quarta-feira, 16 de julho de 2014

Maracanazo - A história secreta

Se há vitórias e derrotas, há de se ter duas versões para um mesmo fato. A Copa de 1950, para os brasileiros, foi uma tragédia. Mas qual seria então a versão uruguaia para aquela vitória inesquecível. Por incrível que pareça, para Atilio Garrido, autor do livro “Maracanazo – A história secreta: Da euforia ao silêncio de uma nação” (Editora Livros Ilimitados.com) os uruguaios não compreenderam tão bem assim o significado daquela vitória, taxada no próprio país, durante décadas, como fruto da sorte.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo o texto de apresentação da obra, e agradece ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, local onde foi feita a pesquisa sobre a obra. Vale a pena conhecer o acervo em www.dados.museudofutebol.org.br.

Apresentação
Por Atilio Garrido

Que curioso!

Historiadores brasileiros analisam com esforço, paixão e de forma dolorida esse episódio que ocorreu no dia 16 de julho de 1950, no então chamado Estádio Municipal do Rio de Janeiro. O evento foi marcado como indelével na história do futebol mundial com uma palavra: “Maracanazo”!

Pesquisadores deste país fascinante, já escreveram uns vinte livros sobre o assunto, sempre buscando uma explicação, uma justificativa para o acontecido. Cineastas brasileiros também criaram alguns “curtas” sobre o evento, vários deles muito engenhosos como o do torcedor que quer chegar ao estádio para avisar o goleiro Barbosa que Ghiggia fará o inesquecível “gol do século”.

A excelente e abrangente bibliografia que os pesquisadores brasileiros produziram sobre a Copa do Mundo de 1950 tem como foco de estudo apenas e particularmente a última partida, muito devido ao resultado final. O aprofundamento até os mínimos detalhes fica nos 90 minutos do confronto entre Uruguai e Brasil, numa busca das causas que geraram o tremendo contraste esportivo, com atenção em determinadas ações e incidentes do jogo. Assim apareceu o goleiro Barbosa como o grande transformador, o “bode expiatório”, o principal culpado do imenso fracasso. Injusto, na minha opinião. Um episódio casual, típico do futebol, estrelado por Bigode e Obdulio Varela e principalmente Ghiggia, este responsável pela demonização da zaga do scratch, outra atitude também injusta na minha opinião.

Os acontecimentos chocantes que ocorreram na vida das sociedades e dos seres-humanos, e do “Maracanazo”, não têm origem numa única causa. Sempre há, inevitavelmente, uma convergência de fatores, circunstâncias e mesmo a influência do destino ou da sorte, para gerá-los.

Neste caso específico e particular, nenhum dos textos dos qualificados autores brasileiros mencionou, nem por alto, um importante episódio que condicionou qualquer análise prévia do resultado da final. Apenas 72 dias antes de 16 de julho de 1950, o Uruguai venceu o Brasil pelo placar de 4 x 3, em São Paulo, no primeiro jogo da Copa Barão do Rio Branco, um torneio importante nessas décadas, anual, em que as seleções sempre se enfrentavam. “Aquele” Uruguai que se apresentou no Pacaembu se apresentou nas piores condições. Sem treinador, em meio a uma profunda crise causada por uma disputa de poder na Asociación Uruguaya de Fútbol (Associação de Futebol do Uruguai – AFA), com vários jogadores sem condição física necessária e com um novato – Alcides Edgardo Ghiggia, que nunca havia vestido a camisa azul celeste anteriormente de forma oficial. Será que não é válido refletir sobre este episódio que os escritores brasileiros completamente esqueceram? Não era esta uma amostra de que o Brasil não era invencível, muito menos jogando contra o Uruguai? No meu ponto de vista, é surpreendente que nenhum jornal no Rio de Janeiro e de São Paulo, nos dias de véspera do Maracanazo, quando a onda imparável de euforia inicial do “Já Ganhou!” sequer mencionara este episódio, nem para alertar sobre uma interrogação sobre o poder da equipe que iria se opor ao Brasil. Precisamente por esta razão, é que me fica clara a atitude dos historiadores brasileiros de não mencionarem em seus escritos este marco inevitável.

Como fruto de uma pesquisa que realizei sobre o assunto por mais de 15 anos, identifico outros eventos, como o acima citado, que deixam claro que a equipe do Brasil de modo algum poderia ser considerada um “super time”. Que o destino, essa força oculta feita de névoa e sonhos, cuja ordenação dos assuntos humanos são sinalizadas, também não jogou junto com o Brasil. Só assim se explica a fragilização da saúde do todo-poderoso Presidente da CBD, Dr. Rivadavia Correa Meyer, cujas costas, que desde 1943, carregavam todo o peso da responsabilidade de organizar uma Copa do Mundo e da performance da seleção, estando sempre em contato com o técnico Flávio Costa. Sua ausência no episódio causada por sua frágil saúde, sem dúvida, foi outra causa importante para o fracasso. O barco ficou sem capitão e sem rumo...

Finalmente, referindo-se ao futebol brasileiro daquela época, à organização da Copa do Mundo de 1950 e a construção do Estádio Municipal, este livro que você, amigo leitor tem em suas mãos, começa a narrar a “verdade histórica” muito pouco conhecida e difundida sobre a tentativa de transformação do futebol brasileiro, que na época era a terceira força na América do Sul. Como sabemos, num futuro próximo, o Brasil se transformaria na potência quase invencível. Nesse sentido, copiando as práticas fascistas de Benito Mussolini na Itália, Getúlio Vargas investiu grande esforço nesta transformação desde que chegou ao poder como a primeira figura no centro político do Brasil desde 1930.

Presidente Getúlio Vargas, no estádio do Pacaembu.
Deve-se a ele e aos generais tenham depositado no governo e na inteligência suprema do Dr. Osvaldo Aranha e seus irmãos, inclusive um deles foi Presidente da CBD entre 1936 e 1943, e outro Diretor do Vasco da Gama, equipe base da seleção. A partir do governo de Getúlio Vargas, todos os esportes e principalmente o futebol, foram conduzidos pelo Estado. O esporte foi utilizado como veículo de popularização política de Getúlio. Conforme você lerá em maiores detalhes no livro, aqueles políticos que governaram o Brasil a partir dos anos 30 buscaram copiar Mussolini na utilização do esporte para popularização política. Colocaram em ação um plano para tornar a seleção campeã da Copa de 1938 e logo em seguida organizar a Copa do Mundo de 1942. O nascimento do Brasil como uma grande potência futebolística de primeiro nível seria um grande mérito do regime. O destino novamente pregou uma peça. A Segunda Guerra Mundial foi a grande “estraga-prazeres”. Entretanto, quando o fogo dos canhões se apagou, o sonho renasceu. Getúlio não estava no poder, substituído por aqueles que com ele formavam um estreito círculo militar, mas que o traíram, além de outros que chegaram com a ascensão ao poder do Marechal Gaspar Dutra, principalmente o General Angelo de Moraes. A ideia de um Brasil forte nos esportes continuou e a marcha teve sua força redobrada. Neste caso o objetivo estava muito claro. O Brasil como Campeão do Mundo em 1950 se converteria como uma grande bandeira do governo para triunfar nas eleições de outubro deste mesmo ano.

Ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde a história ficou registrada de maneira muito forte, no Uruguai, o Maracanazo apenas contava com dois livros escritos por colegas de grande prestígio, ambos com uma particularidade em comum. Ambas as obras vieram à luz no século XXI, o primeiro em 200 (“Maracaná – Los labirintos del carácter”, de Franklin Morales). O seguinte lançado em 2013 (“Em la cumbra de las hazanas”, de José Eduardo Picerno). O cinquentenário da conquista foi celebrado sem textos que abordassem de forma profunda o episódio. O fato ocorrido naquela tarde de sol carioca foi tratado como uma lenda, um acontecimento milagroso e heroico. A ausência de um rigor “desapaixonado” na investigação dos fatos e que foram publicados ao longo do tempo no Uruguai transformou a realidade em fantasia, e deixou de lado o que era evidente. Arquivaram um feito transcendente, que foi expressamente omitido. Reconhecê-lo significava deixar a trama sem um roteiro guia. Desse modo deram vida à lenda, na tentativa de enterrar definitivamente uma “verdade histórica”.
Qual? Uma única muito simples, a mãe de todas as vitórias futebolísticas do passado, presente e futuro.

Nesse preciso momento, o futebol uruguaio era superior ao brasileiro! Sempre se mantinha nas primeiras colocações das competições internacionais, junto com a Argentina! Em meio a um cenário que tinha a Europa iniciando a reconstrução depois da devastação ocasionada pela Segunda Guerra Mundial, aqui perto, no Rio da Prata, se praticava o melhor futebol no planeta.

Justamente, ao chegar na metade exata do século XX, novamente por obra da mãe natureza, o Uruguai tinha uma quantidade numerosa de jogadores com características notáveis, ainda jovens com uma particularidade difícil de se encontrar...Todos eram atacantes. Essa juventude chegava ao primeiro plano num momento justo, para compor uma mescla perfeita com os veteranos, também grande qualidade, que atuavam na defesa, já com experiência nos campos da América do Sul, competindo em alto nível nos campeonatos sul-americanos.

Por obra da casualidade, o Uruguai gozaria do benefício de contar com a reunião da melhor equipe do mundo, no momento, repetindo o grande acontecimento da década de 20, com invencível geração capitaneada por José Nasazzi. No entanto, este simples valor intrínseco, que se relaciona com o essencial de uma partida de futebol – ser melhor do que o adversário – se ocultou no Uruguai por aqueles que construíram uma narração maravilhosa que confunde e mistura os fatos sob o rótulo de “o feito”.

Claro que conquistar a Copa do Mundo foi um episódio ilustre e heroico, ainda mais nas entranhas do Maracanã, quando absolutamente tudo estava preparado para a grande festa do Brasil regada a lema petulante e antecipado de “Já ganhamos!”.

As circunstâncias em que o Uruguai alcançou o objetivo agrega elementos de enorme valor a esta realização e aumenta o mérito dos “celestes”. Atuando frente a uma multidão de 200 mil espectadores, nunca registrada em nenhum estádio de futebol do planeta e aplicando uma virada após sair em desvantagem no placar. Essas características demonstram que aquele “punhado” de uruguaios estava garrido com um alto grau de valentia, elevada moral, enorme espírito de luta, rebeldia interior para superar os contratempos, além da consciência de que sacrifício era necessário para realizar que “quando aconteceu o gol de Ghiggia, se instalara o silêncio no Maracanã, o silêncio mais retumbante da história”, parafraseando a mais que adequada definição do escritor Eduardo Galeano.

Mas, sejamos sinceros, essas qualidades inerentes à personalidade dos seres humanos não eram patrimônio exclusivo dos orientais. Nem o simples fato de expor essas qualidades dentro de campo de jogo significa a vitória numa partida decisiva. É necessário saber jogar futebol melhor que o rival e contar com uma formação dentro de campo que os valores que formam a capacidade individual do jogador sejam respaldados por uma sólida, vitoriosa e gloriosa trajetória desportiva da camisa que se defende! Neste caso, a “Celeste” também superava amplamente os donos da casa. A seleção uruguaia chegou com uma lista de títulos importantes conquistados em um passado recente. Três títulos de Campeão do Mundo e oito títulos de Campeão Sul-Americano, com a metade deles conquistados na qualidade de visitante. Superava amplamente seu rival neste aspecto. Brasil tinha apenas três títulos de Campeão Sul-Americano, com os três obtidos na qualidade de visitante, sendo que dois deles (1922 e 1949) em condições questionáveis, que desmereciam o mérito das conquistas.

No Uruguai, a imensa maioria qualificou mais a qualidade pessoal e individual dos jogadores, como feitos individuais, ao invés de agregar a essa crítica um olhar também voltado para o valor do time, do conjunto, que foi o maior componente para a equipe conseguir uma vitória épica. O Uruguai apresentou ao Maracanã a melhor equipe de futebol do mundo naquele momento. Grande, genial, com um grupo de jogadores notáveis, que conseguiram conquistar a Copa mesmo com vários erros de organização cometidos pela AFU (Asociación Uruguaya de Fútbol). Muitos criticaram a vitória uruguaia, cometendo o pecado de depreciar a realidade desportiva em que o país vivia.

Sem precisar ir mais longe, nesse mesmo momento da Copa do Mundo de 1950 e na própria terra onde se colocava em jogo o troféu chamado Jules Rimet, o esporte uruguaio impôs uma grande superioridade frente ao Brasil, em diversas modalidades. O atleta uruguaio Oscar Moreira ganhou no Rio de Janeiro a tradicional “Corrida das Fogueiras”, sobre 8.800 participantes. O mesmo atleta disputou sete dias depois também na cidade carioca, e ganhou a prova “Rocha Miranda”, de sete quilômetros com 2 mil atletas participantes. Muito premiado na América, em 1947 foi o primeiro estrangeiro a ganhar a famosa “Corrida de São Silvestre” em São Paulo.

Oito dias antes do Maracanazo, o uruguaio José Gómez Tacconi conquistou a prova internacional de ciclismo chamada “9 de julho”, em São Paulo. Participaram 630 ciclistas que também não foram páreos para a equipe celeste, que também nesta categoria (equipe) obteve triunfo. Fizeram parte da equipe: Roberto Piotto, Luis Ángel de los Santos, Virgilio Pereyra e Sergio Frausin. Estes ciclistas pertenceram ao núcleo dos principais ciclistas do mundo naquela época. Outro também, Atilio François alcançou em 1947, em Paris, a consagração ao sagrar-se vice-campeão mundial nas provas de “perseguição individual”. Esta conquista se agregou a uma década de protagonismo indiscutível, com o título de Campeão Pan-Americano e ganhado das Mil Milhas Argentinas. Em Londres, no ano de 1948, Leonel Rocca perdeu a medalha de bronze, ficando em quarto lugar na categoria velocidade pura, enquanto o quarteto de velocidade (perseguição individual) com o mesmo Atilio François, Juan de Armas, Luis A. de los Santos e Waldemar Bernastzky não alcançou o bronze por pouco, contra a Grã Bretanha, ficando em quarto lugar na prova, a França ganhou ouro e Itália, a prata.

O Maracanazo não foi um acontecimento desportivo isolado para aquele Uruguai pujante e democrático, que contava com os menores índices de pobreza de todo o continente. Com certeza não foi um fato isolado. Não foi um oásis de triunfo em meio a um deserto de fracassos desportivos. Aquele futebol uruguaio montado em cima de glória, foi uma expressão mais de um país que pensava e agia grande. Somente assim conseguimos entender a trajetória do tacuaremboense (quem nasce em Tacuarembó, interior do Uruguai) Juan Jacinto López testa, no Torneio Internacional da Argentina de 1947. Nessa ocasião igualou o recorde mundial dos 100 metros rasos c om 10’2/10, com a mesma marca estabelecida pelo norte-americano Jesse Owens, em 1936. Apesar de não ter sido homologado, no ano seguinte, nos Jogos Olímpicos de Londres. “El Gamo” – como o chamavam – chegou às semifinais com uma marca de 10’4/10, somente um décimo e segundo a mais que o norte-americano Harrisson Dillard, ganhador do ouro. Nesses mesmos jogos, Hércules Ascune, com um salto de 1,90 metros, ficou a 8 centímetros da medalha de ouro.

Ainda nos jogos londrinos, o remador Eduardo Risso “voou” sobre as águas do Rio Tamisa para voltar para casa com a medalha de prata no individual. A dupla formada por Juan Antonio Rodriguez e William Jones conquistaram o bronze no duplo sem timoneiro.

No basquete, naquele tempo o Uruguai também liderava na América do Sul. Numa equipe que também tinha seu “Obdulio”, personificado pela imponente figura de Roberto Lovera.
Alcançou o que hoje seria um sonho. Quinta colocação em Londres, 1948, depois de vencer o dono da casa (Grã Bretanha) por 69 a 17; a Itália por 46 a 34 e a Hungria por 49 a 31. Caindo por dois pontos frente ao Brasil, que ficou com o terceiro lugar. Com esta mesma equipe mais alguns jovens, quatro anos mais tarde, nos jogos de Helsinki, conseguiu uma grande conquista, o bronze, ficando atrás somente de Estados Unidos e União Soviética. Nos jogos de 1956 em Melbourne, conseguiu a consagração de Oscar Moglia, como maior pontuador dos jogos. Neste período, o basquetebol uruguaio alcançou o título de Campeão Sul-Americano em quatro ocasiões.

Prof. Lincoln Maiztegui Casas
Na minha opinião, a melhor reflexão sobre o Maracanazo foi feita pelo Prof. Lincoln Maiztegui Casas, no livro “Orientales” (Uma história política del Uruguay, tomo 3). Não cometo equívocos se afirmo que a tarefa de investigação que realizei e hoje publico neste livro, se apoia no pensamento do proeminente pensador.

“Sua conversão em lenda épica terminou se convertendo em um fato culturalmente negativo. Entendeu-se entre os jovens que o Uruguai venceu a partida porque os uruguaios são mais valentes, mais másculos, mais vivos que os demais, que os outros se encolhem nos momentos decisivos enquanto os uruguaios se engrandecem. Desta forma, se transforma o mais esplendoroso dos êxitos desportivo em um acontecimento xenofóbico e autocomplacente. Daí, entre muitos outros vícios, a tendência a esperar sempre um milagre; os outros trabalham, aprendem, se sacrificam, enquanto nós confiamos no improviso e na abundância de testosterona dos nossos jogadores. Mesmo a inundação de derrotas sofridas ao longo de décadas, a notória decadência do futebol praticado no país, ou na imagem de péssimos desportistas que essa política nos há gerado internacionalmente, tem sido bastante para espalhar essa mitologia absurda (...) Por um lado, nos lembra o que fomos, o que ouvimos conquistar, conforme dizia a canção. Por outro lado, nos castiga com a evidência de que já não somos o que desejamos, que permitimos cair o que tínhamos no bolso quando nos furaram as calças. Por isso tem o sabor agridoce das memórias queridas, que iluminam a alma e a espremem ao expressá-las em lágrimas. Maracanã é ainda mais doloroso do que a consciência da juventude perdida, porque o murchar desta flor é inevitável, enquanto a outra – laurel de um dia – marca nossa falha de caráter ardente e nossa estupidez. Significa  então muito mais que uma partida de futebol (embora só signifique isso mesmo); significa o fio gelado da ponta de um punhal de prata cravado no coração, uma corrente de água clara que um dia se transformou em sangue, uma bússola invertida. Uma lição tremenda da história, de forma definitiva. Por isso é sempre gratificante reviver aquele plácido dia de inverno, como as tarde encantadas que evocamos da época da infância.

O Uruguai venceu aquela memorável final porque tinha um time magnífico, sem dúvida. E claro, sorte também ajuda. Mas porque especialmente seus jogadores expressavam a mentalidade de um país otimista e confiante em suas próprias possibilidades, que ainda acreditava no valor do trabalho e do esforço pessoal. Um país que era conhecido na América e estava orgulhoso desta excepcionalidade, antes de um suicídio pan-americanista suicida que foi criando uma ideia de que era melhor parecermos com uma republiqueta sul-americana da França. Não se conhece melhor forma de se conseguir algo que não seja se cometer. Alguém pensará que se o chute de Ghiggia tivesse batido na trave ao invés de entrar, não estaríamos dizendo isto. Maracanã foi a mais esplendorosa das conquistas desportivas, mas não a única.

(...)

Este nível alcançava todos os planos de uma sociedade pobre, cheia de problemas não resolvidos, mas integrados e cheios de fé em que se podia construir um futuro melhor. Um dia qualquer de um ano qualquer, erramos o caminho. O culto ao esforço se converteu em “esperteza”, a garra entendida como meio de transpor adversidades se transformou em malandragem, e começamos a admirar a ditadura cubana ante ao parlamentarismo britânico. E fomos para o diabo. Todo o resto veio junto e foi além. Por isso Maracanã resulta hoje numa memória ambígua, que nos orgulha e nos machucamos igualmente. Ainda que aquele chute do Ghiggia não tivesse entrado, teríamos razões para confiar em nós mesmos e no nosso futuro”.

Esta obra que você, amigo leitor, começa a ler é fruto de quinze anos de investigações, entrevistas e pesquisas documentais que respaldam tudo que por aqui expresso. Por isso, na minha opinião, constitui-se uma cronologia dos fatos ocorridos antes e durante a Copa do Mundo de 1950, que se mostram tal como são. Com suas luzes, sombras e contrastes. Como resultado de sua leitura e análise, serão absolvidos de culpa os jogadores do Brasil, especialmente Barbosa e Bigode, tão injustamente condenados.

Mesmo assim, se a experiência é a somados erros cometidos, o meu principal desejo é que este livro contribua para que a atual seleção do Brasil, seus dirigentes, técnicos e jogadores, tirem conclusões positivas para não repetirem os erros que em 1950 causaram o fracasso. Meu desejo é de coração porque este grande país que é o Brasil me presenteou com um irmão espiritual. Este é Kleber Leite, um ser humano excepcional, a quem dedico este livro com toda a emoção e com a esperança de que o próximo 13 de julho de 2014, no mesmo Maracanã, nos confundamos num apertado abraço, festejando o título de Brasil Campeão do Mundo. O mesmo que foi negado 64 anos atrás...

Sobre Atilio Garrido:
Nascido em 22 de novembro de 1949, o jornalista uruguaio, ainda jovem se tornou obcecado por um fato que teve consequências marcantes na história, ocorrido quase um ano após seu nascimento, o “Maracanazo”. Sua extensa carreira no jornalismo esportivo no Uruguai e no exterior teve início em 1968, quando começou a trabalhar na seção de esportes do jornal “El Debate”, de Montevidéu. Desde então se dedicou com afinco durante anos ao estudo profundo da história do futebol uruguaio e mundial. Até 2012 já publicara mais de 12 livros em sua terra natal. Um trabalho sempre pautado pela credibilidade, pois não poupa esforços e dedicação em suas pesquisas. O resultado são obras que brilhantemente abordam os fatos com profundidade e uma proposta investigativa única.

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