segunda-feira, 16 de março de 2015

Contos Brasileiros de Futebol

Um gênero na literatura esportiva que deveria ter maior visibilidade e criadores. Se escrever Contos sobre futebol já é coisa rara, o que pensar de livros que reúnam autores? Em 2008, o escritor e poeta Cyro de Mattos fez isso e assim surgiu “Contos Brasileiros de Futebol” (Editora LGE). Uma seleção de craques da literatura como Aércio Consolin, Aldyr Schlee, Antonio Barreto, Caior Porfírio Carneiro, Deonísio da Silva, Dias da Costa, Duílio Gomes, Edilberto Coutinho, Edson Gabriel Garcia, Hélio Pólvora, José Cruz Medeiros, Lourenço Cazarré, Luís Henrique, Moacir Japiassu, Renard Perez, Salim Miguel, Sérgio Sant’Anna, Suzana Monteiro e também o organizador, Cyro de Mattos.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo, o texto de apresentação do organizador, Cyro de Mattos e um dos contos, do craque Moacir Japiassu, “A Bola e a Rede”.

Futebol e Literatura
Por Cyro de Mattos

Febre. Religião. A maior paixão popular. Que bonito a torcida no estádio superlotado. As bandeiras desfraldadas. Apoteose de não sei quantas gargantas que explodem no ar um só grito de gol. Delira a torcida, vendo a rede balançar. Quando a bola bate no montinho artilheiro e engana o goleiro: Óóóóóóóó! Que fatalidade, observa o torcedor: “Nada melhor que um gol aos 45 minutos do segundo tempo”. Ele sabe que nada é mais prazeroso do que a conquista do campeonato no último minuto. No torcedor derrotado um soco na barriga e como dói quando a partida é uma final de campeonato. É como um nocaute que derruba milhares no abismo.

Rostos cabisbaixos. Bandeira enrolada, queimada.

No gol de impedimento milhares xingam o homem do apito vestido de preto e, de quebra, a mãe dele deixa de ser santa. Vociferam, ameaçam Deus e o mundo. Nada mais terrível na alma do que a dor de não ser campeão. Como consolo o torcedor repete: “Estava escrito nas estrelas. Os deuses tinham escrito há milênios”. De um lado o sol tão claro, a bola esplende no peito do torcedor como um milagre, do outro é flor machucada pendendo amargura e solidão.

Obra-prima dos pés. O gol é oferta generosa dada ao torcedor, o craque festeja o feito como algo indescritível. Pode acontecer em frações de segundo. Mostra Salim Miguel na história ultraleve e ultrarrápida de “O Gol”. O contista anota: “Pela potência do chute certeiro, ficou sendo conhecido (expressão do locutor e logo incorporada) como coice de mula – pouco importando, que a rede estivesse podre”. O torcedor ama as cores desse momento maior da partida, chora e ri. Às vezes é certeza de guerra vencida, noutras acontece por causa de um lance bobo do zagueiro. A bola ia sair pela linha de fundo, ele foi cortar com a mão. Agora não tem mais jeito. É sair pra outra. Bola no pênalti só milagre pra não ser gol.

Somos a pátria das chuteiras, os melhores do planeta, por cinco vezes fomos campeões mundiais de futebol. Todas as conquistas foram em gramados estrangeiros, bom não esquecer. Uma onda movimenta-se incontrolada, de canto a canto, desse Brasil tropicalista. A marchinha bate nos tímpanos, dizendo que “o brasileiro é bom no samba, é bom de bola”. A paixão pelo futebol fascina o brasileiro desde pequeno, no campo improvisado de algum terreno baldio, na várzea ou até no meio da rua. Não importa, se não tiver bola de couro, vale de borracha mesmo ou até de meia. No vaivém do jogo, não faltam os empurrões, os bate-bocas e os xingamentos, para não falar em expulsões. Quando a partida ou pelada é no colégio, o juiz pode ser a professora, revela a narrativa primorosa de Deonísio da Silva, em “1958”.

O futebol rendeu crônicas admiráveis a autores como Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Rui Osterman e Roberto Drummond. Em José Lins do Rego, tem papel saliente no romance “Água-Mãe”. O ficcionista Ewelson Soares Pinto, em “Crônica do Valente Parintins”, e Renato Pompeu, em “A Saída do Primeiro Tempo”, entraram no tapete verde do campo das letras e trataram do assunto. Carlos Drummond de Andrade dedicou versos a Pelé, em: “o sempre rei republicano/ o povo feito atleta na poesia / do jogo mágico”, e à nossa conquista na Copa do Mundo de 70. João Cabral de Melo Neto fez o elogio do goleador Ademir Menezes, teceu o perfil macio de Ademir da Guia e informou sobre o “desábito” de ser campeão do América do Rio. Vinicius de Moraes com uma obra-prima de soneto traz para o campo das letras o nosso genial Mané Garrincha, a alegria do povo, com suas pernas tortas dava dribles desconcertantes.

Craques do conto brasileiro falam de dramas e paixões que o futebol proporciona, ora mostrando a vida com seus ventos contrários, ora imitando a própria arte no que tem de emoção e sonho. Com o estádio cheio ou na pelada, na jogada suja do cartola ou com os moleques de rua, nos lances cujos minutos fazem as horas do mundo, que assoberbam o brasileiro quando se trata da nossa primeira conquista de um campeonato mundial de futebol. Falam sobre a disputa na vida e no campo, revelam o futebol embaralhando-se num jogo encoberto de amor e vingança. Conseguem dar um show de bola quando afinam na escrita autêntica a vida no que tem o brasileiro como uma de suas faces mais alegre, sofrida. Transformam em obra de arte, no caso à literária, as jogadas mais sensacionais da vida, apuradas num toque sutil da palavra que rola na bola, como naqueles vinte minutos finais mais lentos da história do futebol brasileiro quando conquistamos a primeira Copa do Mundo em gramados da Suécia – é o que conta Renard Perez na história tensa com final feliz de “Copa do Mundo”.

Exatamente como faz o torcedor quando está na arquibancada ou geral, vendo o jogo atento, torcendo, vibrando, o leitor tem a oportunidade de acompanhar, lance por lance, o mundo apaixonante do futebol por meio de jogadas talentosas feitas por craques do nosso conto. É só colar os olhos em histórias como “A Sombra”, de Caio Porfírio, “O Massagista”, de Duílio Gomes, “O Gol de Gighia”, de Hélio Pólvora, “Campeonato de Futebol”, de Luís Henrique, “No Último Minuto”, de Sérgio Sant’Anna, “Meia Encarnada Dura de Sangue”, de Lourenço Cazarré, e “Uma Vez Flamengo...”, de Dias da Costa, para no final sair vitorioso.

Em “Contos de Futebol”, de Aldyr Garcia Schlee, e “Maracanã Adeus”, de Edilberto Coutinho, encontrará os momentos maiores da ficção sobre o futebol que já se escreveu entre nós. O tema é recriado de forma pungente nesses dois contistas de importante presença em nossas letras. Os dois escritores transfiguram o futebol no literário com força surpreendente. Encanto, feitiço e misérias estão presentes em histórias narradas com tensão e poesia. As horas desse esporte que alcança dimensões míticas num país de campeões encontram nos dois ficcionistas a alma sensitiva dos que se entregam por inteiro no que pretendem contar. Essas horas com personagens lendárias ou obscuras, vastas multidões ou pequena plateia no espetáculo organizado, centradas no cotidiano que experimenta o sortilégio de na vida pensar e amar pelos pés.

A Bola e a Rede
Por Moacir Japiassu

Moacir Japiassu
Quando o bando do cangaceiro Zé do Pipiu entrou em Rio Branco, na manhã de 17 de abril de 1934, o único homem que não borrou as calças foi o coronel Lenildo Pessoa; pelo contrário o fazendeiro comia um prato de cuscuz com leite na pensão de dona Reka, prostituta aposentada, e recebeu a notícia da invasão por um esbaforido portador. “Seu coroné, o capitão Zé do Pipiu tá na porta do cinema e manda chama o sinhô”. Comunicou o pipoqueiro Catôta.

Dona Reka saiu correndo para proteger algumas de suas meninas, o alarido foi grande, mas Lenildo não afastou o prato. “Diga pro capitão Zé do Pipiu que a distância daqui pro cinema é a mesma pra cá; se ele quer me ver, que venha aqui”, respondeu o coronel ao semi-desfalecido Catôta. Pois Zé do Pipiu, que tinha a feia intenção de saquear a cidade, fez hora na porta do cinema, espancou uns dois ou três meninos e depois abandonou o projeto; enfiou-se de novo na caatinga, acompanhado de seu bando imundo. O povo de Rio Branco elegeu o coronel Lenildo Pessoa o homem mais macho do sertão e lhe devotou veneração pelos anos afora.

Oswaldo Baliza
Nos anos 40 e 50 a fama da macheza se espalhou pelo Nordeste e o nome de Lenildo, apesar de meio afrescalhado, foi dado a muito menino de boa família; teve até padre chamado assim. Certa vez, em meados da década de 50, Rio Branco promoveu festança de muitos dias, pelo aniversário da cidade. Barraquinhas, quermesse, filme novo no Cine Bandeirante. O prefeito, eleito não-sei-quantas-vezes, era justamente o coronel Lenildo, que recebeu com simpatia a ideia de se trazer o Sport Club Recife para um jogo com o Democrático. O Sport era campeão pernambucano e nele jogava o goleiro Oswaldo Baliza, celebre no país inteiro, embora já em fim de carreira.

“Tá bom, a gente traz o time”, concordou o coronel, “mas o Democrático não pode perder. Festa com derrota é coisa que não combina...”. O Sport, clube calejado naquele interiorzão, exigiu cota antecipadamente paga e juiz neutro – acabou atendido. O coronel foi pessoalmente receber o árbitro do jogo na estação. Era um rapaz moço, de Caruaru. O coronel cumprimentou-o, sentou-se a seu lado no carro da prefeitura e perguntou: “O considerado tem família?”. O juiz da partida respondeu: “Tenho mulher e dois filhos pequenos, coronel; Alceu tá com três anos e Ma...”.

O homem nem completou a frase. O coronel Lenildo foi direto ao assunto: “Pois olhe: se o Democrático perder esse jogo é bem possível que o senhor não veja mais esses meninos...Não é por mim, é que o povo de Rio Branco vai invadir o campo e nem eu vou poder evitar o linchamento”. O juiz empalideceu. “Coronel, o Democrático vai ganhar e nem precisa de mim; é um time de cabra macho...”, anteviu Sua Senhoria...

Oswaldo Baliza
Domingo, campo cheio, nem bem o juiz apitou o início da partida e teve que anular dois gols do Sport. O jogo chegou ao final do primeiro tempo num penso zero a zero arrancado no apito e o juiz chegou à “Tribuna de Honra” num desespero de dar pena: “Coronel, o empate serve?”, perguntou o infeliz. Lenildo foi cruel: “É Democrático um a zero ou nada...”.

No segundo tempo, com mais seis gols anulados e quatro jogadores expulsos, o Sport continuava dominando a partida. No finzinho do jogo, quando o coronel Lenildo já alisava o cabo de madrepérola de seu revólver, o juiz ganhou coragem e apitou pênalti a favor do Democrático. Plantado no gol, enorme e sorridente, estava Oswaldo Baliza. O centroavante Bininho distância, meteu o bico na bola e Oswaldo nem precisou se mexer, pegou fácil. “O senhor se boliu muito!” – gritou Sua Senhoria, e mandou cobrar de novo. Bininho tomou descomunal distância, arrancou lá do meio do campo e meteu o pé na bola com fúria. O foguete passou raspando o travessão – foi estourar na porta da casa de dona Reka, mas o juiz correu para o meio do campo. “Foi gol! Furou a rede!” gritou ele. Aí o coronel levantou-se e ordenou que a torcida aplaudisse. Democrático um a zero.

Sobre o organizador do livro:
Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, Sul da Bahia, escritor, poeta e advogado aposentado. Com “Os recuados”, contos, conquistou os Prêmios Jorge Amado do Centenário de Ilhéus, Leda Carvalho da Academia Pernambucana de Letras e Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (Menção Honrosa). Seu livro “Canto a Nossa Senhora das Matas” foi traduzido por Curt Meyer Clason para o alemão. Participou como convidado do Terceiro Encontro Internacional de Poetas, da Universidade de Coimbra, Portugal. Pertence à Academia de Letras da Bahia.

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