quarta-feira, 9 de abril de 2014

Guia Politicamente Incorreto do Futebol

Um livro completamente diferente de tudo (e sobre tudo) o que já foi publicado na literatura esportiva. Coragem dos autores, Jones Rossi e Leonardo Mendes Jr., com o “Guia politicamente incorreto do futebol” (Editora Leya). O livro é polêmico porque tenta reescrever episódios marcantes e decisivos na história do futebol brasileiro. E logo no primeiro capítulo, desafia: “Charles Miller não é o pai do futebol brasileiro” (vale a pena ler também sobre essa polêmica do verdadeiro “pai do futebol”, aqui, no Literatura na Arquibancada nos links http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/04/cruzando-os-bigodes.html e http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/04/donohoe-o-novo-pai-do-futebol.html).

Sinopse (da editora):

O jeito mais fácil de parecer especialista em futebol é repetir ideias com as quais quase todo mundo concorda. Seleção brasileira de 82? Basta dizer que "foi a melhor que já tivemos, apesar de não ter conquistado o Mundial" e pronto: a turma do sofá vai te passar uma latinha e te olhar com respeito durante o jogo. Também é assim quando se fala sobre o Ricardo Teixeira ("Frio, mesquinho, sem escrúpulos!") ou o Galvão Bueno (?"se não entende nada de futebol!"). O problema é que, no meio dos clichês futebolísticos repetidos a cada escanteio, há teses cambaleantes e frangos historiográficos. Esses mitos são o alvo do Guia Politicamente Incorreto do Futebol. Com coragem e conhecimento para defender opiniões divergentes, os jornalistas Jones Rossi e Leonardo Mendes Júnior repassam quase tudo o que sabemos sobre futebol. A Seleção de 82 tinha talentos acima da média? É verdade, mas era ingênua e autoconfiante a ponto de mal se preocupar em estudar os adversários. Ok, Galvão Bueno pode não ser um mestre da técnica, mas sua capacidade de transformar o futebol numa novela dramática torna o esporte muito mais divertido. E lembra aquela história da Democracia Corintiana? Bobagem: a Democracia Corintiana era uma ditadura. Depois da História do Brasil, da política da América Latina e do Mundo, é hora de continuar o trabalho, de jogar tomates nas verdades politicamente corretas sobre o futebol.

Capítulo 1

Ele não é o pai do futebol brasileiro

Clécio Régis e a obra polêmica.
Uma enorme cabeça de girafa, produzida por um outdoor em três dimensões, e uma igualmente vistosa bandeira do Bangu Atlético Clube fazem o ateliê de Clécio Régis se destacar entre as casas de uma das muitas e idênticas ruas de Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro. Do lado de dentro do galpão funciona uma fábrica de sonhos. Cenários de novela, painéis para divulgação de lançamentos do cinema, alegorias e adereços de escolas de samba, mascotes oficiais dos Jogos Olímpicos de 2016, decorações para comerciais de TV...Tudo é construído com cuidado artesanal e em ritmo industrial, sob supervisão do mais conceituado cenógrafo do Rio.

Nenhum outro sonho, porém, recebe atenção tão especial quanto a estátua de 4 metros de altura, encostada em uma parede logo na entrada do ateliê. Um gigante de resina pintado de bronze, esculpido como se estivesse vestindo um uniforme de jogador de futebol. Por se tratar de um boleiro do fim do século 19, o calção preso por um cinto desce até a altura dos joelhos e a camisa, comprida, é percorrida do colarinho até a barra por cordas e botões. O bigode farto marca o rosto-padrão de um homem daquela época.

Sempre que se aproxima da estátua, Clécio Régis a observa e faz algum retoque. Busca reproduzir com perfeição a imagem inspirada nas poucas fotos que conseguiu do personagem, quase todas enviadas digitalmente do outro lado do Atlântico. O objetivo é fincar o gigante no marco zero do futebol brasileiro. O herói que trouxe da Europa a maior paixão nacional homenageado no pedaço de terra onde tudo começou.

Charles Miller é o pai da cartolagem 
no futebol brasileiro

Charles Miller na Inglaterra
O número 24 da rua Monsenhor de Andrade, no bairro do Brás, era um pedaço do Império Britânico na São Paulo de meados do século 19. A chácara da família Miller mantinha, nos pequenos detalhes, os hábitos dos súditos da rainha Vitória na época em que o sol nunca se punha no Império, dada a extensão de seu território – da costa oeste da América do Norte às ilhas polinésias, passando por colônias na África e na Ásia.

Nas fotos de família podia-se ver o símbolo da São Paulo Railway no ombro do patriarca John Miller. Como mandava a tradição britânica, era de bom tom ostentar o emblema da empresa em que era empregado no momento de posar. Em um retrato solitário, o caçula Charles aparecia vestido com um típico kilt escocês. As tardes eram marcadas pelo pontual chá das cinco, acompanhado de pies e puddings. Aos domingos, os Miller atravessavam a rua para rezar com a crescente colônia britânica na St Paul’s Church, a primeira igreja anglicana do Brasil. Faltava apenas uma escola em que a nova geração da família pudesse não só aprender o inglês ancestral, mas também ser educada no mesmo modelo do país.

Justamente por causa dessa carência, John Miller decidiu mandar os dois filhos homens, John Henry e Charles William, estudarem na Inglaterra. Os garotos de 11 e 9 anos, respectivamente, embarcaram com o primo William Fox Rule no navio Elbe, da Royal Mail Steam Packet Company Limited, no outono de 1884. Chegaram dois meses depois a Southampton, sul da Inglaterra, para estudar na Banister Court School.

As escolas funcionavam não apenas como centros de ensino, mas também de pratica esportiva. As horas livres eram passadas nos pátios com a prática de diferentes modalidades. O tradicional críquete ainda arrebatava muitos adeptos, mas era crescente o interesse pelos recém-criados rugby football e football association.

As duas modalidades tinham origem semelhante nas escolas inglesas. Como não havia unificação de regras, em alguns pátios era permitido o uso das mãos para conduzir a bola e em outros apenas chutes e cabeceios; em alguns o ponto era concedido ao chutar a bola entre traves, em outros, simplesmente ao ultrapassar a linha de fundo com ela dominada. O número de jogadores também variava: 6, 11, 15, 20...Diferenças que se tornavam um estorvo quando os alunos de diferentes colégios se encontram nas universidades e não conseguiam chegar a um acordo sobre as normas do jogo.

Em 1863, a Universidade de Cambridge publicou suas próprias regras, determinando o nascimento formal do futebol. Advogado e fã de esportes, Ebenezer Cobb Morley reuniu clubes onde a modalidade era praticada e criou a Associação Inglesa, amealhando aqueles que se propunham a jogar segundo os preceitos estipulados em Cambridge.  Um dos clubes, o Blackheath, discordou das regras e preferiu juntar-se à corrente que consolidaria o rúgbi.

A escola de Banister aderiu ao jogo normatizado por Cambridge e popularizado no sul da Inglaterra pelo St Mary’s. O clube criado nos corredores da Associação Cristã de Moços da cidade foi um dos mais populares do início do futebol. No fim do século 19, venceu seis das sete edições da Southern League, a liga do sul da Inglaterra.

O ambiente futebolístico conquistou rapidamente Charles Miller. A habilidade com a bola no pé fez um dos professores da Banister Court School recomendar ao treinador do St Mary’s, entre os vários garotos bons de bola da escola, “um chamado Charles Miller”, que veio do Brasil e parece ter nascido para esse jogo. Um raro talento, ouro puro. É um artilheiro nato e recomendo sua escalação. Não vai se arrepender”.

O treinador de St Mary’s escalou Charles Miller e não se arrependeu. Logo na estreia, o brasileiro marcou um gol na vitória por 3 a 1 sobre a equipe do Quartel de Aldershot, em abril de 1892. Miller voltaria a campo dois dias depois, contra o Corinthian inglês. E seria presença assídua no time até decidir voltar para o Brasil, depois de dez anos de Inglaterra – não sem receber uma homenagem da escola. O anuário da Banister Court School, relativo a 1894, publicou:

“Charles Miller não foi somente um esplêndido jogador, mas organizou todas as atividades esportivas da escola até o dia de embarcar. Também se interessou muito pela organização do futebol do Condado de Hampshire. Essa eficiência, ou melhor, altruísmo e perseverança, é o que leva um homem a ter sucesso na vida”.

Primeiros jogos de futebol, em São Paulo.
O futebol havia conquistado Charles Miller. Quando deixou Southampton em 24 de setembro de 1894, não estava apenas formado academicamente como desejava uma década antes seu pai – estava formado como jogador e dirigente de futebol. A Inglaterra nos devolveu não só o primeiro jogador brasileiro, mas também o primeiro cartola. Na bagagem, seus diplomas: um livro de regras, uma camisa da Banister Court School , outra do St Mary’s, duas bolas de capotão, um par de chuteiras e uma bomba de ar para encher bolas. Na sua cabeça, seguiria a pratica normal do futebol. Tinha certeza de que o esporte já havia chegado ao Brasil a bordo de algum navio da Mala Real Inglesa.

O cenário encontrado em São Paulo, porém, era bem diferente. A comunidade britânica no Brasil conhecia o futebol, mas ainda preferia o críquete como lazer. Miller começou um processo de catequização. Aos sábados, reunia amigos e colegas de trabalho para ensinar o beabá do esporte: chutes, cobrança de lateral, passes, dribles, marcação. Os melhores da peneira de Charles Miller eram chamados para o time da São Paulo Railway – os pernas de pau continuavam na escolinha, até aprender ou reconhecer sua ruindade e desistir. O time da São Paulo Railway entrou em campo em 14 de abril de 1895, entre as ruas do Gasômetro e Santa Rosa, para enfrentar o The Gas Works Team, da companhia de gás, no primeiro jogo de futebol registrado no Brasil. Havia 11 jogadores de cada lado, seguindo as regras consolidadas pela Universidade de Cambridge, e uma espécie de súmula, com o nome de todos os presentes em campo, que foi arquivada por Miller, a essa altura uma mistura de jogador e cartola britânico com um cartorário brasileiro. Foi uma estreia formal, mas não exatamente a primeira partida de futebol no Brasil.

Sem Charles Miller, 
também seríamos o país do futebol

Charles Miller registrou como seu um jogo que já existia no Brasil. Algo de que ele mesmo desconfiava. A Revolução Industrial tinha espalhado pelo mundo milhares de britânicos, praticantes do futebol, para trabalhar em fábricas, ferrovias e no comércio.

Um deles, o professor escocês Alexander Watson Hutton, desembarcou em Buenos Aires em 1882 com um livro de regras, bolas, camisas e chuteiras. Como ninguém por lá sabia o que era esse negócio de football, decidiu organizar as primeiras partidas por conta própria. Não com os companheiros de fábrica, mas entre os muros de uma escola. Em 1893, o Lomas Athletic Club venceria o primeiro torneio disputado no país.

O curioso é que Hutton viajou a Buenos Aires em um dos navios do Correio britânico. Todas as embarcações da companhia seguiam o mesmo roteiro a partir da Grã-Bretanha. Antes de parar na capital argentina, havia escalas em Santos e no Rio de Janeiro. É difícil acreditar que em nenhuma dessas paradas, antes da viagem de Hutton ou desde sua chegada à América do Sul em 1882, nenhuma bola de futebol tenha sido desembarcada em território brasileiro. Difícil acreditar, não. Impossível. Foram várias experiências extraoficiais com o futebol no país antes do marco zero determinado por Charles Miller.

Desde meados do século 19 há registros da prática do futebol por marinheiros no litoral brasileiro. Ingleses, franceses e holandeses, a bordo de navios mercantes ou de guerra, que aproveitavam uma escala ou a chegada ao destino definitivo para bater uma bola. O futebol brasileiro nasceu da sua mais legítima expressão: dois times improvisados, na beira da praia, time com camisa de um lado, time sem camisa do outro, linhas riscadas na areia, gols delimitados por pedaços de qualquer coisa e alguns goles de cerveja na cabeça. Uma pelada legítima, sem dono, sem juiz e sem cartola. É o futebol de onde nasceriam Leônidas, Pelé, Garrincha, Romário, Neymar e Nelson Rodrigues.

Isso aconteceu pela primeira vez em 1874, no pedaço de areia em frente aonde hoje fica o Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Quatro anos mais tarde, a tripulação do navio britânico Crimeia organizou uma pelada em frente ao palácio da princesa Isabel, em Laranjeiras, zona sul do Rio, com o consentimento de sua alteza. Entre os dois jogos à beira-mar, em 1875, empregados brasileiros e ingleses de empresas de navegação, docas, cabos submarinos e bancos enfrentaram-se no campo do Club Brazileiro de Cricket, também no Rio.

Em vez de filho de um zeloso pai tupiniquim que aprendeu sua arte na Inglaterra, com os inventores do jogo, o futebol brasileiro é filho bastardo de marinheiros europeus que só queriam gastar energia e passar o tempo antes de se divertir com as exóticas mulheres locais. Uma biografia surpreendentemente relacionada com a malandragem e o improviso que, anos depois, virariam a marca do futebol brasileiro, escondida em prol de outra mais condizente com a elite brasileira da virada do século 19 para o 20.

Na apresentação do livro de José Moraes dos Santos Neve, Visão de Jogo: Primórdios do Futebol no Brasil, José Geraldo Couto escreve:

“Os primórdios do futebol no Brasil sempre estiveram envoltos nas brumas do mito, de onde emergia a figura impávida e bigoduda de Charles Miller, herói meio inglês, meio brasileiro, que teria trazido da Europa uma bola embaixo de cada braço e ensinado sozinho o esporte bretão aos nossos compatriotas. Tal gênese servia como uma luva a determinada visão das origens de nosso futebol, como produto da ação voluntariosa de uma elite em contato direto com as fontes britânicas do esporte”.

Calma, seu José, segure a sociologia: talvez o futebol de Charles Miller tenha sido mais organizado e influente para o Brasil. Levou as peladas que – Miller não sabia – já corriam de forma improvisada nas praias para dentro dos clubes. Conquistou a elite e ajudou a transformar o jogo em algo incontrolavelmente grande, até formar o país do futebol, que, de um jeito ou de outro, teria existido mesmo sem ele. Fosse por obra de marinheiros beberrões, fosse por meio de padres que admiravam o poder moralizante do jogo.

Sobre os autores:
Jones Rossi é um jornalista curitibano. Foi editor de ciência e saúde do site da revista Veja, editor da revista Galileu e repórter do G1.com e do extinto Jornal da Tarde.
Leonardo Mendes Júnior é um jornalista curitibano. Repórter e colunista do jornal Gazeta do Povo, já trabalhou nas rádios LBV, Clube, CBN e 98 e na extinta Revista ESPN.         

Um comentário:

  1. Thiago16:43

    "Descobri" seu blog ontem e me pergunto quanta informação eu perdi desde 2011 hehe. Parabéns pelo excelente trabalho para a memória do futebol brasileiro ! Dizem que somos o país do futebol, mas poucas pessoas dão valor a trabalhos como esse.

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