quarta-feira, 30 de abril de 2014

O País da Bola

Uma “viagem” literal através do país do futebol. Um livro importante na história da literatura esportiva brasileira foi reeditado. A obra é “O País da Bola”, de Betty Milan, lançado em 1989 pela Editora Record, ganha agora, em 2014, nova edição, atualizada, com prefácio da autora.

Literatura na Arquibancada reproduz abaixo o texto de apresentação da primeira edição, além do primeiro capítulo da obra.

Sinopse (da editora):

Se a cultura francesa privilegia o direito - le droit -, a inglesa o fairplay e a espanhola a honra - el honor -, a brasileira, segundo Betty Milan, privilegia o brincar. Aconteça o que acontecer, diz ela, nós brincamos. Podemos prescindir de tudo, porque sabemos recorrer à imaginação. O resultado dessa cultura do brincar é um futebol particularmente inventivo, que produz jogadores capazes do impossível e propicia continuamente a surpresa. A autora mostra o que fez do football o futebol e dos nossos jogadores figuras lendárias. Com O país da bola, o leitor entra no Braaasilll, o Brasil que mais faz sonhar. Veja mais no site: www.bettymilan.com.br .






Introdução
Por Betty Milan



A cultura francesa privilegia o droit, a inglesa o fair play e a espanhola el honor. Nós, brasileiros, privilegiamos o brincar. Aconteça o que acontecer, nós brincamos, porque para isso podemos prescindir de tudo, só precisamos da imaginação. O samba que o diga:

Com pandeiro ou sem pandeiro
E, ê, ê, ê, eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
E, ê, ê, ê, ê eu brinco
(PEDRO CAETANO e CLAUDIONOR CRUZ, 1944)

Tanto podemos abrir mão do pandeiro quanto do dinheiro por sermos capazes de improvisar o que desejamos, valendo-nos do que estiver ao alcance da mão. Os brasileiros de todas as classes são escolados na improvisação, que pode mesmo ser considerada um traço cultural.

Essa tendência se manifesta claramente, por exemplo, no Carnaval, festa em que é hábito recorrermos ao que está no armário para fazer a fantasia. Assim, a partir de um top chegamos a uma bailarina, acrescentando apenas um saiote de tule e um chapeuzinho redondo feito com tampa de caixa de queijo e tecido bicolor. Uma frente única, um fuseau e alguns colares de pérolas falsas compõem a roupa da fantasia de turca, que só requer a compra de um chapéu — a menos que também o façamos em casa com feltro e pingente de borla.

O luxo da cultura brasileira é a imaginação, que nós muito valorizamos. As histórias infantis induzem a contornar o impossível imaginando e a realizar assim o desejo.

“Queres ir ao céu?”, pergunta o narrador de uma delas, já respondendo: “Toma o pó de pirlimpimpim”. Pó que, nós, crianças, tomávamos para com os personagens desembarcar na Lua, ver São Jorge espetar o dragão de língua vermelha com ponta de flecha e olhos de fogo. “Queres encontrar Branca de Neve, Peter Pan, Capitão Gancho, Dom Quixote e Sancho Pança, Aladim e Xerazade reunidos? Senta no tapete voador para ver”. E nós assistíamos à chegada simultânea deles todos no Brasil.

Somos formados desde pequenos para inventar e, por isso, o futebol brasileiro é particularmente criativo, produzindo jogadores capazes de fazer o impossível acontecer, propiciar a experiência da surpresa de que necessitamos para aplacar a nostalgia da infância, época em que todo dia deparávamos com alguma novidade absoluta. O estilo do nosso jogo é o de um povo que se entrega à imaginação porque vê nela uma saída.

Interessa aqui focalizar o estilo deste povo e, para isso, nós atravessaremos o país da bola, indicando o que faz do football o futebol e dos nossos jogadores, figuras lendárias. Na travessia, o leitor enveredará pelo Brasil que faz sonhar, o Braaasilll, e ele talvez se diga que o gol bem pode nos representar.

FUTEBOL ESPERANÇA

“Na França, um vilarejo é uma torre de igreja; no Brasil, uma bomba de gasolina e um campo de futebol”, me disse um jornalista esportivo francês voltando da Transamazônica. “Os brasileiros são feitos para o jogo e este para eles”, escreveu outro, acrescentando que os cariocas, antes de serem cristãos, comunistas, brancos ou negros, eram torcedores de Vasco, Fluminense, Flamengo ou Botafogo.

Tamanha paixão que o calendário esportivo serve para tudo rememorar — até a data do casamento, como na briga de marido e mulher narrada por um radialista mineiro:

— Você só pensa em futebol. Vai ver que já nem lembra do dia do nosso casamento, diz a esposa.
— Claro que me lembro! Foi na véspera de um jogo entre o Santos e o Corinthians, jogaço, Santos 4 a 1.

Os homens brasileiros sabem de si pelo futebol, cujos fatos conhecem a ponto de descrever gols ocorridos décadas atrás, a formação da jogada, a reação do goleiro etc.

O jogo a eles importa tanto quanto a vida, como é patente no diálogo seguinte:

— Você reza?
— Às vezes.
— Às vezes como?
— Andando de avião eu rezo.
— E quando mais?
— Quando o meu time joga, o Botafogo.

O sujeito ora pela vida e pela vitória do time, que é a da identidade. Ora para conjurar o risco da ferida narcísica que o fracasso imporia. Do jogo depende o seu ser, que assim se diz no cotidiano através das expressões do futebol.

Sentindo-se querido ou cobiçado, o brasileiro garante que o outro lhe “deu bola”. Tendo enganado o opositor, vangloria-se com o verbo “driblar”. Tendo se enganado, confessa que “pisou na bola”. Se excluído de atividade ou grupo, está “fora da jogada”. Se em dificuldade, mas com intenção de vencer, vai “derrubar a barreira” e então clama “bola pra frente”. Caso, no entanto, abra mão da luta, anuncia que “tira o time de campo”. Ameaça aposentar-se “pendurando as chuteiras”, seja homem ou mulher, presidente da República ou cantora de sucesso. O ex-presidente Jânio Quadros, eleito prefeito de São Paulo, então não mandou pendurar as suas no gabinete, para assim garantir que nunca mais se candidataria? Elis Regina declarou à imprensa que teria um dia a dignidade de “pegar a chuteira e pendurar, porque aí já era”.

A língua fez o football passar a futebol, deixando-se moldar por este. Já não bastaria isso para privilegiarmos o jogo? O futebol indubitavelmente nos espelha e a sua tática serve para diferenciar as nações. Isso não escapou ao estrategista Henry Kissinger. A seleção alemã, segundo ele, joga como o estado-maior se preparava para a guerra. Jogadas meticulosamente planejadas, homens treinadíssimos para o ataque e a defesa, tendo considerado tudo o que era humanamente previsível. Já a seleção italiana procura economizar energia para a tarefa decisiva e forçar o adversário a abrir mão da tática planejada. Daí ser defensiva, além de demolidora. O Brasil se caracteriza, em contrapartida, pelos jogadores mais acrobáticos do mundo, capazes até de esquecer que o objetivo do jogo é marcar gols, convencidos de que a virtude sem alegria é uma contradição; individualistas, porém dispostos aos ajustes práticos necessários a um desempenho eficiente.

Tanto pela tática quanto pelo modo de falar do jogo, diferenciamos um país do outro. Assim, em entrevista a Marguerite Duras, Michel Platini diz que o futebol não tem nenhuma lei e não é necessariamente o mais forte que ganha. Basta o goleiro escorregar e a seleção perde. Acrescenta que não terá sido culpa daquele, pois o futebol é feito de erros. Ninguém errasse, o resultado seria 0 a 0 — jogo perfeito, mas sem nenhum gol.

A interpretação de Platini é, para nós brasileiros, absolutamente surpreendente. Jamais assimilaríamos o escorregão ao erro. Tendemos antes a pensar no azar, invocar uma força desconhecida para a explicação do fato. Para os franceses, o limite da sua ação está no desempenho. Já nós nos consideramos sujeitos a algo que nos ultrapassa, que não podemos controlar e é absolutamente determinante. Por outro lado, jamais nos ocorreria que o jogo pudesse ser perfeito sem gols. Só o seria por uma goleada excepcional e lances inacreditáveis. Em suma, pela irrealidade. O critério da excelência da partida é a sua magia.

O futebol brasileiro, diz Roberto DaMatta, não é sport — como para americanos e ingleses —, é jogo, e por isso só dizemos jogo de futebol. Além de implicar sorte, depende de malícia. Isso porque o futebol nasce como brinquedo, brincadeira de bola, e não renuncia depois ao brincar, que se associa à manha. Garrincha teria sido Alegria do Povo se não fosse manhoso como era, sem tanto driblar?

À criança europeia, o adulto ensina com Chapeuzinho Vermelho a não desobedecer e com Pinóquio a não mentir. À brasileira, ensinamos com Emília, personagem de Monteiro Lobato, a fazer de conta. Vira e mexe, a ousada boneca zomba da “gente grande”, que é “bicho bobo”,
pois desconhece “essa coisa tão simples que é o faz de conta”, permite negar a geografia e a cronologia, encontrar o herói grego Belerofonte no Sítio do Pica-Pau Amarelo e os moradores desses confins paulistas na Grécia de Péricles.

Através da boneca, Lobato faz pouco de quem “não sabe se regalar com as delícias do brincar”, incitando a criança a desconfiar do adulto e este a gozar ainda das regalias daquela, desrecalcar-se tomando e distribuindo, se preciso for, o pó de pirlimpimpim, como supostamente fazia Pelé, segundo um torcedor.

O fato é que nós muito brincamos. No cotidiano, fazendo pouco do que nos incomoda ou mesmo fazendo de conta que é outra a realidade. O ano inteiro brincando com a pelota e todo ano no Carnaval. Se para jogar não dispusermos de bola oficial, improvisaremos uma. Que se
faça uma bola com as meias disponíveis no quarteirão! Se para sambar não houver instrumento, com uma lata qualquer nos bastamos:

Já que não temos pandeiro
Para fazer a nossa batucada
Todo mundo vai batendo
Para poder formar no samba
Para entrar na batucada
Fabriquei o meu pandeiro
De lata de goiabada
Sai do meio do brinquedo
Não se meta, Dona Irene,
Porque fiz o meu pandeiro
De lata de querosene...
(JOÃO DE BARRO e ALMIRANTE, 1931)

Precisamente porque vivemos sob o imperativo do brincar, o Carnaval e o futebol são paixões nacionais. O espanhol não se concebe sem a tourada, nós, sem os dois rituais em que existimos autorizados, como na infância, a fazer de conta, realizando a fantasia universal de apesar da idade poder brincar, beber assim na fonte de Juventa. Subversão de valores através de uma contracultura de massa, a cultura do faz de conta e do driblar.

Jogar futebol no Brasil é, portanto, natural. Se o menino inglês, italiano ou francês chega ao clube para aprender, o nosso já chega fazendo tudo com a bola e dizendo que, tirante o goleiro, ele brinca nas dez posições. O treinador não ensina o primeiro chute, seleciona entre moleques capazes de amortecer a bola em plena corrida, driblar e chutar com os dois pés.

Ganhando a Copa ou não, somos campeões na paixão pelo jogo, que nos dá a certeza de sermos quem imaginávamos e confirma assim a identidade. Mais ainda: ele oferece a realidade igualitária com que sonhamos. O futebol, no Brasil, não é exclusividade de ninguém. Quem não joga no clube joga na várzea ou na praia. Qualquer um pode, desde que no time haja vaga e o candidato tenha a palavra certa para entrar. O que vigora é a regra, a civilidade.

A todos, pois, é dado brincar e mesmo tentar a sorte na vida pelo jogo, onde só o desempenho conta. “Ninguém pode ser promovido a astro do futebol pela família, pelo compadre ou por decreto presidencial.”

Ascensão e queda só dependem da competência, e não das relações pessoais, como normalmente ocorre na sociedade brasileira, na qual “quem é bom já nasce feito”, rico e destinado a ser doutor.

O sucesso no jogo sendo sinônimo de talento, o futebol significa, para os deserdados, uma promessa de renascimento. O jogador, como o sambista, não se faz pelo berço e faz pouco do bacharelado. O grande compositor Lamartine Babo que o diga:

Para fazer meu samba
Não tirei diploma
(LAMARTINE BABO, 1931)

O fato é que, entre nós, futebol é democracia. Todos iguais perante ele, ainda que desiguais perante as leis.

Regras universais inalteráveis no jogo, leis sujeitas a casuísmo na política. Razão demais para se privilegiar o futebol, experiência de legitimidade e acatamento das leis.

Isso explica o ocorrido na Copa de 1970. A palavra de ordem da oposição à ditadura militar era, então, de que se torcesse contra a Seleção Brasileira. Qual nada! A consciência crítica não resistiu ao nosso primeiro ataque bem-sucedido. A cada vitória dos “canarinhos” era um Carnaval espontâneo nas ruas das grandes cidades, e, no dia do tricampeonato, o país inteiro se entregou à folia, apossou-se das praças e das ruas, celebrando freneticamente o título.

Braaasilll! gritava a multidão entre as escolas de samba, os blocos e as bandinhas mais eufóricas. O país da bola raiou e pôde a pátria ser amada, o dramaturgo Nelson Rodrigues declarar oportunamente que já não era preciso ter vergonha de ser patriota.

Do Braaasilll pudemos nos orgulhar. Deu as copas, fazendo jus à palavra democracia. No seu espaço vigorava a lei e também a sanção. Já isso bastaria para que o país da bola servisse de exemplo ao outro.

Nós, brasileiros, mais nos fazemos através do Braaasilll, e é por isso que na Copa do Mundo nos vestimos de verde e amarelo, nos apropriamos da bandeira para agitar no estádio ou no corso e assim, torcendo, nos certificamos da unidade nacional. Nossa identidade não se molda através do Estado, da Igreja ou da Universidade. Os nossos heróis são os jogadores e os carnavalescos, os homens que desafiam em campo a própria lei da gravidade e os que vemos sambar numa corola iluminada de penas e de plumas, nos carros alegóricos da Avenida. São humanos como eu ou serão divinas estas aparições da Maravilha?, perguntamo-nos extasiados, querendo neles todos nos espelhar.

Sou quem?, indaga o nosso guri, sabendo-se do povo de Pelé, já dependendo do futebol para amar a si mesmo, comemorar nas ruas a sua existência ou se recolher arrasado pela derrota. Quem se esquece do silêncio que na Copa de 1986 tomou o país, se alastrou como a peste, esvaziando as ruas da cidade? O jogo contra a França perdido por um pênalti! Teria mesmo sido possível?, indagávamos sem falar, pois que brasileiramente não fazíamos alarde da tristeza.

Trancafiados em casa e em nós mesmos, esperávamos só do tempo a cura daquela ferida narcísica. O “canarinho” já não retornaria glorioso, o Braaasilll havia soçobrado como o Titanic.

Adeus, vitória!

De luto estávamos porque, no Brasil, o futebol nos leva ao céu, mas também pode se converter numa tragédia.

Assim foi em 1950.

Sobre a autora:
Betty Milan é paulista. Autora de romances, ensaios, crônicas e peças de teatro. Suas obras também foram publicadas na França, Argentina e China. Colaborou nos principais jornais brasileiros e foi colunista da Folha de S. Paulo e da Veja. Trabalhou para o Parlamento Internacional dos Escritores, sediado em Estrasburgo, na França. Em março de 1998, foi convidada de honra do Salão do Livro de Paris, cujo tema era o Brasil. Antes de se tornar escritora, formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo e especializou-se em psicanálise na França com Jacques Lacan.

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