quarta-feira, 14 de maio de 2014

Coligay: Tricolor e de todas as cores

Não há na literatura esportiva brasileira um livro parecido com o que o jornalista Léo Gerchmann acaba de lançar. Coligay – Tricolor e de todas as cores (Editora Libretos) reconstitui a trajetória da torcida gremista pioneira dos anos 1970, formada por homossexuais.

Se o tema é polêmico hoje, imagine no período em que tudo aconteceu, em plena ditadura militar, de 1977 a 1983.

Sinopse: (da Editora):

Coligay, tricolor e de todas as cores (editora Libretos) ressalta a corajosa atitude dos rapazes que desejavam apenas torcer para o seu clube, sem concessões à hipocrisia, mas acabaram subvertendo paradigmas. Passados quase 40 anos, a homossexualidade ainda é um tabu no ambiente futebolístico.

Gerchmann realizou uma intensa pesquisa, além de entrevistas com ex-integrantes da torcida, dirigentes e jogadores do Grêmio da época, jornalistas e outras tantas testemunhas daquela audácia épica. “Eles foram muito corajosos, porque surgiram em uma época de repressão. Era uma torcida que nunca se envolvia em confusão e sempre apoiava o time”, relembra o autor.

Criada por Volmar Santos, gerente e depois proprietário da boate gay Coliseu, a Coligay foi recebida com frieza, em princípio, mas depois conquistou até um espaço reservado no Estádio Olímpico para guardar seus instrumentos. Considerada pé-quente a alegre torcida chegou a receber um convite do Corinthians para assistir à final do histórico Campeonato Paulista de 1977, contra a Ponte Preta. E deu certo. O Corinthians conquistou o título depois de 23 anos de jejum.

O escritor e jornalista David Coimbra destaca no prefácio a importância deste registro inédito: “...ainda hoje a Coligay é motivo de gozação dos torcedores de clubes rivais do Grêmio, como se fosse algo de que os gremistas devessem se envergonhar, quando é justamente o contrário. A Coligay foi um episódio de coragem, tolerância e respeito à diversidade na história do Grêmio. A Coligay não é um desdouro ao clube; ao contrário, enobrece-o”, observa.

Prefácio
David Coimbra

O Léo resolveu escrever sobre um bando de bichas. Sobre os rapazes da Coligay, alegre torcida organizada do Grêmio que floresceu nas arquibancadas de pedra do Estádio Olímpico em 1977 e virou purpurina em 1983.

Ainda hoje, o ambiente do futebol rejeita qualquer insinuação de homossexualidade. Em pleno 2013, Emerson, atacante do Corinthians, publicou nas redes sociais uma foto dando um selinho em um amigo e torcedores do seu clube protestaram ferozmente. “Não temos nada contra os homossexuais, mas não queremos veados no nosso time”, disseram os líderes da torcida em um manifesto na internet.

Isso na segunda década do século 21. Imagine uma torcida de gays nos anos 70, todos paramentados com longas túnicas listradas, saltitando em meio aos torcedores, digamos, convencionais.

Pois o Grêmio teve sua torcida gay, que no início causou certa estranheza, mas depois foi aceita e até considerada pé-quente. Tanto que esse mesmo Corinthians, que em 2013 estremeceu ante um beijinho entre amigos, convidou os garotos da Coligay para assistirem à final do histórico Campeonato Paulista de 1977, contra a Ponte Preta. Isso porque a Coligay, supostamente, já havia “dado sorte” ao Grêmio, que, depois de oito anos, retomara a hegemonia do futebol gaúcho, vencendo o grande Inter de Falcão e Valdomiro. E deu certo. Os rapazes da Coligay viram Basílio marcar o gol da vitória que garantiu ao Corinthians o seu primeiro título em 23 anos. Os rapazes da Coligay davam sorte mesmo.

Todas essas histórias são contadas pelo Léo neste livro que você tem em mãos. Contadas e documentadas em entrevistas com líderes da torcida, dirigentes e jogadores do Grêmio da época, jornalistas e outras tantas testemunhas daquela saga pioneira.

Com um texto agradável e escorreito, o Léo recupera uma bela história e, o principal, devolve-lhe a dignidade.

Porque ainda hoje a Coligay é motivo de gozação dos torcedores de clubes rivais do Grêmio, como se fosse algo de que os gremistas devessem se envergonhar, quando é justamente o contrário. A Coligay foi um episódio de coragem, tolerância e respeito à diversidade na história do Grêmio. A Coligay não é um desdouro ao clube; ao contrário, enobrece-o. Deveria ser retomada, e talvez o seja depois deste livro. Porque, ao cabo da última página, o leitor entenderá, com satisfação, que conheceu a história de mais do que um bando de bichas. Conheceu a história de pessoas que mostraram, na prática, que a vida é a arte da convivência. Ou, como diria Vinicius, é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Um dom natural
Por Léo Gerchmann

Tive motivações especiais para escrever este livro. Uma: minha paixão pelo Grêmio, algo que, por questão de honestidade com o leitor, devo reconhecer já nas primeiras linhas. Outra: a certeza, quase religiosa, de que a diversidade é uma vocação divina (ou natural, como diria Espinoza, o filósofo panteísta Baruch, não o ex-lateral-direito e mais tarde técnico campeão mundial gremista Valdir Espinosa), um dom a nos caracterizar como humanos. E humanos, diga-se, não só no sentido do termo substantivo que identifica um ser, uma espécie animal. Também no sentido adjetivo, certamente o mais importante deles, que implica aceitar – e não apenas “tolerar” – o diferente, algo próprio da nossa condição de seres destinados a evoluir, com um ou outro aparente e inevitável retrocesso.

Feita a breve digressão filosófica, fica aqui o recado oportuno: este livro foi escrito para aficionados de todos os clubes ou mesmo de nenhum deles, para héteros e homossexuais, para pessoas das mais diversas orientações ou condições existentes na riqueza plural da nossa vida.

Coligay
Tricolor e de todas as cores
Por Léo Gerchmann

A Coligay é um símbolo da luta pela diversidade. Sua ousada aparição no Grêmio provocou efeitos na época e para o porvir. Eis alguns deles:

1) restrições iniciais dentro do próprio clube, que depois, gloriosamente, a acolheu e adotou com dignidade e respeito;

2) maledicências preconceituosas de adversários, que se aproveitaram da situação para os deboches machistas de praxe – quem fosse à internet no momento em que eu escrevia este livro, em 2013, e lançasse a palavra “Coligay” num buscador veria que, além dos diversos erros de informação, a maior parte das referências citadas possuía teor homofóbico. Talvez isso já tenha mudado quando você estiver lendo as presentes linhas, o que me deixaria gratificado pela possível contribuição desta obra para causa tão justa e nobre;

3) uma coleção de anedotas na crônica esportiva politicamente incorreta de então, que, por ser desprovida de viés homofóbico, tinha aceitação do seu irreverente alvo, como veremos adiante. Era época de intensa cultura conservadora, de um público reprimido e ávido por piadinhas como as referidas acima.

Mas também de brechas que se abriam para tempos mais arejados ou, como se convencionou dizer, “tolerantes”. Por isso, com a devida solenidade, relaciono o quarto e mais importante
dos efeitos citados nesta lista:

4) o oportunismo da Coligay ao ter aproveitado essas brechas no ferrolho conservador e superado a retranca do preconceito, erguendo sua bandeira do pluralismo para que todos a vissem.

Em julho de 2013, o papa Francisco, principal representante da Igreja Católica e de toda a tradição que ela significa, visita o Brasil e faz uma declaração inconcebível quatro décadas
atrás, quando a Coligay deu os ares da graça:

– Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?

Não é irrelevante nem casual o fato de iniciativas ousadamente desafiadoras como a da Coligay terem surgido, com todas as restrições da época, justamente no Grêmio. Uma visão sociológica do clube gaúcho faz justiça à sua história.

O Grêmio tem a pecha da elitização, resquício dos anos de racismo no futebol. Acentue-se, no entanto, que todos os clubes de Porto Alegre eram segregacionistas, bem como toda a sociedade brasileira, herdeira de vergonhosa cultura escravocrata nos usos e costumes.

Como o Internacional, o Grêmio é um clube de massas.

A tal “alma castelhana”, nas arquibancadas do Olímpico e agora da Arena, é um signo de identidade cultural, que mais afirma do que renega essa essência. Nas cadeiras, predomina uma típica classe média, característica da qual dão prova os dirigentes, com formação principalmente jurídica e também médica, cujos exemplos mais notórios, por suas trajetórias históricas, são Fábio Koff e Hélio Dourado. Este, aliás, era o cirurgião torácico que presidia a agremiação tricolor naquele 1977 em que a Coligay teve o peito e a hombridade de exalar novos ares.

A lógica subjacente da “casa grande e senzala” não é a mentalidade do clube, diferentemente de outros setores da sociedade e até de algumas agremiações. Dizer que inexiste é demasia em se tratando do Brasil, com sua renitente desigualdade social, racismo (nem sempre) dissimulado e contraditória cultura moralista em um país tão vocacionado para a diversidade. Vê-se, por vezes, um ou outro torcedor traindo essa essência plural com gestos ou gritos intolerantes e intoleráveis.

Enfim, a diversificação aparece até nesses instantes vergonhosos de presença do mal, no já citado aparente retrocesso em meio à evolução.

***

Na minha turma do Colégio Israelita Brasileiro, naquele 1977 de ditadura militar em que a Coligay surgiu como um sopro de criatividade e renovação, organizamos nossa própria torcida, os Pardais da Fiel (pardal, no autoirônico humor judaico, é o judeu, com sua por vezes necessária vocação de se adaptar aos diversos ambientes para onde as circunstâncias já o conduziram). Uma brincadeira adolescente, da qual ainda hoje lembramos com a seriedade reservada às paixões.

Marcávamos presença em quase todos os jogos. Na época, o Grêmio amargava oito anos sem títulos, situação parecida com a do Corinthians em São Paulo. Daí o “fiéis” dos pardais, como os gaviões paulistas. No Olímpico, íamos para as cadeiras.

Nos Gre-Nais do Beira-Rio, para a arquibancada, e lá nos divertíamos vendo a faceirice dos vizinhos da Coligay, com sua coreografia cadenciada, pernas jogadas de um lado para o outro no compasso da charanga, os cânticos e a dança, imunes a derrotas e intempéries. A ousadia e a alegria transgressora.

Mas o fato é que íamos, sempre íamos, naquele 1977 em que o Grêmio de Telê Santana rompeu a hegemonia colorada e, com o título gaúcho, deu o primeiro passo para a conquista do país, quatro anos depois, e do mundo, seis anos mais tarde.

O segredo disso: a fidelidade de quem, se necessário, voava como um pássaro errante ou seguia até a pé, para o que desse e viesse.

***

A respeito de gremismo, fé e diversidade, aproveito as linhas acima para enganchar uma história que me diz muito e que, enfim, ilustra o terceiro e talvez mais poderoso motivo para eu escrever este livro: o Hershel.

O Hershel sempre foi um folgado, essa é a verdade. Um adorável folgado, brincalhão até com quem mal conhecia. Homem de conduta exemplar. Pai amoroso, dedicado e generoso. E divertido! A todos os jogos do Grêmio que ia, e ele ia a todos os jogos do Grêmio, a rotina se repetia, como devem se repetir as rotinas. Acompanhado do mais novo de seus dois filhos, estacionava o carro sempre na mesma elevada perto do Olímpico.

E quase sempre estava lá o Gilberto, um menino negro sorridente, comunicativo, que guardava o veículo numa época em que não se havia difundido a atividade de flanelinha – aliás, nem se conhecia essa palavra como se conhece hoje. O Hershel falava Gilberto pronunciando o “l” com a língua colada no céu da boca: “Gilllberto”, como dizia “Brasilll”, “filllme”, “jornalll”, “tropicalll”.

Quando não era o Gilberto, o Hershel saía do carro e tascava para o guardador que o substituía:

– Por que esse movimento todo aqui hoje?
– Tem jogo. O Olímpico está lotado.
– Ahhh, o estádio do Grêmio, né? Pois eu vou a uma reunião de militares aqui perto. Nem gosto de futebol, para ser bem sincero. Cuida direitinho, tá?

O menino emudecia. Eram anos 70, 80, regime militar. Na dúvida, melhor ficar quieto e acreditar. Mas com o Gilberto era diferente. O Hershel brincava, mas não sacaneava. Até falava em iídiche com o Gilberto.

Passaram-se os anos. O Hershel adotou a prática de ir com os amigos ao Olímpico, sem o tal filho mais novo, que, jornalista, foi para Buenos Aires ser correspondente de um grande jornal brasileiro. Tempos depois, o filho voltou para o Brasil. Teve seu próprio filho, mais tarde uma filha, os dois netos do Hershel. E aquele hábito se rompeu.

Certa feita, o Hershel e o filho retomaram a rotina, saudosos que eram do antigo ritual. Estacionaram no mesmo lugar.

E apareceu o Gilberto, que morava ali perto, o mesmo sorriso, o olhar emocionado por ver os antigos amigos, exibindo orgulhoso a sua penca de filhos gremistinhas.

Depois do jogo, outro velho hábito se repetiu.

Ouvindo rádio, comendo paçoquinhas de amendoim sob um sol ameno de fim de tarde, pai e filho subiram a elevada para pegar o carro no lugar de sempre. Encontraram novamente o Gilberto, brincaram com os filhinhos dele, todos fardados de gremistas, e, espantados, os ouviram balbuciar palavras em iídiche.

Posso garantir: o repertório do Gilberto em iídiche era quase tão abrangente quanto o do filho mais novo do Hershel. Predominavam expressões chulas e pitorescas, claro, naquela mistura de hebraico com alemão que os judeus forjaram para perpetuar sua cultura, perenizar seus hábitos e compensar a dispersão a eles imposta justamente pela intolerância em relação à prática de costumes étnicos e de uma fé diferentes da dominante.

Acho que o leitor não precisa ser muito perspicaz para concluir: o filho mais novo do Hershel sou eu.

***

À memória do eterno conselheiro gremista Henrique Gerchmann (o Hershel), que faleceu no dia 1º de junho de 2009 e mereceu comovente homenagem do Grêmio com um minuto de silêncio três dias após a sua morte (uma reverência feita antes de se iniciar a vitória de 3 a 0 sobre o Náutico, no Olímpico, que não foi pedida pela família, o que só aumenta o valor do gesto). A ele dedico este livro sobre o valor da diversidade, assim como à minha mãe, a Miriam, companheira de 50 anos do Hershel. Também o dedico aos meus filhos, o Pedro e a Paula, e à minha mulher, a Dione, com quem pretendo emplacar mais de meio século de parceria, fazendo da ida à Arena uma renovada rotina familiar.

Sobre o autor:
Léo Gerchmann é formado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUCRS). Jornalista, 49 anos, é repórter especial do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, onde escreve sobre temas internacionais. No portal zerohora.com, mantém o blog Território Latino, que trata de temas latino-americanos. Teve passagem também por redações como a da revista Placar e trabalhou durante 11 anos no jornal Folha de S.Paulo, do qual foi correspondente em Buenos Aires de 1997 a 1998. Entre outras coberturas internacionais, fez a da Copa do Mundo da França, em 1998, eleições em países sul-americanos, a histórica crise argentina de 2001 e a abertura dos “arquivos do terror”, que comprovaram a existência da Operação Condor, no Paraguai.

5 comentários:

  1. Maravilha!
    Viva a democracia, em todas as suas dimensões.
    Parabéns ao autor.
    E a você meu querido.
    Beijo.

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  2. Carlos16:41

    Livro fundamental para todos os colorados hahaha

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    1. Anônimo22:14

      Com certeza! Se dizem o clube do povo e não aceitam gays? Nós temos orgulho, somos tricolor e de todas as cores, não somos hipocritas como vocês

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    2. Anônimo22:19

      Viado... Dá o cú também

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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