sexta-feira, 23 de maio de 2014

1950: O Preço de uma Copa

Mais do que discutir a convocação e resultados da Seleção Brasileira na Copa 2014, o brasileiro parece ter aprendido a questionar a gastança desnecessária para a realização deste evento. Dizem que entender o passado é fundamental para compreendermos o presente, ainda mais quando a copa é realizada no Brasil.

Um livro importante para aqueles que querem aprofundar ainda mais todas as questões que envolvem a realização do maior evento do futebol mundial é 1950: O Preço de uma Copa”, da Editora Letras do Brasil. Uma copa traumática para o torcedor brasileiro, mas que colaborou de maneira definitiva na construção da paixão do brasileiro pelo futebol.  

Literatura na Arquibancada agradece aos autores pela cessão de trechos da obra, que você, leitor, pode acompanhar mais abaixo.

Sinopse (da Editora):

Há 64 anos, o Brasil estava em situação parecida com a que vive atualmente: obras atrasadas, ampliação e construção de estádios, preocupação com mobilidade urbana e uso de dinheiro público em eventos esportivos. Esse era o cenário do país em 1950, às vésperas da primeira Copa do Mundo disputada no País. O mesmo acontece hoje, a menos de cinco meses da abertura do Mundial 2014.

Enquanto a imprensa, os brasileiros e o mundo se preocupam com a preparação brasileira para a Copa 2014, os jornalistas Beatriz Farrugia, Diego Salgado, Gustavo Zucchi e Murilo Ximenes foram atrás dos erros e acertos cometidos em 1950.

O grupo passou um ano percorrendo as seis cidades-sedes da competição (Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro) e reconstruindo os passos das autoridades daquela época.

O resultado é o livro “1950: O Preço de uma Copa”, da Editora Letras do Brasil. A obra resgata toda a preparação para o Mundial de 1950 e traz à tona a construção de estádios, os interesses políticos por trás dos jogos, o dinheiro público envolvido e a história de pessoas que tiveram suas vidas marcadas profundamente por essa Copa do Mundo.

Obras no Maracanã para a Copa 1950.
Em 180 páginas, figuras como Zagallo, Luis Fernando Veríssimo, Orlando Duarte, Fernando Bivar e Thomas Farkas contam sua versão daquele Mundial, com análises e interpretações de especialistas políticos e historiadores, como Lúcia Hippólito, Roberto Assaf e Carneiro Neto. 

A obra traz ainda relatos da filha do responsável pela construção do Estádio Independência, do funcionário mais antigo do Maracanã e de um ex-jogador e dirigente do América-MG.

O livro “1950: O Preço de uma Copa” também contém uma galeria de fotos e tabelas de cada jogo disputado no Brasil, com público, renda, escalação e arbitragem. Além disso, a obra traz em detalhes os gastos de cada uma das seis cidades-sede da competição.

A obra é leitura obrigatória para os amantes do futebol, jornalistas, estudiosos e brasileiros, que acompanham os preparativos do país para a Copa 2014.

Introdução

Não seria necessário perguntar o ano para saber que se está em 1950. A  esperança de uma década melhor paira no ar, diferente de 20 anos antes, quando a quebra da bolsa de Nova York havia feito um 1930 melancólico, e bem diferente de 1940, quando uma Guerra Mundial fez o ano-novo nascer de maneira silenciosa em diversas capitais do mundo. Apesar da rixa entre as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, o mundo está em paz, e as coisas parecem voltar à normalidade. No Brasil, há um general –Eurico Gaspar Dutra– no poder, mas não uma ditadura em vigor. Definitivamente, as coisas parecem melhores. Os homens continuam elegantes, desfilam pelas capitais tropicais do Brasil com seus ternos perfeitamente alinhados, seus bigodes milimetricamente cortados, cabelos penteados e chapeus dando o ar necessário a um cavalheiro. As mulheres aproveitam o fim da Segunda Guerra Mundial para refazer seus guarda-roupas, tão maltratados em tempos de racionamento de tecidos e cosméticos. Mais femininas e sensuais, agora os ícones são as apimentadas Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, fazendo dos cabelos curtos e roupas mais reveladoras uma tendência nas ruas (...) No esporte, páginas e mais páginas de jornais dedicadas a um dos favoritos do público: turfe. Futebol? Também estava presente, mas dividindo espaço com o turfe. As corridas de cavalo reuniam multidões e geravam muito dinheiro. A importância era tanta que diariamente saíam nos principais jornais do país resultados, comentários e previsões para as próximas corridas, colocando os favoritos em destaque.

Obras construção Maracanã.
No entanto, mais do que de roupas, filmes e carnaval, 1950 era ano de futebol. Ou melhor, football, já que o termo ainda não havia sido aportuguesado. Naquele começo de década, o Brasil ia sediar a Copa do Mundo. Os acontecimentos das duas décadas anteriores, que muita gente preferia ter esquecido, levaram para a terra do samba o esporte que estava se tornando um símbolo daquele povo alegre.

Desde 1938 que a Taça do Mundo, como era chamada a Copa naquele tempo, não era disputada. Um total de 12 anos. O maior torneio de futebol do planeta foi interrompido por uma força maior. Pouco tempo após a Itália ter se sagrado campeã do mundo na França, as tropas nazistas de Hitler se movimentavam, prévia do mais sangrento conflito armado do século 20, a Segunda Guerra Mundial. 

Consta que a preparação da Fifa para a Copa de 1942 começou logo após o fim do Mundial anterior, consultando eventuais interessados em sediar o torneio. Três nações competiam para recebê-lo: Alemanha, Argentina e Brasil.

Trechos do livro

Obras na Vila Capanema para Copa 1950.
Curitiba:

O som do apito é ouvido na Vila Capanema. Familiar aos moradores,  ecoa pelo ar. Não se trata, porém, do apito de um juiz arbitrando um jogo de futebol e, sim, do aviso da chegada do trem que traz as primeiras doações para a construção do estádio do Clube Atlético Ferroviário do Paraná. O ano é 1943, e sob supervisão de Durival Britto e Silva, responsável pela RVPSC (Rede Viação Paraná-Santa Catarina), a composição descarrega as primeiras madeiras para o início das obras (...)

O time do Ferroviário, como o próprio nome diz, era basicamente formado pelos funcionários da rede ferroviária. A maioria dos jogadores trabalhava durante o dia na construção da ferrovia Paraná-Santa Catarina e depois se divertia batendo bola. Entre os poucos jogadores profissionais, destacava-se João Maria Barbosa, que atualmente é o historiador do Paraná Clube. Ele entrou Curitiba para o time em 1944 e, quando chegou ao campo para treinar, viu a precariedade das instalações do Ferroviário. “Não tinha nada. Tinha o campo, mas era campo de treinamento aberto, campo de várzea mesmo”, afirmou o ex-atleta.

O Ferroviário era bancado pelos próprios funcionários da rede espalhados por todo o Paraná. Muitos, porém, não sabiam que eram contribuintes do clube, já que uma pequena quantia do salário era descontada automaticamente da folha de pagamento todo mês.

Mas o montante arrecadado não era suficiente para cobrir os custos da obra de um grande estádio de futebol (...) Uma das doações mais notáveis encontra-se no estádio até hoje e serve de referência para o clube. Trata-se de um relógio de corda datado de 1884, com grandes ponteiros, oferecido pela antiga estação de trem da rua Barão do Rio Branco. Ele foi instalado bem no meio do estádio, no alto das arquibancadas e entre duas torres. O responsável por dar corda e manter o relógio funcionando é José dos Santos, o “Seo Zé”, que trabalha no clube desde 11 de setembro de 1958.

Recife:

Era a 4ª Copa do Mundo de futebol. Recife seria a cidade representante da região nordeste no torneio. Mas, para isso, era necessária uma reforma na Ilha do Retiro. O clube resolveu, então, pedir o apoio de todos, inclusive da sua torcida, para realizar um mutirão para adequar o estádio (...) Durante as reformas da Ilha, Recife sofre outra baixa. A seleção francesa se retira do Mundial por não aceitar a distância de milhares de quilômetros que teria de percorrer entre as cidades de Porto Alegre e Recife, locais de seus jogos. 

A capital pernambucana garante, assim, apenas uma partida do Mundial em terras nordestinas. Mas os torcedores não desanimaram e continuaram a reforma da Ilha. Ainda mais porque, entre os convocados para jogar na seleção brasileira, estava Ademir de Menezes, apelidado de Queixada, jogador do Vasco e ex-Sport, e que viria a ser o artilheiro da Copa. 

Sobre os autores:
Beatriz Farrugia Foina, é natural da cidade de São Caetano do Sul (SP). Formada em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), já trabalhou em jornal impresso, revista especializada e assessoria de imprensa. Atualmente é jornalista na agência italiana ANSA e curso MBA em Relações Internacionais na FGV-SP.

Diego Salgado é jornalista desde 2008, formado na Universidade Metodista de São Paulo. Após passagem pelo SBT, ingressou no jornalismo esportivo. É repórter do Portal 2014 há três anos onde acompanha os principais fatos da preparação brasileira para a Copa do Mundo. Participou da cobertura da Copa da África do Sul. Em 2011, ingressou na Web Rádio Voz do Futebol. Também trabalhou na Rede Nacional de Notícias. É também colaborador do Blog do Torcedor do Corinthians, na Globo.com, e coautor do livrorreportagem "1950: O Preço de uma Copa".

Gustavo Zucchi é graduado em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Participou do projeto Acervo Estadão, sendo autor de diversos perfis de esporte e cobriu a Olimpíada de Londres pelo Estado. Escreveu para o finado JT. Atualmente, dá uma mão na editoria de esportes do portal do Estadão.

Murilo Ximenes é formado em Jornalismo e Comunicação Social - Rádio e TV. Trabalhou em grandes empresas como TV Record, Pirelli Pneus e Senac São Paulo. Já atuou com comunicação interna, sendo responsável por criação de campanhas, envio de e-mail informativo e marketing, jornal mural e outros tipos de comunicação entre empresa/funcionário.

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