terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sem Rumo na Copa

Existem muitas maneiras de se cobrir um evento mundial como uma Copa do Mundo de Futebol. Mas, certamente, a menos divulgada é aquela escolhida por muitos “aventureiros”, no bom e real sentido da palavra. É o que fizeram os jovens catarinenses Diego Madruga, Pedro Rockenbach e Renan Koerich, três mochileiros que exploraram o universo paralelo a um evento como a Copa. A aventura transformou-se em livro sobre a Copa disputada na África, em 2010: “Sem Rumo na Copa – 45 dias de uma aventura na África do Sul” (editora Via Escrita). Nada de bola rolando, dentro de campo, mas muitas lições do cotidiano para guardar.

Apresentação

Você consegue lembrar exatamente o que você fez nos últimos 45 dias? É difícil rememorar dia por dia. Mas nós lembramos exatamente como foi cada um durante o mês e meio que passamos na viagem para a África do Sul em 2010. Cada minuto da aventura mais incrível de nós três, pelo menos até a confecção deste texto, reverbera na memória. Não somos levianos em usar “da vida” porque o futuro é um mistério e esperamos aventuras cada vez mais marcantes.

Juntamos as economias e partimos para acompanhar de perto a Copa do Mundo de futebol. Para nós – Diego Madruga, Pedro Rockenbach e Renan Koerich – era a primeira vez fora do continente. Era a primeira vez tanto tempo longe de casa.

A ideia surgiu no início de 2010, quando a mãe do Renan viu uma chamada da Copa na televisão. Dona Sandra sugeriu: “Por que vocês não vão para lá?”. Meio ano depois, o aparente devaneio se transformou em realidade.

Um pacote para cursar inglês durante um mês na África do Sul, no período do Mundial, foi a forma mais econômica de viajar. Às 10h do dia 5 de junho, iniciamos a nossa jornada num voo partindo do Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis.

O curso ofereceu estadia para os estudantes. Por isso, ficamos numa casa com 16 brasileiros. Em quase todas as histórias contadas neste livro, mais alguém da residência estava conosco. Nas reportagens e nas demais furadas, há a participação desses amigos. A colega Bárbara Lins, que se juntou ao trio para colocar o pé na estrada quando deixamos a Cidade do Cabo, também contribuiu e participou de várias entrevistas e passeios pelo Cabo.

Nos 45 dias, mantivemos um blog, enviamos reportagens para o jornal Diário Catarinense, à rádio CBN Diário e transmitimos vídeos para o clicrbs.com.br. Ao retornarmos ao Brasil, contamos inúmeras vezes as experiências vividas no país.

Percebemos que esses relatos eram tão cheios de informações jornalísticas como as reportagens. Então, decidimos eternizar o abstrato em algo físico. Foi o nascimento do livro “Sem Rumo na Copa”.

O texto também nos permite fazer um paralelo para com o Brasil. Muitos dos fatos narrados pelo trio se tornaram um déjà vu em nosso país. Os problemas de internet, obras atrasadas, estádios que são “elefantes brancos” e transporte coletivo precário são alguns dos exemplos negativos que vimos na África do Sul e apareceram no horizonte brasileiro em 2014.

Mas também vimos muitos exemplos positivos que se repetiram por aqui. Principalmente, em relação às pessoas. Brasil e África do Sul são países muitos parecidos em níveis econômicos e sociais. E, mesmo com muito esforço para ganhar a vida, as pessoas que movem as duas nações têm sempre um sorriso para compartilhar, solicitude para ajudar e uma enorme vontade de receber o mundo em sua casa. Querem mostrar que, mesmo não tendo o nível europeu, tão imposto pela FIFA, têm outras inúmeras qualidades, como riqueza em cultura e vasta opção de belezas naturais, por exemplo.

Antes de o leitor conhecer as peripécias do trio, vale uma explicação. Para escrever, usamos a 1ª pessoa do plural, nos momentos em que os três participam, e a 3ª do singular para ações individuais ou em dupla.

Sobre o conteúdo, não tivemos a pretensão de confeccionar um livro de História. Apenas contar a nossa história misturada às reportagens produzidas por nós.

Prefácio
Por Fábio Zanini


“Quem em sã consciência trocaria Florianópolis pela dureza de um continente com mosquitos, conexão de internet a carvão e ônibus que só partem quando o motorista quer?

Os autores deste livro trocaram. Certamente eles já ouviram dezenas de vezes a pergunta: “Por que a África?”, e aqui eu vou repetir a resposta que costumo dar sempre que sou emparedado por olhares incrédulos: “Por que não?”.

Veja bem, a África é a parte do planeta em que um jornalista pode realizar plenamente a satisfação de contar uma história. Lá, está ainda tudo por construir, pacificar, desenvolver. As pessoas têm um senso agudo de pertencerem a um coletivo. O individualismo ainda engatinha.

E a surpresa mais gratificante é descobrir que nem tudo é desgraça. As pessoas riem e são simpáticas. Estrangeiros são bem-vindos, desde que não adotem uma atitude de colonizadores extemporâneos. De vez em quando, o mundo até para e presta atenção a algo mais do que fomes e guerras. Foi assim na libertação de Nelson Mandela, em 1990. Foi assim na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010.

Pedro, Diego e Renan deixaram Floripa para vivenciar um momento único na trajetória do continente. Este livro reúne suas histórias. São relatos de quem não teve medo de se misturar a pessoas desconhecidas em ônibus, albergues e lan houses, nem se sentiu intimidado pela porta na cara que a FIFA bateu em incontáveis jornalistas pelo mundo.

Uma Copa do Mundo não é somente o que acontece nos estádios, hotéis e restaurantes coalhados de torcedores. Às vezes, nesses locais é onde a Copa menos acontece. Se alguém quisesse sentir de verdade a tensão da competição, o orgulho que despertou nos sul-africanos e a paralisia que provocou em um país inteiro, não era assistindo a Eslováquia contra Nova Zelândia no estádio reformado da cidadezinha de Rustenburgo.

Era nos shebeens, os bares sul-africanos, ou no coração de Joanesburgo, onde aquele evento gigantesco representava bem mais do que uma festa de mídia para a FIFA. Era mais um sinal de libertação após décadas de tirania racial.

Felizmente, os autores deste livro perceberam isso direitinho.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo um dos capítulos da obra.

Música e pelada à beira-mar

Para variar, entre idas e vindas, no domingo fomos parar de novo no Waterfront. Como uma ótima surpresa, valeu a pena outra pernada pela área turística do antigo porto. Assistimos, literalmente, a um show de cultura no início da tarde.

Vários artistas de rua solos e em grupo se apresentavam nas calçadas de lajotas simetricamente alinhadas. Atabaques de couro, flautas em cano de PVC, mágicos e até um saxofonista hipnotizavam os olhos e enfeitiçavam os ouvidos dos turistas.

Alguns traziam rostos pintados e entoavam cânticos remetendo aos povos tribais, os primeiros habitantes da atual África do Sul. Tribos foram dizimadas pelos colonizadores e embarcadas em porões de navios negreiros ali naquele mesmo porto para colônias e países de regime escravocrata.

Paramos em frente a um senhor baixinho de coluna arqueada. Ele vestia boné, uma jaqueta, calça jeans e trazia ao peito um saxofone de tom avermelhado desbotado. Ao reconhecer nossas camisas, iniciou os acordes de Garota de Ipanema.

E nós acompanhamos balbuciando a letra: com um doce balanço a caminho do... béééééééé. A melodia “travou” numa nota. Enquanto encontrava ar para segurar o acorde com uma das mãos, com a outra o baixinho apontava o lenço estendido no chão. Só daria sequência ao clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes se colocássemos dinheiro sobre o lenço. Sacamos algumas moedas e deixamos ali.

Achou pouco, fez sinal negativo com a cabeça e pediu mais. Tivemos boa vontade, mas o amigo do sax não conhecia a realidade do trio, que vivia sob forte avareza desde o desembarque no Cabo. Fizemos cara de “é isso que temos” e partimos. A Garota ficou interrompida.

Miduduzi Mbuyazi
Logo à frente, encontramos outro jazzista. Mais simpático, mais atencioso e mais talentoso que o anterior. Munido apenas de cano de PVC e um pequeno chocalho em forma de bola, Miduduzi Mbuyazi, de 25 anos, tocava algo criado por ele, batizado de Unico Jazz. Do cano e do chocalho, sentado no chão, Miduduzi tirava cadências parecidas com aqueles sons andinos tocados em praças do Brasil.

Usando uma roupa de estampa de onça e uma touca em forma de bola de futebol, o sul-africano fica de duas a três horas por dia nos pontos turísticos da cidade. Segue essa rotina há cinco anos.

Para quem ouve e não entende nada de música, o Unico Jazz soa apenas como um barulho agradável. Porém, aqueles com audição mais apurada percebem a sutileza do som, as variações de tons, a metragem perfeita da batida. Enxerga também a sensibilidade e o cuidado com que o jazz de Miduduzi é moldado. “Eu amo tocar aqui, isso aperfeiçoa meu som, que ainda tem muito a melhorar.”

Quando encerramos a nossa conversa com o inventor do “Unico Jazz”, o relógio marcava 16h. Estávamos atrasados para o nosso show. Modéstia à parte, na tarde de domingo, nós também faríamos uma apresentação. Não artística, mas futebolística.

O “trio dos sonhos” de qualquer time iria participar de uma pelada no bairro Camps Bay, o metro quadrado mais caro do país. Buscamos rapidinho o fardamento em casa e fomos rumo à estreia fora do Brasil. O lugar ficava à beira-mar, rodeado de mansões, restaurantes de pelo menos quatro talheres e lojas das mais caras grifes do mundo.

Nos fundos de um desses restaurantes, ficam os dois campos de futebol. A bola já rolava ao descermos da van. Encostamo-nos à beira do gramado com cara de menino pidão. Pelo menos um do trio sempre usava a camisa da Seleção Brasileira.

Isso facilitava as coisas muitas vezes. E para bater uma bola, não foi diferente. Não demorou muito para um brasileiro chamar a nossa atenção e perguntar se queríamos entrar. Complementamos as equipes da pelada, que acontecia todos os domingos à tarde. Descobrimos o local por meio de amigos das aulas de inglês. Passamos pouco tempo no curso, entretanto deu para fazer algumas amizades.

O futebol ali era uma espécie de mini Copa do Mundo. Trocamos passes com ingleses, nigerianos, brasileiros, sul-africanos, portugueses e por aí vai. A nossa Copa do Mundo. O único problema estava no que não podia ser visto, apenas sentido.

O frio intensificado pelo vento riscava as nossas canelas. A sensação térmica com certeza devia estar por volta dos 5ºC. Corremos uns 20 minutos, mais para se aquecer do que para marcar ou fazer gol. Numa dividida, Renan recebeu uma entrada forte. Ficou uns dois dias reclamando de dor, praguejando contra o inglês perna de pau que o lesionara. Todos deixaram o campo quando desabou a chuva.

Frio e corpo molhado não seriam nada agradáveis. O tempo na Cidade do Cabo tem
características surpreendentes. Há cinco minutos, o céu azul e um lindíssimo pôr do sol pintavam a paisagem. Sem aviso, veio a precipitação. Passou em cinco minutos.

Essas alterações aconteciam constantemente em Cape Town. Várias vezes não havia
nem sinal de nuvem, e surgia uma chuva.

A brincadeira sob baixas temperaturas rendeu resfriado ao Diego e ao Renan. À noite, ambos foram dormir na mesma sintonia: “Cara, estou com dor de cabeça e no corpo”. Reclamaram apenas da dor porque ninguém ousava se arrepender de jogar aquele futebol. Sabíamos que fora um privilégio compartilhar o mesmo objetivo com tantas culturas diferentes. “Tabelei com um nigeriano”, Diego enfatizava emocionado cada vez que precisava recontar a tarde de domingo.

Terminava com dois debilitados e um rindo da cara deles a primeira semana na África do Sul. Obviamente, nem imaginávamos, mas, nos próximos dias, aguardavam pelo Sem Rumo na Copa uma escalada, uma ilha-prisão, uma favela, um estádio lotado e um pedaço do Brasil a oito mil quilômetros de distância das terras descobertas por Cabral.


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