terça-feira, 24 de março de 2015

Uma bola no pé e uma ideia na cabeça


A reflexão inspirada em livros com temáticas mais “complexas” para o leitor “comum” são sempre bem-vindos. Antropologia, filosofia, psicologia, ciência e tecnologia e sociedade inspiraram 16 autores a refletir sobre o futebol. O livro “Uma bola no pé e uma ideia na cabeça: o que o futebol nos faz pensar” (Editora UFRJ e Faperj) está aí, para nos fazer pensar e entender sobre o esporte número 1 do país.
Abaixo, textos de contracapa, orelhas e trecho do artigo escrito por Bernardo Oliveira.

Texto contracapa

Multidões se aglutinam em torno do futebol, essa paixão que faz corpos se agitarem em praias, parques, campos de terra, gramados, ruas, playgrounds, etc. A bola, as torcidas, os times, os árbitros, as relações de poder, as competições organizadas e as experiências da juventude, tudo serve como objeto de pensamento.

O que dizer dos afetos que ligam as torcidas? Das estratégias dos times em campo e suas atuações? Das atividades dos árbitros? Das relações de poder que se estabelecem nas federações e nos campeonatos nacionais? Essas são algumas das questões que instigam os dezesseis autores reunidos nesta obra, que dialogam com as mais diversas áreas: antropologia, psicologia, filosofia e estudos de ciência e tecnologia e sociedade.

Texto orelhas

O fenômeno do futebol vem cres­cendo e atraindo a atenção nas pesqui­sas acadêmicas. Temas como futebol e nacionalismo, violência no futebol e hooliganismo, futebol como um ins­trumento da política, futebol e proces­sos identitários e futebol, megaeventos esportivos e planejamento urbano são somente alguns exemplos de pesquisas e publicações recentes. Como escapar, no entanto, à armadilha de que o conhe­cimento acadêmico faça do futebol uma espécie de simples marionete, falando por meio de suas principais teses ou teo­rias? Como fazer que o futebol abra um amplo campo de pensamento, im­pondo novas questões, novos temas, novos conceitos (e mesmo contracon­ceitos)? São essas as questões que mo­vem o time de autores aqui reunidos.

Contando com o trabalho de pes­quisadores e pensadores brasileiros e estrangeiros, o livro Uma bola no pé e uma ideia na cabeça: o que o futebol nos faz pensar busca, de uma forma pioneira, mudar o estilo de jogo, pela recusa da tomada do futebol como objeto dócil e por um modo de pensar não sobre ele, mas com ele, fazendo do esporte bretão um campo privile­giado para analisar alguns elementos estruturantes da sociedade.

Esse "pensar com" suscita várias tro­cas de passes com pensadores como Sócrates, Hobbes, Spinoza, Nietzsche, Deleuze, Gramsci, Lyotard, Latour e Baurnan, entre outros. Porém, este li­vro se pretende filosófico menos pelo trabalho desses célebres autores do que pelo risco de refletir sobre aquilo que o futebol nos traz como questões: ser torcedor, seus afetos, o jogo, seu es­tilo, seu acontecimento c os modos de arbitragem. É isso que os autores de­sejam fazer em escritos com distintas filiações filosóficas, nacionalidades, uni­versidades, áreas do saber e - talvez o mais importante - diferentes filiações clubísticas. Convidamos você, caro lei­tor, para uma tabelinha pensante pe­las linhas tortuosas do futebol. Que o jogo possa ser franco, aberto, sem re­tranca ou linha-burra, e que nele todos só tenham a ganhar.

Sobre os organizadores:


Arthur A. L. Ferreira é professor da UFRJ, doutor em Psicologia Clínica pela rucsr membro dos Programas de P?S­-graduaçáo em Psicologia e em História das Ciências e das Técn icas e Epistemo­logia da UFRJ e pesquisador do CNPq.

André Martins é professor da UFRJ, doutor em filosofia pela Un iversité de Nicc e membro do Programa de Pós-gra­duação em Filosofia da UFRJ.

Robert Segal é licenciado em Filoso­fia, mestre em Educação pela Uni Rio e doutorando em Educação pela UFRJ.

Futebol, Acontecimento
Por Bernardo C. Oliveira

O mistério que resguarda a influência do futebol sobre a vida de uma grande parte da população mundial não corresponde a uma miríade insondável, tal como imaginam muitos de seus admiradores e detra­tores. Basta recorrer às inúmeras investigações que buscam detectar as razões sociais, culturais, políticas e, sobretudo, econômicas pelas quais se constituíram o mito e a miséria futebolística. Poderemos perceber que se, por um lado, se sedimentou um imaginário deveras mítico, cuja previsibilidade o inscreve nos aspectos indeléveis da expressão humana, por outro, associa-se frequentemente sua existência às maracutaias e à ganância, em suma, ao pior da política. Aqui também parece valer a máxima pós-capitalista: a economia, estúpido!”

Dos estudos mais intrigantes a respeito do aspecto, por assim dizer, menos nobre do futebol, o precursor Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa, compra de votos e escândalo de ingressos, assinado pelo repórter investigativo inglês Andrew Jennings (2011), é o resultado de uma pesquisa de sete anos na intimidade dos homens que controlam o nebuloso mundo do futebol. O livro mapeia e traça a degeneração da Fifa a reboque da ascensão de um brasileiro, a quem se atribui todo o projeto de unificação e dominação do futebol em escala mundial: o ex-esportista brasileiro Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange. É intrigante, porque, apesar de o livro conter provas cabais sobre todas as barbaridades que denuncia, seus artífices se mantiveram no poder à revelia de processos e liminares, pois não houve retaliação institucional nem medidas oficiais que coibissem tais práticas. A situação fica ainda mais complicada quando se sabe que tais denúncias foram reforçadas pelo livro de David Yallop, Como eles roubaram o jogo, malgrado a tentativa, que permeia todo o livro, de atribuir aos latino-americanos a responsabilidade pela corrupção no futebol. Dito e escrito por um inglês, parece piada...

Apostemos em outra perspectiva: não nos ocorreu adotar a natação ou a bocha, e mesmo o vôlei brasileiro, a despeito de sua trajetória vitoriosa, para substituir o esporte bretão. Não nos ocorreu adorar outro esporte, nem a nós nem a tantos outros povos do mundo. A especificidade do sentimento futebolístico, inseparável da relação que o indivíduo mantém com seu time do coração, me leva a deixar de lado o tema do desencanto pela política e abraçar a proposta deste livro: o que se pode problematizar a respeito de uma possível relação entre a filosofia e o futebol que se afirme, ao mesmo tempo, com certa liber­dade em relação aos terríveis aspectos políticos e históricos, mas que explique, ainda que paradoxalmente, o maravilhamento produzido por esse esporte, responsável pela atenção de mais da metade da população mundial? Eventualmente, em favor do futebol, essa manobra prejudi­cará alguns temas filosóficos laterais – por exemplo, a teoria dos afetos em Spinoza. Peço ao leitor que releve. Em relação ao futebol, somos convocados a atender a uma superficialidade atenta à pele das coisas.

Ora, ao abordarmos um fenômeno labiríntico como o futebol, sob a perspectiva crítica da filosofia, convém antes precisar o ponto de vista sob o qual conduziremos a argumentação. De antemão, devo justificar a ausência do jogo propriamente – tanto no que diz respeito às regras e ao desenvolvimento das concepções táticas quanto nos aspectos "guerreiros" –, pautada por batalhas campais, partidas inesquecíveis em virtude de reabilitações e resultados imprevistos, disputas acirradas em campos encharcados, conduzidos por juízes corruptos e infestadas de brigas, estiramentos, pernas quebradas, doping, vexames, craques desmoralizados e muita emoção... Como a final do brasileiro de 1980, envolvendo Flamengo e Atlético Mineiro, ou a desclassificação do mesmo Flamengo na Libertadores de 2008, pelas mãos de um artilheiro gordinho chamado Cabanas. Não esqueçamos a chamada Batalha dos Aflitos, que definiu para o Grêmio o campeonato da Série B de 2005. São relevantes e marcam a memória com o rastro mítico do acontecimento futebolístico, mas não implicam necessariamente a intervenção criadora do craque. Parece-me que, a despeito da corrupção e das manipulações, a memória e a imaginação, imbricadas em um delírio mítico decorrente da atuação do craque, são as responsáveis pelo transe futebolístico. Do contrário, o elemento que decide uma partida dessa natureza é coletivo e, não raro, brutal.

Concentro os argumentos sobre três perspectivas que me parecem centrais: a mobilização coletiva da torcida – do torcedor fanático, "doente" ou "curado"; a ação individual-criativa do craque – respon­sável pelo que há de insubstituível na dinâmica singular do jogo; e, enfim, a convergência de individualidade e coletividade no âmago do acontecimento, entendido como o momento em que a intervenção individual se conecta à coletividade, tanto em relação ao desenrolar da partida quanto em relação à memória da torcida. "Desse entroncamen­to, formado pela convergência entre individualidade, coletividade e acontecimento, configura-se o substrato mítico do futebol, sucedâneo do pharmakós grego, delírio coletivo que tem o poder de expurgar ainda que momentânea e imaginariamente, os males da cidade. Ativada pela intervenção individual do craque, sedimentada sobre a memória e atualizada coletivamente a todo instante, a mítica futebolística prolifera pelas ruas, alheia às pressões externas e aos eventuais maus resultados. Na verdade, isso ocorre para a grande maioria dos torcedores, o que se reflete cruelmente em nossa cultura cristã pelo fato de que o "vira-casaca"!' é considerado um ser desprezível, comparável a Judas Iscariotes. (...)

Sobre o autor do texto:
Bernardo C. Oliveira Pós-doutorado, IFCS/UFRJ. Doutor em Filosofia, PUC Rio. Professor da Faculdade de Educação da UFRJ. Crítico, pesquisador e produtor.

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