quarta-feira, 4 de junho de 2014

Jardim Brasil

Parece mentira, mas é verdade. O “clima” de Copa no Brasil está frio. Poucas ruas pintadas, euforia popular contida. Dizem, reflexo dos vários problemas existentes no país, na política, na sociedade em geral. Mas há quem recomende esquecer tudo isso para no futuro não se arrepender.

JARDIM BRASIL
Por André Ribeiro

Copa do Mundo é sempre Copa do Mundo. Para quem viveu mais, evidentemente terá mais histórias para contar. O que é o meu caso. Como na dança da vida, boas e tristes lembranças. Tem torcedor que não abre mão de seu ritual. E tem todo tipo de mania (ou quase maníacos). Aquele que só se senta no mesmo lugar em frente a TV. Aquele que só usa a mesma roupa. Aquele que só assiste pela TV e ouve pelo rádio. Aquele que proíbe a presença de algum pé-frio de plantão, mesmo que a pessoa em questão seja a própria “dona patroa”. Aqueles que preferem “encher a cara” antes de o jogo começar para não ter de sofrer durante os 90 minutos. Enfim, cada um tem um jeito de sofrer, ops, torcer, para depois lembrar.

Sinto-me um privilegiado, daqueles que até na mesa de algum bar lá no céu (ou inferno), poderá, quando chegar minha hora de sair dessa para melhor, contar um bocado de vantagens. A razão é simples, pois, do tal pentacampeonato, em meus mais de cinquenta anos vividos, torci e fui campeão junto com a seleção em três títulos, a partir da Copa de 1970.

Por isso, você, amigo torcedor, que anda meio ressabiado de assumir o verde e amarelo e aquele jeito só seu de torcer, aproveite, e deixe pra lá essa frescura de “misturar as bolas” entre futebol, política e bem-estar social. Como diz o Zé lá do bar, “cada coisa é uma coisa”. Nas próximas eleições, você poderá (e deverá por obrigação) fazer o melhor e mais eficiente protesto: não eleger pilantras e enganadores de plantão. 

Se deixar passar esse momento de paixão pela bola, pela seleção, com certeza passará vergonha lá no boteco do céu quando chegar sua hora, porque, com certeza, na hora daquele baita papo com os amigos que não vê a um tempão, não se lembrará de quem fez o gol daquele título mundial brasileiro que você decidiu não ver para poder protestar, e muito menos do político que ajudou eleger, porque esses a gente esquece de propósito, mesmo.

Torcer pela seleção durante uma Copa, e ainda mais quando ela é disputada por aqui, não tem preço.  Não que isso represente só boas lembranças. Às vezes, são boas, mas misturadas com alguma espécie de dor. Tem a dor da saudade, do pai, da mãe, do irmão, do tio, do primo, do cachorro, do gato, da prima, do vizinho, ou de qualquer pessoa ou ser querido que sempre esteve presente nesses momentos de torcida coletiva, mas que agora não está mais entre nós.

E há aqueles, como eu, que curtiu o sabor da conquista de um título mundial, literalmente, doente. E ainda sim, essa foi a melhor Copa, o melhor título dos três que já comemorei. Tinha eu quase oito anos de vida. Ou seja, o auge do início de uma paixão, pela bola, a conquista mais fácil, e primeira, na vida de quase todo homem brasileiro. Uma prima e minha irmã fizeram-me o favor de transmitir a esse fedelho um dos vírus mais cruéis que uma criança pode contrair, o da hepatite. Para quem não sabe, além dos remédios, a recomendação médica para esses casos é de imobilização quase total, para que o fígado fique ali, bem quietinho, se recuperando.  Imagine você o tamanho da tortura que foi aquela Copa para mim. Oito anos, acostumado a ficar o dia inteiro na rua de terra com os amigos se ralando inteiro atrás de uma bola, e, naquele momento, tendo que ficar parado, esticado em uma cama, só ouvindo o eco da torcida, nas ruas, nos vizinhos e amigos na rua, e ali mesmo em casa, naqueles antigos aparelhos de tevê, ainda em preto e branco.

Mas não foi bem assim. Já que não poderia ir para a rua jogar minhas “peladas”, o jeito foi improvisar. O time inteiro não pôde entrar, mas uns quatro ou cinco amigos não me abandonaram. Todos, convocados para estarem em casa, algumas horas antes do início de cada jogo do Brasil, para “imitar”, dentro de um apertado quarto, as jogadas dos craques brasileiros no México. Imagine só, meia dúzia de capetas, dentro de um quarto jogando futebol. Como o espaço era pequeno e havia um “doente” em “campo”, decidimos que o gol seria o espaço da cama de onde eu não poderia sair por ordem expressa de minha mãe, sob pena de levar uma boa surra de “fio de ferro” (para os mais jovens, antigamente, os ferros de passar roupa tinham uma tomada na parte traseira onde era conectado um fio dali até a tomada. Nunca apanhei dessa forma, mas ameaça nunca faltou, e só de imaginar a dor, era preferível não vacilar).

Como só havia um gol, só poderia haver um goleiro. E como eu era o único que poderia estar ali em cima da cama, transformei-me em Félix, o goleiro da seleção brasileira na Copa de 1970. Um retângulo que imitava as traves de um gol de maneira quase real, já que nas duas extremidades havia duas pontas de madeira que simulavam quase que perfeitamente os pedaços de uma meta. Até rede tinha, disfarçada de cortina na parede. A bola era “artesanal”, feita com meias, várias juntas, dobrando e redobrando uma sobre a outra até ficar do tamanho que quisesse. Dois ou três pares de meias grossas rendiam uma pequena bola, perfeita. Algumas meias eram minhas, mas para a “bola” ficar ainda mais real, da cor das bolas de capotão (feitas de um couro que arrebentou a testa de muita gente), marrom, usávamos para revestir a “bola”, uma meia-calça roubada da gaveta de minha mãe.  

Ficava perfeita, macia e redonda. No espaço apertado, os amigos disfarçados de Rivelino, Jairzinho, Tostão e Pelé, disputavam as jogadas até dispararem potentes chutes em direção ao gol. Nunca fui goleiro, mas naqueles dias pratiquei as “pontes” mais incríveis que nem mesmo Félix faria, nem em campo, muito menos em cima de uma cama de solteiro. O único problema ou inconveniente era que não poderia haver comemoração com grito de gol, caso contrário, minha mãe ouviria e o “jogo” acabaria na hora. O mais incrível é que o “jogo” era narrado, ou melhor, sussurrado, bem baixinho, porque jogar sem narrar ao mesmo tempo, não tem graça nenhuma (não é assim com a geração videogame?). Impossível não se lembrar daquele bordão dos “craques” mirins imitando o narrador Geraldo José de Almeida na hora de um gol com o “olha lá, olha lá, olha lá...no placarrrr...Brasil, Brasil, Brasil...”.

O jogo na TV começava e a pelada parava. Torcíamos, como as milhares de pessoas no país, vendo com dificuldade as imagens geradas pela primeira vez para o Brasil. No intervalo, olhávamos para o céu repleto de balões coloridos, enormes. Rojões, ruas embandeiradas, calçadas e ruas (as poucas asfaltadas) pintadas. O cheiro do churrasco invadia a sala.

O resultado no México todos já sabem. Brasil tricampeão mundial. Em casa, os saltos para as defesas nas “peladas” disputadas no quarto provocaram um enorme problema para minha mãe. Se em três meses minha irmã e minha prima estavam recuperadas da hepatite, levei um ano para me curar. Foi a dor mais deliciosa que senti em toda a vida. 

Apesar de naquela Copa morar em um dos bairros mais violentos da periferia paulistana, e “ganhar” um mundial com a seleção brasileira, “doente” em uma cama, o que me vem à cabeça agora é o nome daquele bairro, que em época de Copa, no Brasil, deveria ser o mesmo em todo o país: Jardim Brasil.

Sobre o autor:
André Ribeiro é jornalista, pesquisador, produtor de televisão, desde 1978, quando ingressou na extinta TV Tupi. De 1983 a 1988, trabalhou na TV Manchete. Foi produtor executivo na TV Cultura de São Paulo durante treze anos. A partir de 1998, escreveu: Diamante Eterno – Biografia de Leônidas da Silva (Editora Gryphus, 1998); Fio de Esperança – Biografia de Telê Santana (Editora Gryphus, 2000); A magia da camisa 10 (Verus Editora, 2006), publicado no Brasil, Portugal, Hungria, Polônia e Japão; Uma ponte para o futuro (Editora Gryphus, 2007); Os donos do espetáculo – Histórias da imprensa esportiva do Brasil (Editora Terceiro Nome, 2007); Uma janela para a serra – A história de Extrema, Portal de Minas (Prefeitura de Extrema, MG, 2008)e Leopoldo – Os caminhos de Leopoldo Américo Miguez de Mello para um Brasil maior (Editora Cenpes/Petrobras, 2010).

Um comentário:

  1. Ufa!
    Ainda bem que você se recuperou, nos dando assim, o prazer de ler o Literatura na Arquibancada. rsrs
    Beijo.

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