terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quem desloca tem preferência

Difíceis são as teses acadêmicas publicadas em livro que seduzam o leitor “comum”. O mineiro Marcelino Rodrigues da Silva tem esse dom. Para os estudiosos e pesquisadores do esporte (e também o leitor da literatura esportiva tradicional) seu novo livro “Quem desloca tem preferência: ensaios sobre futebol, jornalismo e literatura” (Relicário Edições) é leitura obrigatória.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo o texto de apresentação da obra e ainda um trecho de um dos capítulos, gentilmente cedidos pelo autor e editora.

Apresentação
Por Pedro Henrique Trindade Kalil

A importância do futebol para o Brasil é inversamente proporcional à quantidade de estudos dedicados a esse esporte, considerado, tanto por nós quanto pelos estrangeiros, um dos pilares da identidade brasileira. Desde que Charles Miller importou o futebol da Inglaterra para o Brasil, no final do século XIX, o jogo tomou uma proporção na sociedade que não condiz com o espaço que pesquisadores, artistas e escritores dedicaram ao esporte. O mesmo pode ser dito a respeito de diversas manifestações populares e da cultura de massa que não encontram no meio acadêmico-artístico-cultural sua tradução.

Esse cenário, entretanto, começou a mudar nos últimos anos, quando diversas publicações e estudos, além de manifestações artístico-culturais, passaram a dar atenção para essas áreas tantas vezes negligenciadas. As razões para essa omissão são várias e, talvez, a mais difundida seja a máxima “o futebol é o ópio do povo”, que exprime a opinião daqueles que percebem no esporte bretão não mais do que uma “fuga da realidade” e dos “problemas de verdade”.

O combate a esse posicionamento pode ser visto como a preleção deste belo livro de Marcelino. Quem desloca tem preferência faz um drible no senso comum sobre a história e a importância do futebol na sociedade brasileira. O que temos aqui não é uma simples narrativa histórica do futebol ou mesmo uma análise que vai de encontro a opiniões tão difundidas no imaginário intelectual, mas a complexificação do fenômeno futebolístico em nosso país – e isso é uma primeira importância deste livro.

As contradições e os paradoxos dos objetos, que muitas vezes tentam ser escamoteados nos trabalhos teóricos, são aqui ressaltados para que se examine a fundo várias facetas dos discursos futebolísticos. É como se Marcelino perseguisse a máxima de Mikhail Bakhtin, quando esse teórico russo afirma que “em todo signo ideológico confrontam-se índices de valor contraditórios”. Marcelino não é um goleiro com medo diante do pênalti – recorrendo ao nome do filme de Wim Wenders –, mas aquele que sabe que, quando se aventura a analisar um jogo que ocorre entre quatro linhas, tudo pode acontecer. Nesse sentido, o livro irradia a própria magia do futebol por abordar algumas das possibilidades infinitas que esse esporte oferece.

O esquema tático do livro foi montado em quatro blocos que, obviamente, são intercambiáveis e dialogam intensamente entre si. Enfim, é uma tentativa de fazer com que o time jogue sem buracos em campo, um esquema em que o goleiro liga o jogo até o ataque, passando pela defesa e pelo meio de campo. A primeira parte, “Um jogo é um jogo é um jogo”, trata de questões do futebol brasileiro de maneira geral, perpassando por ligações entre o futebol, as letras e as artes, o futebol e o Modernismo, futebol e identidade, futebol e sua memória. Marcelino descontrói, nesse conjunto de textos, velhos preconceitos e ideias mofadas para ventilar uma nova abordagem sobre esse jogo, que se mostra, especialmente no nosso país, mais do que uma simples disputa entre duas equipes.

Na segunda parte, “Jogando em casa”, a atenção se volta para a cidade de Belo Horizonte, onde a rivalidade entre o Atlético Mineiro e o Cruzeiro se torna o eixo para se discutir as diversas ideias modernizantes do Brasil, a construção identitária da capital mineira e a elaboração da memória inventada das duas torcidas. Esse último ponto pode ser apreendido através do trabalho de Mangabeira, que criou as mascotes não só dos times de Belo Horizonte, mas também de Minas Gerais. A publicação deles, principalmente no jornal Estado de Minas, ao passo que se baseou nos ideais de cada clube e sua torcida, construiu também sua própria caracterização.

Mário Filho
Essa importância dos jornais para a construção da ideia de futebol no Brasil, pois, é o foco da terceira parte, “Mesa redonda”. Nela, Marcelino exibe um panorama de como os jornais cariocas, em especial a figura ímpar de Mário Filho, ajudaram a construir a ideia de futebol no Brasil. Aqui, discute-se também a relação entre o torcedor, o jornal, a televisão, o rádio e a literatura, dinamizando os discursos que permeiam esse esporte. A última parte, “Outros campos”, deixa transparecer, ainda mais, os diversos fios que ligam o esporte a outros campos da nossa vida. O cinema, a literatura e até outros esportes, como o surf, aparecem para que se fomente a ideia de que o futebol é, também, uma construção discursiva.

A fluidez da escrita do autor é outro ponto para conquistar a torcida, até mesmo a adversária.

É raro ver um trabalho acadêmico no qual é empregada uma linguagem tão acessível e envolvente, sem prejudicar em nada o conteúdo, como é o caso deste. A trama articulada por meio das palavras desenvolve aquela atração presente em todos os grandes clássicos.

A partir dessa escrita, a coerência entre os diversos textos aqui apresentados também merece destaque. Poucas vezes é possível ver um time jogando com a consistência que encontramos aqui. Quer se fale da história de Pieruccetti, quer se fale dos arquivos construídos a partir das imagens dos negros nos jornais, Marcelino parte para o ataque com a convicção de muitos dos nossos maiores goleadores. É um gol atrás do outro, fazendo com que este livro já tenha o espírito vencedor daqueles que ousam ver além do que já é reconhecido.

Ao vivo e em cores: 
a experiência midiática do esporte
Por Marcelino Rodrigues da Silva

(...)

Nos dias de hoje, embora o hábito de acompanhar o futebol pelo rádio não tenha sido abandonado, boa parte do espaço que era ocupado por essa mídia na vida esportiva da multidão de futebolistas foi tomado pela televisão. O futebol se tornou um programa de TV e o campo perceptivo por meio do qual ele é experimentado voltou a ser o visual. Devemos nos perguntar, então, se isso não terá trazido de volta o “esporte ao quadrado”. Pois, a princípio, poderíamos pensar que a mediação da câmera de televisão é menos sujeita a distorções e apenas reproduz a experiência do torcedor que vai ao campo.

Se o ouvinte de rádio, para aceitar a informação que recebe, precisa de um pacto de confiança com o locutor e sabe que esse pacto pode ser rompido, para o espectador de TV não se trata de ter fé em algo que alguém lhe diz, mas de acreditar em seus próprios olhos. Mas, será realmente neutra e livre da trucagem a mediação do futebol pela televisão? Podemos realmente confiar em nossos olhos?

Para responder a essas perguntas, consideremos inicialmente as transmissões “ao vivo”, em que o espetáculo esportivo é levado ao espectador em sua totalidade e em “tempo real”, com o auxílio dos satélites e redes retransmissoras. Embora a impressão seja a de que a imagem que chega ao espectador é bastante confiável, dando a ele uma percepção bem próxima à do torcedor que vai ao campo, não é exatamente isso o que acontece. Marcel Pagnol, citado por Paul Virilio no livro Guerra e cinema, mostra que a perspectiva da câmera é, na verdade, uma redução da multiplicidade de pontos de vista sob os quais um acontecimento pode ser observado:

Em um teatro, mil espectadores não podem sentar-se no mesmo lugar e logo podemos afirmar que nenhum dentre eles assistirá à mesma peça. (...) O cinema resolve este problema, pois o que cada espectador vê, onde quer que ele esteja sentado na sala, (...) é exatamente a imagem que a câmera focalizou. (...) Não mais existem mil espectadores (ou milhões, se juntarmos todas as salas), agora existe não mais de um único espectador, que vê e escuta exatamente o que a câmera e o microfone registram. (apud Virilio, 1993)

A perspectiva única da câmera é, portanto, uma redução dos diferentes ângulos e possibilidades que o torcedor teria se estivesse no estádio. Certas nuances do jogo estão inevitavelmente fora de seu alcance: a disposição tática dos atletas por todo o campo, os movimentos sem bola de jogadores que participam da jogada fora de seu enquadramento, os detalhes que um determinado ângulo de observação permite enxergar e que outro não permite etc. Sem falar nos momentos em que a câmera ou o editor de imagens se perdem e não conseguem acompanhar a jogada. Na tentativa de superar essas limitações, as estações de televisão se entregam a esforços que beiram o delírio tecnológico dos filmes de ficção científica: várias câmeras posicionadas em diversos ângulos, microfones próximos ao gramado, replays, câmeras sobre trilhos ao longo do campo, imagens computadorizadas que verificam matematicamente a velocidade da bola, congelamento da imagem no momento do lançamento para apurar se o jogador se encontra em posição de impedimento... Mas o que todo esse aparato tecnológico faz é instaurar um excesso de luz cujo efeito pode ser o de uma cegueira, uma “obscenidade” de imagens que, por vezes, mais confunde do que esclarece.
É o que acontece naqueles intermináveis debates, em que os comentaristas discutem se a decisão do juiz foi ou não correta, repetindo as imagens do lance diversas vezes e chegando a um veredicto que, para espanto do espectador, é exatamente o contrário do que as câmeras mostram.

Assim, as transmissões “ao vivo”, embora aparentem ser fidedignas e capazes de oferecer uma visão mais aguda e completa dos acontecimentos, podem também ser traiçoeiras.

Mas, a princípio, a trucagem, a distorção e a desinformação parecem estar descartadas e os juízos, opiniões e impressões dos narradores e comentaristas estão sempre sujeitos a serem checados e rejeitados pelo espectador, em função daquilo que seu olho vê.

Entretanto, se verificarmos estatisticamente que tipo de programação esportiva predomina na televisão e em quais programas os telespectadores colhem suas informações sobre o esporte, perceberemos que as transmissões “ao vivo” ocupam bem menos espaço do que a variedade de outros formatos. São os “gols da rodada”, os “compactos”, as entrevistas, as mesas redondas, os informativos esportivos e os quadros humorísticos que predominam e oferecem aos aficionados a oportunidade de vivenciar o futebol. Se mesmo nas transmissões “ao vivo” a fruição do esporte se afasta daquela experiência que Umberto Eco definiu como o “esporte ao quadrado”, nesses outros tipos de programa esse distanciamento é muito mais evidente.

Vejamos, por exemplo, o caso dos “compactos”, que reúnem os “melhores lances” de um jogo para possibilitar ao telespectador uma visão geral de seus acontecimentos mais importantes. Aqui, além de todos os artifícios tecnológicos utilizados nas transmissões “ao vivo”, somam-se nada menos do que os recursos de corte e montagem. Citando Orson Welles, Paul Virilio (1993) nos lembra de que “a montagem é o único momento em que se pode exercer um controle absoluto sobre o filme”. Em outra passagem de seu livro, o filósofo informa que durante a Segunda Guerra Mundial realizaram-se, a mando de Hitler, “filmes baseados exclusivamente em documentários jornalísticos absolutamente autênticos” destinados a “aterrorizar os espectadores estrangeiros e forçá-los a reconhecer a superioridade do exército alemão”.

Recortadas, montadas e sublinhadas pela narração, essas imagens deveriam “projetar sobre o espectador seu ritmo vibrante de um grande acontecimento histórico”.

Se considerarmos que o esporte é, assim como a guerra, um campo essencialmente agonístico, que quase sempre envolve o público em um dos lados da competição, e que os recursos utilizados na montagem dos “melhores momentos” são rigorosamente os mesmos, veremos que os procedimentos descritos por Virilio podem e efetivamente são utilizados na produção dos “compactos”. E que a função supostamente informativa desses programas pode muito bem se transmutar em trucagem, distorção e desinformação. O mesmo vale para os outros tipos de programa sobre o esporte, como os “gols da rodada”, os informativos, as entrevistas e as mesas redondas, em que a seleção e a montagem são apenas alguns dos recursos que podem estar a serviço da desinformação e da imposição de uma determinada interpretação dos fatos. E essa interpretação estará sempre inserida no contexto agonístico do esporte, em que proliferam inevitavelmente os interesses e objetivos estratégicos.

Assim, a grande transformação que a televisão produz no intrincado fenômeno do espetáculo esportivo não é trazer de volta a experiência do “esporte ao quadrado”, mas sim levar ao extremo aquele afastamento midiático já operado pelas transmissões radiofônicas, porém, com uma diferença: a televisão cria uma ilusão de realidade, pois o espectador julga estar vendo os acontecimentos com seus próprios olhos, quando, na verdade, os vê por meio do olho autoritário da câmera e do tratamento interpretativo de quem a dirige. Isso faz com que ele se torne mais passivo, menos co-participante, pois ele não sente que tem que reinterpretar a informação que recebe. O futebol, através da mediação autoritária da televisão, torna-se uma realidade cada vez mais distante, infinitamente distante, até se converter em um mundo constituído exclusivamente por imagens. Transformado em um universo de imagens pela TV, ele é a aberração do que Umberto Eco chamou de “esporte elevado à enésima potência”.

O esporte atual é essencialmente um discurso sobre a imprensa esportiva: para além de três diafragmas está o esporte praticado, que no limite poderia não existir. Se por uma diabólica maquinação do governo mexicano e do senador Brundage, aliados com as cadeias de televisão do mundo inteiro, as Olimpíadas não acontecessem, mas fossem contadas dia a dia e de hora em hora com imagens fictícias, nada mudaria no sistema esportivo internacional, nem os que falam de esporte se sentiriam logrados. (Eco, 1984, p. 223-224)

Sobre o autor:
Marcelino Rodrigues da Silva é doutor em Literatura Comparada e professor da Faculdade de Letras da UFMG. Publicou diversos trabalhos sobre o futebol em Belo Horizonte e no Brasil, entre eles o livro Mil e uma noites de futebol: o Brasil moderno de Mário Filho (Editora UFMG, 2006). É pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA) e do Centro de Estudos Literários e Culturais – Acervo de Escritores Mineiros (CELC-AEM).

Um comentário:

  1. Anônimo22:11

    Não sei se um comentário anterior teve êxito.

    Meu nome é Fernando Martinho e sou editor da Corner, uma revista cultural de futebol. Gostaria de conversar sobre a revista que estamos lançando em março próximo.

    Não encontrei o nome do autor do blog nem um contato, deixo aqui meu email: fernando@leiacorner.com.br

    Att,

    Fernando Martinho
    +21 982.595.960

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