quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Dia do Rádio

No Dia do Rádio, 25/09 (esse veículo de comunicação,(um dia poderoso), Literatura na Arquibancada reverencia dois pioneiros no rádio esportivo brasileiro. O primeiro, Nicolau Tuma, o pioneiro nas narrações esportivas. O segundo, um empresário que soube como ninguém utilizar a força do esporte nas rádios que criou: Paulo Machado de Carvalho.

Há muitos nomes na história do rádio esportivo, inesquecíveis, imortais, como Fiori Gigliotti, Osmar Santos, Luiz Mendes, Gagliano Neto (o primeiro a narrar uma Copa do Mundo para o Brasil, em 1938), Garotinho... Todos eles são personagens do livro, “Os Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva no Brasil” (Editora Terceiro Nome, 2007), de André Ribeiro, de onde o texto abaixo foi extraído.



Os donos da bola
Por André Ribeiro

Nicolau Tuma nas primeiras narrações de futebol
Se no início do século passado, Charles Miller batalhou para que notícias do futebol fossem divulgadas pelos jornais paulistanos, Nicolau Tuma, um jovem estudante de Direito, de apenas 20 anos, foi quem convenceu seus patrões da Rádio Educadora Paulista, a transmitir na íntegra, pela primeira vez na história do rádio, uma partida de futebol. O jogo escolhido para a transmissão era entre as equipes de São Paulo e Paraná, válido pelo Campeonato Brasileiro de 1931.

Havia dois anos que Tuma trabalhava na Rádio Educadora, onde exercia a função de locutor de notícias e ganhava 500 mil réis, um bom salário para a época. Quando propôs a ideia a seus chefes, sabia que tinha o desafio de fazer os ouvintes, que receberiam a transmissão pioneira, criar em suas mentes o cenário exato de tudo que acontecia durante o jogo.

No dia 19 de julho de 1931, Tuma e sua equipe pegaram os equipamentos de transmissão, tomaram um táxi e partiram rumo ao estádio da Floresta, no bairro da Ponte Grande (atual Ponte das Bandeiras), na região central de São Paulo. Para realizar a transmissão, difícil foi encontrar espaço entre os torcedores que se espremiam nas arquibancadas. Faltando poucos minutos para o início da partida, ansioso, o jovem locutor anunciava para os ouvintes: “Como repórter, vou transmitir daqui tudo aquilo que for acontecendo no campo...Como vocês sabem o campo de futebol é um retângulo. Então vocês façam um retângulo aí em sua frente, numa cartolina...Ou então, peguem uma caixa de fósforos. A caixa de fósforos é um retangulozinho, não é? Agora sim, a caixa de fósforos é o campo. Do lado esquerdo vão jogar os paulistas, do lado direito, os paranaenses”.

O jogo começa e Tuma não poderia se esquecer do detalhe de como identificar os jogadores em campo, porque naquele tempo ainda não existiam camisas numeradas. O jeito seria memorizar detalhes da cor do cabelo, chuteiras, calção, ou até mesmo a altura ou cor do atleta. Sem a ajuda de nenhum comentarista ou repórter, com a bola rolando no estádio da Floresta, faltava ainda outro “pequeno” detalhe. Como narrar o gol, momento maior de uma partida de futebol? Meio que por acaso, Tuma definiria um estilo para o futuro das transmissões esportivas do futebol. Quando Gabardino, jogador da seleção do Paraná, abriu a contagem, Tuma disparou um grito curto e seco: GOL !. Para sua sorte, ou azar, naquela tarde de domingo teve de repetir dez vezes a narração, já que o placar final registrou 6 a 4 para os paulistas.

Nicolau Tuma (centro). Renato Macedo (esq) e César Ladeira.
O grito de gol era sem muita emoção, mas durante o tempo restante do jogo, Tuma tinha de se virar no improviso, falando do clima, das arquibancadas, da lotação do campo, dos torcedores: “eu nunca gritei aquele gol esticado, demorado. Sempre achei que o ouvinte queria saber logo quem tinha marcado, o nome do jogador, como ele estava comemorando. Durante todo o jogo, a minha única preocupação era não parar de falar. Eu achava que se o ouvinte ficasse um segundo sequer sem ouvir nada, mudaria de estação. Então, não parava”.

E bota rapidez nisso. Eram aproximadamente, entre 200 e 300 palavras por minuto, pronunciadas com a mesma velocidade. O jeito inédito de transmitir o futebol acabou imortalizando um apelido que carregaria por toda a carreira: “speaker metralhadora”.

O sucesso obtido por Nicolau Tuma nas transmissões da Rádio Educadora despertou rapidamente o interesse da concorrência. Um ano depois, em julho de 1932, às vésperas de irromper a Revolução Constitucionalista, Tuma era contratado pela Rádio Record, adquirida havia um ano por um outro jovem empresário que faria história no rádio e na televisão brasileira.

Seu nome era Paulo Machado de Carvalho e tinha apenas 30 anos quando decidiu abandonar a carreira de advogado para aventurar-se nas ondas do rádio. Seu pai era Antonio Marcelino de Carvalho, negociante bem-sucedido que chegou à presidência da Associação Comercial de São Paulo. O novo empreendimento de Paulo Machado tinha tudo para dar errado.

Criada em 1928, três anos depois, a Record estava em crise, entrava no ar a cada três dias, e a saída encontrada pelo seu ex-proprietário, Álvaro Liberato de Macedo, foi vendê-la ao primeiro que aparecesse. Mesmo com as precárias instalações, Paulo Machado associou-se ao seu cunhado, João Batista do Amaral, o Pipa; a Jorge Alves Lima, um parente distante de sua esposa Maria Luiza; e ao técnico de som Leonardo Jones, para arrematar a Record por 25 contos de réis, uma fortuna para a época.

A sede da emissora ficava na Praça da República, 17, centro da capital paulista e seu nome de batismo era “Casa Record”, especializada na venda de aparelhos de rádio. O cenário encontrado pelo seu novo proprietário era desolador, com cadeiras empoeiradas, estúdios escuros e apertados, que mal comportavam os enormes microfones da época.

Todavia, o talento do jovem empresário; uma estratégia inovadora de programação; e muito suor fizeram da Record, em pouco tempo, a primeira líder de audiência do rádio paulista: “o que mais me lembro é que ao entrar na Record vi um piano. Bati nas teclas, mas o piano não tinha som. Resolvi abrir para saber porque não funcionava. E não funcionava porque estava cheio de tampinhas e garrafas de cerveja, a bebida preferida do meu amigo maestro Sérgio Polera. A primeira impressão foi um pouco dura, mas depois eu fui me acostumando com aquilo. No início eu era telefonista, discotecário, arquivista, dava recibo, tirava fatura. Eu fazia de tudo, todos os dias, de domingo a domingo.”

Desde o dia 11 de junho de 1931, quando entrou pela primeira vez no ar, a PRA-R começou a transmitir óperas ao vivo, aulas de ginástica, histórias para crianças narradas por Monteiro Lobato, no programa chamado “Hora Infantil”, e claro, futebol.

Paulo Machado era um apaixonado pelo esporte desde os tempos de garoto, quando, aos 11 anos, chegou a montar um time de futebol chamado de América Futebol Clube. Conhecia todos os campos de várzea da região onde morava, próxima à rua das Palmeiras, região central de São Paulo. Em sua nova emissora de rádio, o futebol tinha espaço fixo nas tardes de domingo.

José Augusto Siqueira, o comandante técnico das transmissões, nos estúdios da emissora, recebia telefonemas dos repórteres que acompanhavam aos jogos nos estádios e os colocava no ar: “não era nada mais do que uma série de telefones, daqueles de manivela em que se falava do campo. De lá se dava uma notícia. Siqueira pegava, escrevia num papel e o locutor dizia: ‘agora acabou-se de marcar um gol no Parque Antártica’”.

Pode parecer simples hoje, mas na época era uma revolução, o primeiro plantão esportivo do rádio brasileiro, batizado de “Esporte nas antenas”. Na Record, o futebol também era notícia todas as tardes da semana, no programa “Record nos Esportes”, com boletins produzidos em parceria com a equipe comandada por Thomaz Mazzoni, no jornal A Gazeta Esportiva.

Um ano depois de sua criação, a Record já era a maior rádio de São Paulo, considerada modelo pela qualidade de sua programação moderna e popular.

Assis Chateaubriand
No início de suas atividades, Paulo Machado encontrava-se com freqüência com Assis Chateaubriand, que chegou a comandar na Record, o primeiro jornal falado do rádio. Em pouco tempo, ambos se tornariam concorrentes, mas por enquanto, Chateaubriand estava preocupado, apenas com o futuro de seus negócios no ramo de jornais impressos que se espalhavam por todo o País.

Não é à toa que Chatô construiu um império das comunicações. Naquele distante ano de 1931, ao sair dos estúdios da Record, o empresário profetizou: “Olha Paulo, isto que a gente está vendo aqui é o início de uma grande transformação que vai acontecer no mundo inteiro. Na minha opinião, no futuro, estas coisas vão progredir de tal maneira que vão surgir aparelhos de rádios pequeniníssimos, como uma caixa de fósforos. As pessoas vão andar na rua com rádios junto aos ouvidos, ouvindo as notícias. Vamos chegar ao rádio de lapela. Os jornais impressos estarão sempre atrasados. Eu temo pelos jornais”.

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