segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Em 12 Rounds

Para muitos o boxe está nocauteado após a impressionante popularização do MMA. O esporte que chegou a arrastar multidões no século XX tornou-se menos “comercial”. Nos Estados Unidos, porém, ele continua “vivo”, sendo explorado pela literatura e pelo cinema. Por aqui, no Brasil, dois autores, Bruno Freitas e Maurício Dehò, desafiaram a lógica do esquecido boxe brasileiro e decidiram criar uma obra histórica, um resgate fundamental, para o esporte e, principalmente, para a literatura esportiva. Acertaram um direto, com o seu “Em 12 Rounds – Histórias do boxe no Brasil. De Jofre a Popó, dos Zumbano a Tyson (Editora Via Escrita).

Apresentação - 1
Por Bruno Freitas

Eduardo Suplicy
Bloqueio de escritor é uma coisa séria. Levando ao mundo do boxe, poderia ser um pugilista de roupão, pronto na beirada de um ringue, que, por uma hesitação estranha, receia em caminhar em direção a seu adversário. Vivi um momento assim, no encaminhamento deste projeto. A certa altura, estava com tudo pesquisado, tudo apurado. Era me sentar e escrever meus seis capítulos – os outros seis estariam nas mãos e na criatividade de Maurício Dehò, colega de empreitada. Mas, sei lá por quê, não começava.

Chegou uma hora em que não dava mais para adiar. Numa noite de vai ou racha, refleti sobre a lista de meus seis capítulos e elegi Eduardo Suplicy. O episódio do jovem de classe alta, que se encanta com o boxe, e suas lições humanas subliminares, simboliza muito do que é este projeto.

São histórias que transcendem o ringue, a mera troca de golpes. É a busca por aquela essência misteriosa da nobre arte que fascina o cinema norte-americano e suas plateias há décadas.

A aventura do filho dos Matarazzo nos ringues mexeu com a São Paulo da década de 1960 e, talvez, tenha ajudado a iluminar a consciência social do futuro político sobre a complexidade das diferenças de classes – o próprio senador admite isso.

Suplicy, boxeador.
Mas, enfim, o que era hesitação de escritor virou uma euforia por escrever. Varei a madrugada com a história de Suplicy nas mãos e só parei com ela concluída na tela do computador. Quando vi, eram 6 e pouco da manhã, mas o sono inexistia. A adrenalina intimidava a ideia de ir para cama. Então, num rompante maluco, vesti roupas esportivas e fui correr no Ibirapuera.

Cruzei o parque contente com a pequena vitória pessoal que o mundo desconhecia. Ali, com o dia ainda se criando, fui em direção à pista de corrida. Quase ninguém pelo caminho, só os dedicados atletas das manhãs. Ao chegar no começo da pista de terra, parei para um breve alongamento, sozinho, eu e as árvores. De repente, um senhor aparece a alguns metros, deixando o local calmamente, ao fim de seu exercício pessoal. Ninguém menos do que Eduardo Suplicy!

Parecia uma brincadeira da vida. Passara a madrugada com a cabeça na experiência de um personagem e dou de cara com ele ao sair de casa. Não tive muita reação, admito. Poderia relatar toda aquela história, dividir a surpresa do destino com aquele inesperado interlocutor. Mas só esbocei um “bom dia, senador”. Ele respondeu educadamente, certamente não  lembrava do jornalista que o visitou em uma tarde. Afinal, já passara mais de um ano. Apesar da frustração de não ter conseguido uma conversa mais extensa, ficou ali, para o autor, a sensação meio mística de que o projeto daria certo. Era um sinal, não? Naquela altura, tínhamos um acordo verbal com uma editora, mas as coisas não deram certo. O boxe já arrastou multidões no século XX, mas hoje não é um tema lá tão comercial – vivemos os dias de glória do MMA. Enfim, fomos atrás de parceiros, batalhamos alternativas de publicação, porém, nada vingava. Os anos foram passando, e o livro, pronto, ficou na gaveta um bom tempo. Faz parte do jogo. Depois, nos associamos à Via Escrita, fomos ao Catarse, em busca de financiamento de leitores, e o resultado está agora em suas mãos.

A ideia deste livro surgiu no já distante ano de 2006, com a leitura de A Luta, do craque das letras Norman Mailer, obra que deu origem ao documentário Quando Éramos Reis, premiado com um Oscar. Agora, nas próximas páginas, temos o privilégio de apresentar episódios incríveis do boxe – mas casos vividos em solo nacional. Sim, nós também temos as nossas histórias cinematográficas. Alô, produtores espertos, que tal um Touro Indomável made in Brazil?

Apresentação - 2
Por Maurício Dehò

Valdemir Pereira, o Sertão.
Se o ambiente do boxe são as academias, com seu inconfundível cheiro de suor e os eventos em que o ringue já foi centro de uma festa de gala e, hoje, estão às moscas, este livro mostra que um outro cenário é fundamental para a nobre arte: a rua. Escrever Em 12 Rounds foi um exercício que levou, a mim e ao parceiro Bruno Freitas, a deixar nossas casas, em busca de entrevistados, personagens, testemunhas de cada história contada.

A necessidade de ver, ouvir e sentir o que cada um dos envolvidos nos nossos 12 rounds tinha a oferecer acabou provando que não é só enfurnado em uma academia que o boxe brasileiro se fez.

Uma das missões com a obra foi sair da zona de conforto. No desafio mais ousado dessa nossa jornada, juntei-me ao amigo pugilista Washington Silva, peguei um avião para Salvador e, na sequência, um ônibus, para entrar no interior baiano, em busca de Cruz das Almas, a cidade do último campeão do boxe verde-amarelo: Valdemir Pereira, o Sertão.

Além de sentir o calor cruz-almense, andar pelas ruas de paralelepípedos e terra e ver com meus próprios olhos onde os garotos brigões da cidade trocaram a violência pela arte de boxear, eu ainda tinha de achar Sertão. O ex-campeão dos penas havia jogado tudo para o alto, depois de se descobrir doente antes de uma luta, e voltou à sua cidade, para viver no ostracismo.

Praticamente escondido, como ele reagiria a um jornalista batendo à sua porta, sem avisar? Nem Washington, meu guia turístico, queria se meter nessa. Deixou-me a dois quarteirões e falou: "Ali é a casa da mãe dele. Te espero aqui, leva o tempo que precisar". O "Deus da pauta" deu uma mão. Ao bater à porta, foi a mãe de Sertão quem atendeu. Mostrou fotos, falou com orgulho do filho e, assim, o caminho para chegar a ele estava amaciado. Quando Valdemir chegou, a estranheza de receber um repórter no meio de um fim de semana foi logo deixada de lado, e ele até me recebeu na casa em que morava, bem próxima à de sua mãe.

Assim como meu parceiro Bruno Freitas sabia que nosso trabalho sairia de nossos computadores e ganharia páginas de papel quando avistou Suplicy, minha certeza veio, nessa viagem, diferente de tudo que já tinha vivido como jornalista, e que ainda incluiu uma pausa em Salvador para longas conversas com Popó e Luiz Dórea. Popó, claro, é mais um exemplo de pugilista que saiu da vida simples, fazendo bicos na rua, para ser disputado por empresários milionários, e até acabou detido por isso, como veremos adiante.

Esquiva e Yamaguchi Falcão
A rua também é papel fundamental na história de Nilson Garrido, o pernambucano chamado de doido por muitos, ao montar academias de boxe embaixo de viadutos de São Paulo. Ou na dos irmãos Falcão, que já ficaram desabrigados nos momentos mais difíceis que o pai, Touro Moreno, teve na vida. A família capixaba, por sinal, foi a última adição ao projeto, com sua história digna de filme, e sua trajetória impensável nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.

De Suplicy aos Falcão, o boxe permite entrar em todas as camadas da sociedade. Permite ir além do esporte, falar de História, de cultura, mostrar os diversos Brasis que a população viveu nos últimos 50 anos. Cada capítulo, um reflexo diferente dos tempos.

E mais. O livro é sobre boxe no Brasil, mas foi possível colocar no papel dois capítulos sobre lendas estrangeiras do boxe. Muhammad Ali e Mike Tyson estiveram em São Paulo e protagonizaram momentos que seus interlocutores brasileiros dificilmente esquecerão. Momentos que, como nos outros capítulos, estavam se esvaindo das mentes dos amantes da nobre arte, mas que são resgatados aqui.

Obrigado por vir junto conosco nessa e um agradecimento, em especial, a todos os apoiadores do Catarse, que acreditaram neste livro, antes mesmo de ele ser real. Hora de subir no ringue, o gongo vai soar. Boa leitura.

Prefácio
Por Álvaro José (jornalista TV Record)

Cassius Clay
Nenhum outro esporte lhe dá, ao mesmo tempo, um balé e um soco no queixo e o coloca no chão. Como se fosse possível passar incólume a isso, ainda é conhecido como a nobre arte. Esporte olímpico desde os Jogos da Antiguidade, ganhou seu passaporte definitivo para integrar o programa dos Jogos Olímpicos da Era Moderna em Antuérpia, 1920. Seus protagonistas têm vitórias de superação e de glória únicas, inclusive, na luta contra o preconceito. Até mesmo Cassius Clay, campeão olímpico em Roma, 1960, jogou sua medalha de ouro em um rio, em frente a uma lanchonete, após ter sido barrado por ser negro.

No Brasil, existem muitos ídolos a reverenciar. O boxe brasileiro sofreu, durante muito tempo, o mesmo problema do futebol, com a profissionalização de seus lutadores muito cedo. Os atletas olímpicos deveriam ser, obrigatoriamente, amadores, o que fez com que grandes talentos da nobre arte, aqui no Brasil, ficassem sem condição de disputar os Jogos Olímpicos.

O boxe fez parte de minha infância e pré-adolescência. Eder Jofre era campeão mundial e meu pai, o jornalista esportivo Álvaro Paes Leme, assistia e trabalhava nas grandes lutas. Falava de Luisão, Oscar Banavena e Luís Faustino Pires como donos de punhos de ferro. Ganhamos, meu irmão e eu, luvas infantis “Galo de Ouro Eder Jofre”, por ele autografadas. Elas renderam, durante as férias escolares, muita diversão para nós e preocupações infinitas para minha mãe. Quando meu pai chegava em casa, íamos esperá-lo no portão, com as luvas, e já pedíamos dicas de posição dos pés, esquivas, golpes e tudo mais.

Quando entrávamos, invariavelmente, todos nós tomávamos bronca, mas logo depois a sala virava um ringue novamente e, de vez em quando, sozinhos, meu irmão Claudio e eu exagerávamos na dose, e lá ia um para o chão. Mais bronca.

Além de Eder, Servílio de Oliveira, nosso medalhista olímpico no México, em 1968; Juarez de Lima, que fez sua carreira praticamente fora do Brasil e chegou a ser numero um do ranking; Miguel de Oliveira, João Henrique e todos os grandes lutadores brasileiros dessa época eram assunto em casa. Da mesma maneira, Abraham Katznelson e Kaled Cury, amigos de meu pai e figuras que encontrávamos, normalmente, quando estávamos junto com ele, em algum lugar, eram muito conhecidos. Ralph Zumbano, outro grande ex-pugilista, tio de Eder e que foi treinador de Maguila, também era próximo. Tal qual num ringue, o mundo do boxe da época girava próximo a nós.

Quando me tornei jornalista, o boxe continuou em minha vida, desta vez na empreitada do Luciano do Valle, com quem tive o privilégio de trabalhar durante muitos anos, em levar o Adilson Maguila Rodrigues a lutar pelo título mundial dos pesos pesados.

Foi um dos grandes momentos da história do boxe brasileiro, sem dúvida. A organização de grandes combates aqui no Brasil, e lá fora, para que Maguila alcançasse posições de destaque no ranking, para poder desafiar os melhores na busca de um título para o Brasil, foi um momento mágico.

Acelino Popó Freitas
Na esteira disso vieram, depois, Acelino Popó Freitas, campeão mundial, tal como Eder, em duas categorias, mas por quatro vezes.

Em Londres, vi os irmãos Falcão, Esquiva e Yamaguchi, conquistarem prata e bronze para o boxe olímpico brasileiro, depois de um jejum de 44 anos. Junto com eles, Adriana Araújo, a primeira medalhista brasileira no boxe feminino. Momentos inesquecíveis.

O boxe tem uma característica única de mexer com o imaginário de todos nós. É um esporte tão singular! Torna-se o vilão que, por vezes, leva embora até as lembranças de seus maiores ídolos. Aqueles que fizeram sua glória. Apaga memórias, mas não apaga a história que tem obras como essa para contá-la.



Sobre os autores:
Bruno Freitas é jornalista desde 1998 e acumula coberturas internacionais em 18 países. Cobriu três Olimpíadas e uma Copa do Mundo, entre outros eventos. Este é seu segundo livro. Também é autor de “Queimando as traves de 50 – glórias e castigo de Barbosa, maior goleiro da época romântica do futebol brasileiro”.
Maurício Dehò é jornalista desde 2006, com coberturas nacionais e internacionais de boxe e MMA, entre outros esportes. Este é seu primeiro livro.

Um comentário:

  1. Mais um Gol de Placa do Literatura!
    Uma faceta do Suplicy que poucos conhecem...
    Pena que ele ficou lento... rsrs
    Valeu.
    Um abraço querido.

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