segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Puskas: Uma Lenda do Futebol

Uma das biografias fundamentais na história do futebol mundial. O livro é antigo, de 1998, e a DBA acertou em cheio com a publicação de Puskas: Uma Lenda no Futebol (Klara Jamrich e Rogan Taylor).

Puskas tornou-se muito mais que uma lenda, pelo menos para o autor da obra, o inglês Rogan Taylor. No texto “Prologo Pessoal”, que você verá logo mais abaixo, entenderá as razões para tal paixão pelo craque húngaro, considerado também um dos maiores do século XX.

Puskas, que ganhou o apelido de “O major galopante”, morreria oito anos após o lançamento de sua biografia, em 2006. Havia perdido a memória, por conta do mal de Alzheimer, o que torna seu livro ainda mais importante. Em 2009, a FIFA criou em sua homenagem o “Prêmio Puskas”, dado ao autor do gol mais bonito do ano no futebol mundial.

Literatura na Arquibancada agradece, mais uma vez, ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, local onde foi feita a pesquisa sobre a obra. Vale a pena conhecer o acervo em www.dados.museudofutebol.org.br.

Apresentação
Por Rogan Taylor

Ferenc Puskas é um dos maiores jogadores do século e o artilheiro internacional mais prolífero de todos os tempos. Para alguns, talvez especialmente na Hungria, ele foi – e ainda é – o maior de todos os jogadores. Mas, independentemente de onde exatamente Puskas deveria ser situado na hierarquia do futebol, não há dúvida de que é no mesmo rol de Pelé, Di Stefano, Best, Cruyff, Maradona e de outros deuses reconhecidos do jogo.

É surpreendente, portanto, descobrir que, além de uma autobiografia pouco conhecida, Capitain of Hungary (Cassell London, 1955), não existe um relato completo em inglês da vida e dos tempos de Puskas. Isso é ainda mais estranho quando se descobre quão incrível era essa vida, vivida em tempos tão dramáticos. Ninguém no panteão do futebol tem uma história similar à de Puskas.

Como jogador, ele viveu duas distintas, consecutivas – e atordoantes – vidas futebolísticas, sendo que qualquer uma delas teria sido suficiente para garantir-lhe um lugar entre a elite desse esporte. Sua primeira vida futebolística, como capitão do Kispest/Honved da Hungria, desabou depois de ter se recusado a voltar a Budapeste depois do grande levante de outubro der 1956, que foi esmagado pelos tanques russos dias depois de ter começado. Da primavera de 1950 até fevereiro de 1956, a seleção da Hungria comandada por Puskas havia perdido apenas um jogo: a final da Copa de 1954. Eles haviam derrotado a Itália em Roma, por 3 x 0; a Inglaterra em Wembley, por 6 x 3 (Em Budapeste, por 7 x 1); o Uruguai e o Brasil, ambos por 4 x 2; e a Alemanha, por 8 x 3. As táticas inovadoras apresentadas ao mundo pelos húngaros naquela época resultaram na criação do sistema 4-2-4 (que técnicos húngaros como Bela Guttmann levaram para o Brasil), enquanto a fluidez no posicionamento dos jogadores húngaros produziu o protótipo moderno do “futebol total”.

Em outubro de 1956, Puskas estava com quase trinta anos e, aparentemente, seus melhores dias pertenciam ao passado. Sua recusa em voltar para casa depois do levante custou-lhe a suspensão por um ano pela Associação de Futebol da Hungria, convertida pela Fifa em uma suspensão mundial por dezoito meses. Bem depois que seus parceiros desertores já haviam sido contratados pelo Barcelona, Puskas passava por um período de depressão na Itália. Não podia treinar nem jogar em qualquer ambiente profissional. Ficou deprimido; ganhou peso; sua carreira acabara. O que aconteceu depois? Puskas cumpriu a penalidade, foi contratado pelo Real Madrid no auge de seu prestígio e jogou quase uma década na Espanha, ganhando nesse período cinco campeonatos.

Parece mais a vida de apenas um grande jogador. Entretanto, Puskas jogou apenas em três times durante sua carreira de 23 anos – Kispest/Honved, Hungria e Real Madrid (isso ignorando as quatro partidas que Puskas realizou vestindo a camisa da seleção da Espanha). Durante sua passagem por esses times, eles eram, comprovadamente, os melhores do mundo. Apesar de ter praticamente jogado futebol sempre com a nata de sua profissão, ele jamais foi comprado ou vendido. Com a seleção da Hungria durante a primeira metade dos anos 50, também liderou um florescimento de riqueza tática, habilidade e imaginação, que chegou a ser uma virtual reinvenção do próprio futebol.

Puskas era incrivelmente eficiente. Marcou mais de 250 gols para os dois clubes pelos quais jogou e seu recorde internacional e europeu de gols – 83 em 84 jogos para a Hungria; 35 em 37 para o Real em jogos europeus – faz com que (usando exemplos britânicos) Bobby Charlton e Ian Rush pareçam crianças. Até Pelé só conseguiu marcar 76 gols para o Brasil numa carreira que durou quatro Copas (das quais seu time ganhou três). Mas Puskas – que jogou para a Hungria apenas em uma Copa (e mesmo assim só em três jogos por causa de lesões) e deixou a seleção prematuramente, aos 29 anos – ainda mantém o recorde internacional de gols. Com toda a probabilidade, isso jamais será superado.

Ainda não satisfeito, Puskas jogou nos dois jogos historicamente mais significativos – para não dizer maravilhosos – dos tempos modernos: Inglaterra x Hungria em Wembley, em 1953, e Real Madrid x Eintracht Frankfurt em Hampden Park, em 1960. Com certeza o suficiente para pelo menos duas vidas.

A Época

Uma das primeiras formações do Kispest, com Puskas.
Durante a primeira de suas vidas futebolísticas, Puskas viveu alguns dos momentos mais dramáticos e turbulentos da história da Hungria. Sua vida profissional começou aos dezesseis anos com o Kispest, em 1943, na cidade de Budapeste ainda praticamente intocada pela guerra, apesar da aliança da Hungria com a Alemanha nazista. No prazo de seis anos, ele testemunhou a conclusão sangrenta da guerra (os russos lutaram com os alemães em todas as ruas da capital durante dois meses), a libertação de seu país e um breve florescer de democracia, seguido por um reinado de sete anos de um dos regimes mais rigorosamente stalinistas do Leste Europeu. Encarceramentos em massa, deportações forçadas, campos de trabalho, julgamentos forjados, tortura, execuções sumárias – todas as ferramentas da tirania foram usadas até, e mesmo depois, do Levante Húngaro em 1956.

No entanto, em meio a essa sociedade altamente restritiva, uma grande liberdade miraculosamente florescia. Num pedaço de gramado verde, os jogadores da seleção da Hungria e seus técnicos redefiniram o jogo que os ingleses haviam codificado quase um século antes. Com um núcleo de meia dúzia de jogadores altamente talentosos e astutos – Grosics, Hidegkuti, Bozsik, Kocsis, Czibor e Puskas – formou-se um time praticamente imbatível que vencia quem quer que fosse durante seis gloriosos anos de competição internacional. Tom Finney (jogador da seleção inglesa) ainda os descreve como o “melhor time” que ele jamais viu, e, para muitos, continua a ser a melhor seleção de todos os tempos. Na Hungria até hoje são conhecidos simplesmente como a Seleção de Ouro.

Puskas era o menino de ouro no meio da Seleção de Ouro, ainda que não aparentasse ser o dono desse título.  Era baixo e troncudo, gostava de comer mais do que devia, usava basicamente só um pé e evitava monopolizar a bola. Mas sua força quando tinha a posse de bola, aquele pé esquerdo incomparável, o chute de canhão e uma mente tática brilhante faziam seu futebol brilhar como fogos de artifício.

A Política

Enquanto Puskas e os outros – como, por exemplo, seu colega e amigo de infância em Kispest, o médio-volante Jozsef Bozsik – estavam sendo forjados num time imbatível, o regime político da Hungria viu neles um instrumento de propaganda dos mais potentes para o socialismo. Em 1950-54 a seleção invicta desfilava frequentemente em ocasiões de Estado importantes e comícios do partido, como se fosse a evidência do sucesso do sistema húngaro. Puskas – o menino pobre de Kispest – era a prova viva da genialidade latente no proletariado, uma genialidade liberada somente por meio do socialismo. Ele era um diamante exemplar – e bruto – brilhando entre as massas esquecidas.

Durante alguns anos, no meio desse modelo de sociedade stalinista, Puskas – apesar de isolado das altas esferas políticas – foi praticamente intocável. Na verdade, em vista da série de farsas, chamadas de julgamentos, que ameaçavam até os políticos húngaros do mais alto escalão, o capitão da seleção gozava de mais segurança do que muitos dos homens mais poderosos do país. Mas, se Puskas era o menino de ouro do regime comunista, também era por ironia o queridinho dos aspirantes a empresário e dos capitalistas de rua, que o viam como um “espertalhão” que conseguia contrabandear para dentro do país mais meias de seda e relógios do que qualquer outro quando o time vitorioso voltava das viagens ao exterior, passando pela alfândega e pelos fiscais condescendentes na fronteira.

Não demorou para Puskas entender e utilizar sua situação privilegiada. Desde a infância ele parece ter tido uma esperteza, sabedoria e espontaneidade inerentes, qualidades que foram ainda mais estimuladas no futebol por uma sucessão de técnicos, incluindo seu pai, que provavelmente ficavam abismados com seu talento e autoconfiança. Até quando tinha apenas dezesseis anos no Kispest, sua voz era a que mais se ouvia no campo, distribuindo uma infinidade de instruções e críticas, às vezes direcionadas a jogadores muito mais velhos do que ele. Alguns não aceitavam tanto desrespeito, mas era ele quem mostrava desempenho e se tornara indiscutivelmente um grande jogador. Então, quem iria querer discutir com ele?

Puskas era cortejado pelos poderosos do regime, mas também era o favorito dos despossuídos e fracos. Era conhecido na Hungria – e é até hoje – pelo apelido de infância, “Ocsi”, que significa “irmãozinho”. Mas era seu jeito despretensioso, inculto e orgulhoso para com aqueles que estavam no poder que garantiu a ele um lugar no coração daqueles que não tinham nada ou que eram ninguém. Para começar, Puskas podia “dar um jeito” em quase tudo, afinal tinha ótimos contatos, e ajudou muitas pessoas que o procuraram.

Histórias de seu desrespeito pelas autoridades circulavam com frequência por Budapeste, aumentando sua fama. Ele cutucava os poderosos, muitos dos quais gostavam dele e o admiravam, apesar de sua impetuosidade. Um jogador, colega de Puskas na seleção, lembra dele brincando com um dos políticos mais temidos de sua época, Mihaly Farkas, ministro da Defesa e extra-oficialmente responsável pela odiada polícia de segurança, a AVH. Certo dia, Farkas estava visitando o time nas perigosas instalações do exército na ilha Margaret, usando  um uniforme todo branco. Assim que o viu, Puskas caiu na gargalhada: “Pensei que finalmente o menino do sorvete havia chegado”, disse ele ao homem cujo filho era conhecido por ser um dos maiores torturadores do regime. A sala ficou em silêncio. Todos esperavam para ver a reação de Farkas. Será que Puskas se daria bem agora?

Mas o que Farkas poderia fazer? O time de Puskas não só vencia tudo que aparecia pela frente no campo de futebol, mas também o fazia com estilo e, para aqueles em sintonia com a política vigente, com uma pureza ideológica muito apreciada pelo regime. As táticas inovadoras apresentadas pelos húngaros eram vistas em alguns círculos (de forma alguma confinados à Hungria ou ao bloco soviético) como uma metáfora política. Esse era o futebol “socialista”, jogado por um time de nível internacional liderado por um gênio da classe trabalhadora. Até Puskas – uma pessoa comum, sem pensamentos políticos ou ideológicos – usava frases como “distribuindo o trabalho por igual entre todos” para descrever elementos de reorganização tática do time que integravam a “revolução” futebolística engendrada por eles.

Certamente, poucos jogadores viam o futebol como um jogo político (embora, naturalmente, eles estivessem conscientes de que seu sucesso emprestava credibilidade política ao regime). Mas um homem certamente reconhecia as dimensões ideológicas das inovações táticas: Gusztav Sebes, o técnico da seleção húngara durante a época de seu maior sucesso e um dos que mais contribuíram para as inovações.

O Técnico

Sebes, o técnico da seleção húngara.
Sebes era um “bom comunista”. Tinha no currículo a organização dos metalúrgicos da companhia automobilística Renault em Paris nos anos 30. Quando se tornou técnico do time da Hungria depois da guerra, reconheceu imediatamente as vantagens que um sistema de administração altamente centralizado de comando e controle poderia conferir ao jogo. (Era um modelo, naturalmente, já utilizado no futebol soviético.) Sebes poderia, por exemplo, juntar quase por inteiro a seleção em um clube só e manter seus reservas em outro, jogando segundo o mesmo sistema tático por várias e várias semanas. Em sintonia com os políticos mais poderosos, ele podia se preparar para partidas internacionais arranjando jogos especiais contra outros clubes, e fazendo com que esses mesmos clubes imitassem as táticas dos próximos adversários, conforme ele fez antes do grande jogo com a Inglaterra em Wembley em 1953.

Sebes podia experimentar novas táticas com os jogadores da seleção em jogos tranquilos no meio da semana fora da capital, regularmente, sem risco. Podia até recrutar jogadores jovens que ele queria dentro de seu clube-núcleo, o Kispest, logo rebatizado de Honved, “os defensores da Pátria”, representando o exército húngaro. Todos os jogadores estavam, nominalmente, no exército, sendo, portanto, oficialmente “amadores”, ainda que vivendo e treinando como profissionais.  No entanto, apesar de todo seu poder, Sebes foi inteligente o suficiente para não impor aos jogadores um sistema tático rígido; ao contrário, ele estimulava uma atmosfera que permitia liberdade plena para os grandes talentos individuais que a história havia jogado em suas mãos. De qualquer maneira, o conjunto era, sem dúvida, um time.

O Levante Húngaro
O Levante Húngaro e o que veio depois desfizeram o time de ouro que Sebes havia formado e três de seus jogadores-chave, kocsis, Czibor e Puska, nunca mais jogaram com a seleção depois de 1956. Ao chegar a Madri em 1958, com peso em excesso e com mais de trinta anos, Puskas parecia ser um risco enorme para o dono do Real, Santiago Bernabeu. Ainda mais imprevisível era a possível reação do maior astro e principal artilheiro do time, o argentino Alfredo Di Stefano, para muitos o melhor centroavante do mundo naquela época (e candidato a maior de todos os tempos), e bem capaz de mandar andar qualquer astro importado com o qual ele não se desse bem, como descobriu o brilhante brasileiro Didi. Foi nessa época crucial na vida de Puskas, nos primeiros doze meses com o Real Madrid, em 1958-59, que ele usou ao máximo sua determinação e sua disciplina – muitas vezes subestimadas por aqueles que não o conheciam bem –, o que foi essencial para ele vencer em circunstâncias difíceis e até hostis.

O Desafio

Puskas (direita) e Di Stefano, craques do Real Madrid.
Puskas inicialmente foi ridicularizado por torcedores do Real Madrid (e provavelmente por jogadores também) quando viram seu barrigão e a aparente falta de ritmo. O técnico do Real, Carniglia, também não o queria. Mas Puskas emagreceu em poucos meses e logo estava fazendo tantos gols quanto o próprio Di Stefano. No clímax de sua primeira temporada na Espanha, os dois grandes jogadores estavam empatados na artilharia da primeira divisão espanhola. Mas Puskas era sensato o suficiente para saber que precisava da amizade e do apoio do argentino temperamental. Ao fim do último jogo da temporada, Puskas deu a Di Stefano a chance de marcar um gol que ele mesmo poderia ter feito.

Daí para frente Puskas consolidou uma maravilhosa parceria com Di Stefano, conquistando uma sucessão de campeonatos para o Real Madrid e glória ainda maior na Copa Europeia. Puskas aposentou-se como jogador em 1967 e começou uma carreira itinerante como técnico que o levou do Paraguai à Austrália, e a muitos outros lugares. Mas não à Hungria. Manteve-se exilado de sua pátria por um quarto de século. Um exílio em grande parte imposto por ele mesmo, talvez por ainda ter lembranças dolorosas do tratamento recebido em Budapeste depois que os húngaros perderam a Copa do Mundo de 1954, e a suspensão a ele imposta pela Associação de Futebol da Hungria depois de 1956.

Ele se recusou a voltar para casa – nem sequer para o funeral de seu amigo de longa data Bozsik – até que se passaram 25 anos de sua partida.  Mesmo assim, em 1981, foi preciso uma delegação de peso, incluindo Sebes, a esposa de Puskas, Erzebet, políticos antigos e um famoso cineasta húngaro, para persuadi-lo a voltar à Hungria para participar de uma reunião da Seleção de Ouro e de um projeto cinematográfico sobre o time.  Voltou e foi recebido como herói nacional, embora mais onze anos tenham se passado até ele fixar residência em Budapeste, onde vive até hoje.

Prólogo Pessoal
Por Rogan Taylor

O leitor sensível já percebeu que sou fã de Puskas. Foi o diretor de minha escola em Liverpool que, sem saber, iniciou isto. Durante o horário de almoço em 25 de novembro de 1953, ele fechou a escola e mandou todos os alunos para casa (que coisa boa) para apreciar o joguinho amistoso conhecido como “a decisão da Copa do Mundo”: a Inglaterra, invicta em casa diante dos adversários do continente desde 1866, contra a Hungria, campeã olímpica e imbatível havia três anos. Consequentemente, tomei conhecimento de Puskas e dos outros integrantes daquele time maravilhoso, com meus impressionáveis oito anos de idade, assistindo ao jogo numa TV minúscula, recém-adquirida por minha família. Na verdade, fiquei em dívida para sempre com os húngaros em geral – e particularmente com Puskas – por agraciarem-me com a paixão pelo futebol; magnífico, glorioso e vitorioso futebol. Nunca poderia imaginar a importância disso em minha formação.

Foi Puskas quem primeiro me mostrou o que era jogar futebol corretamente, com toque, imaginação e extravagante espontaneidade. Literalmente me apaixonei na hora. Comecei a entender tudo pela primeira vez. Talvez eu acabasse me apaixonando por futebol de qualquer maneira. Mas a Hungria era meu time predileto (e depois o Real Madrid também, porque ele jogava para eles), ainda que tenha acabado me conformando em assistir, e depois torcer com todo o coração, a um time local, o Liverpool FC, logo depois que um sujeito chamado Bill Shankly veio para administrá-lo. Mas o primeiro amor é sempre o primeiro amor, não é mesmo?

Também fui apresentado ao lado “político” do jogo. Meu melhor amigo era o filho mais velho de uma família comunista de Liverpool e foi ele quem me informou, bem antes da partida,  que iríamos assistir ao melhor do “futebol socialista” – o jogo em equipe que iria acabar de vez com a simples reunião de indivíduos, mesmo que estes fossem ingleses do calibre de Stanley Matthews, Stan Mortensen, Tom Finney e Billy Wright (embora, no fim, Finney não jogasse).

Depois do jogo – uma vitória magnífica dos húngaros por 6 x 3 – ficamos convencidos. O futebol socialista era o futuro. Quem deixaria de entender tal obviedade? Até bem depois do jogo de Wembley perder suas conotações políticas – e a brutal repressão do Levante Húngaro acabar com qualquer mensagem ideológica superficial – o significado real do jogo persistiu. Futebol podia ser uma coisa maravilhosa, um objeto digno da devoção de uma vida inteira, e também uma visão de alegria e perfeição.

O Livro

Puskas e Kocsis
Muitos anos depois daquele jogo histórico, me vi envolvido pelo futebol não só como torcedor, mas também como escritor e comentarista. Em 1993, tornei-me consultor de uma série em seis capítulos para a TV BBC – Kicking and screaming – registrando a história social do futebol na Inglaterra desde a virada do século. Viajei para Budapeste para encontrar Puskas e pesquisar o jogo de Wembley (alguém tinha de fazê-lo), e em poucos meses retornei com o produtor e a equipe para filmar entrevistas com jogadores e outras pessoas que lembravam da ocasião. Por sorte, nos encontrávamos em Budapeste no dia 25 de novembro daquele ano – o aniversário da derrota da Inglaterra para os húngaros – e naquela noite filmamos um jantar de comemoração para o qual foram convidados todos os jogadores remanescentes. Foi ali que me encontrei – quarenta anos depois do dia em que assisti àquele jogo - à mesma mesa com Puskas, Hidegkuti, Grosics, Buzanszky e Czibor; George Robb, Jackie Sewell e Sir Stanley Matthews.

Algumas semanas depois Puskas foi para Londres como convidado de honra do programa Sports review of the year, da BBC. Durante a sua estada, sugeri a Klara Jamrich – a pesquisadora/intérprete húngara para o programa, que viera junto com Puskas – que em conjunto lhe propuséssemos um livro. Para nossa alegria, ele concordou em cooperar e, em Budapeste, durante parte de setembro de 1994 e de novo em 1995, pôs-se à disposição todas as manhãs para uma série de longas entrevistas sobre sua vida.

O que se segue é o resultado dessas entrevistas, uma história oral de sua vida em grande parte por suas próprias palavras, traduzida para o inglês por Klara Jamrich e editada e revisada por mim. Incluí também, onde apropriado, relatos históricos dos acontecimentos políticos na Hungria que ocorreram em paralelo à carreira de Puskas em seu país. Além disso, outras entrevistas foram feitas com jogadores e comentaristas contemporâneos de Puskas, e fontes escritas, algumas não disponíveis em inglês, foram pesquisadas e traduzidas por Klara Jamrich e depois incluídas no texto por mim.

E aqui está uma obra fruto do amor: a vida e a época de Ferenc Puskas, um dos jogadores mais notáveis e talentosos da história, e para mim pessoalmente um iniciador na magia esplendorosa do jogo. Puskas celebrou seu septuagésimo aniversário em abril de 1997. Ao rememorar sua carreira, que cobre meio século como jogador, técnico e dirigente, ele deixa escapar um profundo senso de satisfação por ter retornado a Budapeste depois de tantos anos de exílio. Hoje ele frequenta regularmente o Kispest, onde sua carreira começou, e continua conselheiro da Associação de Futebol da Hungria. Mantém-se íntimo do jogo, e, como eu descobri, sua vida sempre foi permeada por futebol, desde seus primeiros momentos de consciência...


   


Um comentário:

  1. Esse foi e continua sendo grande!

    Se não me falha a memória - e as vezes falha... - me parece que há uma premiação internacional em nome dele.

    Se eu estiver errada por favor me corrija.

    Beijo Andre.

    Continua na Arquibancada.

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