segunda-feira, 30 de junho de 2014

E a camisa 10 brilha na Copa

Aqui mesmo, alguns dias atrás, destacamos os mistérios que envolvem a camisa 10, especialmente, durante a disputa de uma Copa do Mundo (http://www.literaturanaarquibancada.com/2014/06/a-magia-da-camisa-10-na-copa.html).

Eram 32 equipes. Vários deles voltaram para casa com o peso e, talvez, a culpa pela derrota. Mas os que continuam na disputa terão a chance de integrar o seleto grupo de “imortais” do futebol mundial. Mesmo os que partiram sem vencer, entrarão para a literatura das copas, para o bem ou para o mal...

O peso da 10
Por André Ribeiro

Se há um momento em que a mística de um 10 empresta à simples mortais poderes inexplicáveis esse momento é quando acontece o maior evento esportivo do planeta, a Copa do Mundo.

Bilhões de torcedores espalhados por todo o planeta sempre terão olhos especiais para o jogador que ousar vestir essa camisa. Usá-la é estar ciente de que terá de carregar, além das responsabilidades tradicionais de uma equipe que representa uma nação, o peso das derrotas. Vencer autênticas batalhas não é o suficiente. Têm que convencer e encantar, tornar-se o homem temido por outros jogadores, outras nações inteiras.

São poucos os que resistiram a essa pressão natural. Pelé ensinou ao mundo que para ser rei não basta talento e genialidade, há também de se contar com a “luz” especial recebida sabe-se lá de onde. Sucumbir ao momento crucial de uma partida em uma Copa é saber que todos os esforços de anos de dedicação podem desaparecer em fração de segundos. Foi o caso, por exemplo, do craque camisa 10 da Itália, Baggio, na Copa de 1994, nos Estados Unidos. Um pênalti perdido, a derrota, o inferno eterno. Ninguém mais se lembraria de que fora ele um dos maiores responsáveis por levar sua seleção até aquela final. Ninguém se lembraria do esforço para se tornar conhecido no futebol, pelo pequeno Vicenza, na série C, do campeonato italiano. Dos gols e jogadas sensacionais pela Fiorentina, Juventus, Milan, Inter de Milão e Brescia. Só mesmo a paciência da fé budista que cultuava para resistir a tantas pressões.

Ser 10 é ter que estar pronto para ser sempre questionado. Nunca será o bastante ser o melhor para estar de bem com os torcedores. Para Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, não bastou ser aclamado o melhor do mundo dois anos seguidos, em 2004 e 2005. Coisa do passado, dizem a crítica e os apaixonados torcedores. A derrota na Copa de 2006 e uma fase de desencanto com o futebol foram suficientes para todo o talento ser questionado. 

Que peso é esse que uma simples camisa trás a um jogador? Raí, craque inquestionável do São Paulo Futebol Clube, campeão mundial interclubes, em 1992 e 1993, sucumbiu à pressão na Copa de 1994. Titular da posição, dono da camisa 10, terminou a competição no banco de reservas, sem o brilho que se espera daqueles que vestem a camisa mais cobiçada e temida do planeta.

Talvez por essa razão, Riquelme, herdeiro da 10 no Boca Juniors e na seleção, do maior ídolo argentino de todos os tempos, Maradona, e no poderoso Barcelona, também não tenha suportado essa pressão quando decidiu sair do clube catalão e aceitar jogar com a 8 pelo Villareal. Deixou a responsabilidade da 10 no “Barça” para o brasileiro Ronaldinho Gaúcho e se foi.  Coincidência ou não, sem o “peso” da 10, Riquelme foi um dos principais responsáveis por levar o desconhecido clube espanhol às semifinais da Copa da Uefa, em 2003 e à surpreendente terceira colocação da concorrida Liga Espanhola nesse mesmo ano. Pela seleção, inexplicavelmente, Riquelme jamais conseguiu suportar a pressão natural exercida sobre qualquer 10 argentino, mesmo que todos admitam que ele transformava a arte de jogar futebol em espetáculo.

Um brasileiro franzino e muito parecido fisicamente com o rei do futebol, Pelé, também viveu essa sina. Robinho com seus dribles desconcertantes e pedaladas, encantou desde cedo qualquer um que o visse jogar, até mesmo Pelé ficou boquiaberto quando o viu pela primeira vez nos campos de treinamento do Santos. Com a benção do rei e atuações espetaculares, Robinho foi alçado em poucos dias à condição de craque. Enquanto esteve com a camisa 7, no Santos, Robinho parecia flutuar pelo campo, enquanto outro menino, Diego, camisa 10 da equipe praiana, carregava a responsabilidade de herdeiro da camisa do rei Pelé. Bastou Robinho ser negociado com o poderoso Real Madrid, em 2005, para ter tratamento de rei. Teve recepção de astro pela torcida, mas até aquele instante ninguém sabia ainda com qual camisa jogaria pelo novo clube. O mistério foi desfeito quando nada menos que Alfredo Di Stéfano, um mito do futebol mundial, e presidente de honra do tradicional clube espanhol, entregou a ele a camisa 10 que um dia lhe pertenceu. Tudo parece ter mudado daquele momento em diante. Seria simplesmente o “peso” de uma camisa? Seria status demais para um jovem suportar? O fato é que com a 10, na Europa, no Real ou no Manchester, Robinho nunca mais foi o mesmo garoto atrevido da Vila Belmiro. Precisou retornar às origens para resgatar um sonho, como se tivesse que reaprender a jogar o futebol que encantou o mundo. Precisou vestir a 7 novamente para se sentir outra vez o rei da Vila.

Na seleção Robinho chegou a usar a camisa 10 que um dia pertenceu a Pelé, mas também com a “amarelinha” nunca se tornou seu legítimo representante. Essa dura missão foi confiada a outro talento brasileiro que nunca teve a 10 como seu “amuleto”, Kaká. No início de carreira, pelo São Paulo, vestiu camisas com numerações esquisitas, 30, 33, 8, mas nunca a 10 que um dia fora de craques consagrados como Raí, Pedro Rocha e Gerson. No caminho que todos fazem quando partem rumo à Europa, foi para o Milan e se consagrou com a camisa 22. Negociado com o Real Madrid, da Espanha, em transação milionária, recebeu a camisa 8 de presente. Na seleção brasileira, já jogou com a 7, com a 23, mas, na Copa de 2010, na África do Sul, Kaká enfrentou o destino que muitos outros tiveram. Do céu ao inferno, a eliminação contra a Holanda praticamente “sepultou” mais um talentoso jogador que ousou vestir a 10 em um Mundial.

A cada Copa, o mundo inteiro volta os olhos para uma única camisa. São vários os camisas 10 em campo, a expectativa de vê-los é capaz de atrair milhares de torcedores aos estádios e bilhões espalhados pelo mundo, na frente de uma televisão, de  um rádio ou pela internet. Como se diz na gíria futebolística, a “bola da vez”, não é apenas um, mas alguns...No momento em que esse texto é escrito e publicado, quando as oitavas de final ainda não se encerraram, a camisa 10 de quase todos os países envolvidos brilhou.

Neymar, pelo Brasil, nos gols, dribles e pênalti decisivo contra o Chile; Messi, pela Argentina, em todos os jogos disputados; Benzema, pela França, Sneijder, da Holanda e seu gol salvador contra o México...Mas o grande nome, independentemente de conseguirem ir adiante, já que enfrentará o Brasil, é James Rodriguez, da Colômbia. Ele já entrou para a história dos craques mundiais, mesmo hoje, atuando por uma equipe mediana do futebol mundial, o Mônaco, da França. Com certeza, aos 22 anos, após as grandes exibições e, especialmente, o gol de placa marcado no Maracanã, contra o Uruguai, James já deve ter propostas das maiores potências do futebol.

Neymar seguirá em frente e se tornará o novo “imortal”? Messi conseguirá, finalmente, ganhar um título para a Argentina e ganhar definitivamente o coração dos torcedores argentinos, que sempre desconfiaram de suas atuações pela seleção?

Os “deuses” dos estádios guardam segredos desses homens que só ao final da Copa saberemos quem poderá entrar para a galeria dos “imortais”. 

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