quarta-feira, 2 de julho de 2014

Glória Roubada - O outro lado das Copas

Um livro absolutamente espetacular foi muito pouco mencionado neste período de vários lançamentos sobre o tema Copa do Mundo. Do ponto de vista da pesquisa histórica e, principalmente, pela narrativa dada aos fatos, “Glória Roubada – O outro lado das Copas” (Editora Figurati), do jornalista Edgardo Martolio, vai se tornar, sem medo de errar, em um documento histórico, mesmo depois do término do Mundial.

Na capa, como reforço ao título, entende-se o foco da obra: “Loucos e ditadores que mudaram a história. A intervenção militar nos Mundiais de futebol.” Para nós, brasileiros, que em 2014, além de recebermos novamente uma edição da Copa do Mundo, temos a efeméride dos 50 anos do golpe de 1964 e o início do nefasto período da ditadura militar, o livro se torna ainda mais importante.

Vale lembrar que os textos publicados no livro foram originalmente escritos para a publicação brasileira da prestigiada revista Rolling Stone.

Introdução
Bola Dividida: Copas e Botas
Por Edgardo Martolio

Júlio César, ditador romano.
A palavra ditadura define um regime de governo autoritário no qual todos os poderes do Estado (Legislativo, Executivo e Judiciário) se concentram num único indivíduo, ou num só grupo ideológico ou num despótico partido político. O ditador não é, necessariamente, fruto de um golpe militar que chega ao controle da nação derrocando um governo democrático. Em muitos casos, esse tirano ascende ao poder eleito pela população e, com o tempo, tenta se eternizar. O tirano não tolera oposição política a seus atos e ideias, e transforma sua autoridade em absoluta, suprema e irrevogável. Portanto, uma ditadura é um regime antidemocrático onde não existe a participação nem a voz do povo. A maioria dos ditadores atua demagogicamente e, no último século, tem usado o esporte, principalmente o futebol, para se congraçar com seus súditos.

Proveniente do latim “dictador”, o termo ditador teve origem em 501 a.C. como um cargo político na República Romana. Era preenchido unicamente em condições excepcionais de crise militar ou econômica. Considerado uma magistratura extraordinária, fora do “cursus honorum” – curso honorífico ou caminho das honras –, dependia da eleição dos cônsules romanos que só podiam escolher o “dictador” se autorizados por um “senatus consultum” (Decreto Final do Senado). Nenhum deles podia se perpetuar no poder, já que seu prazo máximo de validade era de um semestre – tempo que duravam as guerras na Antiguidade. E o mais importante: seu conceito era parte da estrutura democrática e do espírito romanos e, como definem os dicionários, não deve ser relacionado aos nefastos ditadores modernos.

Assim, as ditaduras não são uma invenção recente. A estreia aconteceu no século VII antes de Cristo, na Grécia Antiga, com o ateniense Drácon. Sua severidade ao punir crimes deu origem ao termo draconiano, que ainda hoje é utilizado para definir situações de extremo rigor. O registro continua em Atenas, no breve período dos Trinta Tiranos (entre 404-403 a.C.), e na Roma Antiga com Sula (81-79 a.C.), Júlio César (46-44 a.C.) e Cômodo (180-192 d.C.). Segundo a História, a ditadura seguinte ao nascimento de Cristo acontece no Império Bizantino, quando Justiniano assume o poder entre 527 e 565. Até mesmo a França, símbolo da democracia atualmente, registrou períodos absolutistas: o de 1799, que vai até 1804, com a coroação de Napoleão Bonaparte, só termina em 1814, com sua renúncia.

Já no Novo Mundo, o primeiro antecedente de um governo despótico surge no México em 1853-1855 – com a ditadura de Santa Anna. O país repete a experiência em 1876, com a revolução de Tuxtepece e continua com Porfírio Diaz até alcançar o privilégio de ingressar no século XX em tais condições: o regime finalmente cai em 1910 com a Revolução Mexicana de Emiliano Zapata. A caribenha República Dominicana viveu uma ditadura de uma década, a partir de 1889 – ano em que, curiosamente, nascia a Primeira República no Brasil, hoje conhecida como República Velha, que durou até 1930, quando, por coincidência, disputou-se o primeiro Mundial. De lá para cá, a lista de ditadores que acompanha o maior torneio global de futebol atinge uma centena. A Oceania foi o único continente que não teve governos tirânicos nesse período.

Foram 19 Copas do Mundo até os nossos dias; a do Brasil em 2014 será a vigésima. É possível contar seus campeões nos dedos das mãos, foram apenas oito: cinco repúblicas europeias e três sul-americanas.

Jules Rimet
Os Mundiais nasceram em 1930 porque o francês Jules Rimet, então presidente da Fifa (Fédération Internationale de Football Association), não se conformou com a decisão do Comitê Olímpico Internacional de excluir o futebol dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1932. Assim, criou seu próprio torneio, cuja primeira edição foi disputada no Uruguai, então último campeão olímpico de futebol – aliás, “bi”: 1924 e 1928.

A primeira nação submetida a uma regência totalitária a vencer uma “Coupe du Monde” – como o troféu se chamou originalmente – foi a Itália, em 1934, na sua própria casa, repetindo o feito em 1938, na França. Na época, Benito Mussolini dava as ordens na “bota” peninsular e também nos gramados: foi sob as suas ordens (mesmo) que a Seleção “Azurra” ganhou o Mundial. O segundo país a se consagrar sob um regime ditatorial foi o Brasil, em 1970, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. E o terceiro e último campeão com uniforme castrense foi a Argentina, em 1978, momento em que a Junta formada pelos militares Videla (Exército), Massera (Marinha) e Agosti (Aeronáutica) “reorganizava” o país. Para entender melhor isso tudo e cada ciclo, o leitor encontrará, a longo desta obra, de modo cronológico e ordenado por décadas, todos os torneios ecumênicos de futebol e todas as ditaduras vigentes no mapa-múndi.

Abaixo, Literatura na Arquibancada destaca o capítulo, ou melhor, a primeira “contrapartida”, como define editorialmente o autor ao longo da obra o conteúdo que antecede os “capítulos”, propriamente ditos.

Carol II, Rei da Romênia...
...e sua ajuda aos “craques do petróleo” na Copa de 1930

Seleção da Romênia, Copa 1930 (foto: Getty Images)
O time da Romênia, que disputou por convite a primeira Copa do Mundo da história, realizada em 1930, não era precisamente um selecionado nacional. Não apenas porque o futebol do país era jovem quando comparado ao de outras nações – para se ter uma ideia, somente a partir da temporada de 1921/1922 aconteceu um precário torneio nacional. Ainda assim, regiões como a de Cernauti – atualmente na Ucrânia – e Chisinau – hoje na Moldávia – não foram incluídas. Pasmem: a Seleção romena era formada por operários da petroleira britânica Anglo-Persian Oil Company, atual BP. Por que eles? É uma longa história. Mas conviver com os ingleses e conhecer as regras do futebol – além de praticá-lo com os chefes britânicos – estavam entre os motivos da escolha.

O problema é que a empresa não estava disposta a ceder seus trabalhadores por três meses – período necessário para viagens e torneio. Mas o rei Carol II – primeiro monarca romeno nascido em território próprio e fã de futebol desde o dia que viu a primeira bola rolar na Escócia – se envolveu pessoalmente no assunto e confirmou a presença da Seleção em Montevidéu junto à FIFA. Carol II solicitou a intervenção de seu colega George V, Rei do Reino Unido, da Comunidade Britânica e Imperador da Índia, para que pressionasse a petroleira a emprestar uma dúzia e meia de seus homens na condição de “férias extraordinárias”: o reino romeno pagaria seus salários. No fim das contas, viajaram apenas 15 futebolistas, o treinador, um assistente e o presidente da Federação.

Rei Carol II
Carol Caraiman de Hohenzollern-Sigmaringen, com 37 anos na época, quarto rei da Romênia, era o filho mais velho de Fernando I e Maria de Edimburgo, o que explica sua paixão pelo futebol. Seu sangue meio escocês e suas passagens pela capital desse território calvinista da Grã-Bretanha o tinham impregnado com a nova paixão mundial. Além disso, até dias antes de ser coroado, ele viveu em Londres, no exílio, e todo final de semana assistia a jogos de futebol, única coisa que o distraía de suas amantes: a fama de playboy o levou várias vezes à capa dos tabloides ingleses.

A decisão de participar da Copa do Mundo foi a primeira que tomou como rei: em 8 de junho de 1930, a um mês e cinco dias do primeiro jogo. Em 1953, antes de morrer no exílio em Estoril, Portugal, disse que sua grande frustração foi não ter viajado ao Uruguai: “só não fui porque estava assumindo o trono; um ano depois eu mesmo teria encabeçado a delegação e também teríamos participado com um time mais competitivo”. Nesse primeiro Mundial, com sua seleção de operários petrolíferos, a Romênia se apresentou duas vezes: na estreia derrotou o Peru por 3 x 1 e, uma semana mais tarde, foi eliminada pelo anfitrião e posterior campeão, o Uruguai, por um acachapante placar de 4 x 0, todos os gols registrados no primeiro tempo, em apenas 35 minutos.

O Rei Carol II conhecia bem os jogadores romenos que trabalhavam para a petroleira britânica porque, conforme mencionado, morava em Londres. Por isso, ninguém se surpreendeu com o fato de ele mesmo entregar a lista de convocados para o presidente da Federação, o ex-jogador Constantin “Costel” Radulescu, e também dar os nomes da equipe titular ao jovem treinador Octav Luchide, também escolhido por sua alteza, que mais era um preparador físico do que um técnico. Esse time ficou conhecido na Romênia como “os operários do Rei”.

No dia 19 de junho, a delegação romena embarcou em Gênova, Itália, no navio Conte Verde. Logo, em Villefranche-sur-Mer, no mesmo barco, subiu a equipe da França e o presidente da FIFA, Jules Rimet, que carregava a estatueta dourada da Copa do Mundo. Já na escala de Barcelona, embarcou a Seleção da Bélgica. No dia 28 de junho, na penúltima parada, no Rio de Janeiro, completou-se a passagem com o time do Brasil, com exceção de Arakem Patuska, que embarcou no porto santista. Filho do presidente fundador do Santos FC, Patuska foi o único paulista a reforçar a seleção carioca que representaria o país. Finalmente, em 2 de julho, o Conte Verde aportou no cais de Montevidéu, apenas 14 dias após a sua partida. Das quatro participantes europeias, somente a Seleção da Iugoslávia viajou separadamente, no vapor Florida, um barco mais lento. As equipes europeias treinavam no convés do navio, quando o mar o permitia. “Eu teria treinado com eles”, disse o entusiasmado Carol II.

Os nomes e as idades dos operários do petróleo: Samuel Zauber, o mais veterano, 29 anos, e Ion Lãpusneanu, 21, goleiros; Adalbert Steiner, 23 anos, Rudolf Buerger, 21, Emerich Vogl, 25, e Iosif Czako, 23, os zagueiros; Ladislau Raffinsky, 25 anos, Alfred Eisenbeisser, 22 e Corneliu Robe, 22, os meias; e Nicolae Kovács, 18 anos, o caçula, Rudolf Wetzer, 29, Stefan Barbu, 22, Adalbert Desu, 21, Constantin Stanciu, 20, e Illie Subaseanu, 24, os atacantes.

Sobre o autor:
Edgardo Martolio é jornalista e editor. Nasceu em 1950, em Sastre – Santa Fé, Argentina. Abandonou os estudos de Direito na Universidad Nacional del Litoral para iniciar-se no jornalismo de rádio e de televisão na cidade de Rosário (LT3/LT2/LT8 e Canal 5), onde encontrou sua vocação nas letras esportivas no semanário Deporte 70 e no Diario Hoy. Também foi redator criativo da agência Integral Publicidad. Já em Buenos Aires, atuou em diversas emissoras como Libertad, Del Plata, El Mundo e Splendid, na agência noticiosa NA e no jornal Crónica, até deixar o universo do esporte dirigir uma dúzia de revistas, como Playboy e La Semana (atual Notícias). Por fim, foi diretor associado do prestigioso Diario Perfil – em sua primeira etapa. No início da ditadura militar argentina (1978), converteu-se no primeiro correspondente, na Europa, da portenha Editorial Perfil; também morou no Caribe, Estados Unidos e África. Vive atualmente no Brasil, onde é CEO da editora CARAS desde sua fundação em 1993. Estudou filosofia e letras e realizou o curso FIFA de treinador, para jornalistas e ex-jogadores profissionais de futebol.
Edgardo Martolio, em língua espanhola, é coautor de Historia del Tango (1974) e de Gardel-Gardes (1975), além das publicações Nuestro Ascenso (1974), SóloFútbol (1985), SuperFútbol (1986) e Magazine Deportivo (1991).
Em português, escreveu a trilogia olímpica Citius, Altius, Fortius (2004), maior obra mundial a respeito dos Jogos, Brasil Penta (2002), vencedor do Top of Business nacional, O Brasil no Tapete Vermelho e Carnaval Carioca – 100 anos, entre outros trabalhos que lhe renderam dois Prêmios Abril de Jornalismo (Tom Jobim, 1994, e Pantanal, 1995). Entre outras trinta honras, recebeu o prêmio Homem do Ano 2006, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo; em 2007, a medalha de ouro da Société Académique d’Education et d’Encouragement d’Arts, Sciences et Lettres da França e, em 2008, ganhou o Troféu Raça Negra da Afrobras.
Fez a cobertura de eventos tão diversos como a assunção do Papa João Paulo I, Miss Mundo, a guerra do Ulster, a tragédia ambiental de Seveso, Fórmula 1, bodas da realeza, Jogos Olímpícos e Mundiais.

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