sexta-feira, 23 de maio de 2014

1950: O Preço de uma Copa

Mais do que discutir a convocação e resultados da Seleção Brasileira na Copa 2014, o brasileiro parece ter aprendido a questionar a gastança desnecessária para a realização deste evento. Dizem que entender o passado é fundamental para compreendermos o presente, ainda mais quando a copa é realizada no Brasil.

Um livro importante para aqueles que querem aprofundar ainda mais todas as questões que envolvem a realização do maior evento do futebol mundial é 1950: O Preço de uma Copa”, da Editora Letras do Brasil. Uma copa traumática para o torcedor brasileiro, mas que colaborou de maneira definitiva na construção da paixão do brasileiro pelo futebol.  

Literatura na Arquibancada agradece aos autores pela cessão de trechos da obra, que você, leitor, pode acompanhar mais abaixo.

Sinopse (da Editora):

Há 64 anos, o Brasil estava em situação parecida com a que vive atualmente: obras atrasadas, ampliação e construção de estádios, preocupação com mobilidade urbana e uso de dinheiro público em eventos esportivos. Esse era o cenário do país em 1950, às vésperas da primeira Copa do Mundo disputada no País. O mesmo acontece hoje, a menos de cinco meses da abertura do Mundial 2014.

Enquanto a imprensa, os brasileiros e o mundo se preocupam com a preparação brasileira para a Copa 2014, os jornalistas Beatriz Farrugia, Diego Salgado, Gustavo Zucchi e Murilo Ximenes foram atrás dos erros e acertos cometidos em 1950.

O grupo passou um ano percorrendo as seis cidades-sedes da competição (Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro) e reconstruindo os passos das autoridades daquela época.

O resultado é o livro “1950: O Preço de uma Copa”, da Editora Letras do Brasil. A obra resgata toda a preparação para o Mundial de 1950 e traz à tona a construção de estádios, os interesses políticos por trás dos jogos, o dinheiro público envolvido e a história de pessoas que tiveram suas vidas marcadas profundamente por essa Copa do Mundo.

Obras no Maracanã para a Copa 1950.
Em 180 páginas, figuras como Zagallo, Luis Fernando Veríssimo, Orlando Duarte, Fernando Bivar e Thomas Farkas contam sua versão daquele Mundial, com análises e interpretações de especialistas políticos e historiadores, como Lúcia Hippólito, Roberto Assaf e Carneiro Neto. 

A obra traz ainda relatos da filha do responsável pela construção do Estádio Independência, do funcionário mais antigo do Maracanã e de um ex-jogador e dirigente do América-MG.

O livro “1950: O Preço de uma Copa” também contém uma galeria de fotos e tabelas de cada jogo disputado no Brasil, com público, renda, escalação e arbitragem. Além disso, a obra traz em detalhes os gastos de cada uma das seis cidades-sede da competição.

A obra é leitura obrigatória para os amantes do futebol, jornalistas, estudiosos e brasileiros, que acompanham os preparativos do país para a Copa 2014.

Introdução

Não seria necessário perguntar o ano para saber que se está em 1950. A  esperança de uma década melhor paira no ar, diferente de 20 anos antes, quando a quebra da bolsa de Nova York havia feito um 1930 melancólico, e bem diferente de 1940, quando uma Guerra Mundial fez o ano-novo nascer de maneira silenciosa em diversas capitais do mundo. Apesar da rixa entre as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, o mundo está em paz, e as coisas parecem voltar à normalidade. No Brasil, há um general –Eurico Gaspar Dutra– no poder, mas não uma ditadura em vigor. Definitivamente, as coisas parecem melhores. Os homens continuam elegantes, desfilam pelas capitais tropicais do Brasil com seus ternos perfeitamente alinhados, seus bigodes milimetricamente cortados, cabelos penteados e chapeus dando o ar necessário a um cavalheiro. As mulheres aproveitam o fim da Segunda Guerra Mundial para refazer seus guarda-roupas, tão maltratados em tempos de racionamento de tecidos e cosméticos. Mais femininas e sensuais, agora os ícones são as apimentadas Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, fazendo dos cabelos curtos e roupas mais reveladoras uma tendência nas ruas (...) No esporte, páginas e mais páginas de jornais dedicadas a um dos favoritos do público: turfe. Futebol? Também estava presente, mas dividindo espaço com o turfe. As corridas de cavalo reuniam multidões e geravam muito dinheiro. A importância era tanta que diariamente saíam nos principais jornais do país resultados, comentários e previsões para as próximas corridas, colocando os favoritos em destaque.

Obras construção Maracanã.
No entanto, mais do que de roupas, filmes e carnaval, 1950 era ano de futebol. Ou melhor, football, já que o termo ainda não havia sido aportuguesado. Naquele começo de década, o Brasil ia sediar a Copa do Mundo. Os acontecimentos das duas décadas anteriores, que muita gente preferia ter esquecido, levaram para a terra do samba o esporte que estava se tornando um símbolo daquele povo alegre.

Desde 1938 que a Taça do Mundo, como era chamada a Copa naquele tempo, não era disputada. Um total de 12 anos. O maior torneio de futebol do planeta foi interrompido por uma força maior. Pouco tempo após a Itália ter se sagrado campeã do mundo na França, as tropas nazistas de Hitler se movimentavam, prévia do mais sangrento conflito armado do século 20, a Segunda Guerra Mundial. 

Consta que a preparação da Fifa para a Copa de 1942 começou logo após o fim do Mundial anterior, consultando eventuais interessados em sediar o torneio. Três nações competiam para recebê-lo: Alemanha, Argentina e Brasil.

Trechos do livro

Obras na Vila Capanema para Copa 1950.
Curitiba:

O som do apito é ouvido na Vila Capanema. Familiar aos moradores,  ecoa pelo ar. Não se trata, porém, do apito de um juiz arbitrando um jogo de futebol e, sim, do aviso da chegada do trem que traz as primeiras doações para a construção do estádio do Clube Atlético Ferroviário do Paraná. O ano é 1943, e sob supervisão de Durival Britto e Silva, responsável pela RVPSC (Rede Viação Paraná-Santa Catarina), a composição descarrega as primeiras madeiras para o início das obras (...)

O time do Ferroviário, como o próprio nome diz, era basicamente formado pelos funcionários da rede ferroviária. A maioria dos jogadores trabalhava durante o dia na construção da ferrovia Paraná-Santa Catarina e depois se divertia batendo bola. Entre os poucos jogadores profissionais, destacava-se João Maria Barbosa, que atualmente é o historiador do Paraná Clube. Ele entrou Curitiba para o time em 1944 e, quando chegou ao campo para treinar, viu a precariedade das instalações do Ferroviário. “Não tinha nada. Tinha o campo, mas era campo de treinamento aberto, campo de várzea mesmo”, afirmou o ex-atleta.

O Ferroviário era bancado pelos próprios funcionários da rede espalhados por todo o Paraná. Muitos, porém, não sabiam que eram contribuintes do clube, já que uma pequena quantia do salário era descontada automaticamente da folha de pagamento todo mês.

Mas o montante arrecadado não era suficiente para cobrir os custos da obra de um grande estádio de futebol (...) Uma das doações mais notáveis encontra-se no estádio até hoje e serve de referência para o clube. Trata-se de um relógio de corda datado de 1884, com grandes ponteiros, oferecido pela antiga estação de trem da rua Barão do Rio Branco. Ele foi instalado bem no meio do estádio, no alto das arquibancadas e entre duas torres. O responsável por dar corda e manter o relógio funcionando é José dos Santos, o “Seo Zé”, que trabalha no clube desde 11 de setembro de 1958.

Recife:

Era a 4ª Copa do Mundo de futebol. Recife seria a cidade representante da região nordeste no torneio. Mas, para isso, era necessária uma reforma na Ilha do Retiro. O clube resolveu, então, pedir o apoio de todos, inclusive da sua torcida, para realizar um mutirão para adequar o estádio (...) Durante as reformas da Ilha, Recife sofre outra baixa. A seleção francesa se retira do Mundial por não aceitar a distância de milhares de quilômetros que teria de percorrer entre as cidades de Porto Alegre e Recife, locais de seus jogos. 

A capital pernambucana garante, assim, apenas uma partida do Mundial em terras nordestinas. Mas os torcedores não desanimaram e continuaram a reforma da Ilha. Ainda mais porque, entre os convocados para jogar na seleção brasileira, estava Ademir de Menezes, apelidado de Queixada, jogador do Vasco e ex-Sport, e que viria a ser o artilheiro da Copa. 

Sobre os autores:
Beatriz Farrugia Foina, é natural da cidade de São Caetano do Sul (SP). Formada em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), já trabalhou em jornal impresso, revista especializada e assessoria de imprensa. Atualmente é jornalista na agência italiana ANSA e curso MBA em Relações Internacionais na FGV-SP.

Diego Salgado é jornalista desde 2008, formado na Universidade Metodista de São Paulo. Após passagem pelo SBT, ingressou no jornalismo esportivo. É repórter do Portal 2014 há três anos onde acompanha os principais fatos da preparação brasileira para a Copa do Mundo. Participou da cobertura da Copa da África do Sul. Em 2011, ingressou na Web Rádio Voz do Futebol. Também trabalhou na Rede Nacional de Notícias. É também colaborador do Blog do Torcedor do Corinthians, na Globo.com, e coautor do livrorreportagem "1950: O Preço de uma Copa".

Gustavo Zucchi é graduado em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Participou do projeto Acervo Estadão, sendo autor de diversos perfis de esporte e cobriu a Olimpíada de Londres pelo Estado. Escreveu para o finado JT. Atualmente, dá uma mão na editoria de esportes do portal do Estadão.

Murilo Ximenes é formado em Jornalismo e Comunicação Social - Rádio e TV. Trabalhou em grandes empresas como TV Record, Pirelli Pneus e Senac São Paulo. Já atuou com comunicação interna, sendo responsável por criação de campanhas, envio de e-mail informativo e marketing, jornal mural e outros tipos de comunicação entre empresa/funcionário.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

De Charles Miller à Gorduchinha


Dizem que a profissão mais complicada do Brasil é a de técnico de futebol. Pudera, são quase 200 milhões de “técnicos” sempre a palpitar na vitória ou derrota, especialmente, nas derrotas, quando quase todos tem a solução do problema que se apresenta.

Entre tantos “técnicos” palpiteiros, existem aqueles que fizeram a história dessa difícil profissão. Técnicos e treinadores, sim, porque há diferença entre um e outro. Técnicos que entraram para a história construíram estratégias de jogo que revolucionaram toda uma geração de competições e jogadores. Enquanto há aos montes aqueles que apenas treinam uma equipe, com variações táticas aproveitadas dos verdadeiros mestres da profissão.

Livros que mostrem a evolução tática do futebol em seus 150 anos de existência são poucos. Mas agora, o leitor tem a sua disposição uma obra de referência sobre o tema: De Charles Miller a Gorduchinha - A evolução tática do futebol em 150 anos de história (1863 – 2013) de Darcio Ricca (Editora Livrosdefutebol.com).

Literatura na Arquibancada agradece ao autor e editora pela cessão de um dos capítulos da obra, "Bola de ferro".

INTRODUÇÃO
Por Darcio Ricca

Dizem que escolher o nome do livro, também chamado de “obra”; funciona não somente para ilustrar, mas, sim, deixar um legado histórico para qualquer um tê-la em suas mãos; seja quando o leitor sedento buscá-la, seja quando esta simplesmente “cair em seu colo”.

Mas, o projeto (mais elegante!) e o sonho (mais idílico!), tornou-se, porque o tempo é senhor das coisas, das pessoas e das conquistas; agora, uma realidade.

De Charles Miller a Gorduchinha - A evolução tática do futebol em 150 anos de história (1863 – 2013) aconteceu.

Até porque chegou até você e de alguma forma vocês se encontraram!

Um livro em 17 capítulos cronológicos, tais como as 17 regras do futebol e com a honraria de cada capítulo ter um nome de bola na abertura.

Porque sem bola, não importando de que material ela é feita, claramente, não começa o futebol!

Uma publicação que enaltece este esporte, sobretudo no Brasil que sedia a Copa do Mundo de 2014, desde as bolas trazidas (e o livro de regras junto!) por Charles Miller até os dias de hoje.

Um nome de bola que, aliás, para nós, deveria, de fato, ser o nome mais emblemático e condizente com nossa paixão: Gorduchinha!

Fica registrada nossa preferência por quem ama o futebol.

E porque o pensamento pode mais que os papéis.

Mas, voltando ao livro, sabemos do empenho que o “buscarmos os três pontos para assim conseguirmos a vitória”, produziu nele. E do sabor materializado que ele causou.

Orgulho sim, vaidade não. Porque é um produto com o apoio de muitas entrevistas, pensamentos e muita papelada.

Num país de rala memória, este livro tem o objetivo, puro e simples, de registrar, analisar e, obviamente homenagear, a evolução tática do futebol brasileiro e do mundo e vice-versa.

Como na jocosa expressão imortalizada popularmente, “clássico é clássico e vice-versa”.

Um país abaixo da Linha do Equador, uma linha imaginária, que se multiplicou em outras, como gramados, terras e até pastos.

Do oficial ao oficioso, do regrado ao desregrado, do amador ao profissional, da bagunça à organização e, principalmente, com o mundo de “pano de fundo”, em seus 150 anos mágicos de existência do jogo.

Desde a famosa taverna em Londres, lá no berço deste esporte, renascido do rugby e de tantos outros, regado à cerveja e a folhas de papel com as regras de seu nascimento, em 26 de outubro de 1863. Que, em 8 de dezembro do mesmo ano, após seis reuniões, sacramentou-se!

Falar da gente, sem esquecer o que nos influenciou e o que influenciamos!

Uma troca tão rica de experiências e testes que o futebol permite, até hoje, em suas mais variadas formas de leitura tática, a busca pelo novo, pelo ousado diante da vida.

E, se o futebol, em sua história, fosse autoescalado jogaria com:

Paixão no gol;

Velocidade e empenho nas laterais;

Força e garra na zaga;

Criatividade, inteligência, estudo e dedicação no meio de campo;

Sagacidade e vitória no ataque;

De treinador, a tática, o sistema de jogo e a forma de jogar;

De camisa, as diferentes cores do patrimônio;

De campo, a técnica e a habilidade;

De juiz, a precisão e a esportividade;

De bandeirinhas, os torcedores;

De hino, a irreverência, a alegria e a paz na alma.


BOLA DE FERRO

Seleção da Itália, campeã da Copa 1938.
Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), um fato triste para a humanidade como um todo. Caberia uma resenha a respeito, haja vista que tivemos duas Copas do Mundo canceladas. Uma guerra que teve seu estopim na Europa e espalhou-se pela África e Ásia. Sobre isso, o jornalista Roberto Sander escreveu o livro “Anos 40 – Viagem à década sem Copa” (Maquinaria, 2004).

Na década de 1930, na Europa, se consolidavam governos totalitários com fortes objetivos militaristas e expansionistas. Na Alemanha surgiu o nazismo, liderado por Hitler e que pretendia expandir o território alemão, desrespeitando o Tratado de Versalhes, inclusive reconquistando territórios perdidos na Primeira Guerra Mundial. Na Itália estava crescendo o Partido Fascista, liderado por Benito Mussolini, que se tornou o Duce da Itália, com poderes sem limites.

E os italianos tinham duas Copas do Mundo conquistadas.

Alemanha e Itália passavam por uma grave crise econômica no início da década de 1930, com milhões de cidadãos sem emprego. Uma das soluções tomadas pelos governos fascistas desses países foi a industrialização, principalmente na criação de indústrias de armamentos e equipamentos bélicos como aviões de guerra, navios, tanques, entre outros. Na Ásia, o Japão também possuía fortes desejos de expandir seus domínios para territórios vizinhos e ilhas da região.

Estes três países, com objetivos expansionistas, uniram-se e formaram o Eixo.

Um acordo com fortes características militares e com planos de conquistas elaborados em comum acordo.

Alemanha x Suíça, Copa 1938, jogadores fazendo saudação nazista.
A bola de couro dos gramados mais competitivos no futebol começava a ficar mais pesada e dura, como se esta não a fosse, tal qual o bélico cenário geopolítico que se instalava no mundo. A bola de ferro ainda ganharia mais força e adeptos.

Um pontapé inicial não realizado pelos praticantes, amadores ou profissionais, do universo do futebol.

Em 1939, quando o exército alemão invadiu a Polônia, a França e a Inglaterra declararam guerra à Alemanha. De acordo com a política de alianças militares existentes na época, formaram-se dois grupos: Aliados (liderados por Inglaterra, URSS, França e Estados Unidos) e Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

No que, infelizmente, estas divisões não eram separações por chaves de grupos em disputa de campeonatos de futebol, mas eram sim divisões militares e maniqueístas do ponto de vista social.

Entre 1939 e 1941, as vitórias e expansões territoriais penderam para o lado dos países do Eixo, lideradas pelas forças armadas da Alemanha, que conquistou o Norte da França, Iugoslávia, Polônia, Ucrânia, Noruega e territórios no norte da África. O Japão anexou a Manchúria, enquanto a Itália conquistava a Albânia e territórios da Líbia.

Aquilo que, no futebol era apenas uma conquista de campeonatos e títulos, na vida real as conquistas eram de invasão de divisas e aumento de poder sobre um novo povo e uma nova nação de forma dominadora e impositiva, tentando justificar uma supremacia de uma raça sobre as outras pela força e pela ignorância. Seguindo esta estupidez, com reflexos significativos em nossa história, em 1941 o Japão ataca a base militar norte-americana de Pearl Harbor no Oceano Pacífico (Havaí).

O ataque a Pearl Harbor.
Esse fato, considerado uma traição pelos norte-americanos, fizeram os Estados Unidos entrarem no conflito ao lado das forças aliadas. Entre 1941 a 1945, ocorreram as derrotas do Eixo, iniciadas com as perdas sofridas pelos alemães no rigoroso inverno russo. Nesse período, ocorre uma regressão das forças do Eixo que sofrem seguidas derrotas. Com a entrada dos Estados Unidos, os Aliados ganharam força nas frentes de batalhas. Parece o jogo de tabuleiro, mas sem a brincadeira, sem a menor graça.

O Brasil participa diretamente, enviando para a Itália, região de Monte Cassino, os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Cerca de 25 mil soldados brasileiros conquistam a região, somando uma importante vitória ao lado dos Aliados.

Por fim, para rememorar a história e, por isso, sustentarmos a tese de que quanto mais nos lembramos dos fatos ruins, menos nos deixamos levar pelas suas repetições ou repaginações, é que esta introdução também se faz útil.

Por fim, este importante e triste conflito terminou somente no ano de 1945, com a rendição da Alemanha e Itália. O Japão, último país a assinar o tratado de rendição, ainda sofreu um forte ataque dos Estados Unidos, que despejou bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagazaki. Uma ação desnecessária que provocou a morte de milhares de cidadãos japoneses inocentes, deixando um rastro de destruição nestas cidades.

A bola de ferro passaria como uma espécie de rolo compressor.

E do bélico conceito de esquadrões, muitos times e seleções de futebol iriam agregar o conceito de esquadrão, que se descaracteriza, para melhor, ao longo dos períodos vindouros. Porque não nos esqueçamos que, depois desta guerra intensa e cruelmente discriminatória, ainda teríamos um rescaldo na Guerra Fria, ora ativa, ora contemplativa.

Uma medição de forças entre Estados Unidos e seus aliados que se ostentavam por serem democráticos e a URSS e seu socialismo comunista com seus aliados que fariam questão de implantar a tão alardeada turma da Cortina de Ferro.

E dá-lhe mudanças no futebol, desde sua maneira de se jogar taticamente até como lidaria com vitórias e derrotas!

O extracampo atingiria conotações bélicas de ocupações territoriais e sociais. E todos tendo que chutar esta bola de ferro, contando com as devoluções, num tradicional “toca-recebe”, cada vez mais complicados. A bola de ferro passava a conviver diariamente com quem tinha que, à força, lidar com ela.

Dori Kruschner
E quem não tinha, remava contra a maré e ainda poderia, e muito, contribuir para as transformações coletivas, táticas e técnicas que o esporte mais praticado no Planeta sofreria, inevitavelmente.

No campo do futebol, saindo do prejudicial e estúpido campo de batalha, o Brasil seria influenciado, novamente, por uma revolução tática, técnica, física e de treinamentos por um estrangeiro: o ex-futebolista e treinador Dori Kruschner.

Em abril de 1937, o húngaro Dori Kruschner chega ao Brasil para treinar o Flamengo e achou estranho não ter um médico específico, mas para apenas para tratar de doenças venéreas. 

Kruschner tinha uma filmadora para registrar os treinamentos. (Pedro Zamora, 1969)

O mundo em transformação e nosso país ainda com a bola de ferro no pé e na evolução do jogo!



Gentil Cardoso
Vale lembrar que “Kruschner e Gentil Cardoso, ambos tentaram a implementação do moderno WM, mas sem sucesso. Gentil muito inteligente, apesar de levarem seus pensamentos para um lado mais folclórico, e com frases, estímulos, desenhos táticos”, disse o pesquisador e escritor Ivan Soter.

A prepotência ainda nos impedia de crescer no futebol.

Kruschner fazia treinamento sem bola, botaram ele pra fora porque achavam estranho este tipo de treinamento. Jornais da época não tinham preocupação em documentar estas informações mais detalhadas, no Brasil. Ele veio por indicação de alguém de dentro do Flamengo, que era um clube elitista. Veio, fugindo da guerra. Ninguém sabe se ele tinha essa importância toda na Suíça, apesar de ter treinado o forte Grasshoppers. (Roberto Assaf)

Vale registrar, descontando a avaliação da importância do feito, que Kruschner, com seu time, conquistou sete títulos nacionais, na fria e simpática Suíça.

Kruschner apenas colocou em prática o conceito de treinamento que vinha da Europa porque ninguém sabia e muito menos presenciava nada. Foi considerado um maluco pelos brasileiros. Os treinadores estrangeiros eram basicamente argentinos e, principalmente, uruguaios.
(Roberto Assaf)

Aliás, eram as seleções de Uruguai e Argentina que incomodavam a chamada “elite do futebol” na Europa. Que, como relembramos, era ferida pela guerra, deixando sua bola cada vez mais ser rotulada como “de ferro”.

Eles [Kruschner e Gentil] foram fundamentais para o futebol brasileiro. Éramos a terceira ou quarta força sul-americana, disputando o posto com os paraguaios, em termos de aprendizado e organização dentro e fora do campo. Passavam-nos um modelo que não tínhamos.
(Roberto Assaf)

Mas a história sempre aparece para colocar mais dúvidas.

O Kruschner trouxe o WM. Você vai encontrar as escalações nos jornais, até meados dos anos 1950, na formação clássica (2-3-5). A numeração que confundia a escalação. (Alberto Helena Jr.)

Os times brasileiros jogavam em pirâmide com numerações oriundas da disposição tática do WM e vice-versa. E na hora de transcrever para o jornal, escalações difusas entre vários veículos de comunicação, sobretudo em jornais. Isto é sempre um dilema para qualquer pesquisa.

A numeração começou no Brasil em 1948 por conta da Copa de 1950.
(Alberto Helena Jr.)

Uma bagunça que se somava à ingenuidade tática e física porque, em questões técnicas, nossos jogadores em nada deviam aos de fora. Além disso, erros de interpretação, como a escalação da esquerda para direita por setores, era diferente da realidade na comparação entre a escalação oficial e a prática tática no jogo.

O sistema táctico, aliás, não é senão o conjunto de princípios, de ideias ou de esquemas de jogo destinados a combater o adversário. A anular o seu sistema atacante e a destroçar o seu dispositivo de defesa (Candido de Oliveira, 1949)

Fausto, "A Maravilha Negra".
No Flamengo de Dori Kruschner, uma revolução tática, mas que causou tanta polêmica, que naufragou mais uma tentativa de evolução, mas deixou marcas para o futuro.

O estopim: Kruschner recua o centromédio Fausto, a “Maravilha Negra", para zagueiro, reconhecendo sua experiência e alta capacidade técnica e defensiva, além da percepção de sua idade avançada para o desempenho físico da função de centromédio que o consagrou.

Fausto foi aos tribunais com advogado por conta de Kruschner ter mudado sua posição tática de centromédio para full-back. O juiz não sabia julgar isso, Fausto foi suspenso, multado e obrigado a comparecer aos treinos. Comparecia, mudava de roupa e não treinava.

No Flamengo, o Dr. Padilha apoiava Kruschner. E se ele quisesse, sem exageros, por exemplo, mudar o goleiro Yustrich do gol para a ponta-esquerda, teria o aval de Padilha.

O Fausto era um center-half que, para os europeus, era o zagueirocentral e, no Brasil era uma espécie de pivô e o time jogava em função dele. Com esta mudança, polêmica, Kruschner trouxe o WM por aqui.
(João Máximo)

Tudo isso porque Kruschner tentou Fausto no Flamengo para ter três beques.

Lembram do moderno WM da época?

Dori Kruschner recuou o Fausto dos Santos de meio-campo, mais precisamente era um centro médio, para zagueiro. Para Fausto, era depreciativo um ser zagueiro, uma ofensa a um ícone! E ainda ele estava com tuberculose. (Ivan Soter)

Gentil Cardoso e o estrangeiro Kruschner tentando implantá-lo num Brasil de ótimos futebolistas, mas coletivamente ingênuos. Candido de Oliveira veio ao Brasil e treinou o Flamengo por 40 dias. Estava invicto e iria voltar para Portugal quando, num jantar, pediram para ele ficar. Ficou e o Flamengo não ganhou mais nada.

Ele voltou.

E foi triste saber que Kruschner deixou um legado que somente seria compreendido após literalmente termos sofrido derrotas significativas. Um aprendizado que levaria mais cerca de quinze anos.

Kruschner acreditava que o jogador brasileiro era diferenciado, mas que estava atrasado no futebol. Confiava-se muito no improviso e no virtuosismo. Ele treinava fundamentos com seu elenco e era criticado por acharem que jogador já nascia feito (uma curiosidade: Kruschner sugeria treino de boxe para o goleiro Yustrich, para aumentar sua agilidade no gol).

Mas Kruschner deixou discípulos como seu ex-auxiliar Flávio Costa e Zezé Moreyra.

Dori Kruschner dizia a Leônidas da Silva: “Prá que correr tanto com a bola? Correndo, assim, com a bola, você chega à zona de tiro quase sem forças para chutar. Experimente, Leônidas, correr mais sem a bola do que com ela. Receba, passe e desloque-se para recebê-la novamente. Faça isso e depois verá o resultado.” (Pedro Zamora, 1969)

Flamengo de Dori Kruschner, em 1937.
Kruschner estava tentando ensinar a um ídolo. Tudo pela coletividade, sempre.

Esta história do embate entre o jogador Fausto e o treinador Dori Kruschner foi crucial para acender a chama no futebol brasileiro.

Todos os times fora do Brasil passaram a recuar o seu centro médio para tapar o buraco entre os dois beques. Kruschner foi chamado para ensinar a gente a jogar futebol. E tentou montar o Flamengo no WM. Tentou colocar Fausto na posição de zagueiro-central. Desencadearam contra ele a maior campanha que um técnico já sofreu entre nós. Ninguém queria saber de três zagueiros. (Pedro Zamora, 1969)

E ainda...

Lembro-me de haver almoçado certa tarde com o simpático Candido de Oliveira, num restaurante da Barra da Tijuca. Conversamos longamente sobre futebol e ele situava a instabilidade dos técnicos como um grande mal da nossa organização desportiva (...) ninguém pode trabalhar tranqüilo se houver o temor das derrotas. (Luiz Mendes, 1963)

Curiosidade: o Fluminense pediu para Fred Brown traduzir o livro de Herbert Chapman sobre o WM, por respeitar o Flamengo de Kruschner.

No mundo do futebol, muita coisa acontecia; ainda mais numa situação bélica que realmente pesava no campo e na bola. De ferro?

Boris Arkadyev
Boris Arkadyev (1899–1986), de São Petersburgo para o mundo, em seu livro "Football Tactics” (1946), conta-nos um pouco do panorama que o futebol tinha nesta época tão conturbada territorialmente.

Um respeitado jogador e técnico de futebol que, por conta do conceito da prática da esgrima, percebeu muito cedo a importância do contra-ataque. Aliás, diante de uma situação de guerra, os times começaram a utilizar a filosofia do contra-ataque como uma das alternativas de jogo. E estamos falando da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS.

Não dá para negar influência, na prática do jogo, como, por exemplo, o momento crucial da guerra, o desembarque das tropas alemãs na Normandia, o famoso “Dia D”. O inverno na Sibéria e por aí vai!

Voltando a Arkadyev...

Ele havia deixado, como treinador, o Metallurg Moscow, um dos menores clubes da capital, em terceiro lugar na Supreme League em 1936. Mudou-se para Dinamo Moscow, que tinha conquistado aquele primeiro título. Lá, sua inquieta e fértil imaginação – sem falar no seu hábito de levar seus jogadores em visita a galerias de arte antes de grandes jogos – concedeu-lhe reputação por seu brilho excêntrico. (Jonathan Wilson, 2009)

Era o Leste europeu se movimentando. Arkadyev repensava sua tática de jogo, causando uma revolução no futebol soviético. Ainda no sistema de contra-ataque, Arkadyev tinha, no Dinamo Moscow de 1940, uma variação do WM, na questão ofensiva.

Dinamo Moscow, de Arkadyev.
O ataque, diante de uma defesa com três zagueiros, ficava marcado por conta de posições fixas. Então, um dos interiores, se tornaria o responsável pela mudança do padrão ofensivo da equipe, iniciando um movimento ofensivo diagonal da esquerda para direita, ou ao contrário. Esse movimento fazia com que um dos três zagueiros tivesse que o acompanhar defensivamente, liberando outros atacantes para tentarem entrar na defesa adversária e receberem o passe.

Nossos jogadores trabalhavam para mudarem de um esquema WM para um sopro de alma russa dentro da invenção inglesa, somando nossa negligência de dogma com a utilização da linha defensiva para um jogo de marcação por zona de campo ao oponente. (Jonathan Wilson, 2009)

Uma forma diferente de marcar. O WM era mais ortodoxo, numa marcação aos seus pares, como num espelho. Mas como se faz numa movimentação e constante troca de posições. Os russos, de Arkadyev, já estavam pensando nisso.

A tática de jogo resume-se em ajustar os diferentes jogadores de uma equipe de modo a poder atender ao único objetivo que se tem em mira: atacar bem. Não se cogita propriamente de defender, mas de atacar. Ao dispor as coisas para atacar implicitamente se trata de defender. Essa razão de se tornar tão corriqueira a frase “o ataque é a melhor defesa”. Em tática, pois, não se pensa em defesa, mas em ataque, muito embora a forma de se resolver a questão resulte em ajustar as duas coisas, mas sempre com o propósito de ter maior predomínio de uma sobre a outra. (Prof. Miranda Rosa, 1946)

E o professor Mario ainda acrescenta...

Para se atender ao ataque de um quadro, deve-se dispor os jogadores de tal forma que não fique mais do que um para igual número de adversários. Assim, lançamos dois ou três homens numa determinada combinação, prevendo que, no máximo, dois ou três adversários poderão antepor-se a eles. Em relação à defesa, da mesma forma, procuramos evitar que maior número tenha que defrontar um menor número de lances. Isso se passa dessa maneira porque a tática não se baseia em maior número senão momentaneamente, pois que os dois quadros são compostos dos mesmos onze jogadores. As probabilidades, pois, de se estar em vantagem numérica em certos lances, dependem exclusivamente da mobilidade da tática do jogo, que permitirá a deslocação de elementos de um para outro lado, de maneira a apresentar essa supremacia numérica. (Prof. Miranda Rosa, 1946)

Palestra, no dia em que virou Palmeiras, 1942.
Ano de 1942 e um fato pitoresco aconteceu no futebol. Era a penúltima rodada do Paulistão, e em meio à Segunda Guerra Mundial, o Palestra Itália, havia mudado seu nome para Sociedade Esportiva Palmeiras há seis dias.

O duelo, considerado o primeiro clássico entre as equipes, corria bem até os 19 minutos do segundo tempo, quando o Alviverde vencia por 3 x 1. Porém, após Virgílio, do São Paulo, dar um carrinho em Og Moreira, cometer pênalti e ser expulso, os tricolores se revoltaram e, seguindo ordens do seu presidente, abandonaram o campo.

Antes disso, Luisinho Mesquita, o capitão do time, impedira a cobrança do pênalti. O juiz, então, apitou o final da partida e o Verdão foi declarado campeão paulista – o primeiro título com o novo nome, o nono na história. Também inconformados com a decisão, os torcedores do Tricolor invadiram o gramado e tentaram agredir o árbitro, que precisou sair do estádio sob escolta policial.

Estávamos formando nossos esquadrões, mas tínhamos uma tremenda desorganização. E ainda jogávamos no clássico 2-3-5.

Sobre o autor:
Darcio Ricca é administrador de empresas e escolheu a profissão, porque, quando criança, ouvia especialistas dizerem que a “Tragédia do Sarriá” poderia ter sido talvez evitada por uma melhor leitura da partida naquela tarde. Ao estudar tática e estratégia, descobriu, anos mais tarde, que isso poderia ter aplicação no mundo empresarial. É membro do Memofut – Grupo de Literatura e Memória do Futebol (do qual já foi coordenador, em 2013-2014) e criador do site www.3nacopa.com.br no ar desde 2009.