segunda-feira, 30 de junho de 2014

E a camisa 10 brilha na Copa

Aqui mesmo, alguns dias atrás, destacamos os mistérios que envolvem a camisa 10, especialmente, durante a disputa de uma Copa do Mundo (http://www.literaturanaarquibancada.com/2014/06/a-magia-da-camisa-10-na-copa.html).

Eram 32 equipes. Vários deles voltaram para casa com o peso e, talvez, a culpa pela derrota. Mas os que continuam na disputa terão a chance de integrar o seleto grupo de “imortais” do futebol mundial. Mesmo os que partiram sem vencer, entrarão para a literatura das copas, para o bem ou para o mal...

O peso da 10
Por André Ribeiro

Se há um momento em que a mística de um 10 empresta à simples mortais poderes inexplicáveis esse momento é quando acontece o maior evento esportivo do planeta, a Copa do Mundo.

Bilhões de torcedores espalhados por todo o planeta sempre terão olhos especiais para o jogador que ousar vestir essa camisa. Usá-la é estar ciente de que terá de carregar, além das responsabilidades tradicionais de uma equipe que representa uma nação, o peso das derrotas. Vencer autênticas batalhas não é o suficiente. Têm que convencer e encantar, tornar-se o homem temido por outros jogadores, outras nações inteiras.

São poucos os que resistiram a essa pressão natural. Pelé ensinou ao mundo que para ser rei não basta talento e genialidade, há também de se contar com a “luz” especial recebida sabe-se lá de onde. Sucumbir ao momento crucial de uma partida em uma Copa é saber que todos os esforços de anos de dedicação podem desaparecer em fração de segundos. Foi o caso, por exemplo, do craque camisa 10 da Itália, Baggio, na Copa de 1994, nos Estados Unidos. Um pênalti perdido, a derrota, o inferno eterno. Ninguém mais se lembraria de que fora ele um dos maiores responsáveis por levar sua seleção até aquela final. Ninguém se lembraria do esforço para se tornar conhecido no futebol, pelo pequeno Vicenza, na série C, do campeonato italiano. Dos gols e jogadas sensacionais pela Fiorentina, Juventus, Milan, Inter de Milão e Brescia. Só mesmo a paciência da fé budista que cultuava para resistir a tantas pressões.

Ser 10 é ter que estar pronto para ser sempre questionado. Nunca será o bastante ser o melhor para estar de bem com os torcedores. Para Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, não bastou ser aclamado o melhor do mundo dois anos seguidos, em 2004 e 2005. Coisa do passado, dizem a crítica e os apaixonados torcedores. A derrota na Copa de 2006 e uma fase de desencanto com o futebol foram suficientes para todo o talento ser questionado. 

Que peso é esse que uma simples camisa trás a um jogador? Raí, craque inquestionável do São Paulo Futebol Clube, campeão mundial interclubes, em 1992 e 1993, sucumbiu à pressão na Copa de 1994. Titular da posição, dono da camisa 10, terminou a competição no banco de reservas, sem o brilho que se espera daqueles que vestem a camisa mais cobiçada e temida do planeta.

Talvez por essa razão, Riquelme, herdeiro da 10 no Boca Juniors e na seleção, do maior ídolo argentino de todos os tempos, Maradona, e no poderoso Barcelona, também não tenha suportado essa pressão quando decidiu sair do clube catalão e aceitar jogar com a 8 pelo Villareal. Deixou a responsabilidade da 10 no “Barça” para o brasileiro Ronaldinho Gaúcho e se foi.  Coincidência ou não, sem o “peso” da 10, Riquelme foi um dos principais responsáveis por levar o desconhecido clube espanhol às semifinais da Copa da Uefa, em 2003 e à surpreendente terceira colocação da concorrida Liga Espanhola nesse mesmo ano. Pela seleção, inexplicavelmente, Riquelme jamais conseguiu suportar a pressão natural exercida sobre qualquer 10 argentino, mesmo que todos admitam que ele transformava a arte de jogar futebol em espetáculo.

Um brasileiro franzino e muito parecido fisicamente com o rei do futebol, Pelé, também viveu essa sina. Robinho com seus dribles desconcertantes e pedaladas, encantou desde cedo qualquer um que o visse jogar, até mesmo Pelé ficou boquiaberto quando o viu pela primeira vez nos campos de treinamento do Santos. Com a benção do rei e atuações espetaculares, Robinho foi alçado em poucos dias à condição de craque. Enquanto esteve com a camisa 7, no Santos, Robinho parecia flutuar pelo campo, enquanto outro menino, Diego, camisa 10 da equipe praiana, carregava a responsabilidade de herdeiro da camisa do rei Pelé. Bastou Robinho ser negociado com o poderoso Real Madrid, em 2005, para ter tratamento de rei. Teve recepção de astro pela torcida, mas até aquele instante ninguém sabia ainda com qual camisa jogaria pelo novo clube. O mistério foi desfeito quando nada menos que Alfredo Di Stéfano, um mito do futebol mundial, e presidente de honra do tradicional clube espanhol, entregou a ele a camisa 10 que um dia lhe pertenceu. Tudo parece ter mudado daquele momento em diante. Seria simplesmente o “peso” de uma camisa? Seria status demais para um jovem suportar? O fato é que com a 10, na Europa, no Real ou no Manchester, Robinho nunca mais foi o mesmo garoto atrevido da Vila Belmiro. Precisou retornar às origens para resgatar um sonho, como se tivesse que reaprender a jogar o futebol que encantou o mundo. Precisou vestir a 7 novamente para se sentir outra vez o rei da Vila.

Na seleção Robinho chegou a usar a camisa 10 que um dia pertenceu a Pelé, mas também com a “amarelinha” nunca se tornou seu legítimo representante. Essa dura missão foi confiada a outro talento brasileiro que nunca teve a 10 como seu “amuleto”, Kaká. No início de carreira, pelo São Paulo, vestiu camisas com numerações esquisitas, 30, 33, 8, mas nunca a 10 que um dia fora de craques consagrados como Raí, Pedro Rocha e Gerson. No caminho que todos fazem quando partem rumo à Europa, foi para o Milan e se consagrou com a camisa 22. Negociado com o Real Madrid, da Espanha, em transação milionária, recebeu a camisa 8 de presente. Na seleção brasileira, já jogou com a 7, com a 23, mas, na Copa de 2010, na África do Sul, Kaká enfrentou o destino que muitos outros tiveram. Do céu ao inferno, a eliminação contra a Holanda praticamente “sepultou” mais um talentoso jogador que ousou vestir a 10 em um Mundial.

A cada Copa, o mundo inteiro volta os olhos para uma única camisa. São vários os camisas 10 em campo, a expectativa de vê-los é capaz de atrair milhares de torcedores aos estádios e bilhões espalhados pelo mundo, na frente de uma televisão, de  um rádio ou pela internet. Como se diz na gíria futebolística, a “bola da vez”, não é apenas um, mas alguns...No momento em que esse texto é escrito e publicado, quando as oitavas de final ainda não se encerraram, a camisa 10 de quase todos os países envolvidos brilhou.

Neymar, pelo Brasil, nos gols, dribles e pênalti decisivo contra o Chile; Messi, pela Argentina, em todos os jogos disputados; Benzema, pela França, Sneijder, da Holanda e seu gol salvador contra o México...Mas o grande nome, independentemente de conseguirem ir adiante, já que enfrentará o Brasil, é James Rodriguez, da Colômbia. Ele já entrou para a história dos craques mundiais, mesmo hoje, atuando por uma equipe mediana do futebol mundial, o Mônaco, da França. Com certeza, aos 22 anos, após as grandes exibições e, especialmente, o gol de placa marcado no Maracanã, contra o Uruguai, James já deve ter propostas das maiores potências do futebol.

Neymar seguirá em frente e se tornará o novo “imortal”? Messi conseguirá, finalmente, ganhar um título para a Argentina e ganhar definitivamente o coração dos torcedores argentinos, que sempre desconfiaram de suas atuações pela seleção?

Os “deuses” dos estádios guardam segredos desses homens que só ao final da Copa saberemos quem poderá entrar para a galeria dos “imortais”. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Preguinho - O superatleta


O primeiro camisa 10 e autor do primeiro gol da seleção brasileira em Copas do Mundo. João Coelho Netto, conhecido no esporte como “Preguinho”, ganha, finalmente, uma merecida biografia.

A vida desse verdadeiro superatleta não se restringe apenas ao mundo do futebol. Conquistou quase 70 títulos e 380 medalhas, nas diversas modalidades esportivas que participou, entre elas, natação, polo aquático, remo, salto de trampolim, atletismo, basquete, voleibol e hóquei sobre patins. E não foram apenas títulos locais ou nacionais.

Preguinho – Confissões de um gigante” foi escrito e publicado por Waldyr Barboza Jr, filho do jornalista Waldyr Barbosa, e por Waléria Barboza. Um documento raro que entra para a história da literatura esportiva.

Sinopse: (do Editor e autor):

"Preguinho – Confissões de um gigante", trata da vida e obra de João Coelho Netto, mais conhecido como Preguinho, maior atleta brasileiro de todos os tempos, que fez história pelo Fluminense Football Club, sétimo artilheiro, segundo cestinha, campeão em oito modalidades diferentes, autor do primeiro gol brasileiro em Copas do Mundo de futebol e primeiro capitão pelo Brasil em Copas (1930 - Uruguai).

O livro conta suas histórias de infância e fatos inusitados, através de depoimentos inéditos narrados ao jornalista Waldir Barbosa, meu pai, que também é homenageado 'in memoriam', além de conter estatísticas de todos os jogos e gols marcados por Preguinho pelo Fluminense Football Club, em uma obra que resgata a figura única e inigualável de um atleta que se negou a receber para jogar por seu time de coração.

Literatura na Arquibancada agradece aos autores pela cessão de um dos capítulos da obra.

A trajetória

Certa ocasião no ano de 1928, numa tarde de maio, o Fluminense ia enfrentar o Flamengo no campo da Rua Paysandú; dias antes, porém, todos os jogadores do clube haviam recebido telegramas, mais ou menos com o seguinte texto:

“Preguinho, és um sopa pt amanhã não farás gol pt ass Amado pt”

Quem assinava era Amado Benigno, arqueiro do Flamengo, um dos mais importantes da história do rubro-negro; tanto este telegrama, como de seus companheiros, foram colados num quadro na sede do clube, e Preguinho, falando ao jornalista Aloísio Fonseca, amigo e redator de esportes do “Rio Esportivo”, respondera em tom de brincadeira que faria não um, mas dois naquela tarde de Fla-Flu.

No dia do jogo, o periódico colocava na manchete:

“Preguinho disse que fará dois gols em Amado, goleiro do Flamengo”

“O pior aconteceu depois”, revelou Preguinho: “Quando entrei em campo, levei a maior vaia da minha vida, sabia que o que dissera foi brincadeira, mas naquela hora não adiantava defesa alguma”, suspirou; “Começou o jogo, e aos quarenta segundos, tive a felicidade de tomar a bola de Amado e marcar o primeiro gol; dez minutos depois fiz o segundo, um dos mais bonitos de minha carreira, uma virada de fora da área. No final, vencemos de 4 a 1...”
Algum tempo após o jogo, um jornalista lhe perguntou:
- Satisfeito, Preguinho?
Preguinho respondeu:
- Qual nada! Nem aceitei as homenagens dos associados do clube. Tomei uma condução e fui parar no Café Rio Branco, quartel-general do Flamengo, lá encontrei o Amado e expliquei-lhe tudo.
“Sabia que você, Prego, não diria aquilo”, foi o que falou o arqueiro rubro-negro. Até hoje a autoria do bilhete é desconhecida, provável artimanha de um dirigente do próprio Fluminense para inflamar os jogadores.

Como veem, o profético artilheiro do Fluminense não ficou satisfeito enquanto não desfez o mal-entendido com o colega adversário, somente dentro de campo Preguinho corria obstinado conduzindo a bola à meta oposta, dividindo sempre com seus companheiros as vitórias.

Preguinho nunca foi profissional na acepção do termo, apesar de ter jogado no começo do profissionalismo, ao lado de grandes jogadores como Romeu e Fausto. Humilde como era, confessou que certa vez, em outro Fla-Flu, chorou após um gol perdido debaixo da trave adversária: “Palavra, tive uma crise de choro, que até hoje dói no peito...”

Na época em que Preguinho brilhou no Fluminense, o time dos sonhos contava com a seguinte formação: Batalha, Paulo e Py; Nascimento, Floriano - conhecido como o “Marechal da vitória” - e Fortes; Ripper, Lagarto, Alfredo, Milton e Preguinho. Dentre as figuras que Preguinho faz questão de lembrar também está Del Debbio, zagueiro que defendia o Corinthians na época: “Devo muito a Del Debbio por seu protesto a minha não convocação para a Copa do Mundo de 1930, sem ele não teria integrado o escrete e demonstrado meu futebol, e ele sabe que não sou esquecido nem ingrato; devo muito também a meus amigos Irineu Ramos Gomes, Fred Braune, Luís Vinhaes e Carlito Rocha, que sempre me incentivaram, dando-me apoio e encorajando-me a todo instante.”

Falar de tantas partidas e gols importantes era para Preguinho uma volta salutar aos dias de glória, porém, não identifiquei nenhuma vez em seu semblante ou no tom em que falava um único sinal de presunção ou falta de modéstia, havia sempre respeito pelos adversários, admiração pelos que vira jogar ao seu lado e do lado contrário do campo, e Preguinho aprendera tanto ou mais do que certamente ensinara. Sobre seu gol mais importante, não sabia apontar um que pudesse sê-lo, mas o mais bonito, ou melhor, o que lhe dera mais satisfação ao ver que o concluíra, havia sido feito no campo do Botafogo, diante de uma multidão de espectadores: a vítima foi Aymoré Moreira, goleiro dos mais respeitados e futuro técnico campeão mundial de 1962, que jogava no América; entrevistado alguns dias antes da peleja, o goleiro disse que quem tomasse um gol de fora da área era um frangueiro. 

Pois bem, na véspera da partida, telefonaram para Preguinho e perguntaram o que achava da entrevista de Aymoré, e se ele, Prego, poderia fazer um gol naquela tarde. Preguinho respondeu que dependeria da oportunidade e da sorte no dia, que poderia fazer ou não, e a sorte, ou a competência, sejamos francos, estava mais uma vez ao lado do jogador, e aos três minutos do primeiro tempo Aymoré bateu um tiro de meta, a bola fez uma parábola e encontrou Preguinho no meio de campo, o atleta dominou a bola no peito e sem deixar cair chutou em direção à meta adversária, fazendo o gol que o Rei Pelé queria ter marcado.


Perguntado uma vez sobre o significado das vaias, Preguinho respondeu: “Quando o jogador não está preparado cria um estado negativo, dificilmente se reencontrando no gramado, suas reações passam a não ter o reflexo ideal e o rendimento cai, sua produção diminui circunstancialmente, acho que não preciso dizer mais nada. No primeiro Campeonato do Mundo de futebol, em Montevidéu, aconteceu um fato interessante: meus companheiros, menos Fausto, ficaram intranquilos, com medo do adversário, pois os iugoslavos eram gigantes, e a cada vaia da torcida diante de uma jogada imprecisa, nossos companheiros de time ficavam mais nervosos e erravam passes sucessivos; aí tivemos Fausto e eu que recorrer aos ensinamentos que acumulamos durante anos de futebol, tentando manter a calma e o autocontrole; se tivéssemos tido mais fleuma, mais arrojo e indiferença às vaias em alguns lances capitais da partida, era bem possível, bem possível mesmo, que tivéssemos ganhado; a verdade é que mesmo em um jogo aqui no Brasil, numa decisão de um campeonato clássico, seja estadual ou brasileiro, até o Rei Pelé foi vaiado e se perdeu emocionalmente, para muitos a vaia é uma espécie de artifício do antiesporte.”

Após breve pausa para um gole d’água, Preguinho continuou: “Não comungo da opinião de alguns cronistas que defendem que a vaia representa o repúdio ao jogador em campo, acho que a torcida goza do direito de apupar o jogador, é um direito consolidado, é uma constante em todo o mundo, pode levá-la um atacante, um zagueiro ou até o arqueiro, diante de um erro ou de uma falha clamorosa, mas acaba ficando para toda a vida, principalmente numa decisão de campeonato, e fique certo de que interfere de maneira direta no estado emocional do jogador que não está preparado para ela, em qualquer modalidade que pratique. Para ilustrar o que digo, relembro outro caso ocorrido em Montevidéu, com Fausto: quando pedi a ele que fosse à frente da zaga adversária me ajudar, ele me lembrou que era o único negro da seleção brasileira, e diante do forte preconceito na época, concordei que seria cruel exigir dele tamanho esforço, sujeitando-o a tal humilhação, que certamente seria representada por um coro de vaias.”

Indaguei a Preguinho no meio de nossa conversa se havia alguma mágoa ou tristeza que o esporte tivesse deixado, e ele serenamente respondeu: “Não posso me queixar da vida, Barbosa, pois ela me deu muitas alegrias”. Perguntei a ele se nem a morte precoce do irmão querido o fizera pensar por um momento em parar, e ele lucidamente reiterou: “Nada disso, foi um acidente do esporte. Nada mais.”

A modéstia quase infantil, peculiar a Preguinho, não deixou que ele continuasse, mas o notável atleta conquistou aproximadamente setenta títulos e 380 medalhas, em todos os desportos de que participou, e dentre estes, destacam-se os conquistados na natação, pelo Guanabara, onde foi campeão carioca, brasileiro e sul-americano, nos 200 e 1.500 metros livre (a propósito, em 1922, Preguinho sagrou-se campeão continental em piscina improvisada armada na Praia da Urca, quando do centenário da Independência), no polo aquático participou da conquista de diversos campeonatos, tendo inclusive enfrentado e vencido os belgas que na época eram os vice-campeões do mundo; no remo, como patrão, participou de vários campeonatos desde 1921; no salto de trampolim venceu com muito respeito seu velho mestre Oswaldo Gomes, que foi famoso como centromédio, oito vezes campeão carioca pelo Fluminense, companheiro de seu irmão Mano e autor do primeiro gol da seleção brasileira de futebol, em um amistoso contra a equipe do Exeter CityFootball Club, em 1914; no atletismo, destacam-se um campeonato carioca conquistado em 1925, na prova de 1.500 metros; no basquete foi cinco vezes campeão carioca e duas vezes brasileiro, sempre pelo Fluminense; no voleibol, foi campeão em dois torneios-início e vice-campeão carioca em quatro ocasiões, e no hóquei sobre patins participou do selecionado brasileiro.

No futebol, sua maior paixão, jogou no infantil, no terceiro, segundo e primeiro quadros, sendo campeão duas vezes; como adulto, participou da conquista de dez torneios e campeonatos, jogando sempre no ataque. Foi o primeiro camisa 10, capitão e artilheiro da seleção nacional, marcando ao todo nove gols, inclusive o primeiro do Brasil em campeonatos mundiais; foi autor também do centésimo gol do futebol brasileiro. Para completar, Preguinho destacou-se também no escotismo, tendo uma respeitosa folha de prestação de serviços.

Depois de um longo suspiro, Preguinho voltou ainda mais no tempo, à época de criança, quando a sede de seu clube era em sua casa: “Comecei no Sport Club Curupaity, mas nasci no Fluminense, são reminiscências impossíveis de esquecer, pois hoje onde é a piscina do Fluminense era uma parte da rua na qual nasci; a minha vida esportiva começou como uma coisa que parece incrível, eu fui benemérito de um clube com cinco anos de idade, os meus irmãos mais velhos quiseram organizar um clube e havia um campo abandonado, e como eu era muito esperto eles me pediram para falar com um homem que tomava conta do lugar; ele achou muita graça e permitiu, aí os mais velhos fundaram o Clube Athlético Guanabara. O campo, era aquele da Rua Paysandú; o clube foi adiante, ganhou o campeonato da segunda divisão, mas eu acabei ficando em segundo plano, por que era muito pequeno; isso foi em 1912. No momento em que foram distribuir os primeiros títulos de sócio aos que tinham suado a camisa pelo clube, Mano, um dos meus irmãos, se levantou e disse que se não houvesse um campo, não haveria clube, e me indicou para ser o primeiro benemérito, pois afinal eu que havia arrumado; mais tarde, porém, o Flamengo, podendo pagar mais, acabou ficando com o campo; os jogadores do Guanabara se dividiram então entre dois clubes, Botafogo e Fluminense, o primeiro ficou apenas com um, o Tangerina; Batista, Guimarães, Zezé, Laís, Mano e Fortes foram para o Fluminense, isso aconteceu em 1915. Nós, os menores, continuávamos sem ter vez, mas tínhamos como bom amigo um ex-jogador, que havia perdido uma das mãos em um acidente, era o Euclides Joaquim da Silva, o célebre Cuca, que apaixonado por futebol, resolveu fundar um clube infantil e ficou sendo o técnico, aí surgiu o mais célebre clube em matéria de revelações do futebol brasileiro, o Curupaity, que não perdia pra ninguém. Nele surgiram Nilo Murtinho Braga, que jogou depois no Fluminense e no Botafogo, Chiquinho Figueiredo, que junto com Nilo participou anos mais tarde do escrete nacional, Agostinho, centroavante do América, Alberto Araújo, mais tarde goleiro do Fluminense, Joel Roxo, Seabra e Dino, que formaram uma linha média no Flamengo que ficou famosa, e tantos outros... Eu entrei no Fluminense em 16, junto com meu irmão Paulo e com Chiquinho e Nilo, que não estreou no Botafogo, como se diz, ele estreou no Fluminense, como a gente.”

Nilo, amigo e companheiro de infância de Preguinho, com a camisa do Botafogo.
Nas palavras de Paulo Coelho Netto, irmão de Preguinho, registradas muitos anos depois em seu livro “A História do Fluminense, volume I”, “O Curupaity teve vida curta, mas agitada e vitoriosa. A camisa era vermelha, porque os garotos achavam que aquela cor representava combate e sangue!”

A trajetória de Preguinho é mesmo muito curiosa: seus pais vieram morar no bairro das Laranjeiras em 1903, e receosos de perderem os outros sete filhos dos quatorze que Dona Gaby teve, resolveram contratar um professor italiano para lhes ensinar ginástica, e graças à modalidade, todos encontraram um ponto de equilíbrio, um firme propósito, a decisão e o poder de concentração para suportar as pressões cotidianas. Preguinho, numa entrevista a uma publicação do Fluminense, deu um depoimento em relação a este assunto: “Quando mudamos para perto do clube, meu pai, contemplando o verde que era a moldura das montanhas, achou que teríamos que deixar que a natureza determinasse uma paixão por esse grande sanatório que é o esporte, e falou: ‘Venha aqui Gaby, veja como o sol brilha nas montanhas. A partir de agora as janelas jamais fecharão nesta casa. Esquente o sol, esfrie a chuva, a natureza determinará a forma que a medicina do amor dará aos nossos filhos. Essa é a minha esperança, Gaby’, e o Fluminense passou a ser o prolongamento da nossa casa.” 


Certa vez seus irmãos mais velhos resolveram ir remar, e Preguinho se aborreceu com um deles porque não queria deixar que ele fosse no barco, foi quando ele protestou:
- Se vocês não me levarem, vou nadando sozinho até a Praia do Flamengo!
Eles se encontravam na Urca, e ninguém acreditou que o menino franzino tivesse tal coragem, mas resultado: pulou no mar e nadou até o Morro da Viúva; os irmãos não acreditaram que ele pudesse ir tão longe, mas quando viram que era sério, bateram à porta do Guanabara, que ficava mais perto, e contaram ao Comandante Irineu Ramos Gomes, então presidente do clube, e este imediatamente foi buscá-lo; depois disso, Ramos Gomes resolveu aproveitá-lo como patrão de remo, não havia disputa de provas de natação entre clubes naquela época; sua primeira participação nadando foi em um torneio interno, no Fluminense, onde venceu duas provas de natação e duas de salto, depois disso pediram que não competisse mais com os de sua idade.

Um lance que marcou Preguinho profundamente foi quando soube do falecimento do Comandante Ramos Gomes: “Ele foi um verdadeiro pai esportivo para mim, eu saltava, nadava, fazia qualquer coisa que ele pedisse para defender o clube, paixão da vida dele; naquela época eu fazia curso de línguas e tinha um amigo, um nadador fantástico chamado Armando Ferreira Gomes, que ia me buscar todos os dias para irmos juntos aos treinos; quando ele ganhava, eu era o segundo, e vice-versa; no ano de 1924 Armando tinha sido campeão, e na véspera do campeonato do ano seguinte, em 1925, quando eu ia chegando ao clube, soube que Armando havia morrido; fiquei desesperado, então o Comandante Irineu me pediu que defendesse o título do Armando em homenagem ao grande nadador guanabarino. Eu apertei a mão do Comandante e lhe disse: ‘Comandante, tudo farei para honrar o nome do companheiro’, e daquele instante em diante, passei a treinar com uma força de vontade tão intensa que já era uma obsessão em minha mente; entrava na água às cinco horas da madrugada e corria em seguida para a Rua do Acre, para pegar no serviço na Casa Mayrink Veiga; era um esforço extremo, porém, nada me abalava, tinha um compromisso de honra e não fugiria da responsabilidade por nada neste mundo. No dia da prova, 19 de abril, cheguei e não falei com ninguém até o início dela, sagrei-me campeão dos 600 metros e meu querido amigo Armando continuou como campeão da prova.” 


Em 1916 foi campeão de futebol infantil pelo Fluminense e de polo aquático pelo Guanabara, seu primeiro título de campeão de terra e mar veio quando tinha onze anos, após isso aconteceram outras coisas muito interessantes em sua carreira de atleta: no Tricolor iniciou no futebol, mas depois de um período em que julgou não estar sendo muito utilizado, começou a namorar o basquete: “Joguei dez minutos, marquei 48 pontos na partida e fui logo convocado para o escrete.”

Preguinho, com dezessete anos, já havia sido campeão carioca de natação, mas não pensem que levava uma boa vida, dedicada ao esporte somente: “Com dezenove já trabalhava como estoquista na Casa Mayrink Veiga, entrava às sete da manhã e largava às sete da noite; treinava natação às cinco da manhã!”

Preguinho praticou por mero acaso alguns esportes: em uma prova de atletismo, por exemplo, faltou um atleta e ele foi preencher a vaga, conclusão: foi campeão nos 1.500 metros! É bem provável que se tivesse continuado teria se transformado em um grande fundista. Obteve títulos que só foi descobrir mais tarde, por praticar de forma quase inocente as modalidades pelas quais se encantava, não ligava para a fama, queria simplesmente participar e sair vitorioso, por que o corpo tinha muita energia e era preciso aproveitá-la, mas a tendência da época era a profissionalização; ele mesmo fez questão de ressaltar: “Quando entrei para o Fluminense sabia que não ia fazer feio por que sempre tive muita força de vontade, basta dizer que em 1925, ano de maior significação em minha vida, fui campeão em muitas modalidades; pois bem, neste mesmo ano, como contei antes, eu trabalhava no Centro, tinha apenas uma hora de almoço, e quando os jornais estamparam em manchetes que eu tinha sido campeão ‘anfíbio’ (natação e futebol), e meus patrões, que até então não sabiam do feito, foram me perguntar como eu conseguia treinar, entrando no trabalho tão cedo e saindo tão tarde! E eu lhes respondi que acordava às quatro e meia da manhã, fazia exercícios até às seis e quarenta e cinco e vinha correndo para o serviço. Um deles mostrou espanto, dizendo: ‘Mas você pode então chegar mais tarde um pouco’, porém, respondi que não aceitava, que tinha de cumprir as regras da casa, que não era direito sobrecarregar os colegas e prejudicar a firma. Meus patrões, todavia, tanto insistiram que me convenceram a aceitar a pequena regalia, na forma de mais uma hora de tolerância na chegada ao trabalho, mas raramente chegava depois do horário estabelecido por achar que não estaria agindo corretamente.”

Preguinho, enquanto relatava isso, lembrou-se de outra passagem interessante: “Uma vez fui convidado para ser comentarista esportivo da Rádio Nacional, quando João Saldanha assumiu a direção, mas como poderia comentar um jogo onde meu Fluminense perdesse, achava que apontando seus erros, criticando os jogadores, estaria de algum modo traindo o meu Tricolor; não aceitei, sou conservador e pelo Fluminense dei a vida e dele recebi muitas alegrias e glórias.” 

Indaguei a Preguinho se havia algo marcante sobre a Copa de 30, e ele, sem hesitar, revelou: “Na Copa do Mundo de 1930 só entrei por acaso, havia uma briga entre cariocas e paulistas, os jogadores paulistanos não se apresentaram para os treinos; como faltavam jogadores, completei o time dos reservas, e nós ganhamos de 9 a 0 (Preguinho por modéstia não revela, mas fez seis destes gols), e aí aconteceu o inesperado: alguns paulistas resolveram se apresentar, e eu ia sobrar, porém, Del Debbio, beque corinthiano de grande prestígio, exigiu minha presença e eu fiquei entre os titulares; quando chegamos a Montevidéu, o ambiente estava muito carregado, havia vários obstáculos contra nós: a torcida, o frio inclemente - seis graus abaixo de zero -, a desorganização de nosso selecionado, a falta até de técnico, pois o Luís Vinhaes não havia conseguido licença em seu emprego, e diante do quadro pitoresco, formou-se uma comissão com Píndaro de Carvalho e Gilberto de Almeida Rêgo no comando do time; o Gilberto parece-me inclusive que foi também como juiz. Fomos para Montevidéu de navio em uma embarcação italiana de nome Conte Verde, em uma viagem que durou quatro dias; no navio não tínhamos espaço nem para fazer exercícios, comíamos muito macarrão e outras especialidades italianas, mas todo brasileiro gosta mesmo é de carne bovina, e quando chegamos lá estávamos meio gordos e fora de forma, mesmo assim entramos para ganhar, e teríamos ganhado se não tivesse havido uma série de indecisões sobre a escalação de alguns companheiros; somente Fausto e eu aguentamos o tranco enfrentando os gigantes iugoslavos, que praticavam um sistema de futebol-força. Perdemos para eles de 1 a 2, e eu fiz o gol brasileiro; contra a Bolívia ganhamos de 4 a 0, fiz dois para o Brasil. Não sou saudosista, mas no meu tempo havia jogadores geniais como Amado, Élcio, Paiva, Agostinho, Lêonidas, Romeu, Heleno, Fausto, Petronilho, Tim, Carreiro, Domingos da Guia e tantos outros, comparáveis aos grandes craques da atualidade, como Pelé, Garrincha, Tostão, Gérson, Nílton Santos, Vavá, Julinho, Ademir e Zizinho.”

Nosso craque certa vez, no auge da carreira, em 1934, teve o assédio de Botafogo e América, interessados em ter o atleta em seus quadros profissionais; Preguinho não aceitou o convite e sobre isso declarou ao Jornal “O Globo”: “Posso dizer que dei meus primeiros passos no Fluminense, muito antes de construírem o “stadium”, quando havia a cancha somente. Cresci e vi o Fluminense crescendo, nunca vesti outra camisa, nunca defendi outra agremiação no futebol. Já não sou o que se chama um jogador moço; (...) acho-me de tal forma ligado ao Fluminense que não posso pensar em abandoná-lo e muito menos por outro club carioca. Liguei ao nome do Fluminense toda a minha história, a minha mocidade, e quero dar-lhe o que tenho ainda diante de mim.” 

Aproveito o momento nostálgico e tento obter de Preguinho uma interessante revelação sobre a verdadeira origem de seu apelido: “Bem, prefiro aceitar o apelido como a imprensa toda conhece, por que na realidade o termo Preguinho tem outro motivo, mas não autorizo ninguém a publicar, nem mesmo você, Barbosa; não posso contar nem aos amigos íntimos, mas isso afinal não vale muito, o que importa é que o apelido não foi esquecido, e tenho muito orgulho dele.”

Preguinho encerrou oficialmente sua carreira em 21 de junho de 1939, disputando pelo Fluminense um amistoso contra a Seleção Niterói, do então estado da Guanabara, no estádio Byron, casa do adversário, e ao fazer seu último tento nesta partida, declarou: “Com este gol encerro minha carreira no futebol, e penduro as chuteiras para a posteridade.”

Diante de uma carreira tão vitoriosa, nada mais justo que o reconhecimento se desse em nível nacional, e em 07 de maio de 1970, ano da conquista do tricampeonato mundial, no México, Preguinho foi considerado o atleta número 1 do Brasil, homenagem que o estado da Guanabara quis igualar, presenteando em 1973 o atleta com o título de “Cidadão Benemérito do Estado da Guanabara”, em projeto do vereador Ítalo Bruno, “Pelo muito que já fez em prol do nosso Estado.”

Sobre os autores:
Waldyr e Waléria Barboza são gestores de negócios imobiliários, esse é seu primeiro livro publicado, homenagem iniciada por seu pai, o jornalista Waldir Barbosa, a um dos mais emblemáticos ídolos do Fluminense Footbal Club; já tem prontos um livro de contos, relacionados ao futebol, e um romance de suspense, aguardando editora.

Serviço: para adquirir a obra, contatar o autor pelo e-mail fluliterario@gmail.com  ou WhatApp:55 21 98254-1847


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Culpados Futebol Clube

Uma grande sacada. Assim pode ser definido o livro do jovem autor André Biernath, “Culpados Futebol Clube - A história dos jogadores, técnicos e juízes responsabilizados pelas derrotas brasileiras em Copas do Mundo (1930 - 2010)” (Clube de Autores).

Se o Brasil é pentacampeão do mundo, há também 14 Copas perdidas. E no país onde ser vice representa quase nada (e para a maioria, nada mesmo), perder e deixar a competição precocemente, como aconteceu na Copa de 1934, quando disputou apenas um jogo ou, ainda, perder “jogando bonito”, como na Copa de 1982, significa ficar marcado para sempre, de forma negativa, na história do futebol.

O autor foi bem mais fundo na questão. Revisitou todas as derrotas e constatou como torcedores e a imprensa esportiva são cruéis quando o resultado não é o título mundial.

Sinopse (da Editora)

Barbosa, Dunga, Telê Santana, Roberto Carlos... Sempre que o Brasil é eliminado de uma Copa do Mundo, já sabemos o que vem pela frente: está aberta a temporada de caça ao culpado! As explicações para a derrota passam pelas desculpas certeiras até os mais esdrúxulos delírios de torcedor apaixonado. Mas uma coisa é certa: muitos técnicos, jogadores e árbitros ficaram marcados por erros que nem sempre cometeram. O livro resgata a história desses sujeitos que participaram da Copa com a melhor das intenções e, ao final do torneio, tiveram que carregar o ônus da derrota de uma nação inteira. O que aconteceu com as carreiras dessas pessoas? Os atletas conseguiram se recuperar de tantas críticas? Culpados F.C. é uma viagem pela riqueza do futebol brasileiro. Desbrave as agruras da derrota e entenda por que foram elas que nos levaram ao pentacampeonato mundial.

Literatura na Arquibancada agradece ao autor pela cessão do primeiro capítulo da obra, que você pode ler abaixo.

1930
Bairrismo acaba com Brasil na I Copa do Mundo

Feitiço
Os moradores do Rio de Janeiro, a então capital brasileira, acordaram com grande expectativa naquele domingo, dia 13 de novembro de 1927. Chegava a hora de descobrir quem ficaria em primeiro lugar no Campeonato Brasileiro de Seleções. A final prometia: de um lado, os cariocas, donos da casa, apresentavam um futebol forte, considerado o melhor do país. De outro, os paulistas, representando a pujança do esporte bretão fora do centro econômico e político da época. Naquela tarde, o estádio de São Januário reuniu 60 mil aficionados que esperavam por uma bela exibição dos dois quadros poderosos.

O 1 a 1 teimava no placar, com gols de Osvaldo, pelo Distrito Federal, e Feitiço, para os bandeirantes. Quando faltavam apenas 15 minutos para o fim do embate, o árbitro Ary Amarante marcou um pênalti para os cariocas. O estádio quase veio abaixo com tantas expressões de alegria que o público emanava. No gramado, os 11 paulistas e a comissão técnica dos visitantes eram os únicos que demonstravam sentimento oposto: a revolta era grande. O capitão Feitiço, um dos melhores jogadores da época, liderou a retirada de seus comandados de campo, como forma de protesto pela marcação da penalidade máxima. A atitude dos paulistas revoltou e surpreendeu os espectadores e gerou reações das mais variadas. A mais importante delas veio das tribunas de honra: o presidente Washington Luís exigiu que os atletas paulistas voltassem a campo para terminar a peleja. Quando um emissário presidencial transmitiu o recado, a resposta do capitão Feitiço foi rápida e contundente: “Lá em cima manda o presidente. Aqui embaixo mando eu”.

O exemplo acima é só um de muitos casos de brigas e picuinhas entre paulistas e cariocas no começo do século XX. A rivalidade passava pelos mais diversos patamares da sociedade, envolvendo política, imprensa e população. Essa rixa tem origem na formação das duas cidades. O Rio de Janeiro foi a capital do Brasil entre 1763 e 1960 e, por isso mesmo, o centro econômico, político, social e artístico. Enquanto isso, São Paulo, do colégio dos jesuítas, foi utilizada como um entreposto para os bandeirantes que adentravam e descobriam as riquezas da desconhecida América do Sul. Ignorada por séculos, a cidade pobre e inacessível cresceu e ganhou cada vez mais poder. Nas décadas de 1920 e 1930, já era importante por abrigar imigrantes europeus e asiáticos, que chegavam para as lavouras de café, e os grandes donos de terras que seriam o dínamo da nova metrópole.

A rivalidade envolvia o futebol até o pescoço. O esporte paixão do brasileiro entrou timidamente no país, num dia 18 de fevereiro de 1894, quando Charles Miller desembarcou no porto de Santos trazendo consigo duas pelotas utilizadas no esporte.

Ele objetivava ensinar seus companheiros a prática que aprendera em terras britânicas.

36 anos depois, alguns dirigentes, com destaque para o francês Jules Rimet, presidente da Federação Francesa de Futebol, resolveram se unir e organizar um torneio mundial, independente das Olimpíadas. A ideia era reunir os melhores jogadores, técnicos e países do globo para disputar uma taça e o título de campeão.

A primeira Copa do Mundo aconteceu em 1930, no Uruguai. O Brasil, que já tinha um futebol minimamente organizado por federações e clubes, participou da disputa pela taça. A Confederação Brasileira de Desportos, a CBD, era a interlocutora direta da Fifa no Brasil e começou a articular a equipe que defenderia as pretensões nacionais na província de Cisplatina. Apesar de não ter um time comparável ao de argentinos e uruguaios, que fariam a final daquele ano, o Brasil poderia ter sido mais bem representado se tivesse levado a sua força máxima. E isso foi impossível justamente por conta da rivalidade entre paulistas e cariocas.

O disse-me-disse começou na imprensa, quando jornais dos dois estados pediam mais jogadores que os representassem. Mas tudo esquentou mesmo quando a Apea, a Associação Paulista de Esportes Atléticos, representante oficial dos times de São Paulo, requereu, junto à CBD, que alguns dirigentes paulistas fossem mandados a Montevidéu com a delegação. A CBD convocou 15 jogadores de São Paulo de 5 clubes diferentes (Corinthians, Palestra Itália, Santos, São Paulo da Floresta e Sírio), mas ignorou o pedido de inclusão dos cartolas. A entidade máxima do futebol brasileiro tinha até 12 de junho para mandar um ofício à Fifa com a equipe tupiniquim. Como a Apea ainda não tinha se pronunciado, a CBD enviou, então, uma lista que continha apenas os jogadores cariocas.

A guerra estava armada: a Apea se dizia injustiçada pela CBD, enquanto esta acusava a instância paulista e seus representantes de impatrióticos. Quando o fato virou manchete de jornal, o conflito atingiu proporções ainda maiores. A troca de acusações ficou muito forte e Folha da Manhã, uma das principais publicações de São Paulo, e Jornal do Brasil, mais favorável ao Rio de Janeiro, se atacavam, reproduzindo e desmentindo trechos um do outro. Essa novela, cheia de dramalhões e reviravoltas, foi estampada nas páginas da editoria de esportes por quase um mês. Ao reproduzir trechos de diários cariocas, a Folha comentou que as palavras impressas ali só poderiam ser “oriundas de cérebros doentios”. Na cidade maravilhosa, o JB destacava: “Brilhante e Itália mostraram ser a melhor parelha de backs que ora atua nos campos brasileiros. [...] Está assim provado de modo irretorquível que temos toda a razão quando afirmamos que, na pior das hipóteses, o scratch que fosse aqui agora formado seria, quando muito, igual ao se constituísse com elementos de S. Paulo.” (Jornal do Brasil de 18 de julho de 1930)

Para provocar e mostrar o poderio do time paulista, a imprensa local reproduziu em letras garrafais um amistoso que aconteceria entre alguns times e o Hakoah All Stars de Nova York. A Folha da Manhã descreveu assim o combinado paulista: “Essa é a primeira vez que jogará o selecionado integrado dos melhores jogadores. A linha é formada por cinco formidáveis atacantes mestres, a linha média está constituída por três grandes jogadores, os melhores que se encontram presentemente em S. Paulo. O trio final é o que deveria seguir para Montevideo, se o concurso dos paulistas não fosse posto de lado pela entidade brasileira.” (Folha de São Paulo, 19 de junho de 1930).

Depois de todo esse imbróglio e de acusações variadas por parte dos dirigentes e também dos meios de comunicação, o Brasil embarcou para o Uruguai com uma seleção de jogadores oriundos somente dos times do Rio de Janeiro. Enquanto a CBD não queria um dirigente de São Paulo na comissão técnica, a Apea não liberaria os jogadores do estado. O único paulista a integrar a equipe de 30 foi Araken Patusca, que estava brigado com o Santos, seu clube, e assinou um contrato com o Flamengo para zarpar a Montevidéu. Na primeira Copa do Mundo, o Brasil foi representado por atletas do América-RJ, Fluminense, Vasco, São Cristóvão, Ypiranga-RJ, Botafogo, Flamengo, Americano e Goytacaz, todos times da capital.

A ausência de paulistas na delegação enfraqueceu e diminuiu ainda mais as chances de título do Brasil. Alguns ídolos de São Paulo pesariam bastante e teriam presença garantida caso as brigas não os tivessem tirado da disputa. Era o caso, por exemplo, de Arthur Friedenreich, Feitiço e Del Debbio, alguns dos destaques da época. 

Araken, no centro, agachado.
Sem contar que essa polarização também ignorou atletas de outros centros brasileiros que ainda não tinham grande importância no cenário nacional, mas contavam com alguns ótimos jogadores que poderiam ser analisados com mais carinho.

A delegação brasileira embarcou no navio italiano Conte Verde, que trazia as equipes da Bélgica, França e Romênia, as únicas seleções europeias que aceitaram participar da primeira Copa do Mundo. Vale lembrar que o Velho Continente vivia uma forte crise econômica, impulsionada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929. O Conte Verde também trazia Jules Rimet, o primeiro presidente da Fifa, que se descabelou para controlar os jogadores dos diferentes países, que se provocavam e entravam em muitas confusões. Rimet pediu especialmente aos dirigentes da CBD que trancafiassem os atletas brasileiros em suas cabines, os mais baderneiros, para evitar acidentes e incidentes diplomáticos.

A forma de disputa era simples, mas gerou muita controvérsia. As 13 seleções participantes foram divididas em 4 grupos. O grupo A (Argentina, França, Chile e México) seria o único com quatro times. O restante era formado por três equipes cada.

Nas chaves, todos jogavam entre si. O combinado com mais pontos ganhos passaria para à semifinal e os vitoriosos desse embate, à final. O Brasil caiu no grupo B, ao lado de Iugoslávia e Bolívia.

Brasil x Iugoslávia, Copa 1930.
A estreia do Brasil em uma Copa do Mundo foi contra a Iugoslávia – adversário frequente do selecionado tupiniquim em torneios posteriores. E a futura camisa pentacampeã começou sua trajetória com o pé esquerdo naquele 14 de junho: derrota de 2 a 1 para os eslavos, gols de Tirnanic e Bek, ainda no primeiro tempo. O Brasil só descontou na segunda etapa, com Preguinho. Terminado o embate, restava ao Brasil torcer por uma vitória da Bolívia contra a Iugoslávia para ter alguma chance de classificação no último jogo.

Infelizmente, os bolivianos não foram páreo para a equipe balcânica, num 4 a 0 marcado por um fato cômico. O time sul-americano queria ganhar o apoio da torcida uruguaia e resolveu estampar na camisa as letras que formavam a frase Viva Uruguay. 

Porém, na hora de tirar a foto antes do jogo, um atleta que carregava a letra U não estava presente e a mensagem passou de amistosa para provocativa: Viva Urugay. Na última peleja do grupo B, brasileiros e bolivianos entraram no Estádio Centenário já eliminados. O Brasil conseguiu igualar a surra boliviana anterior e meteu quatro, dois de Moderato e dois de Preguinho. Acabava ali, de forma melancólica, a primeira participação do Brasil em Copas do Mundo.

Finalizado o torneio, chegou a hora das desculpas e reações. Em São Paulo, são registrados pontos de festa e comemoração pela derrota da seleção carioca. No Rio, revolta pela alegria paulista e também pela perda considerada surpreendente.

A Folha da Manhã escreveu que o único jogador digno de elogios durante a partida contra a Iugoslávia foi o avançado Araken Patusca que, coincidência ou não, era o representante solitário da terra bandeirante.

Os boleiros que fizeram parte da campanha fracassada de 1930 reclamaram muito do frio de Montevidéu, apontado como o culpado pelo futebol insuficiente. O único craque poupado das críticas foi o centro médio Fausto, uma espécie de volante da época, aclamado por todos como o Maravilha Negra. Mesmo elogiado, não salvou nenhum de seus companheiros. Ao chegar ao Brasil, soltou a bomba: “Nilo fugia da bola. Poly tinha medo até de entrar em campo. Teóphilo jogava no ataque, mas jamais se aproximava da área do gol. E o técnico Píndaro de Carvalho não tomava qualquer providência”.

Fausto, A Maravilha Negra.
Depois da Copa, o então jogador do Vasco transferiu-se para o Barcelona, passou pelo Young Flowers da Suíça e voltou a América do Sul para defender o Nacional do Uruguai em 1934, o Vasco em 1935 e o Flamengo entre 36 e 38. Infelizmente, o primeiro destaque brasileiro em mundiais morreu cedo, aos 34 anos, de tuberculose, no ano de 1939.

Acabada a Copa e superado o trauma, o Brasil entrou em campo logo, no dia 1º de agosto de 1930, dois dias após a final que sagrou o Uruguai como primeiro campeão do mundo. Contra a França, num amistoso nas Laranjeiras, a CBD chamou os craques paulistas e a seleção conseguiu ganhar por 3 a 2, com dois gols de Heitor e um de Friedenreich, atletas do Palestra Itália e São Paulo da Floresta, respectivamente. Estava mais do que provado que a seleção brasileira precisava contar com sua força máxima em torneios que tinham grande impacto mundial.

Claro que o bairrismo não acabou: ele dura até hoje. Mas essa foi a primeira manifestação do que essas brigas sem sentido poderiam trazer de prejuízo para o nosso futebol. A rixa entre paulistas e cariocas, tema incessante dessa primeira busca pelos culpados, teve que ser deixada de lado dentro das quatro linhas depois de 1930. Havia uma coisa mais importante com que se preocupar, o que exigiria o esforço e união de São Paulo e Rio de Janeiro pelo bem do esporte nacional e por uma campanha menos vexatória na Copa do Mundo de 1934: a profissionalização do futebol brasileiro.

Sobre o autor:
André Biernath é formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente é repórter da Revista SAÚDE é vital, da Editora Abril. Na publicação, cobre as áreas de medicina, medicina alternativa e maturidade. Também participa de projetos especiais em infografia e redes sociais. "Culpados Futebol Clube" é o primeiro livro do autor na área do jornalismo esportivo.

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