sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Causos do Doutor Osmar

Não faz nem um ano que ele partiu (julho 2014), mas a saudade é imensa. Dr. Osmar de Oliveira, além de médico respeitadíssimo, dentro e fora dos gramados ou quadras esportivas, criou uma carreira de sucesso no jornalismo esportivo, como narrador e comentarista. Durante décadas, convivendo com estrelas e anônimos do esporte brasileiro, Dr. Osmar acumulou milhares de histórias e estórias sensacionais.

Em 2008, a Companhia Editora Nacional lançou um livro “despretensioso”, pequeno em tamanho, mas sensacional no resultado: “Causos do Doutor Osmar”.

Um livro de pequenas histórias, “causos”, a maioria contada com bom humor, sarcasmo, ironia, no tom certo de todo bom contador de histórias, como era o Dr. Osmar.

Literatura na Arquibancada resgata abaixo algumas dessas “pérolas”.

A morte do cartola

Botafoguense fanático, Rivadávia Correa Meyer foi presidente da CBD (atual CBF) entre 1943 e 1955. Imparcial e empreendedor, foi um cartola respeitável.

Mesmo após desligar-se de cargos diretivos, não abandonou o vício pelo futebol e, numa final de campeonato carioca, década de 1970, lá estava ele nas tribunas do Maracanã acompanhado pelo filho e alguns amigos. Antes do jogo, um minuto de silêncio. Não se sabe quem deu a informação ao locutor do estádio, que com voz pausada e melancólica anunciou:

– A Adeg (Administração dos Estádios da Guanabara, hoje Suderj) lamenta informar o falecimento neste domingo do saudoso dirigente Rivadávia Correa Meyer.

O cartola tomou um susto e esbravejou. Um de seus acompanhantes, homem despachado, saiu correndo em direção à cabine de som. Chegou esbaforido e raivoso, chamou o locutor de louco e foi dizendo que Rivadávia estava vivo e assistindo à partida. “Você vai ser despedido do serviço público, mas antes disso corrija seu erro, seu irresponsável.” Pálido e estupefato, vendo a porta aberta, o infeliz locutor saiu correndo e sumiu pelas rampas mais próximas.

Um funcionário que levava cafés e refrigerantes a todas as cabines de rádio assistiu a tudo. Solícito e com ar de conteúdo, disse que havia sido locutor no Nordeste e prontificou-se a assumir o microfone da cabine de som, afirmando ao amigo do cartola: “Fique tranquilo que eu desminto essa notícia”. O amigo de Rivadávia sentiu confiança, voltou à sua cadeira e sossegou o ex-dirigente, pedindo que ele aguardasse um pouco que o mal entendido seria consertado.

Minutos depois, lá vem o locutor substituto:

– A Adeg informa: o sr. Rivadávia Correa Meyer, ao contrário do que se informou, não morreu MAIS.

Kafunga era fanático

Olavo Leite Bastos, o Kafunga, foi goleiro do Clube Atlético Mineiro durante vinte anos, jogou 714 partidas e foi campeão mineiro onze vezes. É até hoje uma das maiores glórias do Galo. Encerrada a carreira, tornou-se comentarista esportivo e seu programa Papo de Bola era líder de audiência. Ingressou na política e elegeu-se vereador.

Quando comentava jogos do Atlético, procurava a imparcialidade, contrariando o fanatismo pelo clube do coração. Não aguentava ver jogadores sem garra ou de pouca categoria vestindo aquela camisa que ele tanto adorava. Atribui-se a ele a expressão “cabeça de bagre”, que é falada até hoje em todo País.

Veio um jogo decisivo contra o Cruzeiro e lá estava ele comentando pelo rádio, suando frio e roendo unhas. Para o Atlético, bastava o empate e o 0 a 0 estava sendo conseguido a duras penas. Quase no final da partida, Atlético na retranca e uma bola é cruzada para a área.
Cabeçada, o beque desvia. Um arremate, bate na zaga, outro chute, goleiro caído, novo desvio. O locutor já quase sem fôlego pela emoção do lance.

O nervosismo do comentarista fez com que deixasse seu microfone aberto e, em meio à narração, escutou-se claramente a voz de Kafunga:

– Ih, embocetou tudo na área do Atlético!

Ele nem percebeu o que acabara de dizer e, após o lance, o locutor lhe deu um cutucão e fez uma pausada e compreensível linguagem labial: “E-m-b-u-c-e-t-o-u?”

Kafunga se deu conta do que falara e, um pouco mais calmo, emendou de viva voz:

– Mas embucetou no bom sentido!

Ponta-direita burro

João Avelino foi um técnico prático e vencedor. Sabia como ninguém fazer a cabeça de seus jogadores. Quando chegou ao São Bento de Sorocaba em 1969, logo percebeu que seus goleiros eram muito baixos. Chamou o homem que cuidava do campo, mandou serrar cinco centímetros de cada trave para o travessão ficar mais baixo.

Resolvido esse problema, passou a orientar os cruzamentos de seu ponta-direita Carlinhos, que era veloz, mas não calculava direito as distâncias. 

Ele mesmo lançava o ponta, pedia que corresse com a bola uns vinte metros e, em seguida, cruzasse para a área porque os outros atacantes estavam chegando. Mas nada dava certo. 

Carlinhos calculava mal aquela distância e cruzava antes ou chegava a sair com a bola pela linha de fundo.

Certo dia, depois de muita insistência e com a bronca do centroavante, João Avelino teve a grande ideia. 

Percebeu que em todas as laterais do campo havia placas comerciais da cidade. Então, foi até o ponta, pediu para ele se virar para as placas e disse:

– Meu filho, você pega a bola na Papelaria do Rosário, sai correndo e, quando chegar na
Pastelaria do China, você cruza, certo?

Depois de alguns ensaios, cabeça olhando para a bola e de vez em quando para as placas, Carlinhos passou a acertar todos os cruzamentos.


Saldanha me salvou

Trabalhei com João Saldanha na Copa de 90 na Itália. Foi um dos maiores jornalistas esportivos de todos os tempos. Um gênio, sem exageros. Vítima de uma grave doença pulmonar, morreu em Roma, dez dias após a Copa. Como médico, cuidei dele durante todo o torneio. Mesmo doente, comentou todos os jogos para os quais estava escalado.

Estávamos na extinta TV Manchete, que não era um primor de organização. Em 14 de junho, chegamos ao estúdio em Roma uma hora antes do jogo Romênia x Camarões, que seria jogado no Estádio Della Vittória, em Bari. Da porta principal do Centro de Imprensa até nossos estúdios, empurrei a cadeira de rodas do João por uns trezentos metros, e vários jornalistas mais antigos de inúmeros países cumprimentaram Saldanha naquele trajeto. Vivi esses momentos em vários jogos, misturando dor pelo sofrimento do amigo e orgulho pelo respeito com que o tratavam.

A cabine de transmissão era muito pequena, mal cabiam duas pessoas. A cadeira de rodas não passava pela porta e João ficou ali mesmo, calmo e responsável. Sentei e comecei a fazer anotações sobre a partida e os jogadores. Iríamos entrar no ar quando as equipes entrassem em campo. Sem qualquer motivo, meia hora antes do jogo, a vinheta anunciou o início da transmissão e nossa TV mostrava uma imagem parada do estádio, destacando uma arquibancada com a cobertura sustentada por pilares e vigas de ferro.

Fui falando até onde pude. Destaquei Popescu, Raducioiu, Hagi, N’Kono, Oman Biyk e Milla. João Saldanha, sentindo minha dificuldade, bateu generosamente em meu ombro e pediu a palavra. Por uns dez minutos, deu uma aula sobre a construção daquele estádio, lembrou que aqueles ferros eram trilhos da antiga estrada de ferro de Bari, falou dos italianos que ergueram as arquibancadas e da veneração que tinham por Mussolini etc. etc.

Eu estava pasmo pelo conhecimento dele e agradecido pela ajuda do grande amigo. Pelo fone, recebo a ordem de chamar um comercial. Aliviado, com ternura, disse ao João:

– Obrigado, amigo.

E ele, com um sorriso que lhe era difícil pela febre e pelas dores:

– Não precisa agradecer, eu inventei tudo isso!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O estádio dos desejos


Assim como no Brasil, o México tem um povo apaixonado pelo futebol. E um de seus grandes escritores, consagrado no país e pelo mundo, Juan Villoro, construiu uma história, classificada como literatura infanto-juvenil, mas que encanta a todos os tipos de leitores.

“O estádio dos desejos” (Editora Terceiro Nome) conta as peripécias do garoto Arturo, fanático por futebol, mas que nunca viu a seleção de seu país vencer um jogo. Para tentar reverter essa situação, Arturo recorre ao pai, um cientista, para tentar descobrir uma “fórmula mágica” para a vitória.

O livro teve a tradução de Eric Nepomuceno e ilustrações de Francisco França.

Apresentação

Juan Villoro é um dos maiores, senão o maior escritor mexicano da atualidade. Aliás, essa afirmação é fácil de confirmar: ele mede quase dois metros de altura.

Acontece que ele é também um dos maiores em todos os sentidos, e confirmar isso é igualmente fácil: basta ler o que ele escreve.

São romances, contos, ensaios, histórias infanto-juvenis e peças de teatro – e tudo que Villoro faz tem recebido a admiração e o carinho dos leitores, bem como elogios da crítica.

Alguns de seus livros, como o romance Arrecife e o infanto-juvenil O livro selvagem, já foram publicados no Brasil. Assim como eles, os romances Llamada de Amsterdam e El testigo, os contos de La noche navegable e Los culpables e o infanto-juvenil Cazadores de croquete, estão entre os mais bem-sucedidos da sua geração de autores latino-americanos.

Prestigiado e premiado, respeitado e reconhecido, agradece todas essas honras, educado que é.

Mas Villoro faz questão de ressaltar que, no fundo, no fundo, seu verdadeiro ofício é torcer apaixonadamente pelo Necaxa, um time da segunda divisão do futebol mexicano.

Muito mais que seu diploma de sociólogo, seu amplo e vasto trabalho jornalístico, sua trajetória consistente e variada, os dois grandes orgulhos de sua vida são torcer pelo Barcelona (seu pai, o grande filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México logo depois da Guerra Civil Espanhola), time ganhador, e pelo Necaxa, time perdedor.

Porque ele sabe que a vida é exatamente assim, feita de vitórias e derrotas. E que o importante é torcer, ou melhor, viver.

Enquanto vive e torce, Villoro escreve – para alegria de todos nós. Boa prova disso é esta  pequena joia chamada O estádio dos desejos.

Um estádio formidável
Por Juan Villoro

Arte: Chico França
No quarto de Arturo havia um globo terrestre. Antes de ir dormir, ele acariciava o globo e o fazia girar. Gostava do globo porque parecia uma bola de futebol.

Quando comia, quando tomava banho e quando dormia, Arturo imaginava gols possíveis e impossíveis. Seu pijama tinha o número 9 e as cores do Atlântida, seu time favorito.

Ficava fascinado quando ia com o pai ao estádio Atlântida, o maior e mais moderno da cidade, onde também jogava a seleção.

A arquibancada se enchia de gente enlouquecida e contente que pintava a cara e tocava tambores, cornetas e apitos num tremendo alvoroço. Cem mil gargantas gritavam quando alguém fazia um gol e cem mil narizes deixavam de respirar quando o juiz marcava um pênalti.

O estádio do Atlântida tinha uma cobertura prateada onde quatro falcões faziam ninho. Os ferozes falcões eram chamados de Pelé, Maradona, Di Stéfano e Pancho. Os três primeiros falcões tinham nomes de jogadores históricos; o quarto tinha o nome de um centroavante de que todo mundo gostava muito, mas que nunca tinha ganhado um campeonato.

Pancho era o camisa 9 do Atlântida e da seleção. No pátio do colégio, Arturo tentava imitar sua célebre jogada do cavalinho adormecido, ou seja, ficar quieto feito um cavalo que dorme de pé e arrematar a jogada com um chute de calcanhar, com a força de um corcel que dá um coice.
Pancho tinha dribles incríveis. Tinha passado a bola no meio das pernas do alemão Peter Kaspa, conhecido como Mel de Arsênico, tinha feito Ivo Tundaz, zagueiro húngaro conhecido como Gulash, o Terrível, dançar uma valsa, e tinha metido um gol de peixinho em Tito Granola, o goleiro argentino de formosa cabeleira que todo mundo chamava de Cabelinho de Anjo

Arte: Chico França
Infelizmente, a seleção precisava de mais do que isso para ganhar.

O querido Pancho era quem dava mais autógrafos e em todos fazia o desenho de um cavalinho com os olhos fechados. Era desconhecido no mundo, mas adorado no estádio Atlântida. E isso explicava o fato de um dos falcões levar seu nome.

O trabalho dos falcões, aves de rapina, consistia em afastar os intrusos. O estádio do Atlântida tinha grama de qualidade e sementes saborosas. Por isso, os pássaros gostavam de bicar o gramado, e volta e meia cruzavam o campo justo quando a bola zunia rumo ao gol. Para evitar esses choques, nos dias de jogo os falcões ficavam à espreita, lá em cima, assustando os pássaros gulosos e famintos.

Era fácil identificar os falcões: Pelé era negro; Maradona, gordo; Di Stéfano, careca; e Pancho, brincalhão (era o único que sabia voar de ponta-cabeça).

Arturo sonhava ser um grande centroavante. Era bom cabeceando, chutava bem com a perna direita e estava aprimorando seu toque com a canhota. Essas habilidades tinham feito dele o artilheiro da escola. Mesmo assim, seu pai dizia:

– Futebol, a gente joga com a mente.

O pai de Arturo era o doutor Jerónimo Gómez, um cientista especializado em magnetismo. Tinha fabricado uns ímãs famosos e, além disso, era conselheiro da seleção.

Antes das partidas, ele descia para o vestiário e dizia aos jogadores:

– Rapaziada gloriosa, o futebol é um esporte magnético: a bola chega para quem mais a deseja!

Os jogadores ficavam observando com olhos arregalados. Depois coçavam a cabeleira e esfregavam as tatuagens, sem entender direito o que aquele sábio dizia.

Nem sempre era fácil captar as ideias do doutor Gómez.  O filho Arturo tinha conseguido entender o seguinte: a Terra tem uns ímãs que atraem os metais, mas o magnetismo mais forte está no interior das pessoas.

– Se você se concentrar de verdade, as coisas vão chegar até você – dizia o pai de Arturo. – Como é que você acha que eu conquistei sua mãe?

Arturo gostava de uma menina chamada Sofia. Quando ela atravessava o pátio do colégio, podia sentir sua presença, mesmo se estivesse de costas ou concentrado numa jogada para garantir o domínio da bola.

– Existem pessoas cuja presença a gente percebe sem precisar olhar para elas – comentava o doutor Gómez.

Emocionado com suas próprias teorias, passava as mãos pela cabeleira e se despenteava ao afirmar:

– No Japão, os melhores arqueiros disparam suas flechas com os olhos fechados. O alvo é uma coisa que a gente sente. A pontaria está dentro da gente. Se você quiser alguma coisa, querendo com força você consegue. O magnetismo é a ciência da atração.

Será que era verdade o que o doutor Jerónimo Gómez dizia?

De noite, Arturo sonhava que estava em campo. Lá no fundo, via a bola. “Eu quero muito você”, pensava, e a bola rolava até seus pés, como um cachorro que volta para o seu dono.

Sobre o autor:
Juan Villoro nasceu em 1956 na Cidade do México e é um dos intelectuais latino-americanos mais ativos da atualidade. Sociólogo, jornalista, tradutor e professor universitário, já recebeu diversos prêmios por seu trabalho. Tem mais de trinta livros publicados em diversos gêneros, como romance, ensaio e teatro e escreve para revistas como Letras Libres e Etiqueta Negra, além dos jornais El País e Reforma. Assim como Arturo, o protagonista de O estádio dos desejos, Villoro é apaixonado por futebol. Torce pelo Barcelona (seu pai, o filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México depois da Guerra Civil Espanhola) e pelo Necaxa, time da segunda divisão do campeonato mexicano.