terça-feira, 15 de abril de 2014

Anatomia de uma derrota

Um livro obrigatório, para todos os tipos de leitores: torcedores, jornalistas, pesquisadores e até mesmo jogadores e comissão técnica da seleção brasileira que irá disputar a Copa 2014. “Anatomia de uma derrota” (Editora L&PM, 2000), é a mais completa obra sobre a fatídica derrota brasileira, na primeira Copa disputada no país, em 1950.

O autor, Paulo Perdigão, infelizmente, nos deixou em 2006. Mas sua obra, esgotada e somente encontrada em sebos por preços absurdos, de até 350 reais, voltará ao mercado após várias reportagens relacioná-lo, nesta onda de lançamentos pré-Copa, como um dos principais livros da literatura esportiva. Pena não voltar “em papel”, somente em e-book, pela mesma L&PM.

É neste livro histórico que Perdigão publicou o conto “O dia em que o Brasil perdeu a Copa”. Somado a parte do texto de introdução da obra, que você verá mais abaixo, com certeza, o cineasta Jorge Furtado produziu o curta-metragem, “Barbosa”, onde um homem volta no tempo para tentar evitar a falha do goleiro Barbosa na final da Copa de 1950. 

Como o prefaciador da obra, João Máximo, escreveu: “Anatomia de uma derrota” é um livro “definitivo”.

Um livro definitivo
Por João Máximo

Jovens amantes do futebol me perguntam por que nós, testemunhas do 16 de julho de 1950, lamentamos tanto a perda daquela Copa do Mundo, uma vez que, depois dela, o Brasil ganhou quatro outras. Para que chorar sobre o leite derramado – bancar a viúva siciliana de Nelson Rodrigues, como se o mais precioso dos gestos fosse o pranto e não o riso? Paulo Perdigão é uma das testemunhas do 16 de julho de 1950. Mais que isso, é o seu maior historiador. Não é possível entender as dimensões daquela “tragédia brasileira” (ou mesmo considerá-la uma tragédia) sem ter vivido a época, sem saber que pensava o jovem então, o que era futebol para todos nós e o que representaria, em termos de afirmação como povo e como nação conquistarmos ali a taça de ouro. Uma visão equivocada do que fossem povo e nação, é verdade, mas era assim que nos faziam ver as coisas. Por isso choramos. É claro que vibramos com cada uma das quatro taças que ganharíamos depois. E que o riso é bem mais prazeroso que o pranto.

Vocação para viúva siciliana à parte, lamentamos até hoje a taça perdida porque foi o nosso grande sonho desvanecido, o sonho que carregamos na adolescência, ou mesmo na infância que ainda guardamos dentro de nós. Ainda não sabíamos que ganhar ou perder uma Copa do Mundo não melhora nem piora nossas vidas. Ou o Brasil. Por isso choramos. Esta edição revista e aumentada do livro de Paulo Perdigão vai responder ao jovem torcedor de hoje todos os porquês que lhe ocorram a respeito. É história com agá maiúsculo, é aula de pesquisa, é exemplo de jornalismo, é lição para os cientistas sociais que andam escrevendo tão complicado sobre o futebol. Em duas palavras, é obra definitiva: depois dela nada mais poderá ser acrescentado à crônica do 16 de julho de 1950, como nada se pôde acrescentar à tragédia dos Clutter depois de A sangue frio.

Introdução
Por Paulo Perdigão

(...)

É costume do pensamento comum levar a crer que vivemos no tempo e cabe-nos somente registrar o transcurso de uma corrente temporal que avança ininterruptamente, tal como um fenômeno do meio exterior constituído por uma sucessão de “agoras” que “passam no mundo” e na qual somos “arrastados”. Chega-se inclusive a calcular matematicamente pelos relógios esse “tempo mundano”. Heidegger verifica, porém, que não encontramos o tempo em parte alguma: aquilo que já passou e aquilo que ainda virá estão sempre “em outro lugar”. Um princípio derivado da teoria de Santo Agostinho, segundo a qual presente, passado e futuro só existem porque a consciência humana é ela mesma temporal: “Eu sou o tempo”. Assim sendo, enquanto passado, a Copa de 50 não tem existência própria nem está “ocupando” um “lugar” no tempo, como também não está nessas velhas fotos, nesses recortes de jornais, nas folhas deste livro. Tornou-se perpetuamente algo de irreal sustentado somente pela memória. Também enquanto passado, não pode impedir-se de ser o que é, tem de conservar-se como coisa inerte e já plenamente constituída, fato irreparável, sem qualquer possibilidade de não ser o que já é. A isso deve a Copa de 50 seu fatalismo de tragédia, sua aparência de mundo de trevas, morto e crepuscular, indolente e em repouso, imutável, constante e todo já acabado, submisso a um destino ubíquo e prefixado. Continuará assim até o final dos tempos: naquela tarde, aqueles jogadores brasileiros, diante daquela multidão, perderam a Copa do Mundo para sempre. Nunca mais o Brasil ganhará a Copa de 50.

Obdulio Varela (direita), na final de 1950.
Mas posso tentar imitar Proust e “reencontrar-me” no Maracanã, em 16 de julho de 1950. Deparo então com uma “realidade” estranha e febril, na qual mal me reconheço, pois já não sou o mesmo que era e, no entanto, continuo sendo (uma “presença-ausência”, diria Sartre): eis-me de calças curtas, começando a vida em segurança, na proteção de meus pais, sonhando com Margaret O’Brien – minha “paixão” de 13 anos – e fascinado por aqueles super-heróis fantasiados de uniforme branco. Em meus entornos, as roupas das pessoas, os modos, a linguagem, fisionomias e olhares pertencem a “outra época” há muito tempo extinta. Só encaro “futuros mortos” ao redor. E todos parecem mais velhos do que eram, inclusive os jogadores: não daria menos de 50 anos a Obdúlio Varela, o “bandido” de sinistro traje azul e preto. À falta de registros visuais a cores, a “realidade exterior” de 1950 tem aspecto sombrio: a própria forma arquitetônica do estádio é claustrofóbica, e, nesse 16 de julho, causa uma impressão de angústia tenebrosa, uma atmosfera pesada de huis clos que sufoca e apavora – uma “descida ao inferno” (Na época, a Rádio Nacional transmitia o seriado As Aventuras do Anjo, com a trilha de Miklós Rózsa para o filme O Segredo da Casa Vermelha (The Red House, 1947), e suas novelas, nas cenas mais melodramáticas, traziam o movimento Lento Lúgubre da Sinfonia Manfredo, de Tchaikovsky. O “pavor” sentido pelas crianças sempre lembrava o que tinha acontecido no Maracanã).

Também posso seguir o pensamento estético de Hegel e, desse modo, transcender uma simples evocação pragmática e concreta dos fatos de 50 e reportar-me á essência poética do 16 de julho no Maracanã, com nostálgico lirismo como “estado d’alma”. A função da estética, diz Hegel, é “animar a severidade e a aspereza da razão”: permite-nos um entendimento mais completo, profundo e elevado, desvelando tudo que não aparece, alçando-nos a um “algures” sempre para além do dado, um “algures” onde o mundo é contemplado sensivelmente, um abstrato sem estatuto de existência real – tal como a luz através da qual podemos ver os objetos que ilumina, mas não pode ser, em si mesma, fonte de conhecimento. Em busca dessa “transparência do invisível”, desvendamos o que refulge de sagrado nas memórias da Copa de 50 – sobretudo na hora da derrota, com suas amarguradas figuras: a beleza do infortúnio da condição humana ante a adversidade inevitável do mundo. Porque, como escreveu Schiller, se “a vida tem seriedade, a arte tem serenidade”. Não importa qual o limite do desespero, a estesia ultrapassa-o no rumo da contemplação sensível, bastando lembrar o exemplo citado por Hegel no mito espanhol El Cid Campeador, no qual o romanceiro se detém nas dores de sua amada Ximena – belas nas lágrimas”.

O gol de Ghiggia que decretou a derrota brasileira.
No momento do gol de Ghiggia –, o segundo do Uruguai, que derrotou o Brasil – Bigode leva a mão direita à cabeça, e nesse ligeiro movimento resume-se o grito de terror de uma nação inteira perante a ruína imprevista, enquanto o goleiro Barbosa – com seu porte apolíneo e elegante – ergue-se solenemente, soberbo, até olhar o céu de relance, como um apelo à clemência divina.  No instante do apito final, Jair salta para a última tentativa da vitória, agarrando-se ao goleiro Máspoli: seu empenho porta o ideal do poder absoluto, um impulso agonizante e inútil, na honrosa tradição do guerreiro que, já vencido, nega a desesperança para arriscar o impossível. Zizinho, nessa mesma hora, retrai o corpo, olha para o juiz, ainda descrente do fim – e é descrente, em estado de choque, que se deixará abraçar por Máspoli e, no vestiário, entrega-se ao abatimento de um homem comum que acabou por dentro, incapaz de resignar-se com o “já dado e finito”. Quanto ao choro de Danilo, deixando o campo amparado por um locutor, além de ser a imagem mais famosa da “tragédia de 50”, traduz a resignação dos humildes, o luto aquiescente de quem ousou “ser alguém” perante o mundo e, como castigo, mereceu apenas a retirada vexatória à sua “insignificância”. Sim, porque, do modo como as coisas haviam se processado, não era o simples caso de ganhar ou perder uma competição esportiva, mas, com efeito, uma questão de arriscar-se entre dois pólos: de um lado, a graça e a bem-aventurança; do outro, a vergonha e a desonra.

Em cinco “tempos”, essas imagens clássicas sintetizam o ciclo patético da desventura humana, desde o momento em que se configura a possibilidade de fracasso dos projetos estabelecidos (Bigode, Barbosa) até a consumação final do revés e o surgimento do chamado “espírito penoso” (Zizinho, Danilo), passando pela “vontade de poder” e a negação da contingência (Jair). Eis as criaturas desse mundo sombrio e infernal, seres sofridos, de máscaras torturadas, cuja plasticidade – a mesma de clássicas esculturas gregas, como Gália Agonizante – está incorporada à iconografia do Brasil contemporâneo, eternizada na memória nacional. Beleza épica, composta de pompa e nobreza, pungente em sua solenidade, como as cerimônias de réquiem. Será assim evocada, embora tenha custado a derrota – ou, sobretudo, devido mesmo à derrota, que em 1950 produziu uma comoção nacional além das fronteiras do esporte, talvez só comparável ao suicídio de Vargas na vida contemporânea do país. A ausência da vitória fez com que a Copa de 50 sobrevivesse sempre como “aquilo que deveria ter sido e não foi”, ou seja, como o império de um Nada, de um não-ser, a apontar para um vazio, uma totalidade não preenchida, uma existência negada. Daí por que a derrota, que converteu o normal em excepcional, é necessária para que o fascínio perdure: não poderiam ser diferentes essas imagens, em sua grandeza trágica.

A locução completa de Brasil x Uruguai de 16 de julho, transcrita na II Parte desta monografia, pode dirimir dúvidas quanto a episódios que, através dos tempos, ganharam halo de legenda, narrativa mitológica (as transmissões radiofônicas eram pormenorizadas, em uma época sem os recursos da TV, substituindo, no possível, o que seria um videoteipe da partida). Testemunhados por quase 200 mil pessoas que foram desaparecendo com os anos, os fatos passaram de pais a filhos assumindo cada vez mais foros de imaginário, a tal ponto que, em determinado momento, tornava-se impossível diferenciar o que sucedeu no Maracanã daquilo que foi criado pela fantasia de muitos. O sociólogo Arno Vogel entrevistou várias pessoas a respeito, concluindo: “Às vezes, parecia estar ouvindo uma narrativa mitológica. Muitos, jovens demais para terem vivido os acontecimentos, reproduziam com variações mínimas a mesma história. Todos recordavam fatos, lances e cenas do evento. Emitiam juízos e analisavam as versões polêmicas. Atribuíam responsabilidades, mostrando um envolvimento profundo com tudo que se relacionava ao episódio. Vi um informante descrever o final da partida decisiva e a saída do estádio com lágrimas nos olhos e voz embargada. Falava de uma experiência radical, que tinha deixado marcas definitivas”.

Na sua estatura histórica e mitológica, a derrota de 16 de julho tornou-se não apenas o grande emblema do Imaginário do país, ou o próprio Mal em suspensão animada na ideologia nacional, com sua aura de imantação lendária que se conserva e se agiganta na imaginação popular, mas também uma das representações da nacionalidade brasileira em seu empenho por uma identidade própria. Traz o encantamento mágico de uma gesta efêmera, tendo por cenário suntuoso um Coliseu da era moderna, edificado como panteão para a glória nacional, e onde brotou a provação de heróis esquecidos e o infortúnio e a desesperança de um país inteiro. Não é gratuita a referência ao Coliseu (literalmente, “construção colossal”), com sua forma concêntrica do espaço reservado à plateia e o caráter cênico-simbólico do embates ali travados com vistas a um estado orgiástico de excitação do espectador – a mesma “paixão” dionisíaca do teatro grego. Em sua majestade, o Maracanã, frio e silencioso, perdura de pé, com a solidez e a perenidade do rochedo, em contraste com a fluidez das ações humanas que o tempo dissolveu, monumento às ruínas do passado, a recordar aquela história hoje perdida nas lonjuras – um modelo de classicismo, com sua “nobre simplicidade e calma grandeza”, na definição de Winckelmann.

Tragédia grega no Terceiro Mundo, dada a exatidão com que se encaixam as peças do fatalismo de sua estrutura dramática, a Copa de 50 teria inspirado Sófocles e Eurípides como epopeia conduzida pelas veleidades do destino. Dela teria feito Nietzsche um libelo contra a providência divina, e Jung uma exegese do inconsciente coletivo. Também nada faltaria a Wagner para compor um monumento operístico. Porque, de todos os exemplos históricos de transe nacional, este é o mais belo, o mais apoteótico: é um Waterloo dos trópicos, e sua verdade o nosso Gotterdammerung.

Sobre o autor (perfil da ABI – Associação Brasileira de Imprensa):
Paulo Perdigão A morte do jornalista Paulo Perdigão – ocorrida em 31 de dezembro de 2006, aos 67 anos de idade – deixa uma lacuna na crítica cinematográfica. Este ofício ele exerceu com maestria por mais de 30 anos, nos jornais Diário de Notícias, Globo e JB e nas revistas Manchete e Veja. Também atuou como programador de filmes da Rede Globo de Televisão, onde ingressou em 1967, foi editor do Guia de Filmes, publicação do antigo Instituto Nacional do Cinema (INC), entre as décadas de 1950 e 60, ajudou a organizar alguns dos mais importantes festivais internacionais de cinema realizados no país.

Paulo Perdigão era também um especialista em Jean-Paul Sartre, de quem fez a primeira tradução em português de O ser e o nada, e escreveu Existência e liberdade uma introdução à filosofia de Sartre, ensaio sobre o discurso filosófico sartriano. Em 2006, relançou Anatomia de uma derrota, de 1986 – além de ser considerado pela crítica e a mídia especializada como a obra definitiva sobre a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950, o livro inspirou o curta-metragem Barbosa, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo.

Em 2002, chegou às livrarias a reedição de Western clássico Gênese e estrutura de Shane, sobre o filme de George Stevens, aqui batizado de Os brutos também amam – título que ele abominava – e ao qual ele assistiu 82 vezes. A adoração do jornalista por Shane era tanta que ele viajou diversas vezes a Hollywood para visitar as locações do filme, do qual tinha uma cópia, montada lá, em que se inseriu na cena do duelo final, avisando ao mocinho vivido por Alan Ladd que o personagem de Jack Palance planejava matá-lo.

Paulo Perdigão também tinha admiração pelo rádio, de que tratou em PRK-30, livro homônimo ao programa de humor que, por mais de duas décadas, foi uma das vedetes da Rádio Nacional, alcançando mais de 50% de audiência.

No artigo que escreveu sobre o colega na Folha de S. Paulo (edição de 6 de janeiro de 2006), Carlos Heitor Cony conta que foi seu companheiro no Correio da Manhã, onde “Paulo despontava como um dos jovens mais brilhantes de sua geração. (...) “Ele era um personagem que Justino Martins, então diretor de Manchete, classificaria de fascinante”. 

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