sexta-feira, 4 de julho de 2014

Uma História das Copas do Mundo - Futebol e Sociedade

Uma obra espetacular. Dois livros, mais de mil páginas construídas com o rigor da pesquisa e qualidade editorial, no texto e na arte. Uma História das Copas do Mundo – Futebol e Sociedade (Editora Armazém da Cultura) do historiador e pesquisador Airton de Farias (e ilustrações de Daniel Brandão) não é apenas leitura obrigatória, mas dois volumes fundamentais para se ter a qualquer hora para consulta sobre qualquer informação referente a história das Copas, dentro e fora dos gramados.

Airton de Farias não é audacioso quando revela sua intenção ao escrever os livros: “entender a História (ou uma parte da História) da humanidade, entre o final do século XIX e o começo do século XXI, através da modalidade esportiva mais popular do planeta”.

Sinopse (da Editora):

“Nunca foi feito nada igual no Brasil”, escreve Juca Kfouri, em sua apresentação do livro Uma História das Copas do Mundo – futebol e sociedade, de autoria do historiador Airton de Farias, lançado pela editora Armazém da Cultura. O texto, em mais de mil páginas, editado em 2 volumes, aborda a contextualização política do mundo pré-Copa, de 1930, ano da primeira Copa, até hoje, quando chegamos à vigésima, insere e relaciona o esporte mais popular do planeta na vida e na política com grandes fatos e processos históricos do final do século XIX, XX e início do XXI.

Em nome da bola fez-se guerras, como entre Honduras e El Salvador, em 1969. Em nome da bola, torcidas digladia-se-iam. Em nome da bola, a paz aconteceu. Com a bola, o neonazismo se expande na Europa, aproveitando-se da crise que o mundo capitalista vive desde 2007. Em nome da bola, povos se confraternizaram, a ponto de inimigos irreconciliáveis, a exemplo de Irã e Estados Unidos, darem-se as mãos dentro de campo e ficarem lado a lado, como se fossem velhos companheiros em divertido jogo de várzea no final da tarde. Com a bola, um indiozinho argentino (Maradona) venceu um gigante inglês, vingando toda uma nação que perdera uma ilha numa guerra delirante estimulada por uma ditadura sanguinária.

São relatos do autor Airton de Farias, fundamentados em pesquisa de dois anos e meio com inúmeras fontes e matérias que respaldam e conferem absoluta credibilidade ao livro. O Brasil, que por séculos viu em sua composição mestiça um traço de inferioridade, verdadeiro “complexo de vira-latas”, teria no futebol a redenção. Cinco vezes dominou o mundo. Um negro (Pelé) e um índio (Garrincha) trariam a glória. A bola foi ferramenta para questionar e dominar. Ditadores usaram-na, mas também governos democráticos.

Uma história das Copas do Mundo mostra a ascensão de povos e países no cenário internacional, como a realizada na África do Sul e as que se realizarão no Brasil e na Rússia, não por acaso, países do BRICS, nações de economia em ascensão. Muito mais que uma história futebolística das Copas, Uma história das Copas do Mundo, com ilustrações de Daniel Brandão, é uma apaixonante história política e social desde os primórdios do esporte. Como atesta Juca Kfouri, um dos mais respeitados nomes da imprensa esportiva nacional: “o que você tem nas mãos é uma obra portentosa. Nem mais nem menos.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o prefácio da obra assinado pelo próprio autor.

Prefácio
Por Airton de Farias

Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Posso garantir que futebol é muito, muito mais importante.
  
Bill Shankly, técnico do Liverpool, da Inglaterra entre 1959-74



Serei bem claro: este é um livro de síntese, com certo caráter didático, para aqueles que desejam dar os primeiros passos na tentativa de compreender melhor o futebol além dos gramados. Não é uma obra de estatísticas futebolísticas (embora as use também, eventualmente), nem uma obra rigorosamente factual e cronológica (nos capítulos, como o leitor perceberá, há muitas “idas e vindas” no bailar contraditório e instável dos anos). Também não visa realizar uma “hagiografia de boleiros”, ainda que fale bastante da trajetória dos jogadores, pois, como de se esperar numa obra deste tipo, os atletas são considerados atores sociais, alvos de grande atenção dentro do processo histórico. Igualmente, não tenho a intenção de focar nestas linhas causos pitorescos ou folclóricos e, muitos menos, detalhar todas as escalações, treinadores, lugares e horários das partidas das copas e o exato tempo de jogo em que aconteceram os cartões e os gols. Você está alertado, caso deseje prosseguir (se é um leitor igual a mim, que deixa para ler por último o prefácio, esse primeiro parágrafo é totalmente dispensável e sua frustração, caro leitor, é deveras compreensível...).

E do que trata este livro, afinal?

Sou um aficionado por futebol e, como professor há 20 anos, um apaixonado por História, igualmente. Dito isso, fica fácil perceber o objetivo principal da obra: entender a História (ou uma parte da História) da humanidade, entre o final do século XIX e o começo do século XXI, através da modalidade esportiva mais popular do planeta. Essa abordagem, creia, é algo fascinante. É incrível a quantidade de episódios históricos e conflitos, simbólicos ou não, que podem ser percebidos nas partidas de clubes e seleções, afora indicativos, características, contradições e pormenores das sociedades. Não é temerário afirmar que a História do mundo, nos últimos cento e tantos anos, passou pelos estádios de futebol.

É uma obra, portanto, ousada (audaciosa) e, por isso mesmo, aberta a críticas. A primeira dessas, de caráter mais historiográfico, talvez se refira à pretensão do autor de querer tratar de “toda” a História do futebol (e do mundo!) em cerca de 1000 páginas. Aceito o reparo dos colegas historiadores.

A História do futebol vai além, mas muito além destas páginas.

Certamente por “abarcar” mais temas, peco em não aprofundá-los devidamente (embora, digo de coração, minha intenção fosse fazê-lo e busquei atingi-lo dentro do possível). Sem esquecer que vários outros temas ficaram à margem. O profissional da História sabe que, num livro, não é por acaso a escolha de um tema e o “esquecimento” de outros estudiosos.

O Historiador, ao fazer uma pesquisa, traz, consigo, suas perspectivas ideológicas, culturais,
etárias, étnicas, de gênero, etc. O pesquisador escolhe a pesquisa – mas a pesquisa também “escolhe” o pesquisador. Assim, saiba, amigo leitor, a História do futebol vai igualmente bastante além dos temas e abordagens aqui realizados. Este livro é apenas um leve aquecimento para quem deseja, de fato, entrar em campo...

Há ainda o problema das interpretações. A obra não é só minha (por isso, inclusive, uso o chamado “plural da modéstia”). Procurei me apoiar no que havia de mais recente na produção acadêmica (teses, dissertações, monografias, artigos, etc.), tudo devidamente citado para aqueles que desejem aprofundar a leitura e os estudos. São produções dos cursos de História, Sociologia, Educação Física, Comunicação Social e áreas afins de todo o Brasil. Igualmente fiz uma leitura das obras “clássicas”, produzidas por memorialistas, jornalistas, biógrafos, etc. Documentos e fontes, especialmente jornais, estão discriminados ao longo dos capítulos. No final do livro há uma gigantesca lista de referências. Sei que algumas vezes tantas citações congelam a leitura, principalmente numa obra que alimenta pretensões didáticas e gerais. Mas, por honestidade intelectual e respeito ao leitor e aos colegas pesquisadores, não poderia deixar de fazer isso. Espero compreensão.

Assim, novamente, alerto o leitor, mormente aquele que não tem maiores intimidades com as lides historiográficas, que este livro traz uma interpretação, não “a” interpretação. Há muito que a História abandonou a obsessão em encontrar “a verdade”. A História (e suas interpretações) é fruto dos embates atuais e dos desejos futuros, e das contradições entre os vários grupos sociais. Não espere “neutralidade” nestas páginas. Não sou o “portador” da verdade. Nem o quero ser. Possivelmente, muito do que está dito aqui seja passível de contestação ou provoque acalorados debates. Isso é bom. É assim que as ciências humanas avançam. A crítica e o debate são da essência mesma da História.

Mas por qual razão um leitor se interessaria por uma obra que gasta páginas e páginas falando do extracampo e não sobre seu craque favorito ou da conquista memorável? Os livros sobre futebol encerram contradições.

Muitos torcedores estão satisfeitos em compreender as táticas de seus times e os assuntos mais comuns das colunas esportivas dos jornais ou dos programas de rádio e televisão. Por outro lado (por muito tempo), o mundo acadêmico tratou com certo desdém o “esporte das multidões”. Quando não era visto como “ópio” do povo, ignorava-se quase por completo o “espetáculo” da bola em si. O torcedor e o acadêmico pareciam seres de dimensões antagônicas.

Entretanto, cada vez mais estudiosos deixam de ver no futebol uma prática “alienante”. É óbvio, como veremos a seguir, que, sim, distintos regimes políticos, fossem ditatoriais ou democráticos, buscaram utilizar a modalidade na intenção de angariar apoios internos ou exibir prestígio internacional. Mais recentemente, dentro de um intenso processo de mercantilização, o adepto do futebol passou a ser visto apenas como um “consumidor” e o jogo como um lucrativo negócio. Essas perspectivas, entretanto, como normal dentro do dinamismo e diversidade das sociedades, não são absolutas. Se ditadores “usaram” o futebol, este igualmente serviu como estratégias de resistência e de questionamentos aos dominados.

Não poucos jogadores tiveram destacados papéis políticos em seus países, questionando e expondo estruturas sociais autoritárias e viciadas. Clubes expressavam os anseios de povos por liberdades. Em estádios, multidões entoaram “gritos de guerra” contra governantes ou os vaiaram enfaticamente.

Protestos iniciaram-se exatamente quando competições esportivas aconteciam...

“Alienante”, como assim? Cada vez fica mais claro para os pesquisadores da área de humanas que as sociedades e suas peculiaridades e contradições passam (também) pelos estádios de futebol, mundo afora.

Assim, questões de nossa época podem ser pensadas a partir das partidas de futebol, particularmente nas copas do mundo. A criação do próprio Mundial, por Jules Rimet, não pode ser desvinculada dos crescentes sentimentos e tensões nacionalistas que varriam o mundo, especialmente a Europa, nas primeiras décadas do século XX – e que contribuiriam para a eclosão de duas Guerras Mundiais. A seleção italiana, bicampeã em 1934 e 1938, fazia a saudação dos adeptos de Mussolini, como se fosse a materialização de um fascismo de chuteiras. Em nosso País, o futebol foi e é forte componente na formação da identidade nacional – não por acaso, ainda hoje é popular a expressão “Pátria de Chuteiras” e falamos, geralmente, do Brasil jogando, e não da seleção brasileira de futebol, como se a nação fosse a onzena verde e amarela. Tal componente não escapou aos interesses variados de diversos atores sociais e políticos e por vezes teve de lidar com problemas que ainda hoje incomodam a sociedade brasileira, a exemplo do racismo. O goleiro da Seleção de 50, Barbosa, que o diga. E a Alemanha que, de certo modo, se reergueu do Nazismo e da II Guerra ao conquistar o título de 1954? Não se pode desconsiderar a conquista da Taça Jules Rimet para a autoestima de um povo arrasado como aquele. Um raciocínio parecido pode ser feito para a Argentina, que após sofrer uma dolorosa derrota na Guerra das Malvinas, em 1982, acabou sendo campeã do Mundo, em 1986, superando os rivais ingleses, o que levaria à “divinização” de Diego Maradona.

Em suma, este livro fala de Histórias – Histórias de vários povos/sociedades e futebol, buscando evidenciar as intercessões, influências e tensões que apresentam, particularmente nas Copas do Mundo e que, não raro, passam despercebidas por grande parte dos torcedores e analistas. E mesmo que isso não lhe desperte a atenção, posso dizer que o livro trata de futebol e ao mesmo tempo, de alguma coisa de história política. Ou, inversamente, aborda um pouco (não tão pouco) de história política e de futebol.

Reúne duas paixões do autor. Sim, podemos aprender história através do futebol. E, sim, aquele jogo decisivo do campeonato tem muito a informar sobre nossas sociedades.

Os dois volumes da obra somam 23 capítulos, cada um tratando das respectivas Copas em sequência e contando ainda com um tema transversal principal. Assim, na Copa de 1958, abordo o futebol na antiga União Soviética/Stalinismo; na Copa de 1966, falo do futebol em Portugal/Salazarismo; na Copa de 1970, trato da Ditadura Civil-Militar/Tricampeonato mundial brasileiro; e assim por diante. Há quatro capítulos que não tratam de Copas (pelo menos, não diretamente). O primeiro, quando abordo as origens do futebol; o segundo, que trata da chegada do futebol ao Brasil; o sexto, que tem como objetivo os anos 1940, a “década sem Copa”, devido à II Guerra; e o último, que foca nos acontecimentos que antecederam o Mundial brasileiro de 2014.

Embora tenha tentado desenvolver uma linha cronológica tradicional, isso por vezes não foi cumprido rigorosamente, falando-se de “-temas e épocas soltas” onde melhor se encaixassem, dentro do desenrolar das Copas e jogos das seleções. Também recorro muitas vezes a boxes ao longo das páginas, o que, a meu ver, enriquece o livro, pois trata de questões importantes que não teriam como serem abordadas no texto-base.

Por fim, não poderia deixar de falar acerca das ilustrações do livro, feitas pelo talentoso quadrinista Daniel Brandão. Os desenhos de Brandão trouxeram a arte para dentro das páginas, tornando a leitura bem mais agradável. O leitor mais minucioso poderá perceber como os painéis do desenhista são um resumo de cada capítulo. E são desenhos maravilhosos, de grande perfeição e beleza. Diria, usando o jargão do mundo da bola, que Daniel, com muita categoria e astúcia, e fazendo tabelinhas geniais com este autor, entrosou ainda mais o livro para o deleite do leitor.

Espero que o livro atenda as suas expectativas e que o motive a analisar o futebol – e as sociedades – com outras perspectivas.

Sobre o autor:
Airton de Farias é Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e em História pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). É também Mestre em História pela mesma UFC. Exerce a profissão de professor há duas décadas. É escritor, autor de mais de 20 livros, entre os mais conhecidos estão: História do Ceará: da Pré-História ao Governo Cid Gomes e Além das Armas: Guerrilheiros de Esquerda no Ceará Durante a Ditadura Militar. Escreveu também a trilogia dos principais clubes cearenses de futebol: “Ferroviário, Nos Trilhos da Vitória”; “Ceará, Uma História de Paixão e Glória” e “Fortaleza, História, Tradição e Glória”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário