segunda-feira, 21 de julho de 2014

Béla Guttmann: Uma lenda do Futebol

Em tempos que o torcedor clama por mudanças táticas, técnicas e estruturais no futebol brasileiro, e em especial, na seleção brasileira, a leitura da biografia sobre um dos técnicos mais famosos no mundo da bola torna-se obrigatória. Não só pelo momento, mas pela qualidade, Béla Guttmann – Uma lenda do futebol do século XX (Editora Estação Liberdade) escrita pelo jornalista e professor Detlev Claussen (com tradução de Daniel Martineschen e Alexandre Fernandez Vaz), é livro que pode nos ajudar a refletir o atual atraso na mentalidade dos nossos treinadores.

E pensar que Béla Guttmann tornou-se celebre logo após treinar um time brasileiro, o São Paulo FC, no ano de 1957. Sim, isso mesmo, um estrangeiro dirigindo um clube pra lá de tradicional do futebol brasileiro. E ao melhor estilo Telê, Guttmann impôs logo de cara a contratação de um jogador que encarnasse o tal “futebol-arte”. E foi buscar um veterano, Zizinho, "Mestre Ziza", na época, com 35 anos, era o modelo e ídolo de Pelé.

Béla Guttmann justifica como ninguém o subtítulo de sua biografia: uma verdadeira lenda do futebol mundial.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo a sinopse e o prefácio do livro, e agradece ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, local onde foi feita a pesquisa sobre a obra. Vale a pena conhecer o acervo em www.dados.museudofutebol.org.br.

Sinopse (da Editora):

Quem ama o futebol também ama as lembranças de grandes jogos e grandes jogadores. Os melhores do pós-guerra — Puskás, Di Stéfano, Eusébio, Pelé — cruzaram o caminho de um homem que marcou o moderno futebol ofensivo mais do que qualquer outro: Béla Guttmann, húngaro judeu, ex-jogador, treinador de sucesso planetário, mitificado sobretudo depois de arrebatar por duas vezes a Liga dos Campeões da Europa no comando do Benfica, de Lisboa — tendo derrubado, para tal, nada menos que a poderosíssima dupla espanhola, Barcelona e Real Madrid.

Mas se é amado até hoje dentro da comunidade benfiquista por tais façanhas, Béla Guttmann é, paradoxalmente, odiado em igual medida. Pudera: depois da conquista frente ao Real, em 1962, o húngaro se desentendeu com a direção do clube lisboeta e não renovou o contrato, debandando de lá não sem antes anunciar uma maldição aparentemente profética: a de que o Benfica não voltaria a vencer uma competição continental pelos próximos cem anos. Escreve Claussen que alguns torcedores do time, “antes da final da Liga dos Campeões contra o Milan em 1990, teriam ido ao cemitério de Viena e de lá teriam trazido um naco de grama do túmulo de Guttmann, para quebrar a maré de derrotas nas finais europeias”. Não deu certo: o Benfica perdeu a decisão, assim como ocorreu em todas as outras vezes em que fora finalista nas eras pós-Guttmann: em 1963, também contra o Milan; em 1965, contra a Inter de Milão; em 1968, contra o Manchester United; bem como nas finais da Liga Europa, a antiga Copa da Uefa, contra o Anderlecht, em 1983, e o Chelsea, em 2013. E em maio deste ano, o fantasma de Guttmann voltou a assombrar, quando o Benfica caiu em nova decisão continental, a da Liga Europa, desta vez frente aos espanhóis do Sevilha.

De temperamento forte, Béla Guttmann foi uma espécie de José Mourinho de seu tempo. Tanto pela capacidade superior de “ler” o futebol em suas variantes técnica, tática e física, quanto pelas recorrentes polêmicas em que se envolvia. Apesar de ter sido um jogador de algum talento, foi como treinador que se destacou, num tempo de transição do futebol, entre o amadorismo e o profissionalismo. Austero, Guttmann jamais se submeteu a dirigentes ou a jogadores-estrela, o que, com frequência, o fazia debandar — ou ser debandado — dos clubes que dirigia.

Antecipando o movimento de globalização no futebol que se acirraria mais marcadamente a partir dos anos 1990, Guttmann foi um andarilho no mundo da bola. Além da Hungria, atuou em países como Holanda, Áustria, Itália, Estados Unidos, Argentina e Portugal. E teve ligações profundas também com o futebol brasileiro: em 1957, aceitou o convite para treinar o São Paulo Futebol Clube, com o qual se sagrou campeão paulista. Mais do que isso, o estilo tático de Guttmann, com o inovador e ultraofensivo esquema 4-2-4, influenciou de forma certeira na maneira de jogar da própria seleção brasileira comandada por Vicente Feola que, no ano seguinte, levantaria seu primeiro título mundial.

Béla Guttmann — o livro — não é uma biografia convencional, ou é bem mais do que uma biografia. Com o personagem tendo nascido no último ano do século XIX, sua trajetória acaba naturalmente personificando o próprio desenvolvimento do futebol no século posterior, em diversos aspectos: o sionismo/antissemitismo que envolviam os boleiros de origem judaica; a rápida massificação do futebol após seu nascimento em berço esplêndido; a evolução das regras e dos esquemas táticos; o crescimento da importância de competições como a Taça dos Campeões Europeus — a atual e badaladíssima Uefa Champions League/Liga dos Campeões da Europa —, bem como a morte de outros torneios históricos, como a Mitropacup. O livro repassa ainda curiosidades pouco conhecidas mesmo por estudiosos do esporte, como o boom do soccer nos Estados Unidos de meados dos anos 1920, quando uma primeira onda de jogadores-imigrantes visualizavam no mercado ianque o eldorado da bola, tal como hoje seria a Inglaterra ou a Espanha.

Assim, num tempo em que a biografia virou gênero maldito no Brasil, Béla Guttmann — Uma lenda do futebol do século XX é, desde já, uma referência de como o registro de histórias de vida pode ir muito além das mesquinharias e indiscrições de cunho privado, ao compor numa mesma geleia geral informações preciosas de época, sobre questões ao mesmo tempo esportivas, sociais, políticas, étnicas, religiosas. Detlev Claussen escreveu um capítulo especial da história da cultura e do esporte. Ele fala sobre amadores e profissionais, húngaros e vienenses, judeus e católicos, argentinos e brasileiros, heróis e patifes — e de partidas inesquecíveis.

Prefácio
Por Detlev Claussen

Lacrados sob uma imponente lápide de mármore vermelho jazem os restos mortais de Béla Guttmann, na ala judaica do Cemitério Central de Viena. Apenas as datas de nascimento e morte – 27 de janeiro de 1899 e 28 de agosto de 1981 – estão registradas sobre a pedra. Uma discreta inscrição em hebraico revela seu prenome judeu, Baruch. Não se encontra nenhuma indicação de sua esposa, Marianne, que o acompanhou ao redor do mundo. Não tiveram filhos. Depois da morte da esposa, em 1997, o espólio de Guttmann vagou por antiquários de Viena, até chegar em 2001 a Kassel, na Alemanha, adquirido por um leiloeiro especializado em esportes. Antes que as peças se dispersassem pelo mundo, surgiu um catálogo com uma tentativa biográfica, Die Trainerlegende – Auf den Spuren Béla Guttmanns (O legendário treinador – Nos rastros de Béla Guttmann), assinado por R. Keifu, pseudônimo sob o qual se ocultou o renomado historiador do esporte e expert em futebol Hardy Grüne. Guttmann permanece sendo até hoje uma figura cercada de lendas e mistérios. Ainda em vida, no topo de sua carreira de treinador de clubes, viu surgir Béla Guttmann Story, escrito pelo pedagogo do futebol e depois professor escolar Jenö Csaknády. O livro promete, em seu subtítulo, uma história “dos bastidores do mundo do futebol”. De fato, em 1964, quando o texto foi publicado, mal se podia desconfiar dos acontecimentos mundiais que fariam um Guttmann circular pelo globo.

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Mas quem pensa em futebol ao visitar um cemitério? Em um cemitério judeu se tenta, antes de tudo, ler os números e combiná-los com os lugares onde cada pessoa nasceu e morreu. Budapeste não aparece naquela pedra em Viena. Depois de Béla Guttmann Story espera-se ainda uma história judaica da K.u.k (Kaiser-und Königreich: abreviação do Império Austro-Húngaro) que, a se considerar as contribuições do biógrafo Csaknády e do biografado Guttmann, não cabia em um livro alemão sobre futebol publicado em meados dos anos 1960. Pois por baixo das histórias de judeus da Europa Central sempre fica à espreita o passado nacional-socialista e suas consequências: emigração, fuga e morte violenta. O irmão de Béla Guttmann, que jogava futebol com ele durante a Primeira Guerra Mundial, morreu em 1945 em um campo de concentração alemão. Sobre a sobrevivência de Guttmann durante o período nazista as fontes não são, no entanto, muito eloquentes. História do futebol também não é somente algo secundário e bonito, mas sim parte da história mundial, que não pôde deixar de ser afetada por esse esporte. A história de Béla Buttmann só pode ser narrada quando se tem a história do século XX em vista e quando se está pronto para revisitar, mesmo que brevemente, a história mundial do futebol.

No futebol conta o aqui e o agora, o momento jogado, que por sua vez é relativizado pela conhecida sabedoria futebolística: “O jogo dura noventa minutos”. No cemitério o jogo já terminou, não há prorrogação. O túmulo também sepulta embaixo de si incontáveis histórias de futebol, lendas e mitos. Dificilmente será verdade, portanto, o que os torcedores do Benfica – equipe em que Guttmann alcançou seu maior êxito como treinador no início dos anos 1960 – gostam de contar ainda hoje em Lisboa: alguns deles, antes da final da Liga dos Campeões da Uefa, a antiga Taça dos Campeões Europeus, contra o Milan em 1990, teriam ido ao cemitério de Viena e de lá teriam trazido um naco de grama do túmulo de Guttmann, para quebrar a maré de derrotas nas finais europeias. Mas isso não podia dar certo, pois um pedaço de terra plantada não poderia ter soltado esse túmulo em pedra, e não se deveria esperar nem mesmo sabedorias futebolísticas dela. Triunfos como o bicampeonato europeu de 1961/1962 com o time outsider do Benfica ninguém nunca mais conseguiu. 

Em 2 de maio de 1962, no estádio Olímpico de Amsterdã, o Benfica acabou com a era Real Madrid naquele que foi um jogo daqueles que se veem a cada cem anos. Com estrelas mundiais do quilate de Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás, o Real vencera nos anos 1950 cinco finais da Liga dos Campeões da Europa (entre elas a de 1960 em Glasgow contra o Eintracht Frankfurt, por um placar de 7 a 3). O Benfica, por sua vez, venceu o Real por 5 a 3. Depois do interregno europeu de dois anos do Benfica, um outro futebol se consolidou. Começava a soberania das equipes milanesas – a Internazionale, do grande Sandro Mazzola, e o Milan, sob a batuta do sensível esteta do futebol Gianni Rivera. O nome de Helenio Herrera se inscreve como o de outro treinador de destaque nos anais do futebol europeu: seu jogo defensivo triunfava e o esquema retranqueiro conhecido como Catenaccio tornou-se um conceito assustador. Guttmann, por outro lado, no início daquela década tinha desenvolvido com seus outsiders lisboetas um estilo ofensivo arrebatador, com o qual o Benfica, um ano antes da partida dos sonhos em Amsterdã contra o Real, já havia surpreendido em Berna o então favorito absoluto Barcelona. Os até então desconhecidos portugueses derrubaram estrelas como Suarez, Kocsis e Kubala por 3 a 2. O mundo do futebol estava de cabeça para baixo.

O futebol do Benfica parecia então ser de outro mundo. Mas ele não veio de tão longe assim: em 1958 o Brasil tinha vencido pela primeira vez uma Copa do Mundo, na Suécia, com um sistema ofensivo, 4-2-4, varrendo na final os donos da casa por 5 a 2. Foi a estreia internacional de uma jovem estrela que atendia pelo nome de Pelé. Mas de onde os brasileiros tinham tirado isso? Depois do fracasso na Copa de 1950, disputada em casa, e na de 1954, na Suíça – quando levaram uma verdadeira surra futebolística da Hungria –, multiplicaram-se pelo Brasil as críticas sobre o futebol que vinha sendo praticado pela seleção. O Brasil se mostrou aberto a Know-how estrangeiro, e havia até mesmo a disposição de dar mais chances ao enorme potencial dos jogadores negros.

Zizinho (centro) e o técnico Béla Guttmann.
Nessa época, pouco antes da Copa, Béla Guttmann tinha vencido o Campeonato Paulista com o São Paulo Futebol Clube, batendo o então time brasileiro do futuro, o Santos, onde já atuava sua ainda pouco conhecida joia, o jovem Pelé. Essa não era a primeira estadia de Guttmann no continente latino-americano: como jogador, já tinha participado de extensas turnês pela América do Sul. No outono de 1956 ofereceu-se a ele uma chance única quando a melhor equipe da Hungria e uma das melhores de toda a Europa – o Honvéd Budapest – permaneceu no Ocidente depois da derrota do levante húngaro diante dos soviéticos. Guttmann era o mediador ideal para aqueles futebolistas húngaros que, de repente, se viram no mundo capitalista, tanto porque conhecia profundamente o futebol húngaro quanto porque já fazia alguns anos que circulava pelos negócios do futebol em âmbito internacional. Ele se tornou o “diretor técnico” da equipe húngara no exílio e organizou a sua vitoriosa turnê pela América Latina. Guttmann tinha feito parte do núcleo duro de treinadores que, depois da Segunda Guerra Mundial, tinham levado a escola húngara de futebol, na teoria e na prática, a níveis nunca antes imaginados. Com tal experiência prévia e com a demonstração prática dos jogadores do Honvéd, ele ganhou os brasileiros com um novo estilo que, nas palavras de Ferenc Puskás, cérebro do Honvéd e testemunha qualificada, fez emergir o sistema 4-2-4.

Béla Guttmann pode ser considerado um dos grandes treinadores do século XX. Deve-se observar, no entanto, que a profissão de treinador de futebol ainda estava, na sua época, por se estabelecer. Até mesmo Stanley Matthews, quintessência do futebol de dribles entre os profissionais ingleses, mostrou-se muito cético no início dos anos 1950 com relação ao treinamento sistemático no esporte. Ele estava firmemente convencido de que o jogo se aprendia na rua e de que profissionais estabelecidos já sabiam como um match se desenrola. Faz parte da ironia da história do futebol o fato de ele ter feito parte da seleção inglesa que, em 1953, foi destroçada em pleno estádio de Wembley pela maravilhosa seleção da Hungria, com o placar de 6 a 3. Meio ano depois, os húngaros ganharam a partida de volta em Budapeste, inclusive com uma goleada de 7 a 1. O crescimento do futebol na Europa continental a partir da década de 1920 não pode ser explicado sem o desenvolvimento do treinamento que, afinal, foi divulgado na Europa Central por pioneiros ingleses – profetas que não eram ouvidos na própria terra. Béla Guttmann viveu a experiência da mudança de estilo e de jogo desde o início de sua carreira. Ele aprendeu, com todos os obstáculos, a jogar futebol como uma profissão – uma precoce carreira profissional que começou em Viena nos anos 1920 e que o levou, já na época, a atravessar o Atlântico em direção à América do Norte e depois a América do Sul. Antes de obter seu primeiro posto como treinador em Viena, em 1933, ele já conhecia todo tipo de futebol que se jogava pelo globo.

Essa experiência fez dele um expert, reconhecimento que procurou durante toda a vida. Ele se considerava um “especialista em futebol” que dispunha de um conhecimento valioso. Também sabia aplicar esse conhecimento; essencial para tal transmissão era a autoridade de treinador, que sempre procurou afirmar de maneira intransigente. Quando sentia essa autoridade ameaçada, preferia se demitir, como aconteceu no auge da carreira, em 1962, ao se despedir do Benfica. Na superfície, tal atitude deveu-se a querelas com a direção do clube, que o tratava como um funcionário subalterno. Mas seus princípios também impediram uma atividade mais longa em Lisboa: temia trabalhar mais de dois anos com equipes de sucesso, pois tinha reconhecido que o estrelato e a autossatisfação eram um veneno na relação entre treinador e jogadores. Permaneceu um terceiro ano em Lisboa somente para confirmar sua campanha exitosa na Liga Europeia, vencida no ano anterior. E conseguiu. Com essa rigorosa idiossincrasia de abandonar equipes vitoriosas, Béla Guttmann também trabalhava o seu próprio mito. O extraordinário triunfo pode ser preservado frente ao desgastante cotidiano do futebol, com seus altos e baixos. Mas cada despedida depois de uma grande vitória significava também uma pequena morte. Jamais voltará ao lugar onde uma vez se esteve.

O que permanece de um grande jogo, de um grande jogador, de um grande treinador? No final, resta apenas um nome que logo cairá no esquecimento se a história ligada a ele não for narrada. Até mesmo o funcionário do cemitério em Viena, que sem dúvida se interessava por futebol, vinte anos depois da morte de Béla Guttmann pouco sabia sobre o defunto: “Era algum jogador de futebol!”. E mais nada. Nos documentos do Cemitério Central não há registro do túmulo, mas o funcionário tinha uma ideia de onde ele podia ser encontrado: “Procure na ala judaica”. De fato, lá está a impressionante lápide com o nome, mas não a recordação do futebol que tornou esse nome mundialmente conhecido.

Sobre o autor:
Detlev Claussen, nascido em 1948 em Hamburgo e criado em Bremen, estudou ciências sociais sob a orientação de Theodor W. Adorno em Frankfurt. Hoje é jornalista e professor de teoria social, sociologia cultural e teórica na Universidade de Hannover. Reside em Frankfurt. Entre suas principais publicações estão Grenzen der Aufklärung [Limites do esclarecimento, 1987], Was heisst Rassismus? [O que significa racismo?, 1994], Aspekte der Alltagsreligion [Aspectos da religião no cotidiano, 2000] e a importante biografia Theodor W. Adorno [2003].

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