segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Um jogo inteiramente diferente !

Um livro obrigatório para pesquisadores, jornalistas e todo tipo de leitor interessado nas origens e evolução do futebol brasileiro. “Um jogo inteiramente diferente! – Futebol: a maestria brasileira de um legado britânico” foi escrito por um jornalista inglês. Aidan Hamilton é craque na literatura esportiva, depois dessa obra de referência, lançada em 2001 pela Editora Gryphus, publicou também, pela mesma editora, em 2005, a biografia de Domingos da Guia (veja aqui artigo sobre essa obra http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/11/o-centenario-de-domingos-da-guia.html).

Apresentação (da editora)

Fevereiro de 1997. A seleção brasileira está fazendo um amistoso contra a Polônia. O time de Zagallo parece estar tranquilo quando, de repente, Romário mostra uma incrível habilidade de tirar o fôlego ao receber um lançamento e bater de primeira com o calcanhar direito nos pés de Ronaldinho. De sua cabine de comentarista, o mestre Rivellino grita apenas uma palavra: Chaleira!

Corruptela de “Charles”, chaleira é a habilidade popularizada pelo pai do futebol brasileiro, Charles Miller. Nascido em São Paulo, Charles adquiriu uma paixão pelo jogo quando estava na escola em Southampton. Voltando ao Brasil em 1894, ele pavimentou o caminho para o primeiro campeonato do país, levando o São Paulo Athletic Club a três conquistas consecutivas.

Harry Welfare
Da mesma forma, o estilo forte e habilidoso do atacante Ronaldinho – eleito o melhor do mundo em 96/97 – descende do goleador do Fluminense, Harry Welfare. Chegando ao Rio em 1913, Harry – ex-atleta do Liverpool – ganhou o tricampeonato com o tricolor carioca e depois passou a dirigir o Vasco da Gama. Posteriormente, foi diretor técnico da Federação Carioca.

“Um jogo inteiramente diferente” é um livro sobre as vidas de Charles Miller e Harry Welfare – os elos entre a Inglaterra e o Brasil – e a influência britânica em meio século da história do futebol brasileiro. Além da presença de jogadores, técnicos e árbitros ingleses no Brasil, uma série de clubes, como o Corinthians, o Exeter City e o Arsenal, fizeram valiosas visitas ao país. É um legado que contribuiu para a criação de um estilo brasileiro de jogar, um estilo singular baseado na improvisação e velocidade, um estilo conquistador de Copas do Mundo. E hoje na Inglaterra, através de uma rede de escolinhas de futebol, se ensina aos futuros jogadores ingleses o jeito brasileiro de jogar.

É como se Charles Miller levasse essa maestria para o berço do futebol.

Prefácio
Por Juca Kfouri

Maravilhosos ingleses. Inventaram o futebol, nós o aperfeiçoamos, e eles, cavalheiros como são, reconhecem alegremente.

A prova esta aqui, neste “Um jogo inteiramente diferente!” do jornalista inglês, com o devido estágio em terras brasileiras, Aidan Hamilton.

Nada como ver com os olhos dos mestres a arte que os alunos souberam recriar.

E o grande professor não é exatamente aquele capaz de incentivar a criatividade de seus discípulos?

Estátua de Ted Bates, no Southampton.
Uma frase de um jogador do Southampton, Ted Bates, que veio ao Brasil em 1948 e perdeu um jogo atrás do outro, resume a magia que extasiou Aidan Hamilton: “Se nós ensinamos o jogo de futebol, dá para vocês imaginarem o prazer que eles têm em nos derrotar. Eles nos chamam (ou chamavam) de mestres ingleses – até a nossa apresentação”, escreveu numa carta para sua família, com a ironia que caracteriza um povo tão sábio que é capaz de rir de si mesmo.

Para tentar entender a diferença, o livro conta que até o futebol de salão é visto como uma explicação, mesmo que, cá entre nós, e que eles não nos ouçam, o esporte, uma invenção nacional, é relativamente recente para ser responsável pelo tetracampeonato mundial.

O livro é uma delícia.

Revela ingleses maravilhados com a leveza de nossas chuteiras nos anos 40 ao mesmo tempo em que mostra que, apenas dois anos antes da Copa do Mundo de 1950, no Brasil, não sabíamos que mão na bola era diferente de bola na mão.

Mas é melhor deixar que você se divirta com o que lerá adiante.

Porque o legado inglês não é pouca coisa e não deve ser visto com soberba ufanista.

Afinal, se o primeiro clube campeão mundial oficialmente reconhecido pela Fifa é brasileiro, seu nome é uma homenagem ao time britânico que nos visitou 90 anos atrás, em 1910, cujo hino diz que “figuras entre os primeiros do nosso esporte bretão” – o glorioso Sport Club Corinthians Paulista.

Introdução
Por Ainda Hamilton

Charles Miller
Ainda me vejo retornando a São Paulo em novembro de 1994 para preparar um programa de rádio sobre o centenário do futebol brasileiro. Levei comigo uma cópia do verbete Brasil de um ABC do futebol mundial. Começa assim: “Charles Miller, entusiástico jogador de futebol na Inglaterra, chegou ao Brasil em 1894, e imediatamente começou a popularizar o jogo no São Paulo Athletic Club...”.

Há discrepâncias entre esta e outras versões sobre as origens do jogo brasileiro. O Miller era inglês, não era? E suas aulas de football – teriam realmente começado assim que ele chegou no Brasil? Resolvi investigar tudo isso depois de encontrar Helena, a filha de Charles Miller.

Em pouco tempo, o estudo biográfico de Charles Miller passou a abranger outras conexões entre o futebol inglês e o brasileiro – especialmente a notável carreira de Harry Welfare. Em relação a Charles era mais uma questão de separar o fato da lenda, mas Harry havia sido quase completamente esquecido. Hoje, enquanto Charles é amplamente venerado no Brasil (nome de praça em São Paulo e de prêmios para jogadores), os vestígios de Harry são poucos – um Welfare no Rio, cujo avô adotou o nome para homenagear seu jogador predileto, e seu nome numa placa de Sócios Beneméritos na sede do Fluminense.

Harry Welfare
O quadro de referências para esta história de Miller e Welfare é proporcionado pela História do Futebol no Brasil 1894-1950, de Tomás Mazzoni. O período coberto é quase idêntico; há uma ênfase no desenvolvimento do futebol no Rio e em São Paulo e o desempenho internacional do Brasil. Como fez Mazzoni, apresento os diversos aspectos dos principais jogos.

Uma palavra sobre terminologia. Eu tenho seguido amplamente a convenção brasileira de considerar britânico como inglês, ou seja, incluindo escoceses e gauleses. É importante, também, enfatizar como Charles Miller foi um desportista completo; referências a ele como jogador de críquete foram simplificadas para evitar explicações detalhadas. Finalmente, todos os termos de futebol foram mantidos em inglês como eram usados na época.

Durante meio século, a Inglaterra influenciou certos aspectos do jogo brasileiro. E o futebol inglês levou quase todo esse tempo para começar a analisar como o Brasil dominou esse legado...

Sobre o autor:
Aidan Hamilton foi editor de esportes na Rádio Praga no início dos anos 90; desde então trabalha como freelancer para o World Service da BBC. Nascido na cidade de Taunton (1958), no sudoeste da Inglaterra, torcedor do Bristol City, é formado em Francês e História pela Universidade de Edimburgo. Atualmente, mora no Rio de Janeiro onde trabalha como especialista em métodos de ensino numa escola de línguas – a mesma função que exerceu em São Paulo no fim dos anos 80. “Um jogo inteiramente diferente” foi publicado na Inglaterra em 1998.



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