sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Crônicas de um Peladeiro


Os estudos acadêmicos com reflexões sociológicas sobre o futebol que se transformam em livros da literatura esportiva, muitas vezes, são de leitura difícil. Michel Yakini, um estudante de Letras da USP, a Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), traz ao leitor com o seu novo livro Crônicas de um Peladeiro (Edição do autor), uma maneira descontraída e sedutora para “passear” pelo universo de grandes autores e suas obras relacionadas ao mundo do futebol.   


Apresentação
Por Michel Yakini

Crônicas de um Peladeiro é o terceiro livro do escritor Michel Yakini e seu primeiro dedicado somente ao gênero de crônicas. O livro surgiu de um projeto que previa publicar, no final de 2012, produções na internet que tivessem como mote central o futebol e suas diversas facetas.

Ao longo do processo essa escrita foi ganhando corpo e muitas crônicas desse projeto permaneceram inéditas, o que motivou Michel Yakini a realizar uma publicação específica.

Desde então, uma intensa pesquisa e leitura de textos fundamentais tiveram início. O autor dedicou-se às obras clássicas como O Negro no Futebol Brasileiro (Mário Filho); Veneno Remédio (José Miguel Wisnick); Futebol ao Sol e a Sombra (Eduardo Galeano); até antologias, biografias e livros de autores consagrados como Nelson Rodrigues; Armando Nogueira e Paulo Mendes Campos. Em uma pesquisa extensa procurou investigar formas literárias e reflexões sociológicas acerca do futebol.

Desta busca, Yakini fez trança com uma paixão antiga, seja nas andanças pelos saudosos campinhos de terra em Pirituba - seu bairro de origem -, seja nas ‘peladas’ na quadra da escola, nas ligas amadoras de futsal, nas várias tentativas em ser jogador profissional, nas caneladas pelos times de várzea quando moleque ou na curta passagem como adulto, além das memórias de arquibancada (ora gloriosas, ora tristes). 

Portanto, Crônicas de um Peladeiro dá conta de uma narrativa diversa, que relaciona o futebol como parte de uma sociedade contraditória, mas que aponta o quanto esse imaginário move paixões, além de ser fonte de beleza e poesia. Isso sem jogar pra escanteio o objetivo essencial do autor: o de produzir uma obra literária, digna de ser lida, independente do tema predominante.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo uma das crônicas do autor.

Mané Garrincha de Lima Barreto
Por Michel Yakini

Muitos acreditam que a mentira só deixa de ser imoral na excelência dos escribas, já no futebol a mentira é camisa dez. Há tempos, decide, dita o ritmo da peleja, no vai-não-vai, fez-que-foi-mas-não-foi, no da vaca, na pedalada, no chapéu, na paradinha, no rolinho. Se você aprecia literatura e futebol ou uma das duas artes, sabe que tem um bom gosto por mentiras.

Não há nada mais mentiroso que um drible, o momento mais poesia da bola. O drible é um concreto fingimento, uma enganação. Todo driblador é imoral, cafajeste, sangue frio, não tem piedade de quem mal conhece como fazia Mané Garrincha com seus Joões.

Na literatura, a mentira também é tempero essencial. Mesmo quando os livros nos envolvem em fatos reais, o escritor - malicioso como um atacante -, nos transporta ao seu mundo pela mentira.

Acreditamos em suas palavras, imagens, cores, rostos, criados pela mágica da engabelação; ou será que Castelo seria contratado como professor de javanês, pelo Barão de Jacuecanga, se não fosse pelo 171 perspicaz de Lima Barreto?

O que dizer do pandemônio que virou a pacata Tubiacanga, uma cidade revirando defuntos para desvendar o segredo do ouro de Raimundo Flamel? Esse é um dos maiores dribles da literatura brasileira, como a jogada clássica de Mané na ponta direita, que desnorteou os gringos na Copa de 62, uma história canônica, como é A Nova Califórnia.

Na bola e na página a mentira é uma entidade, sobrenatural. Para deixar de ser o humilde Manuel Francisco e se tornar o eterno Mané Garrincha, ir de um simples Afonso Henriques a um célebre Lima Barreto, é preciso, antes de tudo, ser um mentiroso de alma.

Na bola e na página a mentira não requer técnica, senão os melhores mentirosos viriam das escolinhas de futebol ou dos cursos de criação literária. Para ser um mentiroso imortal é preciso poetar com bola, é preciso driblar com a caneta.

Na página, o leitor é como um torcedor fanático, e deve estar de poros abertos para sentir as mentiras que os escritores pregam, pois todo torcedor e todo leitor gosta mesmo é de sentir mentiras que valem a pena, daquelas que depois de um gol ou ao final de um romance, dizemos: “Essa sim é uma verdadeira mentira!”.

Ninguém gosta daquele zero a zero truncado, sem chute a gol, com uma falta a cada dez segundo, dá sono. É como um livro mal escrito, que a gente larga no meio e deixa esquecido, o jogo se apaga da memória e o livro se cobre de poeira em um canto qualquer.

Os boleiros, assim como os escritores, aplicam sua magia com a caneta, um debaixo das pernas de um João, o outro costurando palavras como num gol antológico, em ambos os casos é preciso fôlego e uma boa estratégia.

Os mais experientes ensinam que nas pelejas, quem corre não é o jogador, é a bola, e nas letras as histórias fluem com vida própria, não se deve aprisioná-las.

Lima era um prosador ousado como um ponta, craque com as letras. Garrincha mal sabia ler, assinou até contrato em branco, mas escrevia poesias com as pernas tortas. Mané, provavelmente, não gostava de literatura, assim como Lima odiava football. Mané foi o Lima da bola e Lima o Garrincha da página. Tornaram-se imortais, por serem sacerdotes de mentiras sagradas. Por pouco não foram contemporâneos. Uma pena! Se os dois se encontrassem para tomar um trago, é certo que ainda assim fariam uma boa tabelinha.

Sobre o autor:
Michel Yakini é co-fundador do Coletivo Literário Sarau Elo da Corrente e atuante no movimento de literatura das periferias de São Paulo. É estudante de Letras da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e representante Regional da Fundação Cultural Palmares em SP, além de colunista do Jornal Brasil de Fato. Na caminhada, carrega na bagagem atividades relacionadas à cultura negra, periférica, arte-educação e criação literária. Publicou "Desencontros" (contos, 2007), "Acorde um verso" (poesia, 2012) e a nova obra intitulada "Crônicas de um Peladeiro" (2014). Conheça sua página na internet: www.michelyakini.com .

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