quinta-feira, 26 de junho de 2014

Culpados Futebol Clube

Uma grande sacada. Assim pode ser definido o livro do jovem autor André Biernath, “Culpados Futebol Clube - A história dos jogadores, técnicos e juízes responsabilizados pelas derrotas brasileiras em Copas do Mundo (1930 - 2010)” (Clube de Autores).

Se o Brasil é pentacampeão do mundo, há também 14 Copas perdidas. E no país onde ser vice representa quase nada (e para a maioria, nada mesmo), perder e deixar a competição precocemente, como aconteceu na Copa de 1934, quando disputou apenas um jogo ou, ainda, perder “jogando bonito”, como na Copa de 1982, significa ficar marcado para sempre, de forma negativa, na história do futebol.

O autor foi bem mais fundo na questão. Revisitou todas as derrotas e constatou como torcedores e a imprensa esportiva são cruéis quando o resultado não é o título mundial.

Sinopse (da Editora)

Barbosa, Dunga, Telê Santana, Roberto Carlos... Sempre que o Brasil é eliminado de uma Copa do Mundo, já sabemos o que vem pela frente: está aberta a temporada de caça ao culpado! As explicações para a derrota passam pelas desculpas certeiras até os mais esdrúxulos delírios de torcedor apaixonado. Mas uma coisa é certa: muitos técnicos, jogadores e árbitros ficaram marcados por erros que nem sempre cometeram. O livro resgata a história desses sujeitos que participaram da Copa com a melhor das intenções e, ao final do torneio, tiveram que carregar o ônus da derrota de uma nação inteira. O que aconteceu com as carreiras dessas pessoas? Os atletas conseguiram se recuperar de tantas críticas? Culpados F.C. é uma viagem pela riqueza do futebol brasileiro. Desbrave as agruras da derrota e entenda por que foram elas que nos levaram ao pentacampeonato mundial.

Literatura na Arquibancada agradece ao autor pela cessão do primeiro capítulo da obra, que você pode ler abaixo.

1930
Bairrismo acaba com Brasil na I Copa do Mundo

Feitiço
Os moradores do Rio de Janeiro, a então capital brasileira, acordaram com grande expectativa naquele domingo, dia 13 de novembro de 1927. Chegava a hora de descobrir quem ficaria em primeiro lugar no Campeonato Brasileiro de Seleções. A final prometia: de um lado, os cariocas, donos da casa, apresentavam um futebol forte, considerado o melhor do país. De outro, os paulistas, representando a pujança do esporte bretão fora do centro econômico e político da época. Naquela tarde, o estádio de São Januário reuniu 60 mil aficionados que esperavam por uma bela exibição dos dois quadros poderosos.

O 1 a 1 teimava no placar, com gols de Osvaldo, pelo Distrito Federal, e Feitiço, para os bandeirantes. Quando faltavam apenas 15 minutos para o fim do embate, o árbitro Ary Amarante marcou um pênalti para os cariocas. O estádio quase veio abaixo com tantas expressões de alegria que o público emanava. No gramado, os 11 paulistas e a comissão técnica dos visitantes eram os únicos que demonstravam sentimento oposto: a revolta era grande. O capitão Feitiço, um dos melhores jogadores da época, liderou a retirada de seus comandados de campo, como forma de protesto pela marcação da penalidade máxima. A atitude dos paulistas revoltou e surpreendeu os espectadores e gerou reações das mais variadas. A mais importante delas veio das tribunas de honra: o presidente Washington Luís exigiu que os atletas paulistas voltassem a campo para terminar a peleja. Quando um emissário presidencial transmitiu o recado, a resposta do capitão Feitiço foi rápida e contundente: “Lá em cima manda o presidente. Aqui embaixo mando eu”.

O exemplo acima é só um de muitos casos de brigas e picuinhas entre paulistas e cariocas no começo do século XX. A rivalidade passava pelos mais diversos patamares da sociedade, envolvendo política, imprensa e população. Essa rixa tem origem na formação das duas cidades. O Rio de Janeiro foi a capital do Brasil entre 1763 e 1960 e, por isso mesmo, o centro econômico, político, social e artístico. Enquanto isso, São Paulo, do colégio dos jesuítas, foi utilizada como um entreposto para os bandeirantes que adentravam e descobriam as riquezas da desconhecida América do Sul. Ignorada por séculos, a cidade pobre e inacessível cresceu e ganhou cada vez mais poder. Nas décadas de 1920 e 1930, já era importante por abrigar imigrantes europeus e asiáticos, que chegavam para as lavouras de café, e os grandes donos de terras que seriam o dínamo da nova metrópole.

A rivalidade envolvia o futebol até o pescoço. O esporte paixão do brasileiro entrou timidamente no país, num dia 18 de fevereiro de 1894, quando Charles Miller desembarcou no porto de Santos trazendo consigo duas pelotas utilizadas no esporte.

Ele objetivava ensinar seus companheiros a prática que aprendera em terras britânicas.

36 anos depois, alguns dirigentes, com destaque para o francês Jules Rimet, presidente da Federação Francesa de Futebol, resolveram se unir e organizar um torneio mundial, independente das Olimpíadas. A ideia era reunir os melhores jogadores, técnicos e países do globo para disputar uma taça e o título de campeão.

A primeira Copa do Mundo aconteceu em 1930, no Uruguai. O Brasil, que já tinha um futebol minimamente organizado por federações e clubes, participou da disputa pela taça. A Confederação Brasileira de Desportos, a CBD, era a interlocutora direta da Fifa no Brasil e começou a articular a equipe que defenderia as pretensões nacionais na província de Cisplatina. Apesar de não ter um time comparável ao de argentinos e uruguaios, que fariam a final daquele ano, o Brasil poderia ter sido mais bem representado se tivesse levado a sua força máxima. E isso foi impossível justamente por conta da rivalidade entre paulistas e cariocas.

O disse-me-disse começou na imprensa, quando jornais dos dois estados pediam mais jogadores que os representassem. Mas tudo esquentou mesmo quando a Apea, a Associação Paulista de Esportes Atléticos, representante oficial dos times de São Paulo, requereu, junto à CBD, que alguns dirigentes paulistas fossem mandados a Montevidéu com a delegação. A CBD convocou 15 jogadores de São Paulo de 5 clubes diferentes (Corinthians, Palestra Itália, Santos, São Paulo da Floresta e Sírio), mas ignorou o pedido de inclusão dos cartolas. A entidade máxima do futebol brasileiro tinha até 12 de junho para mandar um ofício à Fifa com a equipe tupiniquim. Como a Apea ainda não tinha se pronunciado, a CBD enviou, então, uma lista que continha apenas os jogadores cariocas.

A guerra estava armada: a Apea se dizia injustiçada pela CBD, enquanto esta acusava a instância paulista e seus representantes de impatrióticos. Quando o fato virou manchete de jornal, o conflito atingiu proporções ainda maiores. A troca de acusações ficou muito forte e Folha da Manhã, uma das principais publicações de São Paulo, e Jornal do Brasil, mais favorável ao Rio de Janeiro, se atacavam, reproduzindo e desmentindo trechos um do outro. Essa novela, cheia de dramalhões e reviravoltas, foi estampada nas páginas da editoria de esportes por quase um mês. Ao reproduzir trechos de diários cariocas, a Folha comentou que as palavras impressas ali só poderiam ser “oriundas de cérebros doentios”. Na cidade maravilhosa, o JB destacava: “Brilhante e Itália mostraram ser a melhor parelha de backs que ora atua nos campos brasileiros. [...] Está assim provado de modo irretorquível que temos toda a razão quando afirmamos que, na pior das hipóteses, o scratch que fosse aqui agora formado seria, quando muito, igual ao se constituísse com elementos de S. Paulo.” (Jornal do Brasil de 18 de julho de 1930)

Para provocar e mostrar o poderio do time paulista, a imprensa local reproduziu em letras garrafais um amistoso que aconteceria entre alguns times e o Hakoah All Stars de Nova York. A Folha da Manhã descreveu assim o combinado paulista: “Essa é a primeira vez que jogará o selecionado integrado dos melhores jogadores. A linha é formada por cinco formidáveis atacantes mestres, a linha média está constituída por três grandes jogadores, os melhores que se encontram presentemente em S. Paulo. O trio final é o que deveria seguir para Montevideo, se o concurso dos paulistas não fosse posto de lado pela entidade brasileira.” (Folha de São Paulo, 19 de junho de 1930).

Depois de todo esse imbróglio e de acusações variadas por parte dos dirigentes e também dos meios de comunicação, o Brasil embarcou para o Uruguai com uma seleção de jogadores oriundos somente dos times do Rio de Janeiro. Enquanto a CBD não queria um dirigente de São Paulo na comissão técnica, a Apea não liberaria os jogadores do estado. O único paulista a integrar a equipe de 30 foi Araken Patusca, que estava brigado com o Santos, seu clube, e assinou um contrato com o Flamengo para zarpar a Montevidéu. Na primeira Copa do Mundo, o Brasil foi representado por atletas do América-RJ, Fluminense, Vasco, São Cristóvão, Ypiranga-RJ, Botafogo, Flamengo, Americano e Goytacaz, todos times da capital.

A ausência de paulistas na delegação enfraqueceu e diminuiu ainda mais as chances de título do Brasil. Alguns ídolos de São Paulo pesariam bastante e teriam presença garantida caso as brigas não os tivessem tirado da disputa. Era o caso, por exemplo, de Arthur Friedenreich, Feitiço e Del Debbio, alguns dos destaques da época. 

Araken, no centro, agachado.
Sem contar que essa polarização também ignorou atletas de outros centros brasileiros que ainda não tinham grande importância no cenário nacional, mas contavam com alguns ótimos jogadores que poderiam ser analisados com mais carinho.

A delegação brasileira embarcou no navio italiano Conte Verde, que trazia as equipes da Bélgica, França e Romênia, as únicas seleções europeias que aceitaram participar da primeira Copa do Mundo. Vale lembrar que o Velho Continente vivia uma forte crise econômica, impulsionada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929. O Conte Verde também trazia Jules Rimet, o primeiro presidente da Fifa, que se descabelou para controlar os jogadores dos diferentes países, que se provocavam e entravam em muitas confusões. Rimet pediu especialmente aos dirigentes da CBD que trancafiassem os atletas brasileiros em suas cabines, os mais baderneiros, para evitar acidentes e incidentes diplomáticos.

A forma de disputa era simples, mas gerou muita controvérsia. As 13 seleções participantes foram divididas em 4 grupos. O grupo A (Argentina, França, Chile e México) seria o único com quatro times. O restante era formado por três equipes cada.

Nas chaves, todos jogavam entre si. O combinado com mais pontos ganhos passaria para à semifinal e os vitoriosos desse embate, à final. O Brasil caiu no grupo B, ao lado de Iugoslávia e Bolívia.

Brasil x Iugoslávia, Copa 1930.
A estreia do Brasil em uma Copa do Mundo foi contra a Iugoslávia – adversário frequente do selecionado tupiniquim em torneios posteriores. E a futura camisa pentacampeã começou sua trajetória com o pé esquerdo naquele 14 de junho: derrota de 2 a 1 para os eslavos, gols de Tirnanic e Bek, ainda no primeiro tempo. O Brasil só descontou na segunda etapa, com Preguinho. Terminado o embate, restava ao Brasil torcer por uma vitória da Bolívia contra a Iugoslávia para ter alguma chance de classificação no último jogo.

Infelizmente, os bolivianos não foram páreo para a equipe balcânica, num 4 a 0 marcado por um fato cômico. O time sul-americano queria ganhar o apoio da torcida uruguaia e resolveu estampar na camisa as letras que formavam a frase Viva Uruguay. 

Porém, na hora de tirar a foto antes do jogo, um atleta que carregava a letra U não estava presente e a mensagem passou de amistosa para provocativa: Viva Urugay. Na última peleja do grupo B, brasileiros e bolivianos entraram no Estádio Centenário já eliminados. O Brasil conseguiu igualar a surra boliviana anterior e meteu quatro, dois de Moderato e dois de Preguinho. Acabava ali, de forma melancólica, a primeira participação do Brasil em Copas do Mundo.

Finalizado o torneio, chegou a hora das desculpas e reações. Em São Paulo, são registrados pontos de festa e comemoração pela derrota da seleção carioca. No Rio, revolta pela alegria paulista e também pela perda considerada surpreendente.

A Folha da Manhã escreveu que o único jogador digno de elogios durante a partida contra a Iugoslávia foi o avançado Araken Patusca que, coincidência ou não, era o representante solitário da terra bandeirante.

Os boleiros que fizeram parte da campanha fracassada de 1930 reclamaram muito do frio de Montevidéu, apontado como o culpado pelo futebol insuficiente. O único craque poupado das críticas foi o centro médio Fausto, uma espécie de volante da época, aclamado por todos como o Maravilha Negra. Mesmo elogiado, não salvou nenhum de seus companheiros. Ao chegar ao Brasil, soltou a bomba: “Nilo fugia da bola. Poly tinha medo até de entrar em campo. Teóphilo jogava no ataque, mas jamais se aproximava da área do gol. E o técnico Píndaro de Carvalho não tomava qualquer providência”.

Fausto, A Maravilha Negra.
Depois da Copa, o então jogador do Vasco transferiu-se para o Barcelona, passou pelo Young Flowers da Suíça e voltou a América do Sul para defender o Nacional do Uruguai em 1934, o Vasco em 1935 e o Flamengo entre 36 e 38. Infelizmente, o primeiro destaque brasileiro em mundiais morreu cedo, aos 34 anos, de tuberculose, no ano de 1939.

Acabada a Copa e superado o trauma, o Brasil entrou em campo logo, no dia 1º de agosto de 1930, dois dias após a final que sagrou o Uruguai como primeiro campeão do mundo. Contra a França, num amistoso nas Laranjeiras, a CBD chamou os craques paulistas e a seleção conseguiu ganhar por 3 a 2, com dois gols de Heitor e um de Friedenreich, atletas do Palestra Itália e São Paulo da Floresta, respectivamente. Estava mais do que provado que a seleção brasileira precisava contar com sua força máxima em torneios que tinham grande impacto mundial.

Claro que o bairrismo não acabou: ele dura até hoje. Mas essa foi a primeira manifestação do que essas brigas sem sentido poderiam trazer de prejuízo para o nosso futebol. A rixa entre paulistas e cariocas, tema incessante dessa primeira busca pelos culpados, teve que ser deixada de lado dentro das quatro linhas depois de 1930. Havia uma coisa mais importante com que se preocupar, o que exigiria o esforço e união de São Paulo e Rio de Janeiro pelo bem do esporte nacional e por uma campanha menos vexatória na Copa do Mundo de 1934: a profissionalização do futebol brasileiro.

Sobre o autor:
André Biernath é formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente é repórter da Revista SAÚDE é vital, da Editora Abril. Na publicação, cobre as áreas de medicina, medicina alternativa e maturidade. Também participa de projetos especiais em infografia e redes sociais. "Culpados Futebol Clube" é o primeiro livro do autor na área do jornalismo esportivo.

Serviço:

Um comentário:

  1. http://cazzofutblog.blogspot.com.br/2014/06/novos-tempos-estadunidenses.html

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