segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Guga, Um Brasileiro

Um livro obrigatório para os amantes da literatura esportiva. Saiu a autobiografia de um dos maiores esportistas brasileiros de todos os tempos. Guga, Um Brasileiro (Editora Sextante) foi construído a partir de depoimentos do tenista ao jornalista Luís Colombini.

Histórias de superação, de conquistas, de um sonho nunca sonhado transformado em realidade em quadras espalhadas pelo mundo: Gustavo Kuerten, o Guga, 20 títulos individuais e primeiro do ranking mundial por 43 semanas !

Histórias como a do Guga menino, que sonhava ser bombeiro. Em recente entrevista a Revista Época (http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Vida/noticia/2014/09/guga-se-eu-nao-fosse-brasileiro-nao-teria-sido-o-numero-1-do-mundo.html ), Guga relata o “custo” para chegar tão longe:  “A minha mãe vendeu piano, jóia, relógio do meu pai, carro e estava pronta para vender a casa. Minha família foi dissolvendo todos os investimentos seguros. Isso é bem empolgante no livro porque a gente vê que, apesar de não ter nenhuma certeza, a gente estava convicto de que ia dar certo. Porque como é que a gente estava tendo coragem de botar tudo em risco assim para alguma coisa que não fosse acontecer?”

Apesar de todas as conquistas, Guga segue com a mesma simplicidade que sempre o caracterizou, dentro e fora das quadras.  Sua inacreditável trajetória vencedora, como ele mesmo afirma, não teve nada de anormal: "Se você olhar hoje pensa: não pode ser verdade, é inacreditável ver aonde cheguei. Mas não tem nada de mágico, uma fórmula secreta ou um cometa Halley que passa a cada tantos anos. É a história de um cara comum que aproveitou as oportunidades".

Mais ou menos Guga. Você é pra lá de especial.

Apresentação (da editora)

É em junho de 1997 que Gustavo Kuerten inicia a maior virada de sua vida. O palco é Roland Garros, o torneio de tênis mais charmoso do mundo. Como personagem inicialmente coadjuvante e depois protagonista, o desconhecido cabeludo, surfista e boa-praça iria abalar as tradições do esporte refinado e entrar para a história mundial do tênis e do esporte brasileiro.

Mas sua trajetória brilhante rumo ao topo do ranking tem início muito antes, quando ainda era criança em Florianópolis, onde seria preparado pela família, pelas tragédias e por um treinador que esteve ao seu lado em todos os grandes momentos.

Em um relato absolutamente sincero, empolgante e emocionante, Guga revela através de seus sentimentos as passagens mais marcantes de sua vida. Ele descreve as memórias de sua infância e adolescência com o mesmo estilo modesto e divertido que o caracteriza como jogador.

A forte base familiar, a inspiração no pai, a admiração pelo irmão tenista, o apoio irrestrito da mãe, a paixão pelo irmão caçula e a confiança inabalável do treinador são peças fundamentais em sua história, a base que o levou a superar a falta de incentivo, a descrença em si mesmo e os adversários mais temidos de sua época.

Essa jornada sem igual, passando pelos torneios juvenis e profissionais, o tricampeonato de Roland Garros, a chegada ao topo do ranking mundial, entre outras conquistas, é contada a partir da visão única do menino que nasceu para ser campeão e cativou o coração de todos os brasileiros.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo uma das muitas histórias narradas por Guga.

“Estava tão tenso, tão dominado pelas emoções, tão apavorado que, se Kafelnikov devolvesse dentro, não me enxergava em condições de dar continuidade ao ponto. Caso a bola voltasse para o meu lado, já me via paralisado, sem ação, só observando minha ruína. Tudo bem que ainda podia ter mais jogo pela frente, mas, se eu já me sentia destruído naquele momento, de onde tiraria força para ir além?

O russo ficava me encarando com uma expressão provocativa, querendo dizer “Vai, cara, manda, você está tão nervoso que tá óbvio que não vai acertar”. Saquei na direita dele. Queria muito dizer que dei um ace fulminante. Mas não foi nada disso. Com o braço encolhido, o saque saiu muito lento, supostamente fácil para o russo. Só que demorou tanto para chegar que ele se atrapalhou e rebateu torto com o aro da raquete, isolando a bola uns três metros para fora da quadra. Por dentro, eu dava pulos de alegria. Empatei, 40/40.

Nessa hora, em mais uma legítima e arrebatadora esquizofrenia de tenista, saí do fundo do poço e fui direto para a estratosfera.

– Ganhei o jogo! Agora não tem mais jeito. O cara não aproveitou a chance dele e ele que se lasque. Este jogo é meu – decretei, os olhos cintilando, a convicção espantando as dúvidas e, com elas, todos os meus fantasmas e demônios.

A sensação da vitória era tão profunda que retomei o desempenho do primeiro set, um cara mirando no alvo e disparando em linha reta até acertar na mosca. Quando finalizei o game, ganhando a partida e concretizando o inimaginável, urrei como se tivesse conquistado o título.

Ainda com adrenalina saindo pelos olhos, Rafa exultava, berrava, vibrava. Em lágrimas, Letícia, a namorada dele, quase esmagava meu irmão no abraço de comemoração. Larri estava eufórico e emocionado. A plateia foi ao delírio e aplaudia, sorrindo com o ar de satisfação de quem presencia um fenômeno raro, o cometa flamejante que só cruza o céu a cada duzentos anos.

Caramba, o que tinha sido aquilo? Depois de estar perdendo de 2 sets a 1, como é que eu havia mudado o roteiro da história? Como tinha sido possível ganhar do Kafelnikov, o número 3 do mundo?! Como aquele absurdo tinha acontecido? Apesar de ter sido o protagonista da história, naquela hora eu não tinha resposta para nenhuma das perguntas. Ainda mal acreditava que tinha vencido, que aquele carnaval na torcida era todo para mim. No entanto, era real. Eu tinha derrotado o monstro e a escalada da montanha continuava.

Eu estava na semifinal de Roland Garros.”



Sobre Gustavo Kuerten (da Wikipédia):
Nasceu em Florianópolis, no dia 10 de setembro de 1976. É considerado o maior tenista da história do Brasil. O único tenista da história a ganhar de Pete Sampras e Andre Agassi no mesmo torneio. Guga, Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic são os únicos quatro jogadores não norte-americanos a jogar pelo menos uma vez a final de todos os quatro Masters Series ATP jogados na América (Indian Wells, Miami, Montreal/Toronto e Cincinnati).
Gustavo Kuerten teve a vida marcada por duas tragédias familiares. A primeira foi a morte de seu pai, Aldo Kuerten, jogador amador de tênis e incentivador da educação pelo esporte, que colaborava nos campeonatos como juiz de cadeira. Quando Guga contava apenas 8 anos de idade, em 1985, teve que enfrentar a morte do pai devido a um ataque cardíaco, enquanto arbitrava uma partida entre juniores em Curitiba. A segunda envolve o irmão caçula, Guilherme Kuerten, que durante o nascimento sofreu de privação prolongada de oxigênio, causadora de dano cerebral irreversível e conseqüentes deficiências física e mental severas. Guilherme faleceu em 7 de novembro de 2007, vítima de parada cardiorrespiratória.

Guga, seu irmão e a mãe.
Desde cedo Guga foi estreitamente ligado à luta diária do irmão, algo que incorporou em sua carreira de tenista: em cada jogo disputado, a partir de 1998, Kuerten doava duzentos dólares a instituições de caridade; além disso, todos os troféus conquistados eram dados para o irmão caçula (incluindo as três réplicas em miniatura do troféu de Roland Garros). Gustavo Kuerten começou a jogar tênis aos 6 anos, por incentivo paterno. Começou treinando com o professor Paulo Allebrandt. Quando tinha 14, conheceu Larri Passos, seu técnico pelos 15 anos seguintes. Foi ele quem convenceu o jogador e sua família de que o jovem tenista tinha talento suficiente para se profissionalizar. Ambos - Kuerten e Larri - começaram a participar de torneios juniores no Brasil e no exterior. Em 1995 Kuerten tornou-se profissional. Além do tênis, Guga costuma praticar o surfe nas praias de Florianópolis. No futebol, Guga torce pelo Avaí Futebol Clube de sua cidade natal . Também é conhecido por ser extremamente humilde e respeitar seu público, quando fora das quadras.


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