segunda-feira, 3 de março de 2014

Simplesmente Zico

Ao completar 61 anos, Zico, um dos maiores craques do futebol mundial ganha de presente mais um livro sobre sua vida, dentro e fora dos gramados. Uma coletânea de depoimentos, dos mais variados personagens. E não foram poucos: 134 pessoas, entre atletas, técnicos, jornalistas e fãs. “Simplesmente Zico” (Editora Contexto), foi feito por uma torcedora apaixonada pelo craque brasileiro. Priscila Ulbrich não esconde esse amor eterno, como você, leitor, verá logo no texto de apresentação da obra.

Parabéns Zico. Literatura na Arquibancada recomenda a leitura de série especial sobre a vida do “Galinho” de Quintino. http://www.literaturanaarquibancada.com/2013/02/60-anos-de-zico.html .

Pouco mais abaixo, veja também um dos depoimentos do livro “Simplesmente Zico”, do jornalista Alex Medeiros.

Introdução
Por Priscila Ulbrich

Quem é Zico? Todos conhecemos seus principais feitos e apresentar apenas suas conquistas me pareceu pouco. Queria mostrar o que esse grande esportista representou e representa na vida de tanta gente que o viu atuar. Recolhi relatos de 134 pessoas, entre atletas, ex-atletas, técnicos, jornalistas e fãs. Assim, conhecemos histórias saborosíssimas e inéditas desse ídolo inconteste. Colher depoimentos sobre Zico foi, para meu espanto, a parte mais fácil do livro. Todos tinham o que dizer, o que agradecer, coisas a contar e reafirmar a importância e a influência que ele teve sobre suas vidas.

E fiquei me questionando sobre tal devoção: quem é esse cara que arrasta multidões e une adversários ferrenhos? Tornar-se unanimidade não aconteceu de um dia para o outro. Zico trilhou todo o caminho, nem sempre tão fácil. E provou que, com talento, carisma e muita vontade, era possível ganhar a eternidade.

Zico nasceu Arthur Antunes Coimbra no dia 3 de março de 1953, em Quintino Bocaiuva, um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. Seu pai, José Antunes Coimbra, português de Tondela, era flamenguista ferrenho. Foi goleiro e quase se tornou profissional pelo próprio Flamengo. Sua mãe, a carioca Matilde da Silva Coimbra, a Tidinha, tomava conta da casa e do time que nela morava. Eram seis filhos. Zico chegou na última janela de transferência: era o caçula. Ganhou o apelido de sucessivas abreviações de seu nome – Arthurzinho, Arthurzico –, até que sua prima Ermelinda batizou o craque: Zico.

Zico entre os irmãos Tonico e Antunes.
Seus quatro irmãos já jogavam futebol. O mais velho, Zeca, até então o habilidoso da família, foi atacante do Fluminense. Edu foi ídolo do América e chegou a jogar na Seleção. Nando teve a carreira interrompida por causa da ditadura militar. O único que não seguiu carreira foi Tonico. E Seu Antunes teve o prazer de ver os filhos jogando juntos no imbatível Juventude de Quintino, time em que Zico brilhou pela primeira vez.

O destino de Zico com o Flamengo vem de berço. Graças à paixão rubro-negra, cada filho ganhava de Seu Antunes o Manto Sagrado assim que nascia. Zico ganhou a 8 porque a 10 já era de Edu. E pensar que quase foi jogar no Vasco pois o Flamengo não pagava as passagens e o almoço. Foi George Helal quem financiou as refeições e garantiu a permanência de nosso Galinho na Gávea.

Daí para frente, o menino que jogava nas ruas de Quintino e assistia aos jogos do Flamengo das cadeiras cativas com o pai ganhou o mundo. Conquistou tudo o que havia de ser conquistado em vermelho e preto. Foi sob sua liderança que o Flamengo venceu seu sonhado Mundial Interclubes em 1981.

Sob protestos e muito choro da torcida, foi vendido para a Itália. Passou duas temporadas na Udinese e conquistou os italianos. Foi para o Japão e fez o improvável. Virar rei? Não, isso era esperado! Ensinou os japoneses a jogarem futebol. Voltou ao Flamengo nos braços da torcida e, quando parou de jogar, deixou uma Nação carente e apaixonada por tudo o que ele havia feito e representado. Hoje em dia, Zico é quase uma entidade. Soberano, traspassa gerações e conquista mais e mais admiradores, atuando agora como técnico e dirigente de futebol.

Zico e Flamengo se confundem, em uma fusão de cores e amores que é simplesmente impossível de se separar. O que era o Flamengo antes de Zico? O que seria de Zico sem o Flamengo? São dois gigantes. Unidos não só pelo destino, mas por obra divina. Cresceram juntos e construíram uma história de glória e superação.

E pensar que quase desistiu do futebol quando foi cortado da Seleção Brasileira em 1972. Hoje sabemos que foi um ato puramente político e covarde, como todo ato ditatorial. Mas, graças aos deuses do futebol, nosso Arthur foi forte. Ergueu a cabeça e seguiu em frente. Foram muitas as suas participações na Seleção, inclusive na de 1982, a maior de todas. Não saiu vencedora, por um capricho da bola. Zico nunca levantou um caneco verde e amarelo como profissional. Pena? Como diz o grande Edu Cesar: “Zico não ganhou a Copa? Azar da Copa”.

Neste livro não há famoso, não tem torcedor, não existe estrela. Somos apenas súditos, traduzindo em palavras todo agradecimento ao craque da camisa 10. Somos 40 milhões, de joelhos, em respeito a tudo que Zico fez ao longo dos anos, dentro e fora de campo.

Zico e Priscila Ulbrich
Sempre fui apaixonada por esportes. Desde minhas mais remotas lembranças. Por questões de saúde, não podia praticá-los com regularidade. Então, sempre gostei de assistir. Já muito pirralhinha ouvia rádio com os funcionários do meu pai. Jogos de um tal Flamengo, que tinha um jogador que encantava a todos. Zico era seu nome.

Meu pai, Fluminense, quase teve um treco quando eu disse que meu time era rubro-negro. Não teve jeito. Não adiantou nem ele apelar para a bisonha tentativa de dizer que o grená era um quase rosa. Mais adequado, portanto, para a torcida de uma menina. Mal sabia ele que a menina já estava entregue. Antes mesmo de ver o seu rosto na telinha, antes de gravar o nome de qualquer outro jogador, meu coração já era Zico FC; seja na terra, seja no mar.

E sempre foi assim. Um pouco mais velha, na idade em que os amigos deram espaço aos namorados imaginários, minha irmã de leite era apaixonada pelo Bebeto. Eu? Namorada ciumenta do Zico!

É claro que, assim, o amor pelo Flamengo cresceu. Encorpou. Ganhou voz, manto e bandeira. Mas o nome do Galinho sempre esteve à frente, como abre-alas de uma torcedora que, feliz, também aprendeu a amar outras agremiações. Por Zico, quis saber mais de Udinese, torci pelo Kashima. Vibrei com o Fenerbahçe, virei iraquiana! Onde Zico estiver, lá estará o meu coração.

Nós, do Donas da Bola, queríamos um padrinho. Alguém que pudesse nos fazer acreditar ser possível continuar, quando, por inúmeras vezes dizia tudo mais que já deveríamos ter descido na parada anterior. Em meio a tantos nomes expressivos, um volta e meia rondava nossos pensamentos: Zico! “Impossível! Ele não vai aceitar.” Era a autorresposta mais educada que nós mesmas empregávamos. O que ele poderia querer com a gente?

Donas da Bola: Renata, Priscila Vieira e Priscila Ulbrich.
Quem me conhece, sabe. Quietinha, comecei a mexer todos os pauzinhos que estavam ao meu alcance. E, como quem tem amigo não morre pagão, não é que um dia Sandro Rilhó não me vem com a notícia? ZICO ESTVA ESPERANDO O MEU CONTATO!

Escolhi as palavras. Minha preocupação era que ele acabasse me achando doida! Enviei o e-mail sem ter até então contado nada para as outras meninas. O sonho era tão grande que eu não queria dividir minha frustração em não conseguir um encontro com o dono da camisa 10.

A resposta de Zico? Sério, li aquele e-mail umas quarenta vezes e chorei em todas elas. Depois encaminhei o e-mail para a Renata Graciano e choramos juntas. Choro à distância. E ficou agendada nossa primeira reunião com o padrinho, que veio a aceitar este convite que tanto nos honra.

Nunca tive ídolos. Nunca sequer peguei autógrafo de ninguém. Mas estava ali na minha frente a única pessoa que eu amei sem conhecer. Fiquei nervosa. Parecia que eu estava indo para meu casamento. E quando o Zico caminhou em minha direção, parei de respirar.

Da minha parte, foi a pior entrevista da minha vida (http://www.donasdabola.com.br/2011/11/20/simplesmente-z10/ ). Da parte dele, Zico era tudo o que eu imaginava e muito mais. O resto é história que faço questão de contar todas as noites para minhas filhas dormirem. E não é que, depois de torcer para todos os times em que Zico esteve durante sua carreira, o craque não acabou vestindo as cores da minha camisa? É, a vida é mesmo um conto de fadas.

Zico é o padrinho perfeito: honesto, bom caráter, humilde, profissional, respeitoso, ético. É esse exemplo que queremos seguir no Donas.

Neste livro repleto de depoimentos, reunimos o que esse atleta, profissional e ser humano fantástico representa para todos aqueles que fazem parte desta grande nação de apaixonados. Pessoas do mundo pararam para falar algo sobre Zico. Abriram seus corações, dividiram suas recordações, dores, alegrias e momentos pessoais.

Por fim, não poderia deixar de agradecer à Renata Graciano por ter colaborado na confecção desta “Introdução” e da linha cronológica no fim da obra.

O Pelé Branco
Por Alex Medeiros, jornalista

Na cabeça dos milhões de técnicos e analistas de futebol brasileiros, o único ponto de concordância é o reinado perpétuo de Pelé como o maior jogador de todos os tempos. A partir daí, tudo muda; é um caleidoscópio de opiniões que torna o esporte bretão o oxigênio de uma nação.

Tendo a opinião sobre Pelé como um cordão umbilical que une todos numa mesma família, esses milhões de especialistas divergem em qualquer outro assunto futebolístico, começando pela escolha de quem seria o segundo depois do Rei.

Há os que acham que foi o Garrincha, os que teimam ter sido Maradona, os que juram que foi o Zizinho (aquele que inspirou o próprio Pelé), alguns muitos querem o Beckenbauer, outros apostam no Di Stefano e no Puskas, e a Fifa diz que foi o Cruijff. No debate para definir um vice-rei do futebol, a turba não poupa uma briga e muita saliva. Metade do Brasil se divide entre dezenas de candidatos.

Aí o leitor pergunta: e a outra metade, não discute, não opina, ignora o ópio de um povo, a religião maior de um país?

E eu respondo: a outra metade, meus amigos, é a torcida do Flamengo e mais um “outro tanto”, como diria minha mãe Dona Nenzinha. Nesse universo, a opinião é expressa em uníssono e não tem pirrepes, como “poetariava” o paraibano Zé Limeira. Porque depois do “negão”, minha gente, só o branquinho Zico, a mais gloriosa representação divinal do futebol brasileiro depois do deus de Três Corações. Não à toa ele foi batizado pela imprensa inglesa de White Pelé, logo após derrotar o “real team” dentro do estádio de Wembley.

Zico não foi somente um herói e ídolo dos rubro-negros. Conseguiu a fascinante proeza de ser amado pelos adversários, mesmo estes vendo nele a imagem assustadora do carrasco. Em Zico, os vascaínos, tricolores e botafoguenses sentiram em silêncio a “Síndrome de Estocolmo”.

Imaginem que ele quase despontou no Vasco, quando o Flamengo incorreu no desleixo de não servir lanche ao magrelo garoto de Quintino durante os treinos do infantil. Foi o médico Carlos Manta quem alertou a Gávea sobre uma “proposta alimentar” de São Januário, evitando assim a transferência.

Não há qualquer exagero na proximidade que se faz entre Zico e Pelé. Ambos se assemelham em jogadas e gols que não têm similares pelos quatro cantos do mundo em mais de um século de bola rolando. E aquilo que um não fez, está presente no outro, a locupletação dos gênios.

Pelé reinou, também, no Maracanã até os dias em que debaixo dos céus do Rio de Janeiro começou a brilhar a estrela de Zico. Eles dividiram a história do estádio no período pós-Zizinho e pós-Ademir Menezes. O rei negro nos anos 1960/1970, o príncipe branco nas décadas de 1970/1980.

E se Pelé conseguiu o feito imortal de cravar seu milésimo gol no gramado carioca, foi de Zico a supremacia nas tardes e noites do majestoso estádio, onde ali ele foi mais que um rei, foi um deus que provocou rezas e louvores em todas as torcidas. Pelé jamais exibiu seu poder divino no mais importante templo de futebol da Europa, o estádio de Wembley. Mas ali, diante dos súditos de Elizabeth, Zico mostrou que o reino não escaparia de uma exposição da arte maior dos seguidores do próprio Pelé.

Louvemos aos deuses que permitiram o glorioso dia em que os dois reis do Brasil jogaram juntos no Maracanã, vestidos com a mesma camisa. Era 6 de abril de 1979 e ambos convocaram os súditos para uma noite solidária pelas vítimas de enchentes em Minas Gerais. Elegante em todos os gestos, Zico cedeu a camisa 10 do Flamengo para Pelé, a camisa que ele cultuava por amor ao ídolo Dida, o craque alagoano que popularizou esse número no Rio de Janeiro dos anos 1950 e 1960.

Uma multidão de 139.953 pessoas encheu o velho estádio Mário Filho. Do outro lado do campo, o Atlético Mineiro do rei Dario e do craque Toninho Cerezo. Foi uma noite com chuva de gols, com o Flamengo aplicando 5 x 1, sendo três de Zico, chamado na tela do Canal 100 de “novo monstro sagrado do nosso futebol”. O tempo parou para que dois deuses juntassem suas épocas.

O mundo inteiro consagrou o talento inigualável de Zico; em cada continente há os vestígios da sua divindade, há torcedores cultuando as lembranças dos seus gols maravilhosos. E se algum transgressor da História lembrar que Zico nunca ganhou uma Copa, eu contradito com o desaforo definitivo do jornalista Fernando Calazans: “azar da Copa”.

Sobre Priscila Ulbrich:
É jornalista, apaixonada por futebol e criadora do Donas da Bola, um grupo de mulheres que atuam com jornalismo esportivo.  http://www.donasdabola.com.br/


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