quarta-feira, 9 de julho de 2014

Adeus mestre Sebastião Witter

O futebol e, principalmente, o mundo acadêmico perdeu um de seus maiores nomes. José Sebastião Witter foi um pioneiro na luta pelo futebol nas fechadas universidades brasileiras.  
Sebastião Witter era torcedor apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube, professor emérito da USP e professor normalista. Foi um dos pioneiros na introdução do futebol como objeto de estudo na Universidade, assunto até então estigmatizado.

Foi também Supervisor do Arquivo Público do Estado de São Paulo Secretaria da Cultura (1977/1988); Diretor do Centro de Apoio à Pesquisa Histórica (CAPH) Sérgio Buarque de Holanda USP (1988/1992); Diretor do Instituto de Estudos Brasileiros IEB USP (1990/1994); Coordenador Geral da Coordenadoria de Comunicação Social (CODAC) USP (1991/1994); Diretor Geral do Museu Paulista da Universidade de São Paulo / Museu do Ipiranga USP (1994/1999).

Além de assinar diversas publicações, inúmeros livros, artigos, resenhas e crônicas. Mantinha uma assessoria da qual era seu diretor presidente, a WITTER & WITTER ASSESSORIA E CONSULTORIA EDUCACIONAL LTDA.

Aqui, no Literatura na Arquibancada, Witter deixou registrada sua paixão por um dos maiores craques do seu clube de coração e da seleção brasileira, Leônidas da Silva, o Diamante Negro, no mês e ano do centenário do craque histórico brasileiro (http://www.literaturanaarquibancada.com/2013/01/o-megafone-do-esporte-100-anos-do.html).

Não era preciso, mas para “provar” o pioneirismo na luta do professor Witter pelo aprofundamento do estudo do futebol nas universidades, Literatura na Arquibancada resgata, abaixo, texto assinado pelo mestre no ano de 1982, em uma das primeiras edições especiais feitas por diversas personalidades falando sobre o futebol. A “pequena” e fantástica publicação, patrocinada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, chama-se “Em campo, futebol e cultura”. E o texto assinado por mestre Witter, tem um título que reflete exatamente o trabalho e a dedicação deste educador. “Para nunca mais esquecer”, de Witter e sua batalha pela literatura esportiva brasileira.



Para nunca mais esquecer
Por José Sebastião Witter

“Se não houvesse o futebol, nós teríamos outra coisa. Se não tivesse outra coisa, nós teríamos uma guerra civil a cada dia.” (Sócrates, jogador do Corinthians, Folhetim nº 187, 17/9/1980, Folha de S.Paulo)

É inquestionável que o futebol ocupa uma posição de destaque na sociedade brasileira e com ele e por ele se consomem horas e horas de análise e discussão, desde os categorizados cronistas esportivos ao homem comum, desde os intelectuais aos iletrados. E mesmo aqueles que insistem em mostrar sua indiferença ao futebol, quase sempre buscam a informação aqui e ali e desejam estar a par dos últimos resultados esportivos e da atuação de alguns craques, principalmente em época de Copa do Mundo.

Em 1975, num Simpósio da Associação dos Professores Universitários de História (ANPUH), apresentei uma comunicação sobre “As fontes para o estudo do Esporte no Brasil”, quando as críticas recebidas foram até desestimulantes. Salientara já o significado do Esporte no Brasil e em especial a importância do futebol na vida cotidiana do nosso País.

A maior tarefa de todos aqueles que buscam explicar o fenômeno do Futebol está, justamente, na questão de sua análise enquanto fenômeno de massa e enquanto fenômeno individual. Em recente artigo na Folha de S.Paulo, Roberto da Matta estuda e muito me faz pensar na necessidade, cada vez maior, de estudos múltiplos sobre a vida futebolística brasileira. Lembra Roberto da Matta um outro fenômeno que se soma ao do futebol, que é justamente a sua descoberta pelas elites brasileiras, periodicamente. E é significativa a sua reflexão em torno da importância do fenômeno futebolístico, que acaba por revelar muito da nossa maneira de ser, na vida diária. Como diz Roberto da Matta: “...o futebol instala uma reflexão coerente com ele mesmo: algo muito mais sutil e sinuoso. Uma reflexão relativizadora e relacional onde se descobre que o mundo é mais complicado do que máquinas, indivíduos, lucros e dinheiro. Nele também existe arte, dignidade, genialidade, sorte e azar, deuses e demônios e, acima de tudo, a descoberta importante que, embora o Brasil seja ruim num montão de coisas, é muito bom de bola. É campeão de futebol e isso já é importante. Afinal, é melhor ser campeão do samba, carnaval e futebol do que de guerras ou de venda de foguetes”.

A transcrição foi longa, mas creio ter Roberto da Matta exteriorizado, de forma clara, aquilo que todos nós de uma certa forma pensamos, e não quis trair o seu pensamento parafraseando-o. É este aspecto que bem traduz os milagres que o nosso “esporte-rei” pode operar e também e muito daquilo que se identifica com a própria brasilidade, principalmente se a detectarmos como o fez Mattew G. Shirts em seu artigo “Literatura Futebolística: uma periodização”, no qual descobre um eixo temático novo que mais tarde vai se traduzir no discurso popular. Mostra, então, como esse tema veio à luz com “O Negro no Futebol”, reforçado pelo “Sou Pelé”, onde a ligação futebol x brasilidade fica evidenciada na descrição de sua juventude. Com características distintas, a Sensibilidade é evidenciada ainda em “Brasil Futebol Rei” e “Os Subterrâneos do Futebol”.

Se de um lado Shirts detecta o fenômeno da brasilidade no futebol, de outro José Carlos Sebe Bom Meihy vê o conteúdo Nacionalidade no seu “Para que serve o futebol”, mostrando o quanto do discurso dos analistas do futebol e dos cronistas esportivos colocam esse sentido de integração nacional nos acontecimentos esportivos. Lembra ele que editoriais significativos da Gazeta Esportiva Ilustrada, em 1960, salientavam ser ela um “órgão da unidade nacional, pois é lida do Oiapoque ao Chuí, extremos norte e sul deste imenso país”.

É pensando no poder do futebol como elemento catalizador na sociedade brasileira que o vejo, de certa forma, consolidando uma unidade nacional, despertando a brasilidade de cada um e permitindo que milagres sejam feitos.

E este fenômeno está aguardando, no Brasil, estudos profundos de especialistas de áreas diferentes a permitir que seja ele melhor entendido e possam surgir obras como a de Desmond Morris, “The Soccer Tribe”, com um estudo antropológico significativo e profundo, no qual se vê o fenômeno do ponto de vista do ritual das tribos primitivas transpostas aos bem organizados campeonatos europeus e principalmente ao universo inglês. O uso apropriado das fotos e o estudo dos gestos e das atitudes dos componentes da caça à bola, desde os jogadores aos árbitros e aos torcedores, demonstram o quanto se pode ver na própria participação dos combatentes e seus afeiçoados, que passam a se compor em verdadeiras nações querendo conquistar vitórias no campo de luta, representado pelos clubes de futebol.

A análise que deverá ser feita por tantos estudiosos de nosso futebol, principalmente com a descoberta, recuperação e conservação de muitas coleções existentes em mãos de colecionadores particulares e de clubes esportivos, além de um cuidado específico dos arquivos públicos com a gama de documentação referente ao futebol, poderá trazer à luz aspectos novos, a demonstrar toda a complexidade representada pelo “esporte-rei” no Brasil, desde a sua “desorganização” varzeana às intricadas e complexas máquinas burocráticas, a transformar o lúdico em objeto de lucro e a decompor o espírito esportivo em espetáculo circense para uma massa incomensurável que acaba por somente consumir o produto mais rico e mais precioso que a coletividade produziu, que é o nosso futebol.

É difícil enteder-se o fenômeno futebolístico universal sem se entender o futebol brasileiro e creio ser ainda mais difícil procurar se entender o Brasil sem um estudo aprofundado do fenômeno Futebol. Brasil e Futebol se explicam bem pelo famoso “jeitinho” que Roberto da Matta vê, com propriedade, como “algo muito mais sutil e sinuoso”, esbanjados um e outro como continente e conteúdo, cuja soma acaba por expressar, de forma inconteste, a nossa própria maneira de ser.


Nenhum comentário:

Postar um comentário