terça-feira, 11 de março de 2014

Os Sem-Copa



Em ano de Copa do Mundo a produção e venda de livros relacionados ao futebol e, evidentemente, sobre a história dos mundiais, aumenta de maneira expressiva. Basta ir às livrarias e perceber a oferta.

Entre tantos títulos produzidos, um certamente é uma grande sacada. Falar sobre os heróis e grandes nomes participantes das Copas é fácil e lógico. Mas e no caso daqueles que nunca foram lembrados para uma seleção brasileira mesmo sendo ídolos consagrados em seus clubes?

Foi assim que surgiu “Os Sem-Copa – Craques que encantaram o Brasil e nunca participaram de um Mundial” (Editora Maquinária), da jornalista Clara Albuquerque, que relembra a história de jogadores consagrados como Feitiço, Evaristo de Macedo, Dirceu Lopes, Heleno de Freitas, Yeso Amalfi e muitos outros.

Curiosamente, os capítulos foram divididos sempre pelo tema do que faltou para que esses jogadores pudessem ter a chance de ter participado de uma Copa: Faltou Copa (Marcos Carneiro de Mendonça, Friedenreich e Neco), Faltou Paz (Pirillo, Oberdan Cattani e Heleno de Freitas), Faltou Vitrine (Eurico Lara, Popó e Yeso Amalfi), Faltou Organização (Feitiço e Evaristo de Macedo), Faltou Sorte (Tesourinha, Quarentinha e Dirceu Lopes), Faltou Explicação (Djalma Dias, Neto e Alex), Faltou Juízo (Canhoteiro e Djalminha) e Faltou Tempo (Roberto Batata, Geraldo e Dener).

Prefácio
A volta dos que não foram
Por Mauro Beting

O quase gol de Pelé, na Copa de 1970.
Futebol é fartura que sobra ao pé do sol e não falta a não ser quando é mão na bola. É fatura que vence amanhã e que não perde nunca. É fratura que parte perna e quebra amizade. É fritura de técnico no banco e de técnica no campo. É futuro do pretérito mais que perfeito na mais imperfeita criação do homem. O jogo que tem empate como a vida. O melhor que não ganha. O pior que vence.

Não falta nada ao futebol. Ainda que tudo pareça faltar quando Pelé dribla Mazurkiewicz e a bola não entra no maior não-gol da história, na Copa de 1970. Ainda que o mundo tenha acabado quando faltaram centímetros para Barbosa pegar aquela bola no Maracanazo de 1950. Ainda tantos exemplos de Copas que o Mundo viu faltar e ainda se fala.

Mas pouco se escreveu de muitos que falamos com saudade do que não se viu. Onde se escala a pena afiada de Clara Albuquerque para lembrar dos que faltaram em Copas. Por cinco canecos, eles não fizeram tanta falta para nós, pentacampeões planetários. Mas pergunte ao travesseiro ou ao espelho no vestiário de cada um dos aqui listados quanto eles não fariam para dar a volta olímpica que não puderam dar por vários motivos. Dos bairrismos aos bizarros. Das lesões às leseiras. Dos combates internacionais aos embates federais. Das escolhas pessoais às escalações impossíveis. Sempre tem justificativa razoável. Nem sempre, explicação lógica.

Como Canhoteiro, que se driblou até cair fora da seleção de 1958. Como Evaristo, que jogava fora do Brasil e não pôde ser campeão do mundo. Ou mesmo bi. Como Djalma Dias, que poderia ser tri, em 1970. Como o filho Djalminha, que deveria ser penta em 2002, não tivesse perdido a cabeça no técnico do time dele. 

Cabeças de treinadores que fecharam portas e pernas, cortaram nomes e números. Muitos dos que aqui estão nestas páginas por teimas de treinadores. Em tira-teimas e bota-teimas eternos.

– Ah...Se tivesse Copa antes de 1930 para Friedenreich fazer gol!
– Ah...Se não tivesse guerra para Oberdan evitar os gols!
– Ah...Se Tesourinha não se lesionasse. Se Heleno não se lesasse. Se Dirceu Lopes...Se Alex...

Arthur Friedenreich
Este é um livro que mostra que existe, sim, o “se” no futebol. Que vale especular o que seria diferente numa Copa com cada não chamado. Que vale sonhar se houvesse Mundial para cada prejudicado. Que vale imaginar como seria ainda melhor uma Copa com tanta gente esquecida.

Mas não por Clara Albuquerque. Aquela que foi jornalista e não fez faltar craques. Claro, sempre tem mais um que poderia estar na lista. Um e outro que poderiam não estar no livro. Mas essa discussão é a base de tudo. O que motiva o livro. E não encerra o papo. Até por uma questão clara. Se não é preciso ganhar uma Copa para ser um craque (e nem é craque por ter conquistado um Mundial), não é preciso ser selecionado para uma Copa para ter sido ídolo e/ou craque.

Contra fatos há argumentos no futebol. E muitos deles estão aqui. Os que não tiveram Copa. Mas ganharam um mundo de corações. Um brinde a eles.

Apresentação
Por Marcelo Sant’ana

Os Sem-Copa conta a vida de 22 extraordinários jogadores brasileiros que o mundo pouco conheceu. Ou até mesmo nunca ouviu falar. São craques que arrebataram os corações de torcedores pelo país desde a década de 1910 aos dias atuais, mas que nunca vestiram a camisa da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo.

Há histórias que saíram das páginas esportivas para as de escândalos dos jornais, que estão na letra do hino do clube, que dão nome a rua. Embora incontroláveis em campo, acabaram impotentes às conturbadas vaidades políticas, às escolhas dos técnicos ou aos dribles do destino.

As 22 impressionantes trajetórias são narradas por Clara Albuquerque em três fases: início, meio e fim da carreira. Um final relativo, claro. Há determinados jogadores, por tamanha grandeza, que sobrevivem de geração a geração, em relatos de pais para filhos, através do rádio, dos jornais, das revistas, dos cinemas, dos livros, das ruas. Mantem a cadeira cativa nos nossos corações.

A Copa – e o Mundo – mereciam ter experimentado a euforia de como estes jogadores construíram histórias de amor a pontapés. Felizmente, há homens que se tornam maiores que o tempo. Se nos clubes já se tornaram inesquecíveis, agora convocados por uma mulher formam uma seleção.

Capítulo 6 – Faltou explicação
Por Clara Albuquerque

Todo apaixonado por futebol tem preferências por uma escalação e algum esquema tático. Dos pedidos mais absurdos e inusitados aos coerentes e sensato, tem sempre alguém cornetando o técnico nas arquibancadas. Antes e durante os 90 minutos de uma partida, é quase impossível concordar com todas as escolhas que o técnico faz.

Numa convocação da Seleção Brasileira com no máximo 23 jogadores para a Copa do Mundo, não poderia ser diferente. A lista nunca é unânime, e é natural que seja assim. Em praticamente todo mundial, existe aquele nome que todos admitem que devia estar ali, menos o técnico.

Zizinho era o craque do ano em 1954 e ainda estava em ótima fase em 1958. Não foi chamado em nenhuma das duas Copas.

Em 1974, um jovem de 21 anos brilhava no Flamengo. Zagallo sequer testou o jogador. O nome dele era Zico.

As ausências de Falcão, em 1978, e do goleiro Leão, em 1982, também foram muito criticadas.

Em 2002, Luiz Felipe Scolari sofreu pela não convocação do atacante Romário.

Todos esses jogadores têm uma coisa em comum: participaram de outra Copa do Mundo. Fato que não elimina, mas ajuda a amenizar a injustiça. Outros craques, no entanto, ficaram sem resposta para a inexistência de um mundial em seus currículos não apenas em uma edição, mas em toda a carreira.

A ausência do zagueiro Djalma Dias em mais de uma Copa do Mundo nunca foi esquecida. Neto, ídolo do Corinthians que tem resposta para tudo, não consegue explicar por que não disputou o torneio quando estava no ague. O meia Alex também não tem uma justificativa convincente. Uma desculpa daqui, um esclarecimento de lá e, ainda assim, mesmo depois de tanto tempo, falta explicação para casos como os de Djalma Dias, Neto e Alex.

Sobre a autora:
Clara Albuquerque é formada em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Desde 2007, trabalha como jornalista esportiva, com passagens pelo jornal Correio (BA), onde manteve uma coluna aos domingos por quatro anos, pela TV Bahia, afiliada da Rede Globo e pelo SporTV, como comentarista de futebol. Atualmente, é apresentadora e comentarista da TV Esporte Interativo. É autora do livro A Linha da Bola – Tudo o que as mulheres precisam saber sobre futebol e os homens nunca souberam explicar (Editora Gryphus, 2007) e de Os Sem-Copa, editado pela Maquinária.

Nenhum comentário:

Postar um comentário