva, Pithon não tem dúvida em acusar: “A transferência de Jorge Silva foi boicotada dentro do próprio Bahia. Quando consegui a documentação, em outubro de 1997, machucaram o jogador no treino, impossibilitando-o de jogar”.

O livro também conta a história da dinastia da família Guimarães, pai e filho, no clube. O primeiro contato do pai com o clube já foi muito desastroso. Em 10 de maio de 2005, em entrevista ao Correio da Bahia, o próprio Marcelo Guimarães disse que o seu envolvimento com o Esporte Clube Bahia começou durante a infância, na Ribeira. “Eu acompanho a vida do clube desde 1959. Tinha apenas 10 anos e sua concentração era na Ribeira, perto de minha casa. Eu conhecia todos os jogadores. Era eu quem ia comprar cigarro para Marito, Biriba, Vicente e outros grandes craques do passado”.

Os reinados de “Marcelo I” e “Marcelo II” foram desastrados. São tempos de goleadas históricas para o arquirrival, rebaixamentos por diversas vezes para as Séries B e C do Campeonato Brasileiro, acusações de negociatas e transações poucos transparentes, além de insolvência e total perda de credibilidade.

Nunca Mais! – 25 anos de luta pela liberdade no Esporte Clube Bahia também relata os bastidores da primeira intervenção judicial no clube, em 6 de dezembro de 2011, em ação movida pelo advogado Pedro Barachísio Lisboa, que durou menos de 24h, mas se desenrolaria através do tempo pelos escaninhos e labirintos do Tribunal de Justiça da Bahia. Em 2013, depois de o presidente Marcelo Guimarães Filho debochar e fazer escárnio das decisões da Justiça nas redes sociais, a diretoria do clube é destituída definitivamente, com a posse do interventor Carlos Rátis.

Cansada de tantos desmandos, em 2013 a torcida voltou às ruas, se associou em massa e decidiu pela eleição direta do presidente do clube, realizada no dia 7 de setembro de 2013. Pode se considerar como a primeira revolta popular vitoriosa em um clube de futebol no Brasil que conseguiu destronar a elite dirigente e subverter a ordem até então vigente.

Eleito pelo voto direto dos sócios do Bahia, o presidente Fernando Schmidt cumpriu fielmente as suas promessas de campanha, principalmente no que tange à garantia de absoluta transparência.  Sem temor, abriu todas informações do relatório da auditoria, que apontava, preliminarmente, um rombo de R$ 83,2 milhões nas contas do clube.

O seu principal feito nesta área, contudo, foi divulgar a “Lista do Jabá”, divulgando os nomes dos radialistas que se recebiam benesses e eram favorecidos por contratos suspeitos com o clube. Mais de 95% da torcida apoiou a divulgação dos nomes, segundo enquete, realizada durante 10 dias, pelo site ecbahia.com, ouvindo cerca de 5.500 internautas.

A repercussão do “Jabaleaks” – em referência ao Wikileaks, o site de Julian Assange que divulgou sigilos diplomáticos - foi tremenda nas redes sociais. O repórter da Rádio Metrópole, Marinho Júnior, disse no Twitter: “Se for falar de quem o clube dava passagem, não vai sobrar um! Todos recebiam. Todos”! Em reação, o jornalista do Correio da Bahia, Marcelo Sant`Ana, foi enfático: “Rádios, né? Exclua jornal, TV e web. Grato”!

Enquanto a hipocrisia grassava pelos microfones em estéreis notas dissonantes, a torcida do Bahia entrava em convulsão orgásmica. Jura da Ribeira e Vitaum foram a sensação no Youtube com a música "Jabazeira Eu, Jabazeira Ela", parodiando um sucesso da banda Chiclete com Banana.

Ao final do livro, Nestor Mendes Jr. diz que essa epopeia dos movimentos de oposição foi para garantir a transparência, a lei e a democracia: “Não foi um grupo que chegou ao poder em razão direta da queda de outro. Não foi a vitória da oposição contra a eterna situação. Foi uma mudança definitiva no jeito de fazer as coisas. Foi uma espécie de vacinação coletiva contra o arbítrio. A refundação do Bahia foi operada por sua própria torcida, única e eterna proprietária do destino do Esporte Clube Bahia, nascido em 1º de janeiro de 1931. Nunca mais o Bahia terá um dono: o dono agora somos todos nós, seus sócios e torcedores”.

Sobre o autor:
Nestor Mendes Jr., 51 anos, nasceu em São Sebastião do Passé, Bahia. Formado em Jornalismo, pela Universidade Federal da Bahia, e em Direito, pela Universidade Católica do Salvador, trabalhou em diversos veículos de comunicação do Estado, como A Tarde, TV Bahia, Tribuna da Bahia, Correio da Bahia, Bahia Hoje, Rádio Sociedade e Rádio Educadora e como repórter free lancer do Jornal do Brasil.
Atuou, fazendo marketing político, em 14 campanhas eleitorais.
É autor do livro Bahia Esporte Clube da Felicidade – 70 anos de Glórias, com 186 páginas, em edição de luxo, que conta a trajetória de 70 anos do Esquadrão de Aço.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Copa das Copas?

Um “time” de mestres, literalmente, deixa para a literatura esportiva um documento histórico. “A Copa das Copas? Reflexões sobre o Mundial de 2014 no Brasil” (Edições Ludens”), teve a organização do professor José Carlos Marques, da Unesp, em parceria com o Ludens e o GP de Comunicação e Esporte da Intercom. A obra reúne alguns dos principais pesquisadores sobre o futebol da universidade brasileira.

Literatura na Arquibancada agradece ao prof. José Carlos Marques, a cessão do link com o e-book completo para leitura:

Prefácio
“As minhas copas”
Por Prof. José Carlos Marques

Prof. José Carlos Marques
No dia 27 de maio de 1998, a poucos dias do início da Copa do Mundo da França, o escritor Luís Fernando Verissimo publicava no Jornal do Brasil e em O Estado de S. Paulo a crônica intitulada “A do Pelé”. Ao longo do texto, o cronista gaúcho comentava as contradições que envolveram o Mundial do México de 1970 e o período no qual o Brasil assistia à Ditadura Militar instituída em nosso país em 1964. Tratava-se de um momento em que, segundo o mesmo Verissimo, vivíamos “numa espécie de clandestinidade clandestina”, pois aquela competição fora disputada num clima de ambiguidades entre o apoiar e o não apoiar a Seleção Brasileira. Ainda nas palavras dele, “Nunca foi tão difícil e nunca foi tão fácil torcer pelo Brasil. Difícil porque torcer era uma forma de colaboracionismo, fácil porque o time era de entusiasmar qualquer um.”.

O que me chama a atenção nessa crônica, entretanto, é seu primeiro parágrafo, no qual o autor subordina temporalmente nossa vida em torno do ciclo quadrienal cumprido pelas Copas do Mundo:

Como o personagem do poema de T.S. Eliot que podia medir sua vida em colherinhas de café, podemos medir nossos últimos 28 anos em Copas do Mundo. Foram sete, cada uma correspondendo a uma etapa do nosso relacionamento com o futebol, ou com a Seleção, que é o futebol depurado das suas circunstâncias menores, e portanto com o país.

No meu caso particular, posso afirmar que este ciclo teve início em julho de 1966, quando eu ouvia, de dentro da barriga de minha mãe, as comemorações de meu pai, de meus tios e de meu avô ao ouvirem, pelo rádio, as façanhas que a Seleção Portuguesa realizava na Copa da Inglaterra por meio do virtuosismo de craques como Torres, Coluna, Eusébio & Cia. Fui nascer apenas em outubro daquele ano, já em meio à ressaca do terceiro lugar conquistado por Portugal em campos ingleses, mas quatro anos depois eu já era submetido a novo batismo de fogo, agora acompanhado de um irmão de apenas seis meses, com quem eu julgo ter assistido aos festejos do tricampeonato brasileiro, na tal “Copa do Pelé”.

Digo isto porque, à semelhança do Verissimo e à semelhança do personagem do T.S. Eliot, tenho a impressão de que também posso medir minha vida em Copas do Mundo. Contando com a de 1966, que certamente incubou o futebol no líquido amniótico que me alimentava até então, já posso contabilizar 13 Copas, incluída a de 2014, realizada no Brasil (e, para quem gosta de números, o título deste livro também tem 13 letras!). Lembro e relembro de fases da minha existência (como a infância, os tempos de colégio, a chegada à universidade, o casamento, o início do Mestrado e do Doutorado etc.) fazendo correlações com o que acontecia no mundo a partir das realizações dos mundiais de futebol. É como se o sentido evolutivo da vida fosse dado em anos pares, sempre de quatro em quatro anos, com um jogo que opunha indivíduos de lado a lado brigando pela posse de uma bola.

O que os artigos aqui reunidos querem fazer é algo bastante similar, ou seja, interpretar os fatos e circunstâncias que envolveram a Copa do Mundo de 2014 e perceber de que forma um acontecimento esportivo consegue dotar-se de tanta significação em meio à sociedade brasileira, influenciando e marcando a cena cotidiana por inúmeras semanas, antes e depois de o evento ter ocorrido. Quais imbricações culturais, políticas, sociais, econômicas, entre outras, são e foram operadas com a realização deste megaevento na Terra Brasilis? Tanto ou mais importante do que a academia discutir e debater a organização da Copa-2014 antes de ela começar era a academia voltar-se a este evento após a sua realização e procurar dar sentido a ele. Daí o significado desta iniciativa.

Para tanto, foram convidados alguns pesquisadores que, nos últimos anos, vêm sendo responsáveis por incluir e manter o esporte, de forma geral, e o futebol, em particular, na agenda da pesquisa e da discussão acadêmica no Brasil. Nenhum dos autores aqui presente caiu de paraquedas na obra, e muitos já solidificaram suas carreiras por meio das investigações e da dedicação que destinam a este tema em suas universidades. O leitor pode estar certo de que tem em mãos um retrato abrangente dos principais grupos e pesquisadores contemporâneos que tratam do futebol na universidade brasileira, nem que, para isso, tivéssemos que recorrer a um estrangeiro, mas que mantém presença constante nos eventos e congressos acadêmicos em nosso país. A lamentar temos apenas a ausência de alguns poucos atletas, que não puderam atender ao chamado, ora porque estavam sobremaneira atarefados, ora porque entregues “ao departamento médico” durante os meses em que este livro foi composto.

Ainda que estejamos não muito distantes dos acontecimentos da Copa de 2014, penso que a massa crítica aqui presente cumpre positivamente o princípio basilar da pesquisa acadêmica: reunir ou investigar informações sobre um determinado assunto com a intenção de compreendê-lo melhor a partir de variados aspectos. Esta obra realiza tal tarefa por meio de leituras diferentes, por vezes contrastantes e opostas, mas sempre com a riqueza do olhar e com a graça da polifonia. E não seria demais afirmar que, se estivessem em campo, os artigos cá reunidos jamais perderiam por 7 x 1, qualquer que fosse o adversário!

Por último, cabem alguns agradecimentos: aos autores, inicialmente, pela gentileza em aceitar a convocação e por retribuírem a ela com sua contumaz habilidade crítica; ao GECEF (Grupo de Pesquisa e Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol), por meio do qual a obra pôde ser pautada e organizada; ao Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP/Campus de Bauru, pelo auxílio e financiamento de sua publicação; ao Grupo de Pesquisa em Comunicação e Esporte da Intercom, pela parceria no agendamento das discussões que culminaram com o lançamento deste projeto; e às Edições Ludens, pela colaboração na reta final com a edição dos materiais.
Boa leitura!

Apresentação
Por Ary José Rocco Júnior

A belíssima imagem do Cristo Redentor, iluminado em verde e amarelo, com o Estádio do Maracanã ao fundo, banhado por intensa queima de fogos, correu o mundo na noite do dia 13 de julho de 2014. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas tenham visto essa imagem em todo o mundo.

Minutos antes, Philipp Lahm, capitão da seleção da Alemanha, havia erguido a Taça FIFA, cobiçado troféu entregue à seleção campeã do mundo de futebol. Estava encerrada, pelo menos de forma simbólica, a principal competição esportiva do planeta, e, com ela, mais um importante capítulo da história recente do Brasil.

Desde o dia 7 de outubro de 2007, quando o país foi oficializado pela FIFA como sede de sua competição mais importante, o Mundial de seleções, o Brasil viveu um dos períodos mais interessantes de sua rica trajetória. Ao contrário daquilo que o senso comum imaginava, por ser o “país do futebol”, a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 evidenciou as principais contradições de uma jovem nação que ainda amadurece em suas instituições políticas, sociais e econômicas.

Aquilo que parecia ser motivo de festa para o país, a celebração de seu esporte favorito e do seu principal motivo de identificação no cenário internacional, foi alvo, internamente, de manifestações populares que explodiram por todas as principais cidades do Brasil, em busca de uma sociedade mais justa e democrática. A realização do evento no país estava em xeque.

Celebrada por uns, criticada por outros, a Copa do Mundo de 2014 marcou, assim, um dos momentos mais importantes da história recente da República, em que conceitos como democracia, cidadania, responsabilidade social, transparência, mobilidade urbana, capacidade de sediar o evento etc., foram amplamente discutidos por toda a sociedade brasileira.

Mais uma vez, como sempre ocorreu em sua história moderna, o futebol expôs de forma clara as contradições históricas da sociedade brasileira. Contradições essas que explicitaram diversos pontos de vista da importância, ou não, do evento Copa do Mundo para o Brasil. Da capacidade do país em organizar o evento até a discussão sobre o que restaria como legado da competição para a sociedade brasileira, diversos temas, com um espectro extenso e variado de opiniões, foram debatidos em um Brasil que sofre “na pele” a dureza de seu processo de amadurecimento democrático.

É essa riqueza de pontos de vista – cultural, social, político, econômico, jurídico, midiático, esportivo – sobre a Copa do Mundo de 2014 que o público encontrará nesta obra, A Copa das Copas?, que o GECEF (Grupo de Pesquisa e Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol), apoiado pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação e Esporte da Intercom e pelas Edições Ludens, coloca à disposição do público leitor, interessado ou não no futebol brasileiro.

Isso mesmo, amigo leitor! A obra não se destina apenas aos fãs, estudiosos ou pesquisadores do esporte mais importante do país. A Copa das Copas?, pela importância da realização do Mundial em nosso país, transcende o universo do futebol. O livro é, antes de ser um livro sobre esporte, um olhar sobre o Brasil contemporâneo, suas contradições, dúvidas e angústias, evidenciadas pela organização do evento mais visto em todo planeta.

A importância cultural do futebol no país, principalmente na construção da identidade do “ser brasileiro” em tempos de megaeventos marca presença nesta obra. Afinal, “Copa pra quem?”. Assim como ocorrera com o Mundial de 1950, a Copa do Mundo de 2014 trouxe vasta contribuição para a construção do imaginário popular do brasileiro. Leia o livro e veja como.

A mídia, parceira inexorável do esporte, também esteve presente de forma marcante no Mundial. Em um livro sobre comunicação e esporte, a cobertura midiática do evento não poderia deixar de chamar a atenção dos pesquisadores da área. “A Copa das Copas?” também lança seu olhar sobre esse tema.

A idolatria sobre o ídolo jovem Neymar e a evolução das transmissões esportivas também fazem parte da pauta de discussão da obra do GECEF. O livro lança novas discussões sobre o papel da mídia na construção do imaginário popular e na sua importância para o desenvolvimento tecnológico das relações cada vez mais fortes entre os meios de comunicação e os megaeventos esportivos.

Alemanha e Argentina fizeram o duelo final da Copa do Mundo de 2014.

A Copa das Copas? reproduz em suas páginas o confronto que decidiu a competição. Porém, ao final da leitura do livro, o leitor não encontrará o campeão. Conhecerá, sim, a visão dos finalistas sobre a competição realizada no Brasil. Nossos vizinhos argentinos e os eficientes e pragmáticos alemães lançaram olhares interessantes e peculiares dos trinta dias de competição em território brasileiro. Leia a obra e entenda como ocorreu mais essa disputa entre europeus e sul-americanos.

A importância da gestão estratégica da comunicação entre entidades esportivas e a sociedade também está presente no livro organizado pelo GECEF. A obra mostra como a correta gestão de uma agremiação esportiva reflete, de forma clara, na performance esportiva no campo de jogo. A Copa das Copas? mostra isso de forma bastante clara para você, amigo leitor. A relevância econômica e mercantil da Copa do Mundo FIFA de 2014, o maior megaevento esportivo do planeta, não poderia ficar de fora de uma obra de referência sobre o Mundial realizado no Brasil. Os mecanismos de gestão imagética e o Código de Conduta nos Estádios durante o evento são as duas vertentes da questão econômica abordados em A Copa das Copas?.

Além dos aspectos culturais, econômicos e sociais apresentados em diversos textos da obra, o livro organizado pelo GECEF traz, também, a discussão sobre a Lei Geral da Copa e seus desdobramentos jurídicos sobre a sociedade brasileira. Entre o fascínio das ruas e o fascismo dos craques, ao retomar a discussão sobre a cobertura que a imprensa esportiva nacional fez do Mundial, A Copa das Copas? conclui que o “O Brasil não é para principiantes” e que “Fomos goleados também fora de campo”.

Para fechar a obra, como a cereja do bolo, A Copa das Copas? apresenta ao leitor o Homo brasilis, o ‘sacana coça-saco tropical’, em uma discussão que envolve o discurso fundador do país e um enigmático professor alemão. Para entender o que tudo isso junto significa, só lendo de forma completa este material.

Para finalizar, convido você, caro leitor, a responder, ao final da leitura integral do livro, à pergunta que a obra do GECEF deixa pairando sobre a cabeça de todos nós: A Copa das Copas? Não olhe com essa cara para mim, amigo leitor. Mesmo após a leitura, não tenho ainda minha resposta. Porém, uma coisa a você que está conosco agora posso garantir:

A Copa das Copas? é o “Livro dos Livros” sobre a Copa do Mundo de 2014. Leia e veja você mesmo se não estou certo. Boa leitura!