segunda-feira, 19 de maio de 2014

Pelada Poética

Uma seleção de craques da literatura brasileira volta a “atacar”. É a quarta edição do livro Pelada Poética, organizado pela tradicional livraria e editora Scriptum.  São 26 escritores “escalados” pelos técnicos/organizadores da obra, Mário Alex Rosa e Welbert Belfort, o Betinho. A maioria dos autores é de mineiros, como André di Bernardi, Ana Elisa Ribeiro, Renato Negrão, Kaio Carmona, Carlos Britto de Melo e Chico Alvim, mas alguns também vieram de outros lugares para completar o time, como o pernambucano Fabiano Calixto, e os cariocas Zuca Sardan e Armando Freitas Filho, além do crítico literário Victor da Rosa, que assina a orelha do livro.

Como nas outras edições, a Scriptum elege um homenageado. E neste ano de Copa no Brasil, o escolhido foi o craque Nelinho, ídolo das eternas torcidas rivais de Atlético e Cruzeiro, e autor do gol antológico, na Copa de 1978 vestindo a camisa 2 da seleção brasileira contra a Itália. Logo após a sinopse e texto de apresentação dos autores, Literatura na Arquibancada traz para você o texto sobre Nelinho assinado por Armando Freire.

Um time de primeira. Dos “técnicos” aos “jogadores”.

Sinopse (da Editora):

Pode até não ter Copa, vai saber, mas a Pelada Poética, que chega à sua quarta edição, pode ter certeza que sai do papel. Pelada é assim: faça chuva ou sol, faltando ou sobrando gente, com a bola meio murcha, a chuteira apertada ou o campinho em declive, coisa muito comum nesta cidade que é cheia de montanhas, enfim, nada disso é impedimento. Aliás, em pelada não tem impedimento. Pelada é a instância máxima do futebol amador, ou seja, com o perdão da obviedade, o futebol praticado por aqueles que amam.

Apresentação
Por Mário Alex Rosa e Welbert Belfort

O que é uma pelada poética? Mas, primeiramente, qual é a origem da palavra pelada? Normalmente, fala-se que pelada é um jogo de futebol no qual jogadores amadores, para não dizer peladeiros, jogam uma partida, às vezes, mais de uma, em campos descampados, sem grama mesmo. De fato, são “atletas” sem compromisso, tanto é assim que, após o certame, jogadores e torcedores, rivais ou não, encontram-se em algum boteco para discutirem os melhores e piores lances. A discussão costuma ser calorosa, às vezes, mais que o próprio jogo. São amadores, no sentido mais profundo dessa palavra. Ou seja, amam, descompromissados com a rivalidade, com a vaidade, porque fazem da pelada um encontro de amigos.

A pelada, com todas as suas tensões futebolísticas literárias, é sobretudo fraterna. E é com fraternidade que a Pelada poética chega à sua quarta edição; três Copas, quem diria! E muitos dos peladeiros continuam sendo convocados, outros mudaram de time, outros preferiram ficar na torcida, afinal, jogadores saem, chegam, são vendidos. Entretanto, o jogo tem que continuar, independentemente de os dicionaristas chegarem a um acordo sobre essa palavra (pelada) tantas vezes repetida entre os craques da bola e os da escrita.

Aliás, é a palavra o que mais nos interessa aqui, pois o assunto é uma...Pelada poética, no sentido de os nossos jogadores serem convocados a escreverem um poema, um breve conto ou até mesmo uma reflexão, digamos, mais teórica, como de fato já aconteceu em outras Copas. A escrita é livre, mas o tema é futebol. E, se sair muito das quatro linhas, o jogador poderá ficar na “reserva”, ou, na pior das hipóteses, não ser convocado para a Pelada. Mas podemos dizer que todos cumpriram o desafio e treinaram muito bem para a partida, ainda que alguns tenham chegado já na prorrogação. Afinal, ninguém quer ficar de fora, ainda mais que essa Copa especial é no Brasil, na Savassi, na Livraria Scriptum, local de encontros memoráveis. 

Affonso Ávila
Um deles foi o show literário e futebolístico com que o poeta e ensaísta Affonso Ávila nos brindou em 2010. Quem esteve presente sabe bem do que estamos falando. O poeta, com seus 82 anos, passeou com elegância sobre fatos históricos, literários, anedotas, lance de alguns jogos, escalação de times dos anos 1930, 40, 50..., e, ao final, leu o seu belo poema “Cantiga do Rei Pelé”. Enfim, são momentos vividos, seja na literatura, seja numa partida de futebol, dos quais jamais nos esqueceremos.

Sim, a verdadeira pelada poética estava ali, ao vivo, para todos nós, jogadores, poetas e torcedores. E, se nos permitem dizer, foi uma epifania, daquelas bem raras de acontecer. Talvez porque o sentimento de amizade estava em comunhão entre todos os participantes.

Acreditamos que, depois de 2010, todos os nossos atletas se empenharam com afinco, e, se o resultado não foi aquele de colocar o coração no bico da chuteira, certamente aproximou-o da ponta do lápis, na folha em branco, jogando de cabeça erguida rumo ao sonho, porém sem esquecer a realidade antes e atual do Brasil, como se verá aqui, nos 26 textos altamente titulares.

Nelinho, biografia
Por Armando Freire


Era uma tarde de domingo, mais um clássico entre Atlético e Cruzeiro, Mineirão lotado como de costume naqueles saudosos anos de 1980. Nelinho enfrentava pela primeira vez o seu ex-clube. Lá pelas tantas, jogo nervoso e catimbado, uma falta a favor do Cruzeiro, pelo lado direito do seu ataque, bem a feição para um bom chutador com a perna direita. As torcidas em silêncio, grande expectativa. De repente, assim sem mais, um torcedor, zombeteiro, ousou gritar: “bate Nelinho”. E a torcida atleticana, num coro ensaiado, agora cantando de “galo”, antes vítima por tantos anos, entoou: “Nelinho, Nelinho...”. Dizem que a torcida do Cruzeiro também aderiu ao apelo. Consagração maior?

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Aos 26 de julho de 1950, no bairro Boca do Mato, Rio de Janeiro, nasceu Manoel Rezende de Mattos Cabral, de ascendência paterna e materna portuguesa, que a crônica esportiva mundial consagrou como um dos maiores laterais-direito de todos os tempos, tornando-se famoso como NELINHO, de futebol refinado, com um potente e certeiro chute com a perna direita. Sua trajetória profissional iniciou-se no América do Rio de Janeiro, de onde se transferiu para o Barreirense de Portugal, jogou no Anzoategui na Venezuela, retornando ao Brasil para jogar no Bonsucesso, Remo/PA, em seguida contratado pelo Cruzeiro/MG, onde se consagrou em definitivo, notadamente pela técnica apurada, ofensividade e precisão nas cobranças de faltas. No clube estrelado permaneceu por 9 anos, marcando 105 gols, conquistando 4 estaduais (73/74/75 e 77), 1 Libertadores (1976) e 1 Taça Minas Gerais (1973). 

Nelinho, com a camisa do Grêmio.
Em 1980 foi campeão gaúcho pelo Grêmio e em 1982 se transferiu para o Clube Atlético Mineiro, onde jogou até o ano de 1987, quando encerrou a sua carreira. Pelo Galo, foi campeão estadual em 82/83/85/85/86, tendo marcado nesse período 52 gols. Sempre convocado para defender a seleção brasileira nos anos 70 e 80, participou dos mundiais de 1974 e 1978.

No mundial de 1978, na vitória contra a Itália (2x1), decidindo a terceira colocação, marcou um gol antológico, escolhido entre os mais bonitos de todos os mundiais, exatamente pela potência e precisão do arremate.

Em 1993 teve uma rápida experiência como treinador, comandando o Atlético, e da mesma forma em 1994 comandando o Cruzeiro. Jogador de personalidade forte, sempre foi intransigente na defesa, não apenas de seus direitos, mas também de seus colegas, e por isso goza do respeito e admiração de todos aqueles que com ele conviveram ao longo de sua carreira. Sua atuação não se restringiu aos gramados. Sempre bem articulado, objetivo em suas colocações, de expressão fácil, foi eleito Deputado Estadual/MG, exercendo o mandato no período de 1987 a 1990. 

Nelinho, comentarista da TV Globo.
Mais recentemente, atuou como comentarista esportivo da Rede Globo. É casado há 34 anos com Wanda Bambirra, tem três filhas e um neto. Radicado em Belo Horizonte, não perdeu ao longo desses anos o jeitão carioca, bom de prosa e de “causos”, sempre rodeado de amigos e admiradores. Tornou-se ídolo das duas maiores torcidas de Minas Gerais, o que nos dá a dimensão do seu carisma e profissionalismo, fato incomum em razão da eterna rivalidade entre os dois clubes mineiros.

No ano de realização do mundial em nosso país, certamente uma das referências nacionais é o Nelinho, por tudo quanto ele representa no cenário futebolístico mundial. No festejado romance O Drible, do mineiro Sérgio Rodrigues (Ed. Companhia das Letras), em meio aos acalorados diálogos entre pai e filho, na tormentosa tentativa de reaproximação entre eles, por mais de uma vez Nelinho é lembrado nas reminiscências do personagem Murilo.

Vale o registro de algumas dessas passagens: “...mas a cabeça velocista do velho já estava lá na frente garantindo que o maior chutador de todos os tempos passados e futuros era o fabuloso Nelinho, nenhuma dúvida quanto a isso, e quem dissesse o contrário era um energúmeno de quatro costados”. Mais adiante, “Murilo ponderava que Nelinho tinha uma patada tão violenta que arrebentou as veias do peito do pé direito e teve que fazer uma angioplastia. Jair Rosa Pinto tinha um canhão no pé, Rivelino e Roberto Carlos também, mas outro igual àquele Manoel Rezende de Mattos Cabral nunca houve, nunca mais ia haver”.

Este o Manoel Rezende de Mattos Cabral, o fenomenal Nelinho, que as duas maiores torcidas do futebol mineiro consagraram ídolo, indistintamente, tantas e tamanhas alegrias ele proporcionou a toda uma geração de torcedores desses dois dos mais importantes e tradicionais clubes do futebol brasileiro.

Sobre os organizadores:
Mário Alex Rosa (São João del Rei-MG, 14/01/1966). Poeta, artista plástico e crítico literário, formado em História, mestre e doutorando em Literatura Brasileira na USP. É professor de Literatura Brasileira no Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH). Tem poemas publicados nas revistas Dimensão, Inimigo Rumor, Cacto, Teresa e no Suplemento Literário de Minas Gerais. Participa da antologia O achamento de Portugal (Org. Wilmar Silva. Belo Horizonte: Anomelivros/Fundação Camões, 2005), que reúne 40 poetas mineiros e portugueses contemporâneos. É autor do livro de poemas infantis, ABC futebol clube e outros poemas (Editora Bagagem, 2007), Ouro Preto (Editora Scriptum, 2012), Via férrea e Formigas (Cosac Naify, 2013).

Welbert Belfort, o Betinho, é mineiro de Ouro Preto, mas vive em Belo Horizonte há duas décadas. Ex-bancário e ex-estudante de história, em 1997, montou a livraria Scriptum, uma das mais tradicionais da cidade, no bairro Savassi.  Em 2004, criou a editora de mesmo nome. O primeiro livro lançado pela editora foi a coletânea de poemas “Trívio”, de Ricardo Aleixo. Já publicou cerca de 90 livros de gêneros diversos, como poesia, contos, romances, ensaios, crítica literária e história, entre outros.

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