domingo, 26 de outubro de 2014

Michel Laurence: o francês mais brasileiro do mundo


Ao mestre Michel Laurence
Por André Ribeiro

Muitos, mas muitos mesmo, devem a Michel Laurence a gratidão de um dos gestos mais nobres que um ser humano pode ter: o de ensinar sem nada querer em troca. Se devo algo ao mestre, como sempre o tratei, é isso: gratidão. Se consegui entrar no universo dos livros foi por sua “culpa”. E a história, ah a história (o que ele melhor sabia e nos ensinou a fazer, até mesmo durante esses últimos dias de vida com seu diário da dor e do futebol, só ele mesmo para fazer isso), de como ele me convenceu a começar a escrever é a forma que encontro agora, no momento da notícia de sua entrada em outro estágio de sua caminhada, de retribuir e agradecer um pouco de sua bondade.

Nos tempos de Cultura, Michel costumava tratar a quase todos com aquele jeitão que só os cariocas sabem fazer: “gente boa”, era assim que ele começava a conversar contigo quando tinha alguma história a contar. Até que em um de nossos intermináveis fim de tarde, no trailer que ficava na praça em frente a TV Cultura, ele resolveu me perguntar, meio que provocando, por que eu não escrevia, já que tanto gostava de procurar por histórias que pudessem virar pautas para os programas que produzíamos juntos. Minha resposta foi simples e direta: “Porque não sei escrever”. Mas Michel sabia como convencer os durões com o jeito simples de ensinar. E retrucou com outra pergunta: “Mas quem disse a você que quem escreve precisa ‘saber escrever’?”. Evidentemente que minha resposta só poderia ser uma: “Como assim?”. E Michel foi de uma objetividade direta e reta em sua resposta: “Coloca no papel as ideias, do jeito que você sabe, da mesma forma que produz as pautas. Não se importe se está escrevendo certo ou errado. Alguém irá corrigir, se estiver errado”.

E foi assim, pensando da mesma forma simples que ele recomendou, e que para ele era exatamente assim que funcionava, que decidi começar a escrever um livro. E outros seis vieram. Tudo “culpa” dele...Michel, contador de histórias fenomenal, estimulava essa arte de maneira quase espontânea, em quase todos que o cercavam, ou pelo menos, para aqueles que, como ele, gostavam disso: contar boas histórias.

Assim como nas várias outras redações em que trabalhou, desde Placar, na Abril, passando por Globo, Band, SBT, Estadão e tantas outras, na Cultura, dos anos 1990, Michel era o nosso “contador de histórias”, “causos” do mundo da bola que só ele poderia saber, dentro do programa Grandes Momentos do Esporte. Deixou eternizados textos fantásticos sobre os mais diversos personagens do esporte brasileiro, especialmente, quando o assunto era futebol, e mais especial ainda, se o personagem fosse o Santos, e, claro, o rei do futebol, Pelé, pois se havia algum jornalista que o rei respeitasse, esse alguém era ele, Michel. Respeito de gênio com outro gênio, pois os dois se conheceram quando Pelé ainda jogava, no auge do final dos anos 1960.

Só que, às vezes, e não foram poucas, Michel, como todo gênio criador, que não tem hora para ter o “estalo” da criação, resolvia escrever crônicas enormes, de dois, três minutos de duração, na sexta-feira bem a noite, quando quase toda a redação havia ido embora. Programa “fechado”, com quase tudo pronto, ele terminava seu texto e chamava o produtor ou editor que estivesse por perto e dizia: “Gente boa, dá uma lida nisso aqui”...Nunca houve alguém que se recusasse a transformar em VT um de seus textos, apesar da certeza do trabalho enorme que teríamos, pois seus textos eram ricos em detalhes, jogadas, a precisão do olhar, do flash ocorrido dezenas de anos atrás. Mas como valia a pena “sofrer” para ver editada e pronta uma crônica do “seu Michel”...ainda mais quando a voz era a do “nosso” Luís Alberto Volpe (ah, como ficavam lindos os textos de Michel naquela voz).

Por tudo isso, Michel, de onde estiver agora, continue a contar suas histórias. Aqui, os que ficam, como eu, não terão talento suficiente para continuar seu trabalho, mas tenha a certeza de que, pelo menos eu, nunca deixarei de perpetuar a quem interessar o que é mais valioso no jornalismo: uma boa história para contar.

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