quinta-feira, 3 de abril de 2014

Por fora da Copa

Um livro com olhar diferente sobre o maior evento do futebol mundial. Em época de “desova” de títulos sobre o tema Copa do Mundo, “Por fora da Copa” (Editora Dublinense) aparece como uma “grande sacada”. 

O autor, Eduardo Menezes, já havia ousado antes, em 2010, quando lançou outro “guia” diferente sobre o tema Copa do Mundo, com “A Copa que interessa”, também da editora Dublinense e que o Literatura na Arquibancada recomenda (http://www.dublinense.com.br/livros/a-copa-que-interessa/ ).






Sinopse (da editora):

Um guia da Copa sobre: crises de crédito, linguística, sexo, maconha, xadrez, televisão, arrocho salarial, medo da vitória, revolucionários, Mona Lisas, placas tectônicas, psicologia barata, máfias, reis, neve, filipinos, leis de mercado, racismo, estrangeirismos, diplomacia, primavera árabe, expedições, ursos, guerras, imigrantes, xamanismo, narcisismo, macumba, tango, hinos, burocracia, aiatolás, fogueteiras, maioridade penal, jogos arranjados, presidentes exilados, cartolas, doenças coronárias, passaportes — e um pouco de futebol.

O futebol é um saco. Ao menos o que acontece dentro de campo.

Principalmente porque algumas das histórias mais interessantes e bizarras e dos fatos mais curiosos que esse esporte é capaz de produzir acontecem bem longe dos estádios.



São, muitas vezes, estopins de guerras, catalisadores de tratados de paz, o que faltava para a união de um povo ou para a separação de um país, retratos da cultura de um grupo ou até mesmo a desculpa perfeita para os mais impensáveis absurdos.

Com descompromisso e bom-humor, este guia prova que talvez o futebol não explique o mundo. 

Mas que ele dá uma boa pista, disso não há dúvida.

Capítulo da obra

A expedição
Por Eduardo Menezes

Até 1950, o Brasil já havia vivido o ciclo do ouro, do açúcar e do café. Quando, naquele ano, o Uruguai conquistou a Copa vencendo nossa seleção por 2 a 1 em um Maracanã lotado por duzentas mil pessoas, começaríamos a viver o ciclo do futebol. O silêncio do estádio e do país inteiro indicava que era preciso entender por que aquele esporte nos unia tanto, ainda mais em um momento de dor. Começava então uma expedição para entender o jovem Brasil e talvez encontrar a cura para a tristeza através da bola. Este processo dá sinais de estar se encerrando justamente agora, quando sediaremos de novo uma Copa do Mundo.

A nação que organizou a Copa de 50 era um país essencialmente rural e com a metade da idade republicana que tem hoje. A unidade federal não existia, e as rivalidades regionais entravam em campo. Na partida contra a Suíça, realizada em São Paulo, dirigentes paulistas exigiram que a escalação da seleção fosse alterada para prestigiar os jogadores locais. O time, que era praticamente formado por cariocas, atuou desfigurado e ficou em um modesto 2 a 2 contra os europeus. Por sorte, este foi nosso único jogo longe do Rio de Janeiro, e os melhores logo voltaram a ser escalados. Rixas idênticas já haviam atrapalhado o time nas Copas de 30 e de 34, sinalizando que deixar desavenças como essas para trás era o ponto de partida.

O esforço de nacionalização do esporte funcionou. Tanto que hoje o futebol é o único dos estereótipos que nos une como país. Não somos todos do samba, tampouco todos mulatos, mas cada um de nós é um pouco futebol. Enquanto os ritmos musicais e as etnias se confundem de região em região, qualquer canto do Brasil tem futebol como um dos pilares sociais. E se por um lado o esporte segue fazendo parte da formação dos jovens e da diversão dos adultos, a seleção brasileira parece estar cada vez menos presente nessa rotina. Sua representatividade cresceu a partir de 1950, atingiu o ápice e começou a cair. Não significa que deixaremos de gostar do time canarinho, mas sim que ele parece cada dia menos importante.
Os sinais do processo podem ser vistos em nossas conquistas.

Na Suécia, em 1958, um time formado de jogadores vindos tanto do morro quanto do engenho venceu nossa primeira Copa do Mundo. A seleção desembarcou para uma festa pelas principais cidades do país em uma turnê que decretou feriados por onde passava. Estávamos, segundo Nelson Rodrigues, perdendo o complexo de vira-lata que nos fazia agir como cidadãos de segunda classe do mundo. A primeira de nossas cinco conquistas foi acompanhada apenas pelo rádio e por rolos de filme em preto e branco, o que não impediu a sintonia entre time e nação, sentimento bem diferente do experimentado em nosso título mais recente.

Em 2002, em um torneio realizado em conjunto pela Coreia do Sul e pelo Japão, um desacreditado Brasil fez uma campanha impecável para levantar a taça. Os jogos aconteciam entre a madrugada e o começo da manhã em nosso fuso horário, e por si só essa condição já convidava à desmobilização. O time campeão foi recebido com festa, mas a imagem mais lembrada de toda a comemoração é a do jogador Vampeta alcoolizado dando cambalhotas na rampa do Palácio do Planalto. Sem dúvida, a estrela conquistada em 2002 parecia brilhar bem menos que a de 1958.

O ponto de ruptura parece ter acontecido em 1982, exatamente o meio do caminho entre hoje e nosso trauma de 50. Naquela Copa, nosso time conseguiu jogar o mais próximo do que se idealiza como futebol brasileiro desde sempre. Uma equipe leve, que colocava muita beleza e plasticidade no jogo, sem se preocupar tanto em ser objetivo, mais artística do que os times vencedores de 58, 62 ou 70. A seleção que encantou o mundo com dribles e toque de bola em 82 foi derrotada pela Itália por 3 a 2, e os três gols do italiano Paolo Rossi não acabaram apenas com nossas chances, mas soterraram para sempre a unanimidade no Brasil.

De 1982 para cá, ainda seríamos campeões mais duas vezes, mas sempre divididos sobre como devemos seguir jogando. Metade acredita que devemos apostar na alegria do entretenimento, metade acredita que devemos atuar exclusivamente para vencer. Ao mesmo tempo que precisamos de jogadores criados no futebol de rua, tendo o improviso como principal arma, queremos atletas disciplinados taticamente, que marquem o adversário como marcam os europeus. Se antes as torcidas discutiam quem era melhor, hoje o conceito de melhor depende da função que o técnico vai dar ao atleta em campo. Enquanto não se encontra um lado para dar a razão, o gosto pela seleção vai desaparecendo. Seguimos unidos, mas não próximos a ponto de nos reconhecermos, exatamente como aconteceu no início dessa história.

Os finalistas que perderam para o Uruguai no Maracanã eram estranhos para muitos brasileiros, já que jogavam todos no centro do país. A maioria das pessoas que acompanhava a transmissão da partida nunca havia tido a chance de vê-los jogar e usava a imaginação para desenhar na mente os lances e os próprios atletas. Hoje, nosso time é formado por homens que jogam ainda mais longe, na Europa, e que foram para lá antes mesmo de ter idade para dar um beijo em suas namoradas. O êxodo de menores de idade criou um time do Brasil no qual alguns dos seus componentes nunca viajaram pelo país para jogar um Brasileirão, e para quem o Maracanã é tão estranho quanto seria para um croata.

Nossos jogadores são menos expedicionários e mais estrangeiros, e não é de se estranhar que cada vez mais alguns deles prefiram jogar por seleções das ligas onde atuam, como Espanha ou Itália.

Parte dos brasileiros não reconhece os jogadores em campo, e outra parte sequer reconhece a importância do Mundial. Dizer que vamos jogar a Copa em casa se tornou um conceito bastante relativo, e muitos torcem o nariz para a Fifa e para o modo como a preparação do torneio foi conduzida. Grande parte do país definitivamente não sofrerá caso uma derrota como a de 1950 se repita. Não porque deixamos de ser brasileiros, mas porque talvez estejamos curados.

Sobre Eduardo Menezes:
Nasceu em 1981, e a primeira Copa do Mundo que acompanhou com clareza foi a da Itália, em 1990. Apesar do começo traumatizante que foi ver o time de Sebastião Lazaroni jogar, desenvolveu já naquela época o gosto pelo esporte e pela cultura que o cerca. "Por fora da Copa" é o segundo guia para Mundiais do autor, que traz a mesma visão singular do torneio presente em "A Copa que interessa" (Dublinense, 2010). Além dos livros, Menezes já teve textos publicados por jornais e revistas brasileiras, como a Superinteressante e a Mundo Estranho, e foi notícia com seus projetos pessoais em praticamente todos os grandes veículos de mídia do Brasil.

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