quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Uma biografia de Sócrates

Quem escreveu duas biografias como as de Paulo Machado de Carvalho e de Tarso de Castro, além de ser vencedor de um prêmio Jabuti, merece ser lido, nem que seja para a crítica negativa. O que não é o caso de Tom Cardoso, que marcou mais um gol de letra, agora, com a biografia do craque filósofo da bola, “Sócrates – A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro” (Editora Objetiva).

Sinopse (da editora)

Ídolo do Corinthians, capitão da mítica Seleção da Copa de 82, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira deixou sua marca também fora dos gramados.

O futebol era pequeno demais para a grandeza de suas ideias, e ele se engajou intensamente na vida pública do país. Idealista e rebelde, o meio-campista genial que desafiava as autoridades e incomodava os cartolas carregava no nome a paixão pelo Brasil, que se viu refletida na participação ativa na campanha das Diretas Já. Formado em Medicina, foi, ao lado de nomes como Wladimir e Casagrande, um dos líderes da Democracia Corintiana, movimento com repercussões políticas, esportivas, sociais e culturais.

O mais velho dos seis filhos de seu Raimundo, um vendedor de rapadura apaixonado por filosofia grega, Sócrates queria mexer com as estruturas do país. Em campo, o ritmo de jogo cadenciado, a calma, a elegância e o temperamento frio atraíam admiradores e críticos. Fora dos gramados, a coerência, a postura contestadora, a transparência e as posições firmes igualmente conquistavam entusiastas e desafetos.

Revelado no Botafogo de Ribeirão Preto, consagrou-se no Corinthians, por onde foi bicampeão paulista em 1982 e 1983. Formou com Palhinha, primeiro, e Casagrande, mais tarde, parcerias inesquecíveis. Avesso às convenções, viveu uma vida de excessos, coerente com a maneira como gostaria de ser lembrado: “Se tivesse me dedicado mais, não seria uma pessoa tão completa como sou agora.”

De jaleco no Pacaembu
Por Tom Cardoso

A quinta-feira do dia 9 de maio de 1975 prometia ser exaustiva para Arildo Paris, o motorista do Botafogo de Ribeirão Preto. A rotina como chofer resumia-se, até então, a curtos deslocamentos, normalmente para levar algum dirigente em casa ou a pequenas compras para o departamento de futebol. Mas agora era diferente. Ele teria pouco mais de quatro horas para percorrer cerca de 350 quilômetros, a distância entre Ribeirão Preto e São Paulo. A ordem partira de Faustino Jarruche, presidente do Botafogo: Arildo que fizesse o “impossível” para que Sócrates, o maior talento do time, chegasse a tempo ao estádio do Pacaembu, onde a equipe interiorana enfrentaria o poderoso Corinthians pela abertura do segundo turno do Campeonato Paulista.

Não era a primeira vez que Arildo buscava Sócrates no campus de Ribeirão Preto da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Quase sempre era para pegá-lo para que ele participasse a tempo do treinamento da tarde. O motorista nunca entendera como alguém poderia conciliar atividades tão distintas como estudar Medicina e jogar bola profissionalmente. O garoto nem parecia jogador de futebol. Os pés eram pequenos, tamanho 41, não combinavam com a altura, 1,91metro. Era engraçado vê-lo correr, tentando se equilibrar no próprio corpo. 

Apesar dos 21 anos, possuía o condicionamento físico de um veterano — nas raras vezes em que participava dos coletivos, jogava em uma faixa só do gramado, normalmente na sombra. A falta de fôlego se justificava pelos trinta cigarros consumidos por dia e pelo fim de tarde dedicado às rodas de chope nos bares da cidade. E o garoto, veja só, ainda queria ser médico.

O mais curioso de tudo, pensava Arildo, era que aquele magrelo, como todos gostavam de chamá-lo, jogava uma barbaridade. Ele nunca tinha visto talento igual. Na cidade, todos sabiam que Geraldão só se tornara artilheiro do Campeonato Paulista de 1974 por causa dos lançamentos e passes cirúrgicos do aspirante a médico — o centroavante do Botafogo devia a eles pelo menos 80% dos 23 gols marcados. A maneira com que jogava era original. Eliminara o esforço de girar o corpo, erguer a cabeça e fazer o passe, abusando dos toques de calcanhar. O recurso não era uma novidade no futebol, mas a forma com que ele o utilizava, com espantosa eficiência e objetividade, sim, era difícil de se ver. E o jeito de finalizar, então. O chute saía sem força, rasteiro, no cantinho do goleiro. A bola parecia que não ia entrar, mas entrava. Diziam que o estilo de jogo lembrava e muito o de um ex-craque do Vasco, também de nome esquisito, “Ipojucan”, tão alto, magro e talentoso quanto o garoto.

Arildo sabia que o Botafogo se tornava um time comum sem Sócrates e que jogar no Pacaembu contra um Corinthians há vinte anos sem títulos seria dureza. Mas levá-lo para São Paulo, naquelas circunstâncias, com pouco tempo e a bordo de uma Variant, era perda de tempo. Eles não chegariam. Se chegassem, provavelmente o time já estaria nos vestiários, fazendo o aquecimento, pronto para entrar em campo. Mas ordens do presidente do clube eram para ser cumpridas. E ele passara a vida cumprindo ordens, ao contrário de Sócrates, que vivia em pé de guerra com a direção do clube. O garoto tinha personalidade forte. Era o único atleta do Botafogo que possuía 30% do passe e treinava quando os estudos permitiam.

Dizia que a Medicina era prioridade, mas todos sabiam que ele tinha outras também. Quantas vezes, no meio da tarde, em pleno treinamento, ele encontrara Sócrates tomando cerveja com amigos no Jangada. E fumando como uma chaminé.

Sócrates já esperava Arildo na entrada do campus, como combinado.
Estava de jaleco branco, imundo, sentado na escadaria, fumando calmamente. Não parecia ansioso por causa da viagem e do pouco tempo que teriam para chegar ao Pacaembu.
— E aí, seu Arildo? Vamos nessa?
— Cadê o uniforme, Sócrates?
— Deixei com o Sebinho, no clube. Ele levou para São Paulo.
— Isso não vai dar certo...
— Seu Arildo, no caminho vamos parar para tomar uma gelada?
— Tá maluco, garoto?
— Preciso me hidratar.
— Com cerveja? E larga esse cigarro, sô!

O tempo estava bom e havia pouco movimento na estrada. E não é que a Variant parecia que iria aguentar a viagem toda? Com um pouco de sorte, eles, quem sabe, até chegariam. Arildo, enfim relaxou:

— Então, garoto, vai virar doutor e largar o futebol?

Se fosse possível, Sócrates conciliaria para sempre as duas profissões.
Seria um bom médico, de preferência em algum hospital na periferia de Ribeirão, e jogaria apenas aos fins de semana. Nada mais longe de sua realidade. Desde que entrara para a universidade, em 1972, ano que subira para o time principal do Botafogo, ele se desdobrava para agradar ao mesmo tempo o pai, que exigia prioridade nos estudos, e os dirigentes do clube, sempre insatisfeitos com a sua ausência nos treinamentos. Era mais difícil ludibriar o pai. A marcação do velho Raimundo Vieira era cerrada, dura, homem a homem.

Sócrates nunca mais se esqueceu do dia em que tentara enganá-lo.

Era um domingo e o pai o deixou na porta do cursinho Cesar Lattes para ele fazer o simulado do vestibular de Medicina. Sócrates nem chegou a entrar na sala. Caminhou de lá até o estádio do Botafogo, onde ocorreria a final do Campeonato Juvenil de Ribeirão Preto. Era o tipo de jogo que Sócrates não gostava de perder, um Come-Fogo, o nome dado ao maior clássico da cidade, disputado pelos dois principais clubes, o Comercial e o Botafogo. O garoto de 17 anos acabou com o jogo, marcou dois gols, deu o título ao Botafogo e voltou para casa com os cadernos debaixo do braço.

Não escapou da bronca. O pai descobriu tudo: estava na arquibancada.

Arildo estacionou a Variant na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. Faltavam apenas vinte minutos para o início do jogo.

O supervisor técnico do Botafogo, Milton Bueno, o “Tiri”, que havia combinado com Sócrates aguardá-lo do lado de fora do estádio, até meia hora antes de a partida começar, não estava mais lá. Arildo desesperou-se:
— Porra, e agora? Tanta correria pra nada.
— Pode voltar pra Ribeirão, seu Arildo. Eu vou entrar.
— Como?
— Vou comprar ingresso. Lá dentro eu me viro. Tchau!
Sócrates partiu correndo, de jaleco branco, bolsa a tiracolo, em direção à bilheteria. Comprou ingresso para a arquibancada, entrou pelo portão principal e passou a perguntar onde ficava o vestiário do time visitante.

Um funcionário apontou para o lado esquerdo, em direção ao tobogã, o setor mais popular do estádio.
— Fica ali embaixo.

Sócrates acelerou o passo com o rosto quase colado ao alambrado, na esperança de avistar algum diretor do Botafogo. Não viu ninguém. Pensou em pedir para um repórter de alguma rádio avisar ao árbitro, já em campo, que ele estava atrasado, mas que em cinco minutos ficaria pronto para o jogo. Desistiu: aquilo não faria o menor sentido. Passou a correr, desesperado, rumo ao portão que dava acesso ao vestiário do Botafogo, embaixo do tobogã, já tomado pela barulhenta torcida corintiana. Um funcionário do Pacaembu vigiava a entrada. Sócrates achou melhor dizer a verdade.

Ofegante, gesticulando muito e atropelando as palavras, explicou que era jogador titular do Botafogo de Ribeirão Preto, mas que não pudera viajar com a delegação porque não podia mais faltar à aula de propedêutica. Sim, era isso mesmo: ele era estudante de Medicina e por isso estava de jaleco e sapatos brancos. Viajara em cima da hora e viera para São Paulo com o carro do clube. Pagara ingresso e agora estava tentando entrar no vestiário para se trocar e, enfim, entrar em campo.

O funcionário do Pacaembu não teve dúvidas: só podia se tratar de algum paciente foragido do setor psiquiátrico do Hospital das Clínicas.

Aquele sujeito não parecia nem médico, muito menos jogador de futebol. Como alguém podia jogar bola sendo tão magro e tão alto? E o pezinho de bailarina? E que história maluca era aquela? O cara tinha comprado ingresso e queria entrar em campo para jogar? Só podia estar em pleno surto psicótico. O jeito era não contrariar. Quem sabe o cara ia embora.
— Está bem, craque. Em qual posição você joga?
— Estou falando sério. Preciso entrar logo!
— Você não está bem...
— Vai até o vestiário do Botafogo e avisa que o Sócrates chegou.
— Sócrates?
— Sim, Sócrates. Por quê?
— Isso lá é nome de jogador de futebol, garoto?
— Porra, diga que o Sócrates chegou!

Sócrates escapou, por pouco, da camisa de força. João da Silva Neto, o Sebinho, massagista do Botafogo, tinha ido, a pedido da diretoria, dar uma última olhada no portão do vestiário e encontrara o jogador aos berros com um funcionário. Sócrates trocou de roupa no próprio túnel de acesso ao gramado. Mesmo sem aquecer, desnorteado pela longa e cansativa viagem a São Paulo, foi o melhor jogador do Botafogo em campo — marcou o único gol na derrota por 4 a 1. Os 33.201 pagantes do Pacaembu nem imaginavam que aquele cabeludo todo de branco, que passara correndo ao lado do alambrado, se tornaria um dos maiores ídolos do Corinthians e o mais original jogador da história do futebol brasileiro.

Sobre o autor:
Tom Cardoso, nascido em 1972, é jornalista, com vasta passagem pela imprensa paulistana. Autor das biografias do empresário Paulo Machado de Carvalho (O Marechal da Vitória) e do jornalista Tarso de Castro (75KG de músculos e fúria), foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti 2012 com o livro-reportagem O cofre do dr. Rui, que narra o assalto ao cofre de Adhemar de Barros, em 1969, comandado pela Var-Palmares.

Um comentário:

  1. Se alguém me perguntar qual é o meu ídolo no futebol em qualquer tempo?
    Respondo rápido: Sócrates.
    Sempre admirei o atleta e o cidadão.
    Maravilha.
    Beijão André.

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