quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os Hermanos e Nós

Brasil X Argentina, o maior clássico do futebol mundial. Um das maiores rivalidades dentro dos gramados. Tudo é “maior” nesse caso. É assim há mais de um século. E sempre será. Durante a Copa do Mundo, no Brasil, dois dos maiores astros do futebol mundial (e que jogam juntos), estarão frente a frente: Neymar e Messi. Esse momento histórico, com certeza, estará presente em futuras edições de um “livraço” que dois craques do jornalismo escreveram.

Os Hermanos e Nós” (Editora Contexto), de Ariel Palacio e Guga Chacra, contudo, tem uma resposta diferente sobre essa tal rivalidade entre brasileiros e argentinos.

Sinopse (da editora):

Além da paixão pelo futebol, brasileiros e argentinos têm em comum a admiração que suas seleções despertam ao redor do planeta.

Quando elas entram em campo, param o mundo. Pergunte a um palestino e a um israelense, a um grego e a um turco para qual time torcem na Copa do Mundo, quando o deles não está na disputa. Se não for o Brasil, será a Argentina.

Neste livro, os jornalistas brasileiros Ariel Palacios – que vive em Buenos Aires – e Guga Chacra – que já morou lá – contam de forma deliciosa o que é o futebol argentino desde sua história até seu estilo de jogo. Como se manifesta o fanatismo das torcidas argentinas, aquelas que cantam sem parar, esteja o time ganhando ou perdendo? Quais seriam os equivalentes brasileiros de clubes argentinos como o River Plate, o Racing ou o Boca Juniors? E, afinal, é verdade que o maior rival da Argentina é o Brasil? (Já desvendamos o segredo: não é.)
Nós amamos odiá-los, eles odeiam nos amar, mas ambos somos os maiores praticantes do futebol-arte. Leitura imperdível e deliciosa.

Os argentinos e el fulbo
Por Ariel Palacios e Guga Chacra

Brasileiros e argentinos, quando entram em campo, param o mundo. Pergunte a um palestino e a um israelense, a um grego e a um turco para qual time torcem na Copa do Mundo, quando o deles não está na disputa. Se não for o Brasil, será a Argentina.

Brasileiros e argentinos são os únicos no mundo que, ao viajarem para outros continentes e dizerem ser naturais do Rio de Janeiro ou de Buenos Aires, ouvem uma simpática saudação de “Pelé”, “Maradona”, “Ronaldinho” ou “Messi”. A camisa amarela da seleção brasileira e a azul e branca da argentina são reconhecidas no Gabão, na Eslovênia, no estado americano de Wisconsin ou em um balneário no Azerbaijão, às margens do mar Cáspio.

As diferenças históricas entre Brasil e Argentina já estão resolvidas desde a metade do século XIX. Pode-se até dizer que, de certa forma, somos os melhores amigos um do outro. Mas, se no campo da política não existem divergências, em todo o universo dos esportes é difícil haver uma rivalidade tão forte quanto a de Brasil e Argentina no futebol.

Seria como na geopolítica internacional ser americano ou soviético nos tempos da Guerra Fria. Os demais apenas observam a nossa superioridade.

Tudo bem, Itália, Alemanha e mesmo a Espanha e a França podem fazer frente a Brasil e Argentina. Mas nenhuma dessas nações, nem mesmo os italianos com suas quatro Copas do Mundo, consegue despertar a magia do drible e do passe dos sul-americanos. E nem se fale de nossa capacidade de produzir tantos craques em todas as gerações.

Pergunte quem é o melhor jogador de todos os tempos e, no mundo todo, haverá quase unanimidade entre três nomes – Pelé, Maradona e, mais recentemente, Messi. Qual a melhor seleção de todos os tempos?

Provavelmente dirão – inclusive os argentinos – que o Brasil de 1970.

Apesar dessa rivalidade, colocada a prova em quatro jogos de Copa do Mundo, em 1974, 1978, 1982 e 1990, e em dezenas de partidas ao longo de um século de história, brasileiros e argentinos ainda desconhecem muito do futebol do país vizinho, de suas características e de sua história.

Neste livro, contaremos ao leitor brasileiro o que é o futebol argentino (a partir da ótica de brasileiros que, como no caso do Ariel, vivem na Argentina e, no do Guga, viveram na Argentina), desde sua história até seu estilo de jogo. Por que nas seleções argentinas há tantos jogadores com sobrenome italiano? Por que existem dois campeonatos argentinos por ano? Quais foram os títulos conquistados pela Argentina? Qual foi a ocasião em que argentinos e brasileiros – ao lado dos italianos – ganharam juntos uma Copa do Mundo?

Como se manifesta o fanatismo das torcidas argentinas, aquelas que cantam sem parar, o time esteja ganhando ou perdendo? Quais seriam os equivalentes brasileiros de clubes argentinos como o River Plate, o Racing ou o Boca Juniors? Qual o maior clássico argentino? O que são clássicos de bairro? Você sabia que o maior estádio de Buenos Aires não é a Bombonera (embora esta seja a “catedral” do futebol na Argentina)?

É verdade que eles chamam os brasileiros de “macaquitos”? E que, ao contrário de nós (que preferimos uma derrota argentina a uma vitória brasileira), a maior alegria deles não é sequer ganhar dos brasileiros?

Aliás, locutores esportivos argentinos não possuem frase alguma que sustente que “ganhar é bom, mas ganhar do Brasil é melhor”.

Os brasileiros querem saber o que, afinal de contas, aconteceu no tão falado jogo da Argentina contra o Peru em 1978, que alijou o Brasil daquela Copa. E se Messi já é melhor que Maradona.

Como o futebol é representado no tango, no cinema, na literatura e nos quadrinhos?

No Brasil seria uma heresia sair com a camisa da seleção argentina, mas lá é comum ver argentinos usando a “canarinha”, evidentemente, fora do período da Copa ou de outro tipo de campeonato. Essa informação pode ser estarrecedora para os defensores da perpétua rivalidade, mas os argentinos acham bonita a camisa brasileira para vestir informalmente no cotidiano.

E uma informação que pode deixar muitos torcedores brasileiros traumatizados: os argentinos admiram o futebol brasileiro e gostam do Brasil como um todo. Ou melhor, além de gostar, admiram o Brasil por uma longa lista de fatores, entre os quais está o lado mais frívolo ou de ócio, como as praias, a caipirinha, o Carnaval, a paisagem litorânea, o samba, a bossa nova e os cafés da manhã dos hotéis, pela vasta variedade de frutas tropicais que oferecem.

De quebra, os argentinos consideram as brasileiras o máximo da sensualidade. Conhecemos vários argentinos que tentam marcar um encontro pelo telefone com garotas, só por sabê-las brasileiras, sem nunca as terem visto pessoalmente.

No lado político-econômico, nas últimas duas décadas os argentinos passaram a admirar a industrialização brasileira, a influência regional crescente adquirida desde os anos 1990, o protagonismo político e econômico mundial do Brasil e, acredite se puder, até consideram a classe política brasileira “menos corrupta” e mais eficiente do que a da Argentina!

Mais um detalhe: não adianta contar a um argentino uma piada sobre argentinos. Eles conhecem todas, e até mais algumas que a gente não sabia. Acontece que essas piadas não foram feitas no Brasil, mas na própria Argentina, em função do ácido humor que os argentinos – especialmente os portenhos – possuem sobre si próprios.

Na Argentina existe o mito de que os brasileiros referem-se ao próprio país, à cultura, ao futebol e aos produtos brasileiros como “o maisgrande do mundo”. A frase é pronunciada costumeiramente em Buenos Aires como “o mais grandgi dú múndô”, com o erro gramatical incluído em vez da forma correta o maior do mundo”. E, em seu primeiro mandato, ao assinar um acordo com a Embraer, a presidente Cristina Kirchner citou a frase, apesar de errada, e além disso, ingenuamente, enfatizou: “Acho fantástico o orgulho dos brasileiros, que se referem assim, ‘o mais grande do mundo’! Isso mostra o orgulho que eles têm!”.

Voltando ao futebol: os argentinos definem a forma de jogar dos brasileiros com admiração, com a expressão “jogo bonito”, pronunciada quase sempre com um peculiar sotaque: “xóôgo bónito”.

O acadêmico Pablo Alabarces, da Universidade de Buenos Aires (UBA), que realizou com o brasileiro Ronaldo Helal (da UERJ) um debate interessante sobre a relação futebolística entre os dois lados da fronteira, cunhou uma frase que tenta resumir a intrincada trama de sentimentos mútuos: “Os brasileiros amam odiar a Argentina, enquanto os argentinos odeiam amar o Brasil”. Helal ressalta que “qualquer rivalidade contém uma dose de admiração e de inveja. Somente rivalizamos com alguém que tem algo que desejamos possuir ou superar”.

E, para encerrar: em meados de 2013, no Brasil, durante sua primeira viagem internacional depois de eleito, o papa Francisco (torcedor fanático do San Lorenzo) brincou com jornalistas sobre os cardeais brasileiros, supostamente candidatos derrotados por ele, um argentino: “Deus já é brasileiro... e vocês queriam também um papa brasileiro?”.

BRASIL X ARGENTINA,
UMA RELAÇÃO DE AMOR E ÓDIO
“Percam, por favor, rapazes, percam!”: o primeiro jogo Brasil x Argentina (trecho 1º capítulo)

Presidente Julio Argentino Roca
O presidente Julio Argentino Roca foi um dos símbolos do patriotismo argentino. Embora controvertido, Roca orgulhava-se de ostentar até o segundo nome de “Argentino”. Mas, em 1912, já ex-presidente, Roca preferiu renunciar circunstancialmente ao nacionalismo para evitar problemas com o Brasil. Naquele ano, os dois países estavam mergulhados em tensões comerciais e militares.

Roca, que havia protagonizado a primeira visita de um presidente argentino ao Brasil, em 1899, era considerado um “brasilianista”. Por esse motivo, foi enviado em missão especial pelo presidente Roque Sáenz Peña para desarmar os conflitos com o país vizinho.

A visita de Roca coincidiu com o 90° aniversário da proclamação da independência do Brasil. Enquanto participava das festas do Sete de Setembro no Rio de Janeiro, o combinado da Associação Argentina de Futebol jogava com o combinado de São Paulo. O jogo terminou com um placar a favor dos visitantes de 6 a 3. Ambos os lados festejaram o resultado esportivamente.

Haveria uma revanche, no dia 10, no Rio, quando os argentinos enfrentariam um combinado carioca. Mais uma vez, os visitantes venceram, com placar de 4 a 0. Enquanto isso, Roca negociava com o governo do presidente Hermes da Fonseca.

No dia 15, foi a vez do combinado brasileiro. Segundo o historiador Daniel Balmaceda, o jogo começou às 15h35, perante 7 mil torcedores.

Julio Roca e Campos Sales, presidentes da Argentina e Brasil.
Na época, o futebol não movimentava grandes volumes de dinheiro (era amador) nem ainda estava intrinsecamente amarrado aos sentimentos nacionalistas. Nas arquibancadas, os torcedores agitavam bandeirinhas do Brasil e da Argentina. A multidão cantou o hino brasileiro. Na sequência, os argentinos, como cavalheiros, posicionaram-se na frente do palco oficial e deram três hurras ao Brasil.

A partida começou, enquanto a torcida brasileira aplaudia os passes de ambos os lados. A Argentina fez o primeiro gol. Os jogadores argentinos foram parabenizados e abraçados pelos brasileiros.

Mas, três minutos depois, os argentinos fizeram o segundo gol. Houve aplausos, mas em menor volume. Antes de o primeiro tempo terminar, os argentinos fizeram o terceiro gol. As bandeirinhas argentinas começaram a sumir.

Roca, que assistia ao jogo, foi ao vestiário. Primeiro, parabenizou os jogadores. Depois, fez um apelo dramático: “Rapazes, o Brasil está festejando sua data nacional. Hoje vocês têm de perder. Por favor, façam isso pela pátria argentina! Percam pela pátria!”.

Os argentinos voltaram ao campo. E fizeram mais dois gols. O jogo terminou em 5 a 0. Segundo as testemunhas, eles obedeceram às ordens de Roca, pois afirmaram posteriormente que haviam dado uma “desacelerada”, caso contrário a goleada teria sido maior.

No entanto, a revanche seria brasileira. Em 1913, Roca doou uma copa, a Copa Roca, que posteriormente seria disputada entre times do Brasil e da Argentina. E, cerca de um ano depois, no dia 27 de setembro de 1914, o Brasil foi à Argentina e venceu por 1 a 0.

Os torcedores argentinos invadiram o campo e carregaram nos ombros o goleiro (goalkeeper na época) brasileiro Marcos Mendonça.

A Taça da Copa Roca, jogada em 12 ocasiões entre 1914 e 1976, ficou nas mãos do Brasil, o último campeão.

Um século de disputas
entre brasileiros e argentinos

A Argentina pode ter enfrentado a Alemanha em duas finais de Copa de Mundo, em 1986 e 1990. O Brasil, por sua vez, jogou contra a Itália em outras duas, em 1970 e 1994, além da fatídica eliminação em 1982, na segunda fase. E são as duas seleções com o maior número de títulos mundiais. Pela lógica, talvez esses clássicos – Alemanha x Argentina e Itália x Brasil – possuíssem uma dimensão maior do que Brasil versus Argentina. Mas a história demonstra que a maior rivalidade entre grandes seleções no mundo é a de brasileiros contra argentinos.

Em primeiro lugar, por ter cerca de um século. Em segundo, por serem nações vizinhas e disputarem torneios continentais. Terceiro, por desenvolverem talvez o futebol mais artístico do mundo, com cinco jogadores sempre na lista dos melhores da história – Pelé, Maradona, Messi, Di Stéfano e Garrincha. Quarto, por serem duas das seleções mais vencedoras em Copas do Mundo, somando sete ao todo. Por último, pela história envolvendo os mais de 100 jogos entre esses dois times, que quase sempre são encarados como se fossem de Copa do Mundo.

Crianças em Buenos Aires, Rosário, Córdoba, Santa Fé e La Plata, ao disputarem partidas em campos de terra, sonham um dia jogar a final de uma Copa do Mundo contra o Brasil, assim como seus pares brasileiros em Brasília, São Paulo, Rio, Manaus, Recife e Porto Alegre. Certamente Pelé, Rivellino, Zico, Romário, Ronaldo e Neymar já se imaginaram marcando um gol contra a Argentina.

Brasil x Argentina, 1939.
E, da mesma forma, um gol na final do Mundial contra o Brasil passou pela cabeça de Di Stéfano, Kempes, Maradona, Batistuta e Messi. Aliás, Jairzinho, Rivellino, Zico, Serginho, Júnior, Ramón Díaz, Brindisi e Caniggia atingiram esse objetivo em 1974, 1982 e 1990, apesar de não ter sido em uma final.

As disputas entre Brasil e Argentina podem ser divididas em três períodos. O primeiro seriam as partidas até os anos 1960, marcadas pela rivalidade em torneios da América do Sul. O segundo, em Copas do Mundo entre 1974 e 1990. E o terceiro, pós-Copas, quando a rivalidade migrou para outros torneios, como a Olimpíada, a Copa das Confederações e a Copa América.

Sobre os autores:
Ariel Palacios fez o master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995, é o correspondente em Buenos Aires do jornal O Estado de S. Paulo e, desde 1996, do canal de notícias Globo News. Foi também correspondente da rádio CBN e da rádio Eldorado. Participou de coberturas de eleições, crises políticas, tentativas de golpes de Estado, rebeliões populares e terremotos em diversos países da América do Sul. Em 2013, publicou o livro Os argentinos pela Editora Contexto. Criado em Londrina, Paraná, Ariel é formal e exclusivamente torcedor do Londrina Esporte Clube (L.E.C.).
Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News em pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em Nova York. Também trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Participou das coberturas da Guerra de Gaza (2009), do terremoto no Haiti (2010), da crise em Honduras (2009), do furacão Sandy (2012), das eleições nos EUA (2013), da crise econômica argentina (2000), da crise econômica nos EUA (2009) e do crescimento da Al Qaeda no Iêmen (2012). Palmeirense, na Argentina acompanhava o Boca e simpatiza com o Racing, por ser o equivalente do alviverde paulista no país vizinho.

Um comentário:

  1. Anônimo01:51

    Querido eu quero esse livro, onde posso encontrá-lo. Se possível entre em contato comigo.
    Mariana - marimaiareis@hotmail.com

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